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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

NA FLORESTA (I)


Depois de muito caminharem, o professor Silvestre e seu auxiliar, Óscarparaobrasil, chegaram a um lugar onde viram uma casa, com uma bela varanda e cercada por hortas e árvores frutíferas. Estavam cansados e famintos. Já fazia mais de quatro horas que perambulavam na floresta amazônica, de clareira em clareira - provocadas pelo desmatamento e queimadas criminosas - e em cada uma dessas clareiras paravam alguns minutos para chorar. As lágrimas que restavam eram poucas e já estavam temerosos de gastarem todas quando chegaram àquele lugar que parecia encantado.
     Bateram à porta e ninguém atendeu. Bateram novamente e nada. Por fim, desistiram e sentaram-se nos degraus da varanda que era guardada somente por uma jibóia que não ligou para eles e continuou melancolicamente enrodilhada. Parecia triste e sozinha.
     Óscarparaobrasil afagou a jibóia e perguntou ao professor Silvestre se não seria o caso de colherem algumas daquelas frutas, mas o professor Silvestre o impediu com a sua célebre frase: “A sorte não abandona os destemidos” e puseram-se a esperar ao lado da jibóia, embora não soubessem quem estavam esperando.
     O sol já estava se pondo, junto com as esperanças dos dois, quando ouviram ruído de passos e, logo em seguida, alguma coisa parecida com um ser humano, mas indistinguível na forma, apareceu e perguntou: “Quem são vocês?”.
     “Um momento, Shu. Eu é que pergunto: Quem são vocês?”, falou uma moça que vinha logo atrás da estranha forma que parecia humana e transparente. Era loura, alta, olhos azuis translúcidos, vestindo botas e roupas de couro e carregando em uma das mãos uma espingarda de dois canos.
     Depois de recompor-se da surpresa, o professor Silvestre disse: “Perdoe-me, bela senhora, por estar invadindo os seus domínios. Eu sou o professor Silvestre e este é o meu auxiliar Óscarparaobrasil. Fazemos parte da expedição da ONG “Chorar Pela Amazônia” e nos perdemos dos outros quando estávamos cumprindo o nosso dever de chorar pela Amazônia em um dos muitos lugares devastados por queimadas. A fumaça era tanta que nos ajudou a chorar, e quando, finalmente, saímos do lugar com os olhos úmidos e purificados na alma não vimos mais ninguém. Caminhamos durante horas e chegamos a este lugar que parece um paraíso no meio do inferno – se me permite a imagem vulgar – e fomos recebidos apenas por esta jibóia que estava dormindo e agora parece muito interessada no meu auxiliar”.
     “Hermelinda, comporte-se e vá caçar ratos!”, disse a moça, fazendo com que Hermelinda – a única jibóia que ainda conserva acento no “ó”, por ser contra as novas regras ortográficas – deixasse o colo de Óscarparaobrasil. Espreguiçou-se e foi em direção à floresta. Enquanto isso, a porta da casa tinha sido aberta pelo ser que parecia humano e não tinha forma definida, e todos entraram.
     “Nada mais eu estranho nesta floresta, senhora”, disse o professor Silvestre. Nem mesmo...” – e apontou para a estranha figura que se confundia com móveis e paredes. “O nome dele é Shuniazzar”, disse a mulher, “um estranho animal mitológico que fala. E o meu nome, hoje, é Ingrid. Às vezes, é Gerda, ou Maria, ou Gertrude. Depende do dia. O povo da floresta me chama de Alemã na Floresta, o que é óbvio, porque eu sou alemã e moro na floresta. Eu não me importo que me chamem assim. Vim para cá quando era muito pequena. Havia uma grande guerra na Europa e a Alemanha estava sendo invadida pelos inimigos. Foi quando os meus pais decidiram me colocar em uma barquinha que atravessou o Mediterrâneo e o Atlântico e me trouxe para este país. Shuniazzar me encontrou quando eu estava transpondo a pororoca; me protegeu e me ensinou todas as coisas que um estranho animal mitológico que fala pode ensinar. Quando eu cresci, me ajudou a construir esta casa. E o senhor, é professor de que? Mas deixe para contar durante a janta. Shu, estamos com fome”.
     Imediatamente, o professor Silvestre e Óscarparaobrasil, sem que tivessem se mexido, perceberam que estavam em uma sala, iluminada por grandes velas colocadas em castiçais antigos, onde havia uma mesa, cadeiras, belos quadros nas paredes, e um piano ao fundo, ao lado de uma janela. Sobre a mesa, pratos e travessas contendo comida que parecia apetitosa. Ingrid, percebendo a surpresa deles, disse que aquele era mais um dos truques de Shuniazzar, que fossem se servindo e não fizessem cerimônia, porque via que estavam com muita fome. Em seguida, serviu o vinho, que apareceu subitamente sobre a mesa e, depois de alguns minutos, quando já se ouvia o piano tocar músicas que embelezavam a alma e abriam o apetite, repetiu a pergunta que fizera ao professor Silvestre: o que ele ensinava?
     Com o estômago agradecido e a voz embargada – talvez por ter chorado muito durante o dia – o professor começou a dizer “Pois dona Ingrid...”, quando foi interrompido pela dona da casa: “Ingrid não, agora é Gertrude, já passou da meia-noite”. “Pois dona Gertrude” – recomeçou o professor – “saiba que este país que me engana, ai de mim Copacabana, sobre a cabeça os aviões e sob meus pés os caminhões, como diz o poeta, não só engana a mim como a quase todos que nele moramos, porque madame diz que a vida não melhora, que a vida piora por causa do samba – como diz outro poeta -, mas não é por causa do samba, mas do desgoverno que nos aflige como um caminhão derrapando na estrada de Santos, como diria outro poeta, e nós, indignados brasileiros fundamos a ONG “Chorar Pela Amazônia”, que reúne intelectuais de todo o país, e eu – que sou professor de Anatomia da Natureza e Fisiologia Sistêmica dos Bens Renováveis – convidei os membros da nossa ONG para virmos até a Amazônia. Nem todos vieram, alguns preferiram ficar chorando em casa, mas o pequeno grupo que aqui está já faz três dias que chora desesperadamente cada vez que vemos uma parte da floresta desmatada ou incendiada. Hoje, eu e Óscarparaobrasil nos perdemos dos demais e caminhamos até encontrar a sua bela morada.”
     “Que interessante!” - disse Gertrude “E existem outras ONGS que se interessam pela Amazônia?”
     “Inumeráveis!” - respondeu o professor. “Algumas se destacam mais, como a ONG “Deitados Em Berço Esplêndido”, que faz um grande trabalho pela Internet, ou a ONG “Garota da Amazônia”, que recolhe assinaturas em Ipanema para protestar contra a desvirgindade da floresta; a ONG “Poetar É Preciso”, formada por poetas de todo o Brasil, que escrevem poemas contra a devastação da Amazônia e brevemente lançarão o seu primeiro livro, a ONG “O Último Suspiro”, cujos membros fazem reuniões para suspirar sentidamente pela Amazônia e pela Mata Atlântica, a ONG “Me Engana Que Eu Gosto”, que faz vigílias em frente ao Congresso Nacional para vaiar deputados e senadores... E tantas outras...
     “Que bonito!” – disse Gertrude. “E eu achando que só existia a ONG “Macunaímas Traídos”, formada pelo povo da floresta que vê cair as suas árvores e volta e meia grita: “Estamos sendo traídos!”, e depois voltam a dormir em suas redes, ou a ONG “Grandes E Poderosos Índios Valentes”, formada por índios aculturados que, quando sabem de algum novo desastre florestal fazem aquela dança onde sapateiam e gritam “hu-hu-hu-hu” e depois voltam para assistir televisão ou jogar vídeo-game, ou a ONG “Guerrilheiros Da Floresta”, formada por jovens intelectuais que distribuem panfletos para os madeireiros, enquanto eles cortam as árvores, e depois voltam para as suas casas para escrever novos panfletos. E tantas outras... Mas vejo que estava enganada.”
     “O nosso esforço conjunto um dia dará seus frutos, a sorte não abandona os destemidos” – disse o professor. “É verdade, professor”, respondeu Gertrude, mas já é hora de dormir. Amanhã eu vou caçar e vocês dois estão convidados”. “Agradeço, mas eu não mato animais”, disse o professor. “Nem eu”, respondeu Gertrude. É uma caçada diferente, o senhor vai ver”.
     Em seguida, a sala se transformou em um quarto espaçoso, onde se viam duas camas e um guarda-roupa. O professor Silvestre e Óscarparaobrasil já não se surpreendiam de nada. As suas mochilas estavam no chão, uma ao lado de cada cama. Trocaram de roupa e se deitaram. Quando Hermelinda, no meio da noite, entrou, sinuosa e lânguida, pela janela e foi enroscar-se sobre os pés de Óscarparaobrasil, por quem já tinha alguma afeição, ele perguntou: “Comeu o seu ratinho, Hermelinda?”

