sábado, 6 de agosto de 2011

GOLPISMO


Estamos todos proibidos pelas Forças Armadas brasileiras de ter comprometimento ideológico, porque elas continuam mandando no país desde 1964 e a única ideologia aceitável é a importada dos Estados Unidos: a ideologia do entreguismo. As Forças Armadas brasileiras há muito tempo – desde 1945 - não são mais brasileiras, mas uma filial das Forças Armadas dos Estados Unidos. E por isso se ufanam.

     Há quem chame isso de golpismo, mas eu prefiro chamar de servilismo, porque golpes militares foram vários na história da nossa triste república, sendo que o mais cristalizado e acadêmico foi o de 1964, que teve como principal objetivo instituir a adoração do futebol pelo nosso humilhado e inconsciente povo e, de quebra, matar, torturar e prender comunistas e simpatizantes, mas, principalmente, prender, torturar e matar nacionalistas – que, para as Forças Armadas são os elementos mais nocivos à nação.

     Mas poderá ser entendido como golpismo, se lembramos que toda vez que o assim chamado povo brasileiro – representado garbosamente pelas suas elites – pensou que poderia governar através de partidos e representantes eleitos teve os seus sonhos desfeitos em lamúrias e cacetadas.

     Foi assim com o suposto suicídio de Getúlio Vargas, do qual não me convenço, porque a CIA tem armas que somente o Demiurgo vê – e delas o vil mortal não poderá jamais escapar. Foi assim com o golpe de 1961, que instituiu o Parlamentarismo com o apoio de Tancredo Neves e foi assim em 1964 quando, muito aborrecidos, os militares decidiram que eles é que deviam governar o país, porque os civis estavam incomodando muito com a sua mania de fazer um Brasil para os brasileiros.

     E continuou nos anos 1980 quando, por força das circunstâncias internacionais e por ordem dos Estados Unidos, os militares tiveram que oficialmente abrir mão do poder, depois de algumas passeatas e concentrações de civis nas principais cidades do país, que foram devidamente televisionadas pelas muito amigas redes de televisão do poder e quando cantores se tornaram heróis e heróis de verdade foram lembrados para serem logo esquecidos e quando o povo pensou que era ele o autor das mudanças políticas que os fardados e seus amigos civis promoviam.

     E novamente o centrista Tancredo Neves foi usado para ser eleito indiretamente, mas uma estranha doença desconfiou que ele não era tão centrista assim e o liquidou em poucos dias na véspera de tomar posse e o povo chorou enquanto uma cantora famosa cantava o hino nacional com lágrimas que não eram de crocodilo e os crocodilos se confraternizaram nas casernas, porque colocaram o velho amigo do peito, José Sarney, no poder.

     E depois, Sarney fez o governo desejado pelos militares e possibilitou as eleições diretas e a Globo fabricou o Collor e depois o desfez quando Collor chegou a pensar que realmente era presidente e depois vieram outros presidentes igualmente amigos da farda e da mídia e sempre o Lula ali, via PT, dizendo que se eleito fosse faria um grande governo para o povo e com o povo e o Brizola lá, dizendo que queria restaurar a raízes do getulismo – o que era muito mais perigoso que um Lula que poderia ser manipulado -, mas Brizola morreu cedo demais para o gosto de todos e tão cedo que todos desconfiaram e finalmente foi eleito Lula, agora lá, mas devidamente amestrado e fez o governo mais corrupto da história recente do Brasil – para gáudio dos militares.

     E naquele governo dos mensalões e dos mensalinhos, que era dividido com todos os partidos amigos da direita, do centro e da pseudo-esquerda, aos quais permitia todos os desvarios da opulência do poder, porque é dando que se recebe, com disse beatificamente São Francisco, Lula se aliou oficialmente aos Estados Unidos para o que der e vier, através de tratados secretos e apertos de mão simbólicos e fez os militares novamente gargalharem, porque Jobim, o Grande, era eleito junto com Lula e se tornava seu ministro da defesa dos desejos dos militares.

     E no Haiti era deposto o presidente pelo povo esfomeado e pela guerrilha armada. Justamente o Haiti, que fica a um tiro de arcabuz de Cuba e os Estados Unidos nomearam o Brasil jobínico como chefe de uma grande força de paz da ONU, também formada por outros países servis para ajudarem aquele povo pobre até que chegasse o grande terremoto e os Estados Unidos tomasse conta definitivamente do Haiti e kaput!

     E de lá voltam os orgulhosos militares brasileiros pensando porque não no Brasil também, afinal o Haiti é aqui e Lula dava ao povo futebol e mesadas e os militares subiam os morros com tanques e helicópteros e toda a força bélica que possuem para combater a droga do povo que insiste em ser favelado num país que tem um desenvolvimento tão acelerado e tanto petróleo do Sérgio Cabral, que não é Cabral por acaso...

     Mas – súbito! – para surpresa de muitos, é eleita Dilma Roussef, que era tida apenas como uma senhora que tinha o dever de guardar a cadeira da presidência para o Lula por quatro tediosos anos, uma senhora que parecia apenas feminista e defensora das causas sociais que não provocam revoluções, mas apenas leves indignações, que parecia estar somente fazendo hora enquanto seu lobo não vem, de novo, mas que, como consciente mulher que é, embora feminista, resolve fazer a faxina da casa.

     E todos aqueles que pareciam intocáveis – Palocci, Nascimento e a turma do Dnit – vão sendo espanados do poder e agora vem a turma do ministério da Agricultura, que é do PMDB e todos pensam que Dilma não pode mexer com o PMDB, porque é o principal aliado da sua base no Congresso, mas será?

     E para supremo desafio, Jobim, o Grande, do alto de seu quase inalcançável pedestal de grande preboste, transformando as Forças Armadas brasileiras nas mais armadas da América do Sul, que combaterão Chávez e Evo Morales juntos, se necessário for e os Estados Unidos pedirem, depois que derrotar o povo das favelas, Jobim, o Engraçado, põe-se a dizer gracinhas – que graça! – sobre a presidente e suas ministras e – pasmem, senhoras e senhores! – é demitido.

     Profundo silêncio nos quartéis. Manifestações de repulsa dos mais graduados entre os graduados militares, frases que ficarão eternas sobre o possível comprometimento ideológico do governo - como se o governo devesse ser uma coisa insossa, uma espécie de boneco nas mãos dos mais poderosos e mais bem armados -, lembranças de que eles, os militares, estão atentos para, se os brasileiros clamarem e a Globo insistir, fazer o que a hora requer.

     E para horror e estertores gástricos de generais e afins é nomeado Celso Amorim, que poderá viabilizar a Comissão da Verdade, para o Ministério da Defesa. Alguém que poderá não usar farda e ainda ajudar os não fardados a descobrir como foi que os militares mataram e torturaram, em seus momentos de lazer e beatitude, aqueles que julgavam inimigos.

     - Como ousa a Dilma agir como Presidente de verdade? – murmuram, bradam, os que preferem o silêncio como única inatacável verdade histórica. Como Dilma ousou tirar o Jobim, o amigão, que já estava, desde a triste época do Lula, transformando o Brasil num país novamente militarizado. O Haiti não é aqui?!

     E todos falam em golpe. Golpe. A lei do mais forte. Que o leão se torne leão devorador de instituições e constituições. Que os soldados marchem por estradas e ruas e atropelem a tudo e a todos; que desçam das favelas e entrem nas cidades, cerquem as assembléias, o Congresso, o Palácio do Planalto, porque Jobim deve ser vingado e a fúria marcial somente acabará com um general no poder – é o que pensam e talvez tramem os mais exaltados e saudosistas.

     Outros calculam saídas políticas. Dilma poderia se transformar em um segundo Jânio Quadros. Poderia renunciar, devido à força tão forte das forças ocultas não tão ocultas. E teriam o Temer no poder, de quem nada se deve temer.

     Ainda outros, que se arvoram de constitucionalistas, dizem que é melhor a Dilma terminar o seu mandato, porque depois voltará o Lula, o Cara, e com ele Jobim, O Grande.

     Enquanto isso, enquanto o golpe não se define, enquanto os que bufam contra Dilma, aos poucos se transformam em meros bufões e o Brasil assiste futebol, porque é muito grande a curiosidade sobre os cabelos do Neymar, o PSDB abre as portas para Jobim, que poderá acabar os seus dias dignamente no silencioso Senado. Ou como eterno candidato a Presidente.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DEPOIS DA PRIMEIRA MISSA NO BRASIL


Depois da primeira missa no Brasil, os índios que tinham participado daquela inesquecível cerimônia e entendido muito pouco do que se tinha passado, mas, ainda assim, entendido alguma coisa, voltaram para a taba e o Cacique os reuniu para dizer que o Pajé estava sendo tomado pelo Grande Espírito e desejava falar-lhes.

     Com muita expectativa, todos se reuniram em um grande círculo no qual entrou o Pajé, fazendo soar o seu maracá e disse:

     - Filhos de Tupã! Povo das florestas e das praias! O Grande Espírito veio a mim e pediu que lhes revelasse a verdade sobre esse povo pálido e com pelos na cara que chegou em grandes canoas, vindos do outro lado do mar.

     Todos ficaram atentos, porque o Pajé tinha os olhos brilhantes e trazia em uma de suas mãos, em uma cumbuca, o sagrado cauim.

     O Pajé tomou mais um gole de cauim e continuou.

     - Tomem cuidado com esses homens que não trazem mulheres consigo, porque são loucos. Eu vi! – e sacudiu o maracá. – Eu vi que eles vieram para nos matar e nos escravizar e queimar nossas tabas e roubar nossas mulheres e nossos filhos, porque é um povo filho da ganância e da impiedade. Nada respeitam. Nem as matas, nem a água, nem o vento, nem o fogo.

     Todos no círculo exclamaram um grande "Óóóóó!". E o Pajé continuou, depois de beber outro gole de cauim.

     - Eu vejo um futuro de tristezas e devastações, quando o nosso povo será dizimado por ceder às tentações do povo branco. E vejo outro povo que será trazido em canoas ainda maiores; um povo de gente com pele preta que mora muito longe e adora a vida como nós. Por essa razão, serão escravizados e deverão servir a este povo de loucos, que veste estranhas roupas e carrega armas que cospem fogo.

     - Óóóóó!

     - Esse povo de brancos é tão louco, filhos de Tupã, que adora um deus que foi morto por eles mesmos, que chamam de Deus da Paz. Mas foi morto por eles justamente por pregar a paz; e é tamanha a sua loucura que somente se satisfazem com a guerra e a destruição de todos os seres vivos que os cercam.

     - Óóóóó!

     - E vejo ainda mais no futuro, filhos de Tupã! Vejo esse povo de loucos conquistando toda a terra de Pindorama, que nos foi dada pelo Grande Espírito e a destruindo com prazer e plantando sementes que não darão sementes e arrancando e cortando todas as árvores e matando todos os animais da floresta, apenas pelo prazer de matar, e destruindo a própria terra de onde cortarão as árvores, devido a estranho e imensurável cultivo de estranhas plantas. E quando não restar o que matar, matarão uns aos outros, por ganância e podridão de espírito.

     - Óóóóó!

     - E comerão e beberão, com estranho prazer, comidas e bebidas envenenadas e os seus homens agirão como mulheres e as suas mulheres serão como homens, filhos de Tupã! E andarão em estranhas máquinas feitas para matar e seus caciques serão estranhas pessoas com coração de pedra, que morarão em lugares imensos, também feitos de pedra e farão guerras e mais guerras contra o seu povo pobre. Porque, como mataram o seu Deus da Paz desejarão um Deus da Guerra, à sua imagem e semelhança, vingador e trucidador, devastador e assassino, com raiva da vida, do Sol e da Lua e com mais raiva ainda da própria Terra, filhos de Tupã!

     - Óóóóó!

     O Pajé, triste e com lágrimas nos olhos por receber tão nefasta revelação, continuou:

     - E naquele tempo, filhos de Tupã, os que restarem do nosso povo não terão o que dar de comer aos seus filhos, serão escorraçados de todos os lugares, perseguidos e mortos.

     E acrescentou, em tom paternal:

     - Por isso, peço a todos, filhos de Tupã, que resistam às tentações que os homens brancos trazem consigo, porque são doença e morte, e que nos afastemos o mais possível desses homens loucos.

     E calou-se. A Lua já tinha surgido e todos os guerreiros conservavam-se em silêncio. Então, um dos guerreiros mais jovens, que recém tinha passado pela sua primeira iniciação, pediu a palavra e disse:

     - Mas, enquanto isso, Pajé, enquanto nada acontece do que foi dito, através da sua boca, pelo Grande Espírito, será que podemos ficar com esses colares e essas pedras brilhantes que os homens brancos nos presentearam?

     O Pajé olhou em volta e viu que todos os guerreiros ostentavam os novos presentes e tinham o olhar modificado. Pareciam ansiosos.

     Calmamente, esvaziou o cauim que ainda havia na cumbuca, cuspiu no chão com força, jogou longe o maracá e dirigiu-se para a floresta. Nunca mais foi visto.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A CRISE DELES E A GERAÇÃO Z


Estamos acostumados em demasia com os filmes norte-americanos, com as manias norte-americanas, com o modo de pensar norte-americano, com os costumes e hábitos dos norte-americanos e com todo o lixo da cultura norte-americana que é jogada sobre nós via governo, multinacionais, fundações pseudo-culturais, ONGs e estamos ficando tão aculturados que o Brasil já assumiu que realmente é uma filial dos Estados Unidos.

     Dia desses passei por um grupo de três jovens, desses que dizem pertencer à “geração Z” e um deles vestia uma camiseta onde estava escrito: “I Love USA”. Aquele que ia ao lado dele vestia uma camiseta onde estava escrito “Yes, We Can” e o terceiro, que vinha um pouco atrás vestia uma camiseta que dizia em português: “Eu Também”.

     O povo brasileiro é o “Eu Também” da História. Acredita em tudo que venha lá do Norte das Américas e, de preferência, que traga um “made in USA”.

     Tenho assistido os noticiários nos canais de televisão que se dizem brasileiros, mas que são todos do tipo “Yes”, porque outros não existem no Brasil, que eu saiba, e todos eles se mostram extremamente preocupados, porque os Estados Unidos poderá “quebrar”. Guido Mantega é entrevistado para dizer que se isso acontecer será muito ruim para todos. Péssimo para a economia mundial. E todos os economistas fazem figa para que tal não aconteça. Façamos figa.

     Como o dólar está desvalorizando, Mantega e seus amigos responsáveis pelos negócios do governo e pelos negócios que não são exatamente do governo, mas que interessam ao governo, tem comprado diariamente milhões de dólares, ou seja, tem gastado bilhões de reais para comprar uma moeda que está apodrecendo artificialmente para garantirem as exportações dos grandes empresários brasileiros. Afinal, temos acordos comerciais com os Estados Unidos, que é nosso parceiro de negócios preferencial desde antes da devassa época do Lula e se eles forem para o brejo devemos acompanhá-los e coaxar juntos.

     São coisas assim que esses noticiários “Yes” noticiam. Que os Estados Unidos poderão ficar insolventes devido à falta de dinheiro para pagarem a dívida pública. A dívida pública: este é o ponto. É por isso que os Republicanos, que representam os grandes investidores e banqueiros norte-americanos pouco estão ligando para a provável crise financeira do seu próprio país.

     Não é com eles. Quem vai pagar o pato é o povo, como sempre. Os aposentados e pensionistas, os trabalhadores de todos os setores, os pequenos investidores que caíram no canto de sereia de que comprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos seria um bom negócio, a classe média deslumbrada, que perderá um pouco o seu poder de compra – e comprar é tudo para eles. Tanto que se perguntarem para alguém da classe média norte-americana qual é o seu sonho de consumo, com certeza esse alguém responderá que é consumir o que aparecer. Todos os dias.

     Mas, principalmente aposentados, pensionistas e trabalhadores sofrerão. Assim com está acontecendo na Grécia, na Irlanda, na Itália, na Espanha, em Portugal... O capitalismo, para sobreviver enquanto capitalismo, necessita dessas fases de aparente recessão para “limpar o mercado”. E “limpar o mercado” significa deixar somente os grandes bancos com todo o capital. Para depois voltarem ao crescimento acelerado tão necessário a um verdadeiro país capitalista. Não se preocupem os que amam “Yes”: não haverá perigo de quebrar enquanto houver guerra na África, Oriente Médio e outras frentes de batalha que deverão ser abertas para que a indústria bélica, em todos os seus setores, seja a grande alavanca do progresso.

     Por falar em guerra, um dos principais compradores de títulos do Tesouro norte-americano tem sido a China. A China, que acreditando nas antigas leis de mercado, principalmente na lei de oferta e procura, procura vender os seus produtos mais baratos que os de outros países e conquista mercados por todo o mundo. Inclusive no Brasil, apesar do esforço do governo brasileiro em evitar que o seu povo compre produtos baratos. Afinal, estamos presos comercialmente aos Estados Unidos e à Europa. Temos alguns acordos comerciais com a China, mas somente alguns.

     A crise deles será ótima para eles. Não para o povo deles, que sempre é colocado em último plano, mas para s grandes empresários e banqueiros. Alguns quebrarão, mas somente os mais fracos. Além disso, é a grande chance para os republicanos – aquele partido que realmente manda nos Estados Unidos – mostrarem ao povo ignaro que Obama não é o cara, como se pensava e, assim, evitarem a sua reeleição.

     Aqui, os noticiários do tipo “Yes” – que são todos, que eu saiba – continuarão a falar tristemente da crise norte-americana, teremos entrevistas e mesas-redondas a respeito do palpitante assunto e o povo talvez coloque velas nas janelas e reze para que os Estados Unidos se recupere logo; a presidenta dirá célebres frases e Mantega se mostrará duro para conter a guerra fiscal. E a “geração Z” continuará consumindo os produtos deles e dizendo: “Eu Também”.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O PARADOXO DE SHYLOCK







Para quem leu “O Mercador de Veneza”, de Shakespeare, o tema não será estranho. Para quem não leu, faço um resumo.

     Antônio é um mercador que está com todos os seus navios e, portanto, todo o seu capital, no mar, e espera o retorno desse capital, talvez dobrado ou triplicado devido aos negócios. Nesse meio tempo, um amigo dele pede um empréstimo, mas como Antônio não dispõe de dinheiro, no momento, vai à casa de Shylock (um judeu agiota que odeia Antônio) e consegue a quantia desejada, mas, em troca, Shylock estabelece um prazo para o pagamento e no caso desse prazo acabar, ele, Shylock, terá direito a cortar uma libra de carne do peito de Antônio “perto do coração”. O acordo é feito e assinado em cartório.

     Passa o tempo e, depois de muitas peripécias, chega o dia em que Antônio é cobrado por Shylock. Os navios de Antônio ainda não voltaram e ele é obrigado a ir a juízo. Naquele dia, chega uma pessoa para julgar a causa - Pórcia, considerada pelos especialistas na literatura de Shakespeare uma das suas melhores personagens femininas, ao lado de Lady Macbeth. Vestida de homem e passando por célebre jurista, Pórcia dá ao judeu o direito de cortar uma libra de carne do peito de Antônio, “perto do coração”, conforme está estipulado no acordo. Mas alerta Shylock que não poderá cortar mais que uma libra, não poderá tirar sangue de Antônio, porque isso não está estipulado no contrato e, tampouco, provocar qualquer dano à saúde de Antônio.

     O restante da estória vocês podem adivinhar, mas seria melhor que lessem: Shylock desiste de cortar a libra de carne do peito de Antônio e acaba sendo penalizado pelo Doge de por desejar o mal de uma pessoa da República de Veneza. Os navios de Antônio regressam a salvo, os pares se encontram, casamentos são realizados e tudo fica bem.

     Esta a estória. Mas ela revela uma interessante verdade que poderá ser chamada de “Paradoxo de Shylock”. E essa verdade diz respeito às penas infligidas às pessoas pelo Estado e até a conclusões de juízes em causas cíveis que, na aparência, não são penas, mas em seus efeitos atuam como tais.

     Atualmente, o poder dos juízes, no Brasil, é imenso e eles podem suavizar a vida das pessoas ou complicar de tal maneira a ponto de provocar trágicas consequencias.

     O Paradoxo de Shylock consiste em que toda pena aplicada traz em si, implicitamente, outras penas, o que faz com que a primeira pena, a pena oficial, seja responsável por outros danos ao apenado.

     Um exemplo. Uma pessoa é presa por um crime grave, é julgada e condenada e um determinado número de anos na prisão. A pena é a de prisão, somente isso. No entanto, na prisão, a pessoa estará sujeita a violações, maus tratos, péssima alimentação, superlotação das celas e toda uma série de “outras penas” não explicitadas na pena oficial. O que torna o Estado – que, pela Constituição, é responsável por todos os cidadãos, presos ou não, – infrator.

     É um paradoxo. O próprio Estado que condenou aquele que infringiu a lei torna-se, igualmente, passível de ser julgado e condenado. No entanto, o Estado, que é uma palavra que foi usada inicialmente por Maquiavel, segundo o jurista Norberto Bobbio, e que designa aquele conjunto de instituições que controlam e administram uma nação – segundo o dicionário Houaiss – não pode ser julgado ou penalizado, porque teoricamente está acima de todos.

     Mas aqueles que representam o Estado podem e devem ser julgados pelos seus atos.

     Assim, voltando ao mesmo caso da pessoa aprisionada e sofrendo maus tratos, ou simplesmente aprisionada – porque a sua pena foi apenas de prisão – mas não tendo direito a levar uma vida minimamente confortável ou em acordo com a vida que levava anteriormente, antes de ser aprisionada, terá ela direito de mover uma ação contra o juiz ou contra o representante da instituição que não só a aprisionou, mas mudou a sua vida para pior, além do fato de estar aprisionada? O que vale mais para o Estado: as suas instituições ou as pessoas que o compõem?

     Um outro caso que conheço, bem simples e bem comum. Um juiz nega AJG (Assistência Judiciária Gratuita) para uma pessoa que não tem dinheiro, comprovadamente, mas que é herdeira de bens imóveis que estão sendo inventariados. O juiz vai mais além: nega alvará para que um dos bens seja vendido para pagar as dívidas do inventário e obriga a pessoa a prestar contas dentro de cinco dias.

     Acrescenta o juiz que caso as suas ordens não sejam cumpridas, os bens que a pessoa ainda não recebeu e aos quais tem direito por testamento irão a leilão.

     Quais as conseqüências de um caso assim, caso a pessoa não tiver um bom advogado, ou advogada, que prove que a decisão do juiz não só é irregular, mas ilegal?

     As conseqüências poderão ser muitas, porque o juiz, num caso como o exemplificado acima estará atentando contra a moral da pessoa, ameaçando-a materialmente, fazendo tanta pressão que a pessoa poderá perder o controle. Poderá pensar em suicídio e, até, em homicídio. Poderá infringir leis e será julgada e penalizada pelo Estado que a levou a infringir as suas leis.

     E novamente temos o Paradoxo de Shylock – o Estado, através de um juiz – agindo contra o cidadão, mas “em nome da lei”.

     O que vale mais: o cidadão, ou o conjunto de cidadãos que compõem o Estado ou o Estado, através das instituições que o representam, que atuam através de pessoas, muitas vezes imbuídas de um poder demasiado e que confundem conciliação com devastação?

     As instituições do Estado devem ser repensadas, principalmente no que tange às suas relações com os cidadãos. Urgentemente. Ou o que é chamado de “máquina estatal” fará de todos nós passivas e pequenas máquinas que poderão ser montadas e desmontadas ao bel-prazer de pessoas demasiado poderosas, mas também demasiado maquiavélicas.

domingo, 24 de julho de 2011

MARTA NA SELEÇÃO!


Agora entendo porque o time de futebol do Brasil – o time masculino – perdeu aqueles quatro pênaltis contra o Paraguai: medo. Talvez um medo subconsciente, não admitido, mas medo. Quando viram o Uruguai vencer a Argentina na partida anterior, as pernas tremeram. Não por medo do Paraguai, mas do Uruguai. Alguma coisa lhes dizia, mesmo que no subconsciente de jogadores midiatizados, que se vencessem o Paraguai, inevitavelmente teriam que enfrentar o Uruguai em uma próxima partida. E seriam goleados.

     Também estou começando a entender porque em uma dessas insossas partidas amistosas daquela seleção dita brasileira, a torcida começou a pedir a Marta na seleção. É que a seleção de futebol masculino do Brasil está mais pra feminina que pra masculina. E desde já peço que as jogadoras de futebol feminino do Brasil não me entendam mal. É claro que elas jogam melhor que a seleção masculina, isso é inegável. Pelo menos, quando perdem uma Copa do Mundo, perdem de cabeça erguida, mesmo que tenham cometido algum erro aqui e ali, porque sabem que fizeram tudo o que puderam. E quem faz o que pode faz o que deve.

     Mas a seleção brasileira dita masculina de futebol é só penteado. Penteado e aves raras. Algumas, não tão raras, que ficam só no penteado. E talvez por isso, a torcida, que não é boba, tenha pedido Marta na seleção. Sem dúvida, ela joga muito melhor que o Ganso, o Neymar e outros menos midiatizados e, até onde eu sei, não existe nenhuma lei no futebol que impeça seja feita uma seleção mista, com homens e mulheres. Se existe, seria uma estupenda discriminação.

     Até no jogo de xadrez não existe mais essa discriminação e lembro que Mequinho, há dois ou três anos, levou uma bela surra de uma chinesinha que ainda não tinha vinte anos. E não foi só o Mequinho. Então, porque não convocar a Marta? Lembro da Marta, porque é a que se destaca mais, mas existem outras jogadoras que mereceriam ser convocadas pelo Mano. Ou pelo próximo treinador.

     Mas há quem diga que as convocações são feitas através dos empresários dos jogadores, que informam os treinadores quais os jogadores que deverão ser convocados, ao mesmo tempo em que fazem uma gigantesca campanha na mídia para que os jornalistas não cansem de falar os nomes dos seus jogadores, até o povo torcedor acreditar que realmente eles empresariam craques excepcionais.

     Ocorre que os jogadores acabam também acreditando que jogam alguma coisa, são contratados para fazer caras e bocas em propagandas de televisão e avisados de que são craques – mesmo que fiquem desconfiando lá no seu íntimo. Finalmente, são convocados para a seleção, momento em que passam a acreditar que talvez seja verdade.

     Então, porque não a Marta na seleção? Por machismo? Mas é justamente por essa razão que estou pedindo a convocação da Marta. A Marta é muito bonita, sensual e feminina, mas é muito “macha” quando joga futebol. Divide, vai atrás da bola, faz belos passes, corre, conclui, não tem medo de encontrões ou caneladas – exatamente o contrário dos jogadores da seleção dita masculina de futebol que, na primeira dividida pedem para sair do jogo, porque valem muitos milhões de euros e não podem se machucar sob pena de não serem bem vendidos.

     Marta nem pensa nisso. Ela quer é mostrar o seu futebol, que extasia a todos. Mas, se tiver que dar algum encontrão nem pensa duas vezes.

     E os jogadores que tem atuado na seleção – os favoritos da imprensa e os nem tanto – não mostram nenhum machismo, melhor dizendo, nenhuma macheza. Vá lá que a desconfiança íntima deles tenha fundamento e descubram que realmente não são craques e que somente as suas presenças não resolvem as partidas, mas poderiam ser um pouco mais machos, por favor!

     Essa coisa de penteadinho, coraçãozinho e beijinho na camisa quando, por acaso, conseguem fazer gols contra seleções de pescadores, como a da Costa Rica, não cheira muito bem. Talvez até cheire bem, porque devem usar perfume, mas não cai bem. Ou talvez caia bem, porque são especialistas em cair, mas não pega bem. É isso: não pega bem. Eles são tudo, menos “pegadores”. Na hora da dividida, preferem cair antes.

     E caíram antes na decisão por pênaltis contra o Paraguai. Uns dizem que devido ao excesso de comida transgênica, mas a minha intuição é que foi por medo de enfrentar uma seleção como a do Uruguai.

     Mano Menezes disse que “não tenham medo que a seleção não vai chegar cambaleante em 2014”. Já é uma esperança. Atualmente existem cadeiras de rodas especiais. Mas, mesmo com cadeiras de rodas ou muletas e mesmo sendo a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, o que já lembra cambalacho, porque este é o país da corrupção, mesmo com todas essas vantagens antecipadas, Marta na seleção!

sexta-feira, 22 de julho de 2011

ESTORINHA


Era uma vez dois reinos inimigos. Tinham, já, se enfrentado em várias batalhas, que sempre ficaram indecisas e só provocaram morte e destruição. Resolveram, então, competir de outras maneiras. Um dos reinos era governado pelo rei El; o outro pelo rei Al. Este, o rei Al, depois de conferenciar com os seus ministros e ouvir o povo (naquele tempo os reis ouviam o povo) decidiu construir grandes avenidas. O rei El fez o mesmo e acrescentou à margem das avenidas, belíssimos jardins.

     Sabendo disso, o rei Al não só acrescentou belíssimos jardins à margem de suas avenidas como, também, mandou plantar árvores frutíferas, para que todo o povo pudesse aproveitar a natureza e nutrir-se com ela.

     O rei El não deixou por menos; plantou árvores frutíferas nos jardins e acrescentou belas moradias para todos os seus súditos que ainda não tinham casa própria. O rei Al construiu bela casas para todos os que não as tinham ainda, e acrescentou terrenos onde os súditos poderiam plantar de tudo e terem uma vida mais folgada. O rei El fez o mesmo, e, para não parecer que estava apenas imitando os feitos do rei Al, deu ao povo isenção de impostos sobre as moradias e terrenos que doou. O rei Al também isentou os seus súditos de impostos sobre as casas e terrenos dados ao povo, acrescentando água e luz elétrica para todos. O rei El fez o mesmo.

     E assim os reinos cresciam a prosperavam e tudo o que os súditos de ambos os reinos mais desejavam era que essa rivalidade não terminasse nunca.

     Mas eis que, certo dia, quando os dois reis estavam justamente festejando a festa de casamento dos seus filhos – a filha do rei Al com o filho do rei El – e os dois reinos estavam em festa e chegavam congratulações e presentes de todos os reinos da Terra, o Rei do Norte, que tinha sérios problemas biliares e não gostava de festas, mandou um e-mail para os dois reis, extensivo aos noivos, que dizia: “EU SOU UM IMPERADOR”.

     Os reis Al e El receberam o e-mail, acharam graça e enquanto tomavam mais uma taça de champanhe, pois estavam felizes e a felicidade costuma atrair taças de champanhe, responderam em conjunto para o Rei do Norte: “PARABÉNS PELO NOVO TÍTULO, MAJESTADE!”.

     O Rei do Norte não se deu por satisfeito com a resposta recebida e enviou um novo e-mail: “EU SOU UM IMPERADOR PORQUE TENHO MUITAS TERRAS!”. Os dois reis, que já estavam agastados com os e-mails do Rei do Norte, novamente responderam em conjunto: “QUE BOM! ESPERAMOS QUE SEJAM TERRAS FRUTÍFERAS E COM CIDADÃOS FELIZES”.

     O Rei do Norte recebeu aquele e-mail e ficou furioso. Com que então aqueles pequenos reizinhos desejavam que ele tivesse terras frutíferas e cidadãos felizes?! Que desaforo! E enviou um novo e-mail, porque naquela época as pessoas trocavam muitos e-mails por qualquer razão. E escreveu o seguinte: “ISSO NÃO INTERESSA. O IMPORTANTE É QUE ALÉM DE MUITAS TERRAS EU TENHO MUITAS ARMAS E MUITOS SOLDADOS”.

     O rei Al e o rei El começaram a achar estranhos os e-mails do Rei do Norte. Que atraso! Todos sabiam que o Rei do Norte sofria de ataques de bílis e tinha Complexo de Édipo, mas achar que muitas terras, muitos soldados e muitas armas era melhor que muita felicidade revelava um atraso imenso... Será que o Rei do Norte, além de todos os seus problemas estava ficando debilóide? Tudo era possível...

     Viajantes que tinham visitado o reino do Norte diziam que lá existiam pessoas as mais estranhas. Alguns chegavam a dizer que naquele reino não havia mais casamentos, porque tinham horror ao amor. Outros afirmavam que as poucas crianças que restavam passavam o dia inteiro jogando joguinhos eletrônicos; outros, ainda, afirmavam que até aqueles cientistas loucos de antigamente que tinham construído armas terríveis, devido à sua loucura, armas que tinham destruído grande parte da terra e a transformado em desertos que somente agora, depois de séculos, começavam novamente a frutificar, porque a natureza é paciente e sábia, aqueles cientistas estavam de volta no reino do Norte. Não aqueles de antigamente, é claro, que tinham se suicidado logo após lançarem as suas armas contra povos indefesos, mas sucessores deles, que tinham descoberto antigos escritos, ocultos por muito tempo em mosteiros, e que ensinavam como fabricar novamente aquelas armas.

     O rei Al e o rei El lembraram daqueles comentários dos viajantes e os comentaram novamente entre si, mas não ficaram demasiado alarmados. O mais importante era a alegria dos seus filhos recém casados e a felicidade de todos os cidadãos, que prosperavam em harmonia com a natureza. Pensar em guerras até fazia mal. Eles mesmos não tinham cometido esse mal há alguns anos? Resolveram jogar uma partida de xadrez e tentar esquecer o Rei do Norte.

     Foi quando receberam mais um e-mail do Rei do Norte: “VOCÊS ESTÃO JOGANDO XADREZ, É? ESTÃO FELIZES, É? POIS FIQUEM SABENDO QUE EU TENHO ARMAS ATÔMICAS, HEHE”.

     Os dois reis pararam a partida e disseram, quase ao mesmo tempo: “Espiões!”. “Ó céus - disse o rei El – quantas vezes eu disse ao meu povo que espionar os outros é coisa muito feia!”. O rei Al acrescentou – “Mas sempre existem aqueles que preferem fazer coisas feias, majestade. Parece ser um hábito muito antigo...”. – “Penso que deveremos escrever ao Rei do Norte. Parece que ele precisa do nosso auxílio” – disse o rei El.

     Então começaram a mandar e-mails para o Rei do Norte. O rei Al escreveu, desta vez em letras minúsculas:

     - Majestade, se lançar seus mísseis atômicos sobre nós ou contra qualquer outro povo somente receberá desertos e pesadelos.

     O rei El acrescentou:

     - Observe a beleza do por do sol, o cantar dos pássaros e os jovens se amando. Lembre da sua juventude e da sua infância.

     E continuaram.

     - Conte piadas para os amigos.
     - Adote um gato ou um cachorro, ou ambos. De preferência os vira-latas, porque são os mais espertos.
     - Venha jogar xadrez conosco.
     - Dê ao seu povo as armas da paz.
     - Desenhe, pinte, escreva poesias.
     - Despeça os seus cientistas nucleares ou os mande construir estradas.
     - Estradas com belos vinhedos às margens.
     - E pomares com todo o tipo de árvores frutíferas.
     - Aos que continuarem a brincar com o átomo e a natureza, coloque pó-de-mico em suas roupas.
     - Ou os faça jejuar 40 dias no deserto até alcançarem a iluminação.
     - Que poderá ser o uso da energia solar. É muito mais barato que construir reatores nucleares.
     - Lembre-se do amor.
     - Não tenha medo da vida nem de ninguém.
     - Nós gostamos de você.

     Lá no Reino do Norte, o Rei do Norte recebeu aquela enxurrada de e-mails e, no início, não entendeu nada. Depois, começou a pensar... Escrever poesias... Há quanto tempo ele não escrevia uma poesia! Pintar, desenhar, construir...

     Desceu as escadas do seu palácio e encontrou alguns servos que tinham capturado um gato. – Por que vocês pegaram esse gato? – perguntou, demonstrando seriedade.

     - Ele estava miando muito alto e pensamos que poderia perturbar Vossa Majestade – disse um deles.

     - Mas vocês não percebem que se ele estava miando alto é porque precisa de alguma coisa? Talvez esteja com fome, com frio, com sede. Comprem ração especial para ele, dêem água e depois o coloquem nos meus aposentos. Imediatamente!

     Os servos saíram correndo para cumprir as ordens do Rei do Norte, mas ele os chamou e disse:

     - Por que vocês saíram correndo?

     - Porque Vossa Majestade ordenou e suas ordens devem ser cumpridas imediatamente, conforme já nos ordenou muitas vezes com a sua poderosa voz – disse o servo que estava mais perto.

     - Que bobagem! Peçam ração pelo telefone, dêem água aqui mesmo do palácio, de preferência filtrada. Não precisam correr para fazer isso. Agora me respondam: “Quantos patinhos cabem numa canoa?”

     Os servos estavam surpresos. Um deles atreveu-se: - Dois, Majestade?

     O Rei sacudiu a cabeça. – Serão três?- disse outro. Novamente o Rei disse que não. – Quem sabe quatro? – perguntou o terceiro.

     - Seus bobos! A resposta correta é: “Depende do tamanho da canoa!”. E riu-se como há muito tempo. Os servos também se riram, ainda um pouco tímidos, e foram cumprir as suas funções. Foi quando o Rei saiu para o pátio e percebeu que o dia estava findando. Olhou para o horizonte, viu o sol se pondo e sentiu a beleza daquele momento. Mas alguém o chamou para avisá-lo que os cientistas nucleares já estavam começando a contagem regressiva e só esperavam a sua presença para que desse a ordem de disparar. Correu para lá e, quando chegou, gritou para os cientistas:

     - Parem com isso, seus cabeças de abóbora! Desliguem os reatores, destruam os mísseis e as ogivas!

     Alguns tentaram sublevar-se e foram presos, por desacato. Mandou os demais, para as masmorras do reino para que rezassem por 40 dias e pedissem perdão pelos seus pecados mortais. A pão e água.

     Depois, mandou que o seu grande exército fosse desfeito e que os soldados se transformassem em trabalhadores e construíssem estradas e casas para todos e plantassem árvores frutíferas por todo o reino.

     De noite, pouco antes de dormir, acariciou o gato que se aconchegava em seu colo e pensou no amor. Como era mesmo o amor? Ligou o computador real e mandou mais um e-mail para os reis Al e El. Dizia assim:

     “Obrigado. É muito difícil aprender a jogar xadrez? Um abraço do amigo.”

terça-feira, 19 de julho de 2011

NADA DE NOVO NO GALINHEIRO


Chegamos ao máximo da frivolidade em nossa sociedade. Homens e mulheres brasileiros estão muito preocupados porque a seleção de futebol não se classificou para as semifinais da Copa América. Debatem, como se isso fosse vital para todos, se o treinador da seleção deverá continuar treinando a seleção, se o jogador “a” ou o jogador “b” é tudo aquilo que a mídia diz e o que deverá ser feito para que a seleção de futebol volte a vencer, para alívio dos corações canarinhos.

     É o máximo da frivolidade. É como se todo o resto estivesse perfeito no Brasil, com exceção do futebol. Pessoas esbravejam, colunistas de futebol colunizam a sua indignação, mesas redondas são formadas para que se verifique, talvez através de uma comissão parlamentar mista de inquérito, formada por aqueles ilibados senhores que nos representam na Câmara e no Senado, o que houve de errado com a seleção de futebol. Socialites cobrem a boca com a mão e exclamam: “mas quem diria?!”

     Dilma Roussef perde o sono, a Bolsa de Valores despenca, os estudantes não mais estudam, os trabalhadores esquecem de trabalhar, todos os segmentos sociais estão aparvalhados porque perdemos para o Paraguai. Logo o Paraguai! E nos pênaltis! Será que ninguém sabe chutar bolas da marca de pênalti neste Brasil? Ora, bolas! Os jogadores supervalorizados que desejam logo ser vendidos para o exterior temem que o valor dos seus passes diminua drasticamente, empresários de futebol pensam na possibilidade do suicídio, nos quartéis as marchas forçadas não são tão forçadas porque os sargentos caem em súbita inércia e os soldados jazem em profunda tristeza, aventa-se a possibilidade de um duro golpe militar no futebol e os mais radicais desejam raspar os cabelos do Neymar.

     A mídia minimiza o drama. Diz que ganhar ou perder a Copa América tanto faz, que tudo o que falaram antes deve ser tomado como força de expressão, que o que importa é o campeonato brasileiro – a verdadeira guerra para a qual todo o povo deverá estar atento – e que perder ou ganhar é quase a mesma coisa em se tratando de América do Sul, porque bonito mesmo é a América do Norte. Insistem que a culpa não é do penteado do Neymar ou do cabeleireiro do Neymar, que lembra um pica-pau, ou um galinho, dependendo da preferência e do ponto de vista e que, além disso, o fato de termos um ganso e um pato no time nada significa e não traz mau agouro. O que queria o povo? Um pavão? Ou, quem sabe, um quero-quero, que é mais afeito aos gramados? Que ninguém se preocupe, porque foi apenas um acidente de percurso e o Brasil continua sendo o país do futebol, mas apenas o país do futebol, o que se pode fazer?

     A mídia luta pelo seu ganha-pão e lembra que deveremos ter um grande time e vencer as Olimpíadas de Londres, em 2012, mesmo que seja o ano do fim do mundo, mas o que importa? E se não vencermos em 2012 – o que é uma Olimpíada, senão um evento menor? – com certeza venceremos a Copa do Mundo, em 2014.

     Essa ninguém nos tira! Afinal, vai ser no Brasil e nós é que vamos dar um Maracanaço neles! De um jeito ou de outro! De preferência, de outro. Vejam o que a Dilma já está fazendo, desde agora, com o caso das licitações que poderão ou não ser licitações. Tudo de acordo com o jeitinho brasileiro. Se for necessário gastarmos alguns bilhões a mais para que a seleção vença, gastaremos. Não temos o dinheiro do pré-sal do Sérgio Cabral? Não atraímos todas as multinacionais para devastarem o nosso pais quase gratuitamente?

     Alguma coisa temos que ter de volta e essa alguma coisa tem que ser a Copa do Mundo. Que todos entendam desde agora – construiremos estradas, aeroportos, afastaremos as favelas para bem longe, mataremos todos os suspeitos de serem suspeitos, entregaremos a Amazônia e faremos até um trem-bala, mas a Copa do Mundo tem que ser nossa! Os outros países participantes que saibam desde já que serão apenas coadjuvantes em 2014. Mesmo que o mundo tenha acabado antes, seremos hexa-campeões, porque é só isso que o povo brasileiro deseja: o hexa. E se o povo tiver o hexa aceitará qualquer outra coisa sem resmungar.

     Frivolidade? Ai dