Observando as
discussões sobre o Acordo Ortográfico, principalmente entre os portugueses,
porque no Brasil nada se discute, tudo se aceita, surpreendo-me com o seguinte
texto, de Pedro da Silva Coelho, no sítio www.pracadobocage.wordpress.com: “(...)
Tal processo verifica-se também no
Brasil, mas limitado praticamente a vogais átonas em última sílaba. Por esta
razão, nunca passará pela cabeça dos brasileiros suprimir. e.g., os érres nas
terminações da forma infinitiva dos verbos, érres esses que são «mudos»
(diacríticos), nas pronúncias brasileiras mais representativas (aquelas que
dominam a comunicação social, tendentes a levar à uniformização das outras).
Repito: «andá» (andar), «comê» (comer) «ví» (vir), por exemplo. (...)”.
Falamos tão mal a língua portuguesa, no
Brasil, que os portugueses passaram a acreditar que palavras como “andar”,
“comer”, “vir”, etc., aqui tem os erres mudos, ou diacríticos, e por esta razão
nós, brasileiros, não os pronunciamos. É certo que os meios de comunicação
social são os maiores responsáveis pela deturpação da língua e até pelo
incentivo aos vícios de linguagem e corrupção do idioma pátrio, mas os
principais responsáveis somos nós, o povo, talvez devido a uma herança de
séculos de preguiça mental que se espraia no falar cotidiano e acabará – a
continuar assim – por formar uma nova língua – o “idiotês”. Algumas pessoas que
se consideram muito inteligentes já defendem o que intitulam de português
vulgar como uma espécie de sub-língua sem qualquer normatização, que deve ser
aceita ao lado do português que eles chamam de “culto”.
O nosso problema é a preguiça crônica
até no falar. Não se pronuncia “andar”, “comer”, “vir” por inércia verbal,
falta de ânimo, assim como muitos pronunciam “nóis” em vez de “nós” e “mais” no
lugar de “mas” não só por ignorância do idioma ou por sotaque cultivado nas
ociosas malandrices, mas, principalmente, porque devem sentir prazer em deixar
resvalar mais uma vogal, como bêbados que não conseguem evitar a voz arrastada.
Talvez constatando as vadias características
do povo do sudeste brasileiro, Mario de Andrade criou Macunaíma, o herói sem
nenhum caráter, que costumava dizer “Ai, que preguiça!” e Monteiro Lobato
revelou o “Jeca Tatu”, tomando como referência o sertanejo que costuma pensar:
“plantando nasce, mas não planto não”.
E se temos a certeza que se fala melhor
o português nos três estados do sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul
-, devemos deixar essa certeza de lado, levando-se em conta o que escreve Luiz
César Saraiva Feijó (que mora em Balneário Camboriú, Santa Catarina), em seu
blog “Professor Feijó”, matéria datada de 29 de julho de 2010, intitulada “O
Português Vulgar” (professorfeijo.blogspot.com.br). Abaixo, alguns trechos.
“(...) Mas voltando às observações
sobre o falar inculto que se generaliza nas principais cidades do sul do país,
tenho observado que não se dá mais importância ao falar escorreito, ao emprego
do registro culto da língua portuguesa, mesmo em situações onde isso seria
exigido. Nas salas de aula das universidades, principalmente as particulares;
nas salas dos professores das escolas; nas Câmaras de Vereadores; nas reuniões
dos Conselhos Tutelares e em muitos outros lugares e em inúmeras outras
situações em que se exige o falar culto, a língua culta não é mais utilizada e
os vícios de linguagem de todos os tipos grassam, desrespeitando as mais
comezinhas regras gramaticais. (...)”
“(...) Assim, é comum ouvir-se “Nós
compremos isso muito barato”; “Nós falemos”; “Nós abusemos” etc., sem falar que
o –S- da desinência número-pessoal, -mos- nunca é pronunciado. (...)”
“(...) Há, também, a má conjugação dos
verbos INTERVIR, HAVER impessoal, FAZER no sentido de passar o tempo ou no de
indicar a temperatura, além do emprego da voz passiva pronominal, como no caso
de ALUGA- CASAS em vez de ALUGAM-SE CASAS. (...)”
“(...) Aliás, a gramática não é bem
vista em quase todas as classes sociais da região, muito mais interessadas na
praticidade da vida, alegando que a língua portuguesa é muito difícil e que a
toda hora estão se realizando reformas ortográficas, que só servem para piorar
tudo (...)”
“(...) De tanto escrever vc no lugar de
você, fica-se sem saber que as palavras oxítonas terminadas em –a-, -é-, -ê-,
-ó-, -ô- são acentuadas, por exemplo. (...)”
“(...) Programas como SOLETRANDO e
alguns outros contemporizam a mediocridade, mas é muito pouco. Uma das funções
da televisão – são cinco – é a de informar. Mas nunca deformar. (...)”
“(...) Portanto, se, por um lado o
lingüista encontra nesses acontecimentos um prato cheio para pesquisar, para
descrever os fenômenos da língua enquanto “langue” e “parole”, por outro lado é
entristecedor ver a nossa língua portuguesa ser aviltada, vilipendiada,
estropiada, por pura falta de conhecimentos específicos e pela falta,
principalmente, de uma política séria e objetiva para a cultura e para a
educação. Mas, convenhamos, o que se poderia esperar desse país que teve
durante oito anos um governo, cujo chefe foi o mais popular e representativo
apedeuta nacional? (...)”
O
professor Maurício Silva (USP), em seu artigo “Reforma Ortográfica e
Nacionalismo Lingüístico no Brasil” – WWW.filologia.org.br
– defende que as reformas ortográficas, assim como “a discussão em torno da
ortografia da língua portuguesa – como, de resto, em torno da própria língua –
redunda na tentativa de afirmação nacionalista de uma vertente brasileira do
idioma, em franca oposição à vertente lusitana”. Na matéria, lembra o movimento
modernista e os tempos de Getúlio Vargas. Segundo o professor, em parte “há um
discurso nitidamente nacionalista, o qual acaba por transformar toda discussão
lingüística num embate tipicamente político”, sendo utilizada a ortografia da
língua “como instrumento de afirmação da nacionalidade brasileira”.
Essa
tese é válida para a época do governo de Getúlio Vargas, principalmente o
primeiro, devido ao nacionalismo então existente. Hoje em dia, é muito improvável,
porque acontece exatamente o contrário. O governo está “vendido” às
multinacionais, às oligarquias estaduais e ao latifúndio, enquanto o povo
perdeu toda a noção do que seja nacionalismo, aceita a massificação e
identifica-se a passos largos com a cultura norte-americana, faltando pouco
para restar do Brasil apenas o território, caso este não seja também leiloado.
Vivemos um momento de caos nacionalista, com a cultura dos Estados Unidos
dominando em todos os setores. Inclusive a cultura da corrupção.
Os
brasileiros não se dão conta disso porque não pensam; e não pensam porque a
lavagem cerebral a que são submetidos diariamente não lhes permite usar o
raciocínio. Chegaram ao ponto em que não interessa mais raciocinar, estão
dispostos a aceitar as receitas de vida que o governo impuser. Embora muitos
ainda saiam às ruas para protestar, esses protestos estão sendo criminalizados
e o povo em geral não tem uma noção clara dos seus direitos, deixando-se
seduzir pelo assistencialismo que encobre os interesses fascistas dos donos do
poder. No Congresso Nacional, que deveria representar o povo, não há oposição,
não porque seja fraca ou subornável. Também por isto, mas os partidos que se
dizem de oposição adotam a mesma linha dos partidos situacionistas e as
eleições são uma farsa apelidada de democracia.
Em
vista disso, não é por uma questão nacionalista que o Brasil quer impor essa
reforma ortográfica a Portugal. Razões políticas, muito provavelmente, mas não
resultantes de nacionalismo. Ocorre que nos últimos vinte anos a educação tem
sofrido uma destruição sistemática; todos passam de ano, mesmo que nada saibam;
os heróicos professores do ensino básico e fundamental são pessoas remuneradas
mediocremente, sem qualquer força contra alunos drogados, em sua maioria. Não
passam de repetidores – como dizia Paulo Freire – de um currículo fraquíssimo
para alunos absolutamente desinteressados em aprender qualquer coisa e que tem
ojeriza pelo ensino do português.
Formam-se
analfabetos funcionais que, junto aos clássicos, são mais de 75% da população
brasileira. Massa moldável que serve ao Estado prescritor. Serve nos dois
sentidos. Massa que é mimada pelos políticos com leis permissivas, estimulada à
amoralidade e induzida a desejar apenas o prazer material através do consumismo
desenfreado – incluindo as idéias prontas. Como conseqüência, é um povo que
está criando a sua própria língua - mistura de gírias com expressões
idiomáticas e vícios de linguagem. Uma língua fonética com ortografia própria
que lembra vagamente o português.
Essa
grande massa de analfabetos ou semi-analfabetos, ratos de laboratório a
participar inconscientemente de uma grande experiência sociológica, recebeu o
poder de votar e de escolher representantes à sua imagem e semelhança, ao mais
das vezes; viciou no brinquedo da troca de favores e deseja a liberdade de
exercer a sua grande preguiça, incluindo a preguiça de falar e de escrever. E é
a língua fonética que já está sendo aceita tacitamente dentro do território
brasileiro que o Brasil deseja oficializar através do Acordo Ortográfico que,
se vingar, será apenas o início da total deterioração da língua portuguesa.
Penso
que deveríamos voltar a falar e escrever português. Comove-me a preocupação de
muitos portugueses com o futuro (e o presente) da língua portuguesa. Exatamente
o oposto da quase total inação dos brasileiros, acostumados a sempre concordar
com regras e decretos. Voltar a falar e escrever português significa jogar fora
as gírias, os vícios de linguagem, a malandragem, a corrupção, o “jeitinho” e,
basicamente, a estonteante e deformante preguiça nacional. Concordo que será um
gigantesco esforço, mas não custa tentar. Há séculos é dito que o Brasil é o
país do futuro... Acredito que já é tempo de transformar esse futuro em
presente. Para isto será necessário um povo dinâmico e com senso crítico, que
não será encontrado, certamente, nos estádios de futebol ou nas festas de
carnaval.
Com
o fim das consoantes mudas, ou diacríticas, poderemos ler frases assim: “Enfim,
o brado retumbante da inorância venceu, e quem paga o pato do pato ortográfico?” Mas é mais provável que o grande G da palavra "ignorância" continue impávido e colosso, imune a todos os pactos.