sexta-feira, 17 de junho de 2011

SOLIDÃO ENCANTADA


Cabeça feita, ativista cibernético, conhecedor de todas as hipocrisias depois de anos de labuta diária entre vereadores e afins, saudoso das madrugadas em que se podia fazer serenata nas janelas das amadas sem ser assaltado por ladrões eventuais ou abordado por policiais com síndrome de excesso de zelo, José Carlos, também conhecido como Zé Carlos, apelidado pelos amigos de Cérbero, por parecer ter três cabeças – uma para o trabalho, outra para a família e a terceira para as horas lúdicas -, mas chamado pelos mais íntimos de Cê, porque somos brasileiros e a preguiça nos leva a arrastar a língua e a atropelar palavras e a preferir sempre apelidos e diminutivos ou a criar uma língua muito particular, dentro da nossa original maneira de ver, pensar e falar as coisas – como diria Fernando Haddad, o atual herói das gentes oprimidas e discriminadas – chegou ao saguão da rodoviária, acendeu uma ponta de baseado e pôs-se a fumar languidamente.

     Foi onde o encontrei em meu passear noturno por lugares ermos e a nossa rodoviária costuma ser um lugar ermo de noite, em horas escuras e escusas, quando pia a coruja e suspeita-se do morcego ou do vampiro dos países emergentes, que usa celular e netbook, mas não consegue esconder os dentes sequiosos do sangue dos pobres ratos que fazem esconderijos nos desvãos, fingindo não existir ou travestindo-se de sombra.

     Lá estava ele. Envolto em fumaça e com os olhos cada vez mais japoneses tentando perfurar as densas nuvens que não eram de chuva em busca de solitárias e enganosas estrelas mortas há milênios. Aproximei-me e o cumprimentei.

     - E aí, Cê. De viagem?
     - Só. E bota viagem nisso...
     - Para onde?
     - Sei lá... Eu deixo vagar. Fico observando, curtindo, sentindo...
     - Para onde tu vai? Qual é o teu ônibus?
     - Sabe aquela canção: “Ônibus que me leva/sem rumo ou direção...”? É por aí. Mas, a princípio, tô viajando daqui a pouco para aquela cidadezinha que fica a 300 quilômetros daqui... Como é mesmo o nome? Solidão Encantada. Olha só que nome. Deve ser o maior barato morar lá. Vou para uma marcha, uma passeata. Fui convidado pelo Facebook por um pessoal engajado de lá, que tá lutando para descriminalizar a erva. Só gente boa.
     - Marcha lá em Solidão?
     - Quem diria, né? Uma cidade tranqüila, pacata, cheia de velhos encantados pela própria solidão e os filhos de repente decidem fazer uma marcha pela descriminalização da maconha. A maioria vem de fora, estudam em universidades. Outros moram lá, cuidando das fazendas dos pais, ou das plantações.
     - E plantam o que em Solidão?
     - Mais arroz e soja. Com garantia do Banco do Brasil e sementes transgênicas dadas por uma multinacional.
     - Sementes de presente, Cê?
     - No primeiro ano da plantação. Depois eles tem que comprar novas sementes a cada ano, porque são sementes híbridas e estéreis: não se reproduzem. E os mais velhos não entendem porque o pasto do campo vai ficando mais ralo, esburacado, a terra desmanchando, assoreando os rios. Mas dá muito dinheiro.
     - E eles sabem que estão destruindo a natureza, Cê?
     - Saber ele sabem, que não são burros, mas dizem que todos fazem a mesma coisa e que se eles não fizerem vão perder de ganhar mais dinheiro. É tudo uma questão de dinheiro.
     - Será que eles plantam cannabis transgênica também, Cê?
     - Taí! Não tinha pensado nisso... Será?
     - Se plantam tem uma razão para marcharem pela descriminalização. Uma razão a mais. Você já pensou se anda fumando baseado de erva transgênica?
     - Em Solidão Encantada plantações de maconha transgênica! Será?! Bem que eu tava sentindo uma sensação diferente agora, depois que fumei. Um sei lá não sei que não batia direito. Um plim-plim-plom que não era bem plim-plim-plom, mais parecia plim-plim-plim- in-in-in-in-in-in-in-in! Gozado...
     - Mas eu só falei na possibilidade, não afirmei nada. Eu tava brincando, Cê.
     - É. Mas eu tava fumando uma erva que eles me mandaram e disseram que era cultivada lá. Depois que eu fui convidado e disse que ia me mandaram uma amostra... Será?!
     - Não pira, Cê. Vai ver que é a erva mais pura que você já fumou e não tem nada de transgênica. Esse não é o seu ônibus?
     - É. Solidão Encantada... Pô, cara, agora tô ficando de cara...
     - Não vai perder o ônibus, Cê. Me dá a tua mala que eu te ajudo.
     - Não precisa não. É só uma mochila e tá aqui nas minhas costas. Nunca desgruda de mim. É só embarcar.
     - Pois então, boa viagem, Cê. Só que eu não tô vendo a tua mochila nas tuas costas.
     - Não tá aqui? Eu bem que tava sentindo uma leveza... Uma leveza extra. Será que me roubaram? Mas eu vim direto, não encontrei ninguém, ninguém esbarrou em mim. Deixa eu ligar pra casa...
     - E aí, Cê?
     - Esqueci a mochila em cima da cama. Acho que foi quando eu fui verificar se a passagem estava na carteira. Depois, dei uma fumada, peguei as chaves e saí. Cheguei aqui, fumei a ponta... E você apareceu. A culpa é sua!
     - Minha? Por que, Cê?
     - Você começou a falar nas plantações transgênicas lá de Solidão Encantada e eu comecei a imaginar se o baseado era transgênico...
     - Mas Cê! Foi você que falou na soja e no arroz transgênico de Solidão. Eu só brinquei dizendo que eles deviam ter maconha transgênica. Mas foi na brincadeira. Não leva a sério.
     - É, mas eles me mandaram aquela erva que faz um plim diferente e agora o ônibus está partindo e eu vou perder a marcha pela liberdade. A culpa é sua!
     - Está bem, Cê, então a culpa é minha, mas não precisa surtar. Você ainda tem tempo de voltar em casa, pegar a mochila e pegar o próximo ônibus para Solidão Encantada. Ou vai amanhã de manhã, se preferir.
     - E você acha que eu ainda vou, depois desta? E se a marcha é fajuta? E se eles estão pensando em me atrair para que eu sirva de cobaia para a erva transgênica deles? E se tudo é uma emboscada? Vou é pra casa! Solidão Encantada nunca mais!
     - Espera aí, Cê! Pensa bem!
     - Eu estou pensando bem. E vou pensar melhor quando chegar em casa e fumar um baseadinho. E não quero te ver tão cedo. Você me dá azar, me fez esquecer a mochila, disse que eu ia pra uma emboscada lá em Solidão Encantada! Fui!
     - Não surta, Cê! Espera aí!

     Cê já tinha sumido na noite. Olhei em volta e vi alguns ônibus. Pessoas chegando, pessoas partindo; sorrisos, beijos, abanos... Não se ouvia mais o pio da coruja nem se vislumbrava qualquer morcego ou vampiro sedento de sangue de ratos. Os fantasmas eram apenas fantasmas e a noite envelhecia na sua solidão encantada.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A APOLOGIA DO CRIME


O Supremo Tribunal Federal liberou as marchas pela descriminalização da maconha. A razão alegada é que proibir as manifestações públicas em favor da descriminalização da droga configura violação às liberdades de reunião e de expressão. No entanto, o STF, composto por ministros que deveriam conhecer as leis, parece desconhecer que liberar manifestações a favor de crimes constitui-se em crime.

     De acordo com a lei nº 11.343, de 23 de agosto de 2.006, que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas Sobre Drogas (SISNAD). No Capítulo II, parágrafo 2º do artigo 33 daquela lei está escrito:

     § 2o Induzir, instigar ou auxiliar alguém ao uso indevido de droga: Citado por 177.

     Pena - detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa de 100 (cem) a 300 (trezentos) dias-multa.

     Mais adiante, no artigo 35:

     Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, § 1o, e 34 desta Lei: Citado por 7.228.

     Pena - reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos) a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa.

     Ora, é óbvio que as marchas pela maconha, mesmo que representem manifestações públicas – que não devem ser coibidas ou proibidas, segundo o STF – são manifestações de franca apologia ao crime, porque induzem e instigam as pessoas a acreditar que fazer uso da maconha não é crime.

     Implicitamente, fica entendido que os traficantes da droga são apenas comerciantes normais e que a maconha deve ser descriminalizada para que esses comerciantes possam ter seu alvará de funcionamento devidamente registrado nos seus pontos de venda, até hoje conhecidos como “bocas de fumo”.

     Ou que o Estado deve assumir essa lucrativa venda de drogas, fazer acordos com os grandes cartéis de drogas e vender livremente aos usuários.

     Se a maconha (uso e venda) ainda é crime no território nacional, liberar manifestações a favor desse crime é também crime – conforme está escrito no artigo 35, citado acima.

     Do que se depreende que o Supremo Tribunal Federal está incorrendo em crime ao liberar as marchas pela descriminalização da maconha.

     Será ainda crime se usuários de crack, cocaína e outras drogas ilícitas reivindicarem o direito de também fazer marchas pela descriminalização das suas drogas preferidas - e o STF nada poderá fazer a respeito, porque segundo o seu próprio parecer a liberdade de manifestação pública não poderá ser proibida. Sequer poderá legar que a maconha vicia sim, mas é uma droga "leve" e que as demais drogas são mais "pesadas". Liberdade de manifestação é liberdade de manifestação, seja a favor das drogas "leves" ou das drogas "pesadas.

     E em nome da liberdade de manifestação, não só as drogas, mas todos aqueles que entenderem que determinado crime deverá ser descriminalizado poderão fazer as suas marchas de apologia ao crime, sob o amparo do STF.

     Poderemos ter marchas pela descriminalização do homicídio, assalto, estupro e todos os demais crimes hoje constantes do Código Penal. E ninguém poderá reprimir essas marchas ou estará indo contra a liberdade de expressão e manifestação pública.

     Este é um Estado permissivo. Em nome da democracia e da liberdade, tudo é permitido. Ou quase tudo. Só não se entende o porque de tanto aparato policial nas favelas e outros lugares onde a pobreza reina, supostamente em busca de narcotraficantes. Não fica claro a razão das batidas policiais e a apreensão de produtos tóxicos proibidos, se é permitido pelo próprio Supremo Tribunal Federal a apologia dos produtos tóxicos proibidos.

     Talvez a razão esteja na tentativa pelo Estado de criminalizar a pobreza.

terça-feira, 14 de junho de 2011

O FIM DO CONGRESSO E A DITADURA CIVIL



Uma ditadura caracteriza-se principalmente pela inexistência de oposição. O Brasil sofreu durante quase trinta anos sob uma ditadura militar, que, ao final, por se sentir exaurida, permitiu o que foi chamado à época de uma “oposição consentida”.

     Uma oposição sem força alguma, apenas para constar, porque os militares insistiam que o nosso era um país democrático e queriam enganar ao povo ou a quem desejasse ser enganado e também tentavam enganar a opinião pública do exterior ao mostrar que aqui havia eleições e até uma oposição.

     Alguns dos supostos opositores gostaram de ser oposição daquela maneira. Era uma maneira de ganhar dinheiro sem fazer nada, apenas discursos de vez em quando. Quando muito. Formaram-se (o governo militar formou) dois partidos: A ARENA (Aliança Renovadora Nacional) – onde se reuniram todos os políticos aliados dos militares – e o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) – onde se reuniram todos os opositores que consentiram em fazer parte da palhaçada - e foram feitas eleições municipais e estaduais para as assembléias estaduais e para o Congresso Nacional.

     O governo tinha um forte apoio da Rede Globo e das demais mídias autorizadas por ele, que insinuavam que se a ARENA não fosse bem votada poderia haver um golpe em cima dos golpistas. E a ARENA era bem votada, porque, como todos sabem, no Brasil as pessoas tem preguiça para raciocinar e acreditam que as coisas se ajeitam por si mesmas, ao andar da carruagem. É um hábito brasileiro o de aceitar qualquer tipo de política e qualquer tipo de político.

     E a ARENA era bem votada e por um bom tempo foi maioria no Congresso Nacional e elegia muitos governadores e prefeitos. Depois de algum tempo com essa experiência política, o sistema decidiu concordar com a “abertura política”, com eleições para presidente. Para que isso acontecesse conforme o combinado entre governo e “oposição” foi montado todo um aparato para convencer o povo que era chegado o momento de eleições diretas para presidente.

     Chico Buarque & Cia. visitaram várias capitais fazendo showmícios pelas Diretas Já; fizeram-se passeatas, devidamente dispersadas pela polícia, concordou-se que os exilados – já amansados – poderiam voltar ao Brasil e, por fim, fizeram-se eleições para presidente da República.

     Eleições indiretas. Foi eleito Tancredo Neves, que não era exatamente de esquerda – longe disso! – mas tinha sido do velho PTB nacionalista e aquele que tinha recomendado Getúlio Vargas a renunciar, em agosto de 1954, na última reunião ministerial daquele trágico governo. Após aquele conselho, Getúlio subiu para o seu quarto, no antigo Palácio do Catete, assinou a carta-testamento e preferiu o suicídio.

     Portanto, Tancredo Neves era perfeitamente aceitável para o sistema e a mídia o apoiava. Mas, às vésperas de ser empossado, sofreu o que apelidaram de diverticulite, doença que o levou à morte em poucos dias. Fafá de Belém cantou o Hino Nacional na Globo, após a notícia do falecimento de Tancredo, e todo o povo brasileiro compungiu-se com a morte daquele que prometia ser o salvador da pátria. Assumiu o vice-presidente, José Sarney, para gáudio dos militares. O acordo entre as oligarquias civis e militares estava fechado.

     Naquela época, o PT apenas espreitava, vestido de vermelho e prometendo moralizar o país no dia em que Lula fosse eleito Presidente. E Lula foi eleito Presidente quando já tinha se transformado no “Lulinha paz e amor” e tornou-se grande amigo de banqueiros, empresários, latifundiários, do FMI, dos Estados Unidos, e fez do seu governo de oito anos um misto de populismo com neo-liberalismo – o que muito agradou o império.

     É claro que nas reuniões entre petistas, aquelas reuniões entre os líderes, eles reafirmavam uns para os outros que eram de esquerda – não uma esquerda marxista, porque o sistema tinha avisado que o marxismo deveria acabar e eles tinham que obedecer ao globalizado sistema mundial, mas uma esquerda Fabiana, propondo a aliança entre o capital e o trabalho. Ou seja, exatamente uma postura anti-marxista. E isso muito agradava a todos os líderes petistas, que teriam como principal trabalho o de enganar o povo que neles votava.

     Tão bem o povo foi enganado e tão bem funcionaram aquelas estranhas máquinas chamadas de urnas eletrônicas, que somente são adotadas no Brasil e mais em um ou dois países, que o PT, nas últimas eleições, não só elegeu a desconhecida Dilma como conseguiu ampla maioria nas duas casas do Congresso.

     E voltamos à ditadura.

     Uma ditadura civil, mas ditadura. O governo e todo o sistema que o ampara e guarda – porque é um governo fabricado em aliança com o sistema – faz o que bem entende.

     Comprou o PMDB, o maior partido do Congresso, com ministérios e inúmeros cargos, e mais alguns partidos menores para formarem o que é chamado de base aliada e todas as leis que deseja são aprovadas no Congresso, porque a oposição é mínima, quase inexistente. E um país onde quase não existe oposição é um país com governo ditatorial.

     E na ditadura quase tudo pode ser feito por quem está no poder. Desde a usina hidrelétrica de Belo Monte – que provocará um dos maiores impactos ambientais do mundo – até a entrega total da Amazônia e a destruição da Mata Atlântica para servir aos interesses do agronegócio.

     A desvalorização do trabalho através de salários aviltados foi o primeiro sinal de que o PT se encaminhava para uma ditadura de direita, uma ditadura em que o povo apenas pensa que governa, através das eleições.

     Mas o que mais está marcando a ditadura petista é o fato de a direita oficial – DEM E PSDB – estar, agora, quase com um discurso de esquerda moralista, e a esquerda representada pelo ínfimo PSOL, que parecia, a princípio, que seria um segundo PSB inócuo ou um PC do B que baixa a cabeça e se curva, estar radicalizando e firmando as suas posições marxistas.

     Mas nada disso adianta. Ditadura é ditadura e o PT governa através de medidas provisórias, que funcionam como decretos-leis, e faz as leis que bem entende serem aprovadas no Congresso. E tem o STF ao seu lado, porque o Supremo é apenas um apêndice do Executivo, formado por juízes por ele nomeados.

     Breve, seremos iguais aos Estados Unidos, um país imperialista tentando dominar a América do Sul, com um povo formado por torcedores do futebol. Com a pequena diferença de que nos Estados Unidos o povo é formado por torcedores de basquete e beisebol.

     Hoje, o Congresso apenas funciona na aparência, porque por mais que a oposição lute contra medidas provisórias ou leis inconstitucionais o seu peso é zero e estamos sob uma ditadura civil apelidada de democracia. Como nos velhos tempos da ditadura militar.

domingo, 12 de junho de 2011

AI DOS APAIXONADOS!



Ai dos apaixonados!
É deles o conhecimento e a dor

Sentem
A plena ternura
E a total paixão
Em pura entrega
Devoção possessão
Indizível diluir-se
Dar-se desejar
Fremir
Tocar
O jogo pleno da alma

Ai dos apaixonados!

Sabem
Da brevidade do Infinito
Quando tudo parece desfazer-se
No êxtase do só sentir.

sábado, 11 de junho de 2011

A SUTIL CENSURA NA BLOGOSFERA


“O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.”

(Alberto Caeiro - Fernando Pessoa)


Se você for convidado para participar de um blog muito avant-garde, que promete liberdade de expressão e pensamento, mas que terá um único dono, tenha um certo cuidado. Não aceite imediatamente. Procure saber quem é a pessoa que gerencia o blog, embora seja certo que você nunca a conhecerá. Mas tente. Se perceber algo estranho, saia. Não espere que a pessoa comece a censurar os seus textos ou a impor determinadas idéias. No mundo da suposta mútua ajuda nunca se sabe quem é quem, principalmente no que apelidaram de blogosfera. Há de tudo, desde os que não sabem escrever até os que não sabem pensar.

     E pensar é muito perigoso para muita gente que viveu a ditadura e que se acostumou com censura. Alguns acabaram virando censores. Inconscientemente, talvez. Pessoas que acreditam em determinadas coisas e querem que os outros também pensem e ajam da mesma maneira.

     Podem acontecer muitas coisas em um blog compartilhado. Principalmente se o blog não for realmente compartilhado e tiver um único dono. É como uma redação de jornal em que o jornalista tem o direito de escrever o que quiser, desde que escreva em conformidade com as diretrizes políticas do jornal.

     Aceitar as idéias do outro é muito difícil, principalmente para quem viveu um período ditatorial e entrou em um período de falsa democracia – e apóia essa falsa democracia.

     É triste, mas é verdade.

     Vamos supor que você participe de um blog compartilhado onde está escrito que os autores dos textos são livres para expressar o seu pensamento. E você acredita nisso e começa a expor as suas idéias, mas não sabe que quem gerencia o blog pensa o contrário do que você pensa; que é uma pessoa vinculada ao sistema, sujeita a depressões e ataques de nervos quando você critica Belo Monte – a amada hidrelétrica da Dilma -, ou quando você critica a própria Dilma, tão amada por aquela pessoa dona do blog.

     E você vai mais fundo. Começa a mostrar as mazelas da ditadura civil, as falsidades e as hipocrisias reinantes, o que está sendo feito pelo sistema para tornar o povo apatetado e submisso. Você vai longe e publica as mentiras, as fraudes, os roubos, a corrupção. Cobra de quem se dizia democrata na época da ditadura e agora se revela como simples pelego, como os “intelectuais” que enxameiam em volta do Ministério da Cultura em busca do seu quinhão. Um Ministério da Cultura que patrocina blogs. Blogs quietos, blogs submissos, blogs disciplinados pela ordem unida do sistema.

     Vamos supor que pelo simples fato de que você sabe que vai morrer um dia e resolve ter a coragem de ser corajoso você pesquisa, descobre e publica coisas que desgostam quem gerencia o tal blog compartilhado. Mas você não sabe disso. É como uma redação de jornal, mas você conhece o chefe apenas por e-mails. Alguns dos e-mails são elogiosos, outros deixam entrever alguma preocupação.

     Um certo dia, a pessoa que gerencia o blog pergunta se você é um terrorista cibernético. E você se aterroriza, porque percebe duas coisas: 1) A pessoa não sabe o significado da palavra “terrorista”; 2) A pessoa usa o jargão do sistema.

     Você se aterroriza, mas não tanto a ponto de ficar aterrorizado. Talvez a pessoa não seja do FBI. Talvez. Ou da ABIN. A morte sempre é boa companheira quando estamos vivos e atuantes. E você continua a escrever e a publicar as suas matérias da maneira que acredita que devem ser escritas e publicadas. O terror mora ao lado, mas, se ele chegar perto você faz cara feia e ele sairá correndo. Tudo é muito simples quando não temos medo da simplicidade.

     Então, um belo dia, o blog compartilhado que tem apenas uma pessoa que administra, termina. Você quer publicar uma matéria, mas não tem mais permissão. Visita o blog e vê um recado da pessoa que administra dizendo que aquele blog está terminando naquele dia. As desculpas são as de sempre: cansaço e coisa e tal. Muito bem. As coisas que começam, inevitavelmente terminam um dia. Nada se perde: você tem o seu blog, o seu jornal virtual e pode colocar as suas matérias nesses veículos. Mas continua estranhando a súbita decisão da pessoa que gerencia o ex-blog do qual você participava.

     Passam-se os dias e então você descobre que aquela súbita decisão não foi tão súbita. Era um blog compartilhado, mas apenas três pessoas dentre os colaboradores preenchiam os requisitos que aquela pessoa dona do blog desejava para o seu blog compartilhado: nenhuma crítica ao sistema. Fora este pequeno detalhe poderá ser publicada qualquer matéria – desde que fale em cultura, arte, sexo dos anjos, cultura, arte, o bom governo que temos, cultura, arte, a bela democracia em que vivemos, cultura, arte, nenhuma matéria crítica, cultura, arte...

     E aquele blog vai ressuscitar, agora com as pessoas certas, que já passaram por um exame de seleção ideológica.

     Então, você lembra que o Ministério da Cultura existe para disciplinar a cultura. Lembra de Goebbels e seu ministério da desinformação na Alemanha nazista. Lembra que o sistema também atua na Internet, onde patrocina blogs. Blogs quietos, submissos, acima do bem e do mal, onde apenas se vê matérias alegres, musicais, que elogiam o Brasil com “Z” de zero - e não ligam se esse Brasil está morrendo aos poucos, sufocado por uma política militarizada, mas de terno e gravata, ou de vestido, morrendo pelo deserto verde provocado pela monocultura que degrada o solo, morrendo pela devastação da Amazônia, morrendo pela miséria física e cultural do seu povo, que o governo diz que vai tirar da miséria. É claro. Morrendo pela hipocrisia.

     É quando você sente um alívio e pensa: “Meu Deus, onde eu estava?!” Mas errar é humano e perdoar é divino. Ocorre que você não consegue ser muito divino e senta-se em frente ao computador e escreve: “Se você for convidado para participar de um blog muito avant-garde, que promete liberdade de expressão e pensamento, mas que terá um único dono...”

quarta-feira, 8 de junho de 2011

PELA PORTA DOS FUNDOS


Palocci saiu pela porta dos fundos, correndo, esfogueado, não porque tenha perdido o apoio da famosa base aliada ou por qualquer outra razão apontada na famosa mídia que nada informa, mas para fugir de uma investigação parlamentar cada vez mais próxima. Como ministro, seria obrigado a dar explicações detalhadas sobre o milionário aumento do seu patrimônio; como ex-ministro, no máximo poderá ser convidado a dar as mesmas explicações. E recusará.

     Palocci fugiu pela porta dos fundos do poder para poder, quem sabe, em próxima época de amnésia política, voltar ao poder que o aconchega e releva suas faltas, porque o poder não é ético ou não seria poder. E as pessoas que dominam no atual Brasil não tem a ética na política como principal preceito moral. Ao contrário: acreditam que o poder é a força em si mesmo e quem o detém não poderá ser jamais questionado se tiver os votos do povo a seu favor, mesmo que a maioria do povo seja constituída de pessoas com incapacidade de raciocínio lógico, ou por pessoas que prostituem o seu voto devido à fome, à miséria, à educação que deseduca e a todas as mazelas sociais que o poder perpetua para continuar sendo poder.

     Palocci fugiu pela porta dos fundos não por desejo próprio ou por acesso súbito de elevada moral. No dia 7/06, quando decidiu sair correndo, uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) proposta pela oposição tomava corpo e faltavam apenas sete assinaturas para que a Comissão fosse instalada no Senado. Membros da estereotipada base aliada já estavam assinando e em questão de minutos ou de poucas horas Palocci não poderia mais escapar à CPI. E teria de dizer a verdade sobre o seu enriquecimento gigantesco, o que, muito provavelmente iria provocar grandes dores de cabeça para a dona Dilma.

     A oposição detectou que a empresa WTorre, para quem Palocci tinha prestado consultoria, através da sua empresa Projeto, teria feito uma bela doação de campanha para a então candidata do PT. No mesmo período em que a empresa de Palocci ganhou mais de 10 milhões de reais – durante os últimos dois meses de 2010, novembro e dezembro, quando o então deputado Palocci era o líder da equipe de transição da eleita presidente Dilma.

     A WTorre Engenharia e Construções S. A. é uma grande empresa de engenharia, uma das maiores do Brasil, senão a maior, e está encarregada, no atual governo, de diversos empreendimentos. Um deles é a construção do estádio do Corinthians, o Itaquerão, onde será feita a abertura da Copa do Mundo de 2014. Também está construindo a Arena Palestra Itália, futuro estádio do Palmeiras, entre outros grandes empreendimentos. Na época a empresa recebeu uma restituição da Receita Federal no valor de nove milhões de reais e repassou dois milhões para a campanha de Dilma Roussef.

     Palocci saiu correndo antes de ser chamado para depor na CPI, porque teria de dar muitas explicações. Uma delas seria como aumentou o seu patrimônio em 20 vezes em apenas cinco anos. E nesse “como” ele teria de dizer para quem passou informações confidenciais – “consultoria” -, quais foram as informações prestadas e quanto recebeu cada vez que foi consultado. Consultado por empresários dos mais diversos setores, principalmente durante o período de transição do governo Lula para o governo Dilma, quando recebeu mais de 10 milhões por suas informações privilegiadas.

     E Dilma seria respingada, o seu belo vestido branco da posse ficaria um pouco sujo, porque é provável que, além da WTorre, outras empresas que teriam consultado Palocci também tenham contribuído para a campanha da atual presidente. Uma troca de favores.

     Palocci saiu pela porta dos fundos para não ser obrigado a informar à CPI, que estava sendo formada no dia em que ele pediu demissão, quais as empresas que tinham favorecido Dilma (e ele) e como essas empresas teriam sido favorecidas pelo poder. Quem teria ganhado, de que forma e o que.

     Então Palocci saiu correndo, esbaforido pediu demissão do seu cargo, para conservar o crédito e os clientes.

     O governo faz de conta que nada aconteceu, os supostos opositores fingem que vão esmiuçar o caso, o Congresso promete trabalhar, fala-se em democracia enquanto o povo reclama que não gostou muito da coisa, e conspira-se nos bastidores. Como sempre. Qualquer dia Palocci reaparece. Ninguém levou xeque-mate e o resto é quase silêncio.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SÚBITA SERPENTE




Súbita serpente

                                    a
                              c
                       ros          ç
              de s e    en                 gui
que se               s          pre

                                             r
                                               e
                                           c
na letarga cova                  s
onde estava em ovo         a
onde estava eu ovo        n
a prometer dentes        e
mordidas famintas       r
sibilar nervoso a me

Súbita serpente

esguia         sinuosa
solerte        insidiosa

a deslizar meu ser.

Ser serpentemente
Mente sigilosa
A esquivar-se em cova
Insinuar semente
Em ovo de cobra
Cobra que me cobra
Tão subitamente!
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