     A noite passou como costumam passar as noites: dormitando em sua escuridão, até o momento em que foi definitivamente acordada pelo Sol, que pedia para brilhar, e recolheu-se, resmungona, para o outro lado do globo. Óscarparaobrasil acordou com as amorosas lambidas de Hermelinda e disse para ela que estava na hora de caçar ratos. Hermelinda quase respondeu que nem só de ratos vive uma jibóia, mas conteve-se, educadamente, e saiu pela janela, preguiçosamente.
     O professor Silvestre estava acordado desde o momento em que os róseos dedos da aurora tinham entrado pela janela e tocado na sua testa. Óscarparaobrasil voltou-se para ele e disse “Bom dia, professor” – ao que o professor retrucou, impiedosamente: “Se você não usasse esse cabelo moicano e não passasse tantas horas assistindo futebol talvez percebesse que este dia só é bom na aparência. Quantas árvores estão sendo derrubadas neste exato momento!, e só resta a nós, as forças desarmadas – porque as armadas devem estar dormindo nos quartéis ou invadindo favelas -, só nos resta chorar. Choremos, pois”.
     Choraram pela Amazônia e pelas maldades dos humanos que destroem o mundo e, em seguida, sentiram urgente necessidade de ir ao banheiro. Naquele momento surgiram dois banheiros, que os atraíram como os olhos da Iara e onde entraram empurrados por uma força interior irresistível. Depois, banhados e com as roupas trocadas, quando pensavam em sair do quarto viram-se na mesma sala onde tinham jantado na noite anterior. Sobre a mesa, bules fumegantes de café e leite, queijos, geléias, pães os mais diversos, patê, manteiga e tudo o que deve conter um legítimo café colonial. “Desculpem pela ausência de margarina”, disse Gertrude, que já tomava o seu café. “Eu não uso gordura trans. Passaram bem a noite?”
     O professor Silvestre disse que tinha dormido como uma criança e Óscarparaobrasil quase se queixou de Hermelinda, mas preferiu perguntar como era que Shuniazzar adivinhava até pensamentos.
     “Shuniazzar é muito prático”, disse Gertrude, “ele não adivinha, se antecipa; deixa tudo programado com antecedência através de formas de pensamento que são acionadas e se transformam em realidade quando nelas pensamos. Só não pode interferir na vontade das pessoas; caso contrário, a floresta não estaria sendo devastada. Ele é apenas um ser mitológico que fala”.
     “Muito curioso”, disse o professor, “mas de qual mitologia?”
     “Ele nunca me disse nem eu perguntei”, respondeu Gertrude. “Mas penso que de todas ou um pouco de cada uma. Shu não gosta de discriminação. Mas por que Óscarparaobrasil tem esse nome tão expressivo?”
     “É que meus pais”, respondeu Óscarparaobrasil, “sempre assistiram todos os filmes norte-americanos e desejam muito que um dia o Brasil seja premiado com um Oscar, o que seria um enorme salto qualitativo para a nossa cultura, segundo eles, e, quando eu nasci me deram o nome de Óscarparaobrasil, assim mesmo, com acento, mas eu sempre quis trocar de nome. Gostaria tanto de ser João, ou José, ou até Mário, apesar daquela piada... Só não troco para respeitar a vontade deles, e uso o meu cabelo estilo moicano porque rima com norte-americano. Mas o professor me ensinou que todos os moicanos foram mortos pelos brancos daquele país e agora eu uso o cabelo assim em forma de protesto silencioso”.
     “Ah, sei... E você respeita muito os seus pais?”
     “Muito.”
     “E o seu Governo?”
     “Muito.”
     “Então, o que você faz aqui na floresta, Óscarparaobrasil?”
     “Eu também respeito muito o professor.”
     “Você tem alguma perturbação?”
     “Não. Eu sou perfeitamente correto. Vou cursar advocacia, casar com uma moça certinha, que não pense muito, como eu, ter dois filhos, entrar para a Maçonaria e para o Rotary e viver feliz. Eu só me perturbo quando durmo com uma jibóia nos pés ou quando encontro um estranho ser mitológico que fala. Mas logo aceito qualquer situação como normal, seguindo o conselho do meu pai que sempre me disse, como regra de vida, que devo respeitar a todos e aceitar tudo.”
     “Bem, senhores – disse Gertrude – está na hora da caçada.” Levantou-se e pegou a sua arma de dois canos, colocou um cinturão com cartuchos preso na cintura e disse: “Vamos?” Saíram os quatro e, depois de alguns passos, já estavam em plena floresta. Caminharam cerca de uma hora em silêncio até que Gertrude mandou parar. “Estão ouvindo?” – perguntou. O professor esforçou-se por ouvir qualquer coisa diferente dos ruídos esquivos da floresta, sem nenhum resultado, e foi Óscarparaobrasil quem disse: “Parece uma banda de rock!” À medida que caminhavam o ruído se tornava mais claro: “rrrrrrrrróqpóqrrrrróqpóqrrrrrrrrrrr”.
     “O que será isso?”, perguntou o professor Silvestre, “Algum outro animal mitológico, que não fala e só ruge?” “É o ruído do desmatamento, professor”, respondeu Gertrude, e em seguida disse para Shuniazzar, que estava em algum lugar ali por perto: “Shu, precisamos ficar invisíveis”. Imediatamente uma estranha neblina verde os envolveu. Aproximaram-se ainda mais e viram vários homens portando motosserras e cortando gigantescas árvores. Dois ou três caminhões estavam estacionados mais adiante para carregar a madeira. Outros homens cortavam as árvores que já tinham sido derrubadas.
     Gertrude pegou a sua arma e a carregou com dois cartuchos. Imediatamente, o professor Silvestre, horrorizado, disse: “Por favor, senhora, não os mate!” Ao que Gertrude respondeu dizendo ao professor que ele e seu auxiliar poderiam aproveitar para chorar um pouco, enquanto ela fazia algo mais prático. “E não se assuste tanto, professor, eu não vou matar ninguém”. Colocou a arma no ombro, apontou, no momento em que o professor começava a chorar, junto com Óscarparaobrasil, e deu o primeiro tiro. Ouviu-se um grito e um dos homens que estava mais perto começou a correr para todos os lados e a gritar esganiçadamente.
     Gertrude continuou a atirar. A cada tiro, gritos e correria. Até que os homens entraram nos caminhões como puderam e deram a partida. Gertrude dava grandes gargalhadas. O professor aproximou-se e perguntou: “O que a senhora fez?”
     “Chumbinho nas nádegas, professor. Só que hoje eu misturei com sal e pimenta moída. Pode apostar que esses não voltam mais. Devem estar pensando que é algum espírito protetor da floresta. Viu? Não matei ninguém. Eles sequer ouviram o barulho dos tiros, Shu não deixou.”
     Enquanto voltavam, o professor Silvestre fez um longo discurso sobre a não-violência, que os protestos deveriam sempre ser pacíficos, lembrou Gandhi e outros pacifistas, disse que cabia ao Governo tomar qualquer atitude mais enérgica, chegou a lembrar a nova Lei da Palmada...
     Finalmente, Gertrude respondeu: “E o Governo faz o que, professor? Estatísticas, enquanto a floresta está sendo derrubada? É preciso ser muito mulher para viver na floresta. Eu não sou a única. Enquanto os homens bebem, se queixam, fazem abaixo-assinados, choram, gemem, batem o pé e gritam hu-hu-hu-hu, as mulheres agem. Chumbinho nas nádegas, ou nos glúteos, se o senhor preferir, pode resolver muitos problemas, além de proteger a natureza. Isto sim é que é legítima defesa do outro, professor!”.
     Óscarparaobrasil ouvia a conversa e fazia o possível para não pensar.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

PRISMAS E APARÊNCIAS


Com florzinhas nas lapelas, os senadores saíram da sua casa oficial. Foram recebidos por centenas de estranhas pessoas que não paravam de se beijar. Havia homens que pareciam mulheres e mulheres que pareciam homens. Todos pareciam ser alguma coisa que não eram, mas que desejariam ser. Pareciam manequins. E não paravam de se beijar. Os lábios já estavam roxos, mas não de frio.

     Os senadores e senadoras foram cercados e ovacionados com gritos histéricos dos homens que pareciam mulheres e com urros atordoantes das mulheres que pareciam homens. Os lábios dos seres, aos poucos, voltaram às cores normais, mas somente o tempo suficiente para gritarem histericamente e urrarem grotescamente quando da saída dos senadores.     Do outro lado da calçada, mas cercados por um cordão de isolamento e por policiais que pareciam ser policiais – alguns pareciam homens de verdade, outros pareciam mulheres de verdade – centenas de pessoas que pareciam pessoas de verdade e não manequins, gritavam com vozes que pareciam vozes humanas, palavras de ordem que variavam entre “Vendidos!” e “Vendidas!”. Porque os senadores eram, supostamente, dos dois primeiros sexos que formaram a raça humana.

     Supostamente. Ouvia-se buzinaços nas ruas, mas ninguém sabia se eram de vaia ou de ovação. Tudo se confundia, conforme o planejado. Súbito, alguns senadores dos que pareciam homens foram cercados pelos homens que pareciam mulheres e algumas das senadoras que pareciam mulheres foram cercadas pelas mulheres que pareciam homens e, apesar dos seus protestos iniciais, também foram beijados e beijadas, ou beijadas e beijados, fogosamente. Beijos que correspondiam a votos e, aos poucos, os escolhidos deixaram-se beijar e abraçar e acariciar e...

     Do outro lado, na outra calçada, supostos homens policiais e supostas mulheres policiais começavam a preparar as bombas de gás lacrimogêneo e as balas de borracha contra a multidão que ameaçava avançar. Os buzinaços aumentavam. Parecia até que o Brasil inteiro acordava, embora houvesse futebol em todos os estádios. A multidão revezava-se entre rezas em altos brados e gritos de fúria. Os senadores que não tinham sido seqüestrados aos beijos pelos estranhos e alegres seres humanos que pareciam, fingiam que nada estava acontecendo, com aquelas caras de sonsos que os caracterizam e tentavam sair rapidamente de entre os seus acariciadores eleitores. Seus seguranças, que supostamente era homens, chamavam helicópteros para resgatá-los - mesmo os(as) que estavam nus ou nuas e assediados ou assediadas de todos os lados por beijos e sexos e coisas e tais.

     Supostos homens e supostas mulheres jornalistas tudo filmavam e reportavam à sua maneira ou conforme o roteiro especificado ou de acordo com as suas preferências sexuais, mas sempre havia um(uma) âncora que repetia para não esquecerem o politicamente correto. E tudo era filmado, exceto as cenas burlescas de repto e de rapto e os senadores eram descritos como heróis que a pátria aclama e ama por terem aprovado uma lei que protegia e aspergia uma classe especial de pessoas sensuais, sensoriais, sensíveis e sensitivas, que agora estavam acima dos demais seres que não eram tão sensuais ou tão sensíveis assim, ou o eram à sua maneira que, de agora em diante, deveria ser considerada errada.

     A multidão do outro lado da rua urrava. Os seres que pareciam gargalhavam, ou pareciam gargalhar. Súbito, o cordão de isolamento foi rompido. Pedras, balas e bombas foram jogadas, de ambos os lados – e ambos os lados não eram ambos, porque existiam diversos lados – e já se trocavam os primeiros socos e empurrões e palavras não escritas na Bíblia eram proferidas aos gritos e raivosamente e mulheres que pareciam homens, fortes e destemidas, formaram a linha de frente dos Mais Sensíveis. Junto a elas ou eles, homens vestidos de mulheres, mas sensivelmente musculosos, começaram a esbordoar os que brandiam bíblias – em legítima defesa ou em fero ataque – e repeliram a agressão dos que estavam na frente da multidão urrante e foram ouvidos gritos de “Cuidado com a Gaystapo!” e muitos foram feridos e posteriormente presos pelos policiais que pareciam realmente ser policiais, embora surgissem dúvidas, e a voz de prisão para todos e cada um dos que formavam a multidão que era Contra Os Mais Sensíveis era dada por dez seres que pareciam seres alados, vestidos com coloridas togas que pareciam asas e muito foi o gemer e o chorar.

     O Brasil estremecia sexualmente. Orgasmos múltiplos aconteciam a todo instante nos mais diversos recantos deste país continente. Mesmo os que estavam nos estádios e torciam pelos seus coloridos times de futebol, ao saberem da notícia dividiram-se e começaram a brigar enquanto os jogadores faziam a dança do trenzinho. Templos eram fechados por ordem dos cumpridores da Nova Lei da Sensibilidade e os fiéis recolhiam-se aos esgotos e cloacas públicas, que acreditavam catacumbas. Os que não conseguiam se esconder a tempo eram obrigados a prestar o Juramento Sensível e a provar a sua sensibilidade no ato.

     Coloridos do Brasil inteiro se uniam em passeatas magníficas, ao lado dos deputados que por eles tudo faziam e dos senadores que tentavam esconder a sua senilidade com gestos sensíveis. O Exército estava nas ruas para prevenir novos ataques dos que eram Contra os Mais Sensíveis. A Esquadrilha da Fumaça fazia revoluteios no ar. Navios coloridos da Marinha ostentavam bandeirolas e lançavam vistosos fogos de artifício que podiam ser vistos nas alegres praias do país. A Nova Lei da Sensibilidade era pregada em majestosos Templos Sensoriais para multidões embevecidas com a sua nova liberdade dos cinco sentidos.

     Faziam-se festas e um Carnaval fora de época era anunciado. Tudo parecia muito alegre. Tudo se confundia, conforme o planejado. E a confusão tornava todos confusamente felizes.

     Depois de algum tempo – talvez meses, talvez anos – quando os fulgores da alegria geral já não eram tão fulgurantes e a alegria geral não parecia geral, e quando os assustados moradores dos esgotos que apelidaram de catacumbas, animaram-se a sair, aos poucos, e não foram agredidos imediatamente, mas apenas olhados com alguma animosidade, formaram-se, em nome da Democracia das Cores, pequenos grupos de obsoletos heteros, que somente foram aceitos porque podiam proliferar e o Estado necessitava de novos atores e novos soldados. E desses grupos surgiu um movimento que foi denominado Movimento da Proliferação, ao qual foi dado o direito de manifestar-se publicamente e, inclusive, fazer passeatas que reivindicavam direitos iguais aos Coloridos. 

     Os políticos, que continuavam políticos, apesar de Coloridos e dividindo-se no Congresso apenas pelas diversas cores e matizes, perceberam que surgia uma nova força social que proliferaria e traria votos. Logo, os Prolíficos começaram a queixar-se de agressões e até assassinatos, de perseguições pelos Coloridos Ortodoxos e os políticos, aos poucos, foram acolhendo as suas reivindicações.

     Chegou o dia em que uma nova lei seria votada no Senado, depois de ter sido aprovada pela Câmara, que daria aos Prolíficos os mesmos direitos que os Coloridos, e até alguns a mais. Uma lei que defenderia os Prolíficos do que eles chamavam de crescente heterofobia no país. Os Coloridos Ortodoxos reagiram e manifestaram-se contra aquela nova lei.

     No dia da votação, os Coloridos Ortodoxos colocaram-se na calçada oposta à do Senado, enquanto os senadores votavam. Mal perceberam quando foram cercados por um cordão de isolamento e por policiais que pareciam Prolíficos de farda, que começavam a preparar as bombas de gás lacrimogêneo e as balas de borracha. Ouvia-se buzinaços nas ruas.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

O PREFEITO E AS ÁGUAS PÚBLICAS


O prefeito estava à janela da Prefeitura, observando a mais nova obra da sua gestão – a praça central. Com a mão direita nos cabelos louros e cacheados, procurava lembrar como era aquela praça antes de ele assumir o governo municipal. Uma praça que datava de quase 100 anos, sempre tivera bancos grandes de cimento e muitas árvores, as mais diversas. Ele conseguira fazer uma reforma estrutural, como dizia o engenheiro seu amigo, encarregado da dita reforma. Mas ele, pessoalmente, preferia a palavra “revitalização”. Tinha ido a Brasília e conseguido convencer o Governo de que a revitalização da praça era essencial. Afinal, o Ministério das Cidades tinha verbas para isso, e ele recebera mais de 1 milhão de reais. Dinheiro garantido, mas depois surgiram as dúvidas: o que fazer para revitalizar a praça?

     Aos poucos, surgiram as soluções: tirar os bancos de cimento e colocar bancos de madeira; alguns novos postes de luz, canteirinhos mais bonitos, tirar algumas árvores, colocar outras; cria-se um espaço aqui, outro acolá e pronto!... Tinha conseguido gastar a verba. É claro que não tinha gastado exatamente toda a verba. Sempre sobra alguma coisa. Mas ninguém poderia contestar: estava tudo especificado, tintim por tintim, no site da Prefeitura. E, qualquer coisa, a Prefeitura estava bem provida de contadores e advogados.

     Estava envolvido por esses pensamentos, quando entrou o seu secretário, dizendo:

     - Senhor prefeito, temos um problema!

     - Um momento, companheiro secretário! Nunca me chame de senhor prefeito, mas de companheiro prefeito, principalmente na frente das outras pessoas.

     - Mas estamos sozinhos, senh... er... companheiro prefeito.

     - Mesmo sozinhos, vá treinando. E não me fale em problemas: é claro que sempre temos problemas.

     - Mas este problema, companheiro prefeito, é de natureza diferente. Um cidadão reclamando que cortaram a água da casa dele.

     - Se cortaram é porque ele não pagou, companheiro secretário. Não lhe parece óbvio?

     - Muito óbvio, companheiro prefeito, e este é o caso. O cidadão não pagou e lhe cortaram a água. Mas é bem pior que isso: ele não pagou e não quer pagar porque diz que a cobrança é injusta e está apelando para o companheiro prefeito para que lhe restituam a água.

     - Mas em nome de quê, pardieu? Como está o meu francês?

     - Está quase perfeito, companheiro prefeito, mas ainda falta alguma coisinha.

     - Eu estou me esforçando, companheiro secretário. Você sabe, em terra de quem fala português e inglês, quem fala francês é rei...

     - Prefeito, companheiro prefeito.

     - Pois é, companheiro secretário... mas eu almejo maiores alturas, companheiro. E este companheiro cidadão, ou deverei dizer citoyen? Mesmo não pagando, ele quer água? Logo agora que estamos entrando em uma crise mundial pela água... Talvez até sejamos invadidos pelos Estados Unidos definitivamente. Eles querem a Amazônia, e não só a Amazônia... Que gente gananciosa! Comem aquela comida artificial deles e depois querem a nossa água... Sedentos, muito sedentos... E o companheiro sedento?

     - Esse companheiro sedento, companheiro prefeito, protocolou um ofício para o senhor. Está aqui.

     - Humm... Deixe ver... A água é um bem essencial à vida... É verdade... Saúde... Sim... Mas ele está louco, companheiro secretário!

     - Concordo, companheiro prefeito. Como o senhor quiser: ele está louco.

     - E sabe porque ele está louco?

     - Está louco porque está louco, companheiro prefeito?

     - É claro, mas além disso... Muito além das estrelas... Você acha, companheiro secretário, que iremos, algum dia, muito além das estrelas? Que o ser humano, mesmo com tantas bombas atômicas, não destruirá o seu habitat, a Terra? Que as geleiras derreterão e que teremos uma terrível inversão climática? Você acredita que Osama está morto, que Obama é um bom moço e que quem manda na Casa Branca é realmente a Hillary Clinton? Isso não é hilário, a Hillary querer invadir o Paraguai para pegar aquele imenso lençol freático e ser atacada pelos índios tupiniquins?

     - Perdão, companheiro prefeito, no Paraguai são os índios guaranis.

     - Tupiniquins, guaranis, caiapós, xavantes... Não é tudo a mesma coisa, não são todos índios?

     - Existem singularidades, companheiro prefeito...

     - Particularidades seria mais adequado, companheiro secretário. E esta, agora! Um cidadão, um citoyen, querer água sem pagar as taxas! Mas não é um abuso, companheiro secretário? Cortem-lhe a cabeça!

     - Absoluto abuso, companheiro prefeito. Mas cortar a cabeça... O companheiro não acha...

     - Eu sempre acho, companheiro secretário, mesmo sem procurar. E quando eu disse “cortem-lhe a cabeça” foi apenas uma citação: “Alice no País das Maravilhas”. Além disso, completo abuso fica mais correto, companheiro secretário. Completo abuso e não absoluto abuso. Completo abuso seria a invasão da América do Sul pelos soldados dos Estados Unidos para roubar água. Cada um deles com a sua canequinha na mão. Melhor: com o seu cantil e com tonéis vazios. E mais: empresas que antes eram petrolíferas e serão aqüíferas dando golpes de estado, substituindo presidentes, massacrando o povo nas ruas... E eu que queria tanto que o chafariz da praça funcionasse...

     - Mas é simples, companheiro prefeito, mande consertar o chafariz.

     - E ver aquele cidadão desesperado, com toda a sua família bebendo as águas públicas? E dando entrevistas sobre a insensibilidade do prefeito? Non, non, non, non, non e non!

     - Non?

     - Não, apedeuta companheiro secretário. Mil vezes não!

     - Então o chafariz não irá funcionar?

     - Com certeza que sim! As águas vão rolar e a fonte vai cantar. Você acha, companheiro secretário, que a música sertaneja de antigamente era superior a esta coisa de hoje que só fala em meu amor e você pra lá e você pra cá e calcinha preta... Todas essas vulgaridades?

     - Com certeza que sim, companheiro prefeito.

     - Com certeza que sim... Com certeza que sim... Há algo errado nessa sua frase, companheiro secretário. Não exatamente errado, mas redundante, desnecessário... Desnecessário dizer que a solicitação do companheiro cidadão deverá ser atendida, não acha, companheiro secretário?

     - Sem que ele pague as taxas de água, companheiro prefeito?

     - Ele pagará... Ele pagará... Através de um processo judicial, é claro. Por enquanto, peça ao companheiro secretário da autarquia para religar a água desse bom cidadão. Não queremos que a sua família passe necessidades, não é companheiro secretário?

     - A minha família ou a dele, companheiro prefeito?

     - A dele, companheiro secretário, você entendeu bem e não me venha com gracinhas. Um companheiro cidadão com problemas telúricos não deve ser abandonado. Porque a água brota da terra, do latim tellus, telúrico, e todos tem direito aos seus cinco minutos de fama, ou serão quinze? O sol nasceu para todos, assim como a água não existe apenas para os peixes e caranguejos e siris. Você já comeu uma casquinha de siri? É claro. Tão claro quanto a luz elétrica... Quem diria... Um pára-raios... E Benjamin Franklin não terá levado um choque? E depois Edison e a lâmpada maravilhosa... Enfim, não queremos que um cidadão passe dificuldades, não é companheiro secretário?

     - Claro, companheiro prefeito.

     - Muito bem... Muito bem... A nossa função é social. Estamos aqui para solucionar problemas, dirimir contendas, amar a todos, vencer os gigantes, defender as donzelas...

     - Como disse, companheiro prefeito?

     - Você não leu o “Dom Quixote de la Mancha”, companheiro secretário?

     - Ainda não, companheiro prefeito.

     - Então não leia. Traga-me a agenda. Sei... Outra reunião com os fazendeiros... Quero dizer, com a Comissão para a Prosperidade do Município. Belo e pomposo nome. Para quem irá essa prosperidade do município - hein, companheiro secretário? Para os industriais que não tem indústria – nos dois sentidos, companheiro secretário – no máximo uma fabriqueta aqui, outra ali. Para os comerciantes que vendem produtos do Paraguai e querem que eu expulse os camelôs? O que me diz, companheiro secretário? Ou para os fazendeiros, que agora querem plantar eucaliptos para vender madeira para as fábricas de celulose e para isso desejam uma lei de incentivo à pecuária, que de pecuária não tem nada, porque estão todos se mudando para o Mato grosso do Sul, com bois e tudo? E lá vou eu dizer que sim, que plantem eucaliptos que eu encaminho a lei para a Câmara, que façam o que bem entenderem, porque sem eles eu não sou nada... Ah!, hoje não é o meu dia nem será a minha noite, porque terei que sorrir para todos, elogiar os empreendedores que no fim do ano receberão o troféu dos caras de pau. Mon dieu! Mon dieu!

     - Como disse, companheiro prefeito?

     - Eu não disse nada, companheiro secretário, e se você ouviu alguma coisa, esqueça. Esquecer é o melhor remédio na política. Sorrir, também. Sorrir, esquecer; sorrir, esquecer... De vez em quando, em época de eleições, fazer discursos, dizer ao povo que todo o poder emana deles – mas somente emana, não é companheiro secretário? E depois sorrir, esquecer e concordar com os mais poderosos pela simples razão de que são mais poderosos e a política é um jogo de poder que não emana do povo... Sorrir, esquecer, concordar... Tudo é vaidade neste mundo, tudo é vaidade...

     - É verdade, companheiro prefeito.

     - O que é a verdade, companheiro secretário? Quod est veritas?

     - Perdão, companheiro prefeito, não entendi...

     - Perfeito, companheiro secretário, não é para entender. Agora pode ir e me avise quando for hora do cafezinho. Antes que as geleiras degelem, antes que seja necessário usar barcos e não carros, antes que o Obama invada esta cidade atrás de outro Osama ou da água do chafariz, que será tão belo! Antes que o mundo acabe em 2012, não é companheiro secretário? Companheiro secretário! Você já saiu? Que coisa... Um fim de mundo com data marcada... Não tem a menor graça... E pessoas que não tem água! Como este mundo é cruel! Mon dieu! Mon dieu! E eu que queria tanto ser franciscano... E eu que já tive ideologia... “Ó que saudades que eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida...”

     - Hora do cafezinho, companheiro prefeito! O companheiro dizia...?

     - Nada. Estava apenas treinando o meu português. Você conhece Casimiro de Abreu?

     - Já ouvi falar, companheiro prefeito. Não é aquele companheiro que mora ali na...

     - Deixe pra lá, meu simplório secretário. Vamos ao cafezinho! Allons!

domingo, 10 de abril de 2011

ENTREVISTA DEPOIS DO JOGO


Repórter – Estamos aqui com o goleador da partida. Prezado Futebolista, o que achou da vitória do seu time?

     P.F. – Foi um jogo fraco, com muitas faltas, e a nossa vitória foi injusta, porque houve um pênalti não marcado para eles, que eu mesmo fiz dentro da pequena área e um gol que eles fizeram e o árbitro marcou impedimento.

     Repórter – Mas, apesar de tudo, uma vitória sempre é uma vitória, não é? Soma mais três pontos...

     P. F. – É. Como você mesmo disse, embora seja uma redundância, uma vitória é sempre uma vitória, futebol é uma caixinha de surpresas, seleção é a pátria de chuteiras e todos aqueles clichês já conhecidos. Obviamente, uma vitória soma mais três pontos; se fosse um empate seria apenas um ponto e, no caso de derrota, nenhum ponto seria somado.

     Repórter – Você deve estar feliz com esta vitória importante...

     P. F. – Feliz de verdade, não, mas eu tenho que aparentar felicidade, você sabe... Por isso, depois que fiz aquele gol, beijei a camiseta do time, fiz um coração com as duas mãos para a torcida, dei uma cambalhota e dancei a dancinha do porco com os meus companheiros. Mas você sabe que isso tudo é coreografia ensaiada no vestiário, porque a torcida é que paga os nossos salários e devemos alegrá-la, fingindo felicidade.

     Repórter - Mas porque você não está feliz?

     P. F. – É que a nossa vitória determinou o rebaixamento para o time deles, o que é uma tristeza. Eles jogam um campeonato inteiro para depois serem rebaixados por culpa nossa... E faltando ainda algumas partidas.

     Repórter – Mas você fez o gol decisivo, naquele entrevero dentro da pequena área...

     P. F. – Para falar a verdade, a minha intenção era tirar a bola para evitar o gol. Mas, infelizmente, dei de rosca e a bola entrou. Além do que, eu estava impedido e o árbitro não deu, nem o bandeirinha acenou, o que me faz pensar que este campeonato está com as cartas marcadas. Não é a primeira partida que a arbitragem nos favorece com erros tão escandalosos.

     Repórter – E a que você atribui esse favorecimento das arbitragens?

     P. F. – Ora, o nosso clube é muito rico... E mesmo que as arbitragens não sejam compradas – o que eu duvido – sempre são induzidas a favorecer o time do clube mais poderoso. Isso é uma tradição no futebol. Imagina a cara do árbitro depois de uma partida em que ele for o responsável pela derrota do time mais rico frente a um time pobre! Coitado! Nunca mais conseguiria crédito em lugar nenhum; talvez nunca mais apitasse. Os árbitros não tem culpa por agirem assim: faz parte do jogo.

     Repórter – Você quer dizer...!

     P. F. – Eu quero dizer que desta vez o roubo foi escandaloso, porque nós tínhamos que ganhar para garantir a liderança do campeonato, e a nossa torcida é muito grande e o clube é muito influente, e até vocês, da imprensa fazem a cabeça do torcedor dizendo repetidamente que nós devemos ganhar, porque somos melhores, etc. Mas de outras vezes...

     Repórter – De outras vezes vocês ganharam porque jogaram bem melhor, não foi?

     P. F. – Algumas vezes nós jogamos melhor e ganhamos. Mas daqueles times mais fracos. Geralmente...

     Repórter – Geralmente?

     P. F. – Geralmente a arbitragem é muito amiga nossa. Talvez vocês lá em cima não percebam, mas há toda uma estratégia de arbitragem quando quer favorecer um lado.

     Repórter – E como é essa estratégia, Prezado Futebolista?

     P. F. – Começa com o árbitro intimidando os adversários, mandando eles jogarem a bolinha deles e ficarem quietos... Eles não podem nem trocar uma idéia que o árbitro marca falta técnica. Depois, começa a não dar as nossas faltas. Podemos atropelar um jogador deles ou dar uma cotovelada que o árbitro manda seguir, dizendo que é jogo de corpo. Depois, quando ainda não fizemos o primeiro gol, dá falta a nosso favor mesmo quando é só jogo de corpo. E quando vai chegando o final da partida e, por milagre, ainda está empatada, basta cair na área deles que o árbitro marca pênalti. E se o goleiro deles defender, manda repetir, dizendo que ele se mexeu. E os cartões amarelos. É a tática mais conhecida: eles dão cartão amarelo no primeiro tempo, para os jogadores adversários, para poderem expulsá-los no segundo tempo e facilitar a nossa vida.

     Repórter – Mas será que você não está exagerando? Isso acontecia em tempos passados. Hoje em dia, os árbitros são muito bem pagos.

     P. F. – Bem pagos eu sei que eles são! Quanto a exagerar, eu não disse nem a metade...

     Repórter – Mas, mudando de assunto, finalmente você conseguiu renovar o seu contrato! E por um salário espetacular! Três milhões de reais!

     P. F. – Não é um absurdo? Num país em que o salário mínimo é 535 reais eu ganho três milhões por mês! E pra não fazer praticamente nada. Só jogar o meu futebolzinho, que vocês dizem que é espetacular, mas só eu sei o quanto é limitado... Ter um bom preparo físico, dar uns dribles nas partidas, fazer uns golzinhos mixurucas...

     Repórter – E você acha que é pouco? Você dá dribles que nem o Pelé; faz gols geniais!

     P. F. – Por favor, não ofende o Pelé. Eu vi vários vídeos dele e ele sim é que era genial. Sem contar que ele jogava contra zagueiros de verdade.

     Repórter – Como assim?

     P. F. – É muito fácil jogar contra os zagueiros de hoje em dia. A grande maioria é só força física e correria. Você conhece algum bom zagueiro que ganhe um ótimo salário? É muito raro. E depois, fazer gols, por favor!, é a coisa mais simples. Na frente de uma goleira enorme daquelas, quem erra gol tem que ser muito ruim. E olha que tem muito jogador que só sabe errar chute!

     Repórter – Mas você não está contente com o seu salário?

     P. F. – E você conhece as cláusulas do meu contrato? Eu não tenho nem a opção de parar de jogar ou terei de pagar uma multa astronômica. E dos três milhões, uma parte vai pro meu empresário, outra vai para não sei qual fundação e eu ainda fico com dinheiro demais. Não é justo eu ganhar tanto só para jogar futebol quando tem tanta gente passando fome e esmolando nas ruas... Você sabe quanto ganha um professor no Brasil de hoje? Mas fui obrigado a aceitar o contrato, porque o patrocinador insistia e o clube pode deduzir grande parte e todos saem ganhando, menos eu, que perco a minha liberdade.

     Repórter – Mas, ganhando tanto você ainda fala em liberdade?

     P. F. – A liberdade é essencial para o ser humano. Para todos nós. É claro que liberdade sem dinheiro nada adianta em nosso mundo. É uma pena que seja assim. Mas eu queria tanto completar a minha educação, fazer um curso superior, me dedicar a alguma coisa que também mexesse com o cérebro e não só com o corpo.

     Repórter – Mas isso é inédito! Você, um jogador idolatrado pelo Brasil inteiro, pensar em largar o futebol e fazer um curso superior! Você tem certeza de que não está cansado demais devido à partida exaustiva e, por isso, está falando dessa maneira, Prezado Futebolista?

     P. F. – Cansado eu até estou um pouco, mas só um pouco, porque eu só corri o suficiente até fazer aquele gol de impedimento e depois me poupei. Hoje à noite tem festa...

     Repórter – Deverá ser uma festa linda com a família, os amigos, no recesso do seu lar...

     P. F. Na verdade, não. Como eu ainda não sou casado, vou para um baile funk, beber umas.

     Repórter – Você quer dizer beber uns refrigerantes, porque você é um atleta e não pode beber álcool.

     P. F. – Não, beber umas mesmo. E talvez fumar um baseado, cheirar uma coca, o que vier...

     Repórter – Você deve estar brincando!...

     P. F. – Não. Sério. Até vamos em grupo, com nossos seguranças e empresários, que vão conseguir pra nós umas minas. Já está tudo combinado.

     Repórter – Você quer dizer que vai haver um churrasco para todo o time, não é?

     P. F. No morro. O churrasco vem depois. Ou durante. Conhecemos alguns amigos trafi...

     Repórter – Obrigado, Prezado Futebolista, o nosso tempo está acabando. Felicitações pela vitória.

     P. F. – Espere aí! Eu queria lhe convidar para a festa. Se você não gosta de pó, pode ficar apenas na cerveja, não tem importância. E se não gosta de mulher, eu lhe consigo... Espere aí!

quinta-feira, 31 de março de 2011

O DIA DOS BOBOS NA VERSÃO DOS LOBOS



É uma mentira que o dia 1º de abril é o Dia da Mentira ou Dia dos Bobos. É esta a intenção dos Lobos - que os Bons acreditem que somente durante um dia são bobos, e que ser bobos significa dizer mentiras durante um dia no ano. Mentiras agradáveis, mentiras saudáveis, mentiras digestivas – e as mentiras digestivas são as preferidas pelos Lobos.

     Os Lobos, como todos sabem, são maus. Estão sempre com as garras e os dentes afiados, prontos para agarrar e morder o que aparecer. Quanto aos Bons, são bobos, porque acreditam em tudo que os Lobos dizem e acreditam, principalmente, que os Lobos um dia ficarão bons, que a maldade deles é passageira e que poderão ser convertidos – mesmo que com algum esforço e sacrifício – à bondade de bobos, algum dia.

     No entanto, apesar de todos os esforços, os Lobos continuam Lobos, ordinariamente Lobos, esfomeadamente Lobos. Nunca perdem o apetite de Lobos, com aquelas garras de Lobos e aquela carranca de Lobos, que muito assusta.

     É tanto o medo que os Bons tem dos Lobos, que se negam a deixar crescer as garras e a afiar os dentes e a enfrentá-los, porque são bons.

     E a lenda a respeito dos Bons – e por isso são confundidos com Bobos – é que devem ser sempre calmos, passivos, obedientes e submissos, com aquele eterno sorriso beatífico no rosto, aceitando tudo o que os Lobos quiserem, não por medo, mas por saberem que os Lobos agem de maneira maléfica porque são maus.

     Mas é lenda e está em processo de revisão. Gerações de Bons acreditaram que ser Bons e Bobos era o caminho do Bem, que os levaria ao Céu e aos braços de Deus.

     Alguns das novas gerações, que são olhados como lobos em pele de bons pelos mais velhos, acreditam que essa lenda foi criada pelos Lobos, com o objetivo de tornar os Bons mansos e pacíficos, até mesmo Bobos, o que facilitaria as más intenções dos Lobos maus, que podem, assim, praticar todo o tipo de maldades sem que os Bons se rebelem, com medo de perder a sua bondade. E por isso se tornam bobos.

     Bobos, porque são explorados, ludibriados, tratados como otários, roubados descaradamente e acabam tendo uma vida miserável, alienada, esfomeada e sacrificada até o último pingo de sangue – enquanto os Lobos engordam, passeiam, enriquecem e tripudiam à vontade sobre os Bobos, que pensam que são Bons, em sua escravidão mental.

     Esta mesma teoria diz que foram os Lobos que criaram as religiões, para amansar completamente os Bons e deixá-los mais completamente bobos; os partidos políticos, para que os Bons acreditem no caminho pacífico, embora corrupto, das eleições. E criaram a rede Globo-bo – para que os Bons se divirtam bobamente, de vez em quando, assistindo novelas e futebol.

     E o Dia dos Bobos que, na verdade, é dos Lobos, é um grande Dia da Mentira.

     Ou tudo isso será mentira?

     Há outra versão, a versão dos Lobos, e devemos ser imparciais se quisermos chegar à verdade desta escatológica questão.

     Pois os Lobos dizem que os Bons existem apenas para a sua voracidade devido à determinação de um deus muito antigo, que eles designam apenas por quatro consoantes, porque todos sabem que os Lobos não usam vogais na sua escrita de Lobos.

     Essas letras são DMRG, que significaria “Deus da Morte Roedor de Garras” - o que não parece muito lógico, porque “Roedor” está mais para ratos do que para Lobos. Mas alguns exigentes exegetas acreditam que as quatro consoantes que designam o deus dos Lobos significam “Destruir, Matar, Rugir, Ganhar”.

     Os Lobos não esclarecem esse ponto, mas acrescentam que o seu deus é um deus amoral, está acima do Bem e do Mal e diz que o mundo é dos espertos, que devem se tornar poderosos e fortes para desfrutar de tudo, sem medo de destruir, matar ou rugir, porque a vida está aí para aquele que chegar primeiro e que os Bons são bobos em acreditar na bondade e no Bem.

     Dizem que o seu deus é pré-pagão e pós-cristão e que foi Ele que deu aos Lobos a força oculta para dominar a Terra e tudo o que puderem do Universo, fazendo dos Lobos a raça escolhida, a única com capacidade lupina suficiente para destruir, matar e rugir com o objetivo de sempre ganhar; uma raça que deve desdenhar as demais raças, que são inferiores e não tem um focinho como o da raça dos Lobos.

     Assim, para os Lobos, mentiras, corrupção, assassinatos, guerras e tudo o que é considerado, comumente, como atos de grande malignidade, não passam de expressões naturais da sua vontade de vencer e dominar sempre. Não se arrependem de nada do que fazem porque não entendem o que seja arrepender-se. Acreditam que agir como Lobos é tão natural, que se os Bons são destruídos e mortos pelos Lobos a culpa é dos Bons.

     Mas como os Bons são a imensa maioria e querem ser enganados pelos Lobos – segundo os Lobos – os Lobos inventaram diversos expedientes para que os Bons caíssem em suas armadilhas e nunca se rebelassem – porque uma grande rebelião dos Bons poderia ser fatal para os Lobos.

     Perceberam que os Bons são guiados por valores morais e a eles se apegam como se fossem Lobos. Então, criaram alguns desses valores, conhecidos atualmente como Fraternidade, Igualdade e Humanidade, e os jogaram aos Bons como sendo verdades incontestes que devem ser seguidas por todos os verdadeiros Bons. E manipulam essas “verdades”.

     Quando querem fazer uma guerra, dizem que é em nome da “Humanidade” ou da “Liberdade”. E os Bons acreditam – provavelmente por reflexo condicionado ou porque os Lobos tem aqueles olhos hipnóticos e aquela voz profunda -, mesmo que a guerra seja contra os próprios Bons. Acreditam e se dão por satisfeitos, ainda que sejam destruídos, usurpados ou devorados pelos Lobos.

     No entanto, se alguns dos Bons mais espertos tentam se rebelar, os Lobos mostram a eles algum documento assinado por grandes chefes de países que detém o poder da total destruição – ao mais das vezes chefes Lobos em pele de Bons ou Bons cooptados por Lobos – que autoriza a guerra ou a opressão ou o que seja de maligno que os Lobos estiverem planejando. E os Bons acabam aceitando, porque adoram documentos oficiais e palavras pomposas.

     E assim os Lobos vão construindo o seu império predador e fazendo os Bons de bobos sempre que surge uma oportunidade de maiores ganhos.

     A versão dos Lobos para o Dia dos Bobos é que é necessário dar aos Bons um dia em que eles pensem que são mais espertos, fazendo piadas e brincadeiras uns com os outros e fingindo a felicidade que gostariam de ter. Bobamente.

     Eu estava terminando esta matéria, depois de extensa pesquisa entre Bons e Lobos, quando encontrei um Ser Etéreo. Ser Etéreo, como todos sabem é, antes de tudo, um ser que se alimenta basicamente de éter. Éter e uma dieta vegetariana. Alguns até engordam com essa dieta, mas continuam etéreos.

     Vinha quase flutuando pela rua, quando me encontrou, viu que eu trazia comigo alguns papéis e pediu para dar uma olhada. Seres etéreos adoram ler, seja o que for. Leu, releu, olhou para mim e disse:

     - Mas que bobagem!
     - Por que?
     - Porque você está dividindo o mundo entre bons e maus, malvados e bonzinhos, certos e errados e isso é maniqueísmo puro!
     - Mas é fruto de extensa pesquisa de campo... Cheguei a essas conclusões depois de exaustivas entrevistas... Corri perigo entre os Lobos...
     - Mas é maniqueísta e todos sabem que o maniqueísmo está errado. Errado e fora de moda.
     - Mas e se foram os Lobos que inventaram que o maniqueísmo está fora de moda? E você tem certeza de que é errado?
     - Claro. Se está fora de moda tem que ser errado, que dúvida!
     - Mas então, como você explica...
     - Eu não explico, detesto explicações. Estou acima de tudo isso, porque vivo etereamente, sou um artista e a arte é a salvação, a redenção a...
     - Péraí! Salvação? Redenção? Salvação de que? Do pecado original?
     - Foi só uma força de expressão. Eu quis dizer que viver de uma maneira artística e etérea, como eu vivo, não implica em divisões, mas em congraçamento, união, interação com o Uno, com o Todo...
     - Até concordo com você, mas e as pessoas que estão sendo mortas injustamente na Faixa de Gaza? E todos os milhões de oprimidos e esfomeados deste mundo? E os assassinatos, as injustiças, as guerras, as depravações?
     - Simples: é karma. Em outra vida serão mais felizes...
     - Mas estamos vivendo agora. O presente é muito importante; você não pode fingir que não está aqui e que nada do que falei está acontecendo.
     - Tudo é importante e nada é importante: esta é a grande Lei!
     - Perdão, não entendi...
     - Não se preocupe, um dia você entenderá, mesmo que em outra vida.

     E saiu planando, antes que eu perguntasse o que achava do Dia dos Bobos. Mas talvez ele se sentisse ofendido se eu fizesse aquela pergunta – sabe-se lá!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

SEU JUCA



Pois cheguei na porteira da chácara do seu Juca, e depois de fazer algumas reflexões sobre o ninho de joão-de-barro que ali estava, impávido, mesmo depois de abandonado há muitos anos, entrei e bati palmas:

     - Ô de casa!?

     Nada. Até parecia casa abandonada. Caminhei mais um pouco e vi que o seu Juca a tinha modernizado com uma bela antena parabólica e pensei “diacho! Vai ver que até internet ele já tem...” Diamante veio correndo para me lamber as mãos e fazer festa. Tinha crescido e quase não o reconheci, mas ele sim, porque não latiu. Para um pastor ovelheiro, deveria estar adulto, talvez com cinco ou seis anos, com o pelo amarelo e branco bem cuidado. Eu nunca tinha entendido porque o seu Juca tinha adquirido logo um ovelheiro para uma chácara pequena onde não havia ovelhas nem nenhum tipo de gado. Com exceção da Manhosa, a sua vaca leiteira, cuidada como se fosse uma filha.

     Se Diamante tinha ficado solto era porque o seu Juca tinha saído. Fui entrando aos pouquinhos, passei a casa e me arranchei num banco embaixo da parreira, pronto para uma longa espera. Diamante sentou ao meu lado, depois de me lavar as mãos com as suas lambidas amistosas.

     Não demorou muito e o seu Juca apareceu. Me viu de longe e gritou:

     - Mas quem é vivo sempre aparece! Já achou o Diamante ou ele é que te achou?

     Nos abraçamos, felizes pelo reencontro, enquanto Diamante pulava com mais alegria ainda, à nossa volta.

     - Por onde andou, seu Juca? Dando uma volta nas terras?
     - Terra pequena, mas terra, esse menino. Fui ver as carpas, ali no açude. Levei pão para elas. É uma das minhas alegrias sentir elas comerem quase nas minhas mãos. Me afeiçoei tanto que desisti de pescar no açude. Quando quero pescar vou para algum lagoão onde não conheça os bichos, mas pesco só o suficiente – uns dois ou três jundiás e algumas traíras.
     - Muçum nem pensar, seu Juca? – disse, brincando.
     - Que é isso, esse menino? Muçum só serve para estragar a pescaria. Mas espere aí que eu vou fazer um mate pra nós.
     - Então faça com esta erva que eu lhe trouxe. E tem mais umas coisinhas neste trem, porque eu sei que o amigo às vezes tem dificuldade de ir até a cidade – e lhe passei uma sacola que continha várias coisas, inclusive ração para o Diamante.
     - Mas não era preciso, esse menino! Olha só! O Diamante vai se refestelar com esta ração! Vem cá, Diamante! Olha o que tu ganhaste!... Espere um pouco que eu vou botar uma água no fogo e já volto com o mate pronto.

     Enquanto seu Juca ia fazer o mate e Diamante se atirava na ração fiquei pensando que quem visse o seu Juca assim, de bombacha e alpargatas, uma eterna faca na cintura e aquele jeito agauchado, não daria nada por ele. Ou por outra, pensaria que era apenas mais um gaúcho. Viúvo há mais de cinco anos, com os filhos criados e já fazendo a vida em outros lugares, seu Juca comprara aquela chácara depois de viver quase uma vida inteira na cidade.

     Era professor aposentado. Carregara para a chácara, além do pouco e necessário, toda a sua biblioteca, adquirida durante muitos anos e pela qual tinha muito amor. A casa não era muito grande e os livros eram encontrados em todas as peças, embora uma delas fosse a que chamava de escritório, onde ficavam as estantes maiores, atulhadas de livros e papéis, além de uma máquina de escrever antiga e um computador. Gostava de escrever, mas só publicava no jornal da cidade eventualmente, e suas crônicas e poesias eram lidas com apreço.

     Escrevia um diário há anos, e dizia que queria transformá-lo em um romance, “diferente do que todos imaginam”, mas publicar como? Por isto o chamava de diário. “Nesta terra só publica quem tem dinheiro, mesmo que mal saiba escrever”. Vivia enfronhado em seus afazeres campeiros, lendo e escrevendo de noite, poucas vezes ligando a televisão – “só para ver algum filme que preste”. Adotara aquela vida rústica para se identificar com a terra, segundo o que ele mesmo costumava dizer e, aos poucos, fora pegando o jeito e os modos de um perfeito gaúcho de campanha – embora a sua chácara ficasse quase nos arredores da cidade e não exatamente na campanha.

     Voltou com o mate pronto e a térmica de água quente, dizendo que não era necessário entrar em casa, ainda, porque estava muito calor e no verão o ideal é ficar debaixo das árvores. Ou embaixo da parreira.

     - Mas que bela parreira, seu Juca... Mas a sua não era uva preta?
     - Estou fazendo uma experiência com moscatel, tentando cruzar com a preta. Ainda não sei se vai dar certo...
     - E a horta?
     - Pois a minha hortinha tá que é uma beleza. Venha ver.

     Acompanhei o seu Juca até atrás da casa, onde ele tinha plantado todo o tipo de hortaliças: alface, mostrada, abobrinha, couve, cebola, alho... Tinha até feijão!

     - Mas o senhor tem tudo aqui, seu Juca!
     - Quase tudo, esse menino... Quase tudo. Mas pra mim é mais que o suficiente. Sabe que eu já andei vendendo o excedente aí pelas feiras? E que ganhei uns bons trocados?
     - Mas que bom, seu Juca!
     - O que me entristece mesmo é esse povo, esse menino. Não sei de onde tiraram essa modorra toda, esse desinteresse, esse fastio da vida, essa preguiça – para usar a palavra certa. Dias desses, eu fui até a cidade e peguei um ônibus só para rever os bairros e vilas, dar um passeio. E sabe o que eu não vi? Eu não vi ninguém plantando nada, nem uma árvore frutífera que seja. Está certo que as casas são pequenas, mas nessas vilas populares, todas elas tem um pátio, e ninguém se mexe, vivente! Ninguém é capaz de pegar uma enxada. Se queixam de pobreza, mas não fazem nada. Querem as mesadas do governo e mais nada. E depois gastam com cerveja! O que eu tenho visto de gente pobre bebendo cerveja, quando eu vou na cidade... Depois, gastam o que tem e ficam se queixando da vida, esse menino!
     - E votam em quem paga mais.
     - E ainda por cima isso. O nosso tá virando um povo sem dignidade, apenas esperando que caia do céu ou de Deus ou do governo ou do que seja.
     - Um povo amortecido, seu Juca. Anestesiado. As pessoas só querem ver aqueles programas que só deseducam, na TV, e futebol nos domingos. Se queixam do tempo quando tá frio e quando tá quente e só falta se queixarem da Primavera e do Outono.
     - Por falar nisso – mas não querendo me queixar – vamos voltar pra baixo da parreira, porque hoje tá quente mesmo. Viu as minhas árvores? Algumas crescem mais rápido, outras menos, mas breve vamos comer fruta no pé.

     Dali da horta se podia ver duas fileiras de árvores frutíferas, formando um corredor. Ainda estavam em fase de crescimento.

     - Mas seu Juca, o que foi que lhe deu? Bicho carpinteiro? Me desculpe falar assim, mas aqui o amigo ficou com a energia redobrada. É horta, é árvore, parreira, cuida das carpas do açude, tem apiário e faz não sei mais quantas coisas, sem falar que de noite eu sei que gosta de escrever... Qual é o seu segredo?
     - Pois tem um segredo, mesmo. Peguei um guri.
     - Um guri?
     - Um guri de seus catorze, quinze anos. Chama-se Tomás.
     - Mas como foi isso, seu Juca?
     - Até parece aventura. Coisa de dois meses atrás, eu tava sesteando e ouvi o Diamante latir. Levantei devagarinho, peguei a minha arma e dei a volta por trás da casa. Mas não é que tinha um guri roubando a horta? Já tava com um punhado de alfaces na mão.
     - Cheguei por trás e calcei com o 38, que estava descarregado, mas sempre assusta. É cano longo. Levou um susto e tentou reagir, mas eu logo tirei o cinto dele e se viu obrigado a agarrar as calças para não caírem. Nesse meio tempo eu libertei o Diamante, que ficou rosnando na volta dele. Assustado, ele gritava “por favor, vizinho, não me mate, não me machuque, eu não sou ladrão, só vim pegar as alfaces por causa da fome lá em casa”.

     “Que casa?” – perguntei, desconfiado.
     “Logo ali, vizinho” – e apontava para um lugar que eu não enxergava.
     “Ali aonde, seu guri safado? Me mostra. Vamos lá!” – cutuquei ele com o cano do revólver. E não me chama de vizinho que o meu nome é José. Seu José, pra você”.
     “Não me faça fazer isso, seu José, a minha mãe vai me matar se souber que andei roubando”.
     “Não mata não, que eu não deixo! E vamos indo que eu não tenho tempo pra lamúria de ladrãozinho”.

     - Fomos, com o Diamante junto e o guri com as alfaces na mão. Mais vermelho que pimentão. Uma magreza que só vendo. Depois de uns três quilômetros, pouco mais, chegamos a um casebre num descampado... Triste de se ver. Não tinha nem cerca na volta. A mãe dele, quando nos viu chegando, correu em nossa direção, gritando:

     “Mas o que foi que você fez, Tomás? E o que é isso” – disse, apontando para as alfaces. Duas crianças pequenas corriam atrás dela. Percebi logo a situação de emergência.
     “Não fez nada, não, dona” – respondi. “Encontrei o Tomás lá pras bandas da minha chácara e lhe dei essas alfaces, e vim conversando com ele...”
     “Graças a Deus” – ela respondeu. “O senhor caiu do céu. Estávamos sem o que comer, hoje, e eu não sabia o que fazer. Mas não é o seu Juca, daquela chácara bonita?...”
     “Sim senhora” – respondi – “às suas ordens. Mas o Tomás não me contou tudo direito. A senhora sabe que ele apareceu por lá se oferecendo pra trabalhar – não é Tomás?”. (Ele respondeu um “sim” baixinho, com cara de pecador). “E eu vim até aqui para ver onde e morava e tomar referências, se a senhora não se importa. Mas o Tomás não me contou tudo, não disse que estavam com toda essa precisão. Corre lá na chácara, guri, e trás mais uns temperinhos verdes, cebola, tomate e umas duas ou três abóboras. Pega um saco e vai com o Diamante.”

     - Dei a corrente do Diamante pra ele, devolvi o cinto e fiz com que o Diamante o acompanhasse. Nesse meio tempo, fiquei conversando com a mãe dele. Uma pobreza, esse menino, uma pobreza de quase saltar lágrimas. Entrei na casa, mais pra ver, e tinha só uns tarecos, aqui e lá. Um quarto com uma cama de casal, quase caindo de velha, onde devia dormir ela e os filhos; uma cozinha com fogão a lenha, umas panelas secas em cima. Lá fora tinha um tanque e um banheiro daqueles de madeira, de criar cobra. Conversei com ela - coitada!, não tinha nem roupa decente.. – e fiquei sabendo da situação. Você pode imaginar. O clássico caso do marido que vai embora, em busca de emprego, e deixa a família para Deus. Depois, não volta mais, talvez por vergonha de não ter dinheiro, talvez por outra razão, e as coisas vão minguando e escasseando na casa, até o dia em que o Tomás se decide a roubar a minha horta.
     - Mas o senhor não temeu, seu Juca, que pudesse ser uma armadilha... Que aquela fosse uma casa de bandidos.
     - Olha, esse menino, na hora em que eu vi a magreza do Tomás eu pressenti a coisa. E ladrão de verdade não rouba alfaces. Mas deixe eu lhe contar o resto, antes que o Tomás apareça. Hoje, ele foi dar umas voltas pra mim e depois assistir a mãe dele. Volta de tardezinha.
     - Pois conte, seu Juca, estou muito curioso.

     “Como eu tinha dito pra ela que o Tomás tinha ido procurar trabalho, insisti no mesmo assunto – se ela permitia. Disse que sim, que o Tomás era um bom rapaz e que era o único que poderia ajudar no sustento da casa. Combinei com ela – dona Ondina – que o Tomás trabalharia metade da semana aqui na chácara, comigo, e na outra metade ajudaria ela nos afazeres domésticos. Que eu ensinaria pra ele muitas coisas e ajudaria na sua educação.
     “Nesse meio tempo, Tomás e Diamante apareceram. Parecia que já estavam ficando amigos. Contei pra ele o combinado e os seus olhos brilharam. Trazia tudo o que eu havia dito para ele pegar. Nada mais. Dona Ondina vibrava com o saco cheio de alimentos e foi logo preparando uma comida. Chamei Tomás de lado e falei alto: “Mas você esqueceu de pegar o sal e o açúcar! Vamos até lá”. Ele nem falava. No caminho contei pra ele o que tinha combinado com a sua mãe e se ele concordava. Só faltou beijar as minhas mãos. Repetia: “mas eu não sou ladrão, seu José”. Disse pra ele esquecer aquilo. Chegamos aqui, dei um pouco de sal, açúcar, café, bolachas para as crianças e mais uma ou outra coisinha. Voltou correndo. No dia seguinte, bem cedinho, estava aqui, pronto para trabalhar."

     - Mas só o senhor, seu Juca! Qualquer outro teria entregado o guri pra polícia.
     - E deixar ele apanhar lá naquelas cadeias? E depois se transformar num viciado, num drogado, num imprestável marcado pra toda vida? Não, esse menino; na ausência do Estado temos que ajudar uns aos outros.
     - Na ausência do Estado?
     - Pois meu amigo, esse novo Estado que aí está, pós-ditadura militar, é tudo menos democrata – se usarmos a palavra democracia no seu verdadeiro sentido: governo do povo para o povo. O povo não governa nada, apenas aceita como verdadeiro o discurso dos governantes. Os mais pobres, como essa coitada da dona Ondina, recebem uma mesada que mal dá para os primeiros dias do mês – e ainda agradecem de mãos postas para o “bom governo”. Na época das eleições o “bom governo” vem cobrar em votos o que deu em dinheiro. Corrupção pura!
     - É verdade, seu Juca. E educação zero e saúde péssima. Para eles, povo pobre é povo que não paga impostos e povo que não paga impostos é como se não existisse. Mas eu pensava que o PT tinha melhorado alguma coisa.
     - É tudo a mesma coisa, esse menino. O que o PT fez foi enganar direitinho a massa dos desencantados, daqueles que não conseguem raciocinar direito e que quando recebem alguma coisa do governo consideram que foi uma dádiva e não sabem que é um direito. O PT está mais pra UDN do que pra PTB.
     - UDN, seu Juca?
     - O PT até se fingiu de socialista pra ter uma base eleitoral daquele pessoal que não lê e pensa que é de esquerda sem saber exatamente o que é esquerda e o que é direita. Mas o grande interesse deles e a união com os grandes empresários, com os militares, com as multinacionais. Igualzinho à UDN, na época do Getúlio.
     - Mas me conte como era a UDN e como era o PTB naquela época, seu Juca. O que eu sei a respeito é muito pouco e, à medida que o tempo passa, a gente vai esquecendo a nossa História.
     - Pior que isso, esse menino. À medida que o tempo passa, os donos do poder vão manipulando a História para que pareça ao povo desinformado que eles são os verdadeiros heróis de uma História que estão fabricando agora.
     - Isso dá o que pensar, seu Juca.
     - Sem dúvida. Mas podemos continuar essa história sobre a História no serão, porque faço questão que o amigo pose hoje comigo para podermos conversar com mais vagar. E hoje é dia do Tomás ficar com a mãe dele. Poderemos conversar mais tarde, ou até antes, pois quero que prove um carreteiro da ponta da orelha que eu preparei.
     - Mas seu Juca, eu nem avisei lá em casa...
     - Pois avise. Telefone é que não falta.

     O dia já estava esmaecendo, perdendo as cores. Era aquela hora difusa em que os bichos vão se recolhendo e os homens vão ficando mais serenos, como que obedecendo à natureza. Era uma boa idéia passar um bom serão com o seu Juca.

     Me dirigi para dentro da casa, em busca do telefone para avisar que ia dormir, naquela noite, ouvindo o cantar dos grilos, depois de uma boa conversa com o seu Juca.

     E foi um serão e tanto! Numa próxima vez eu conto.
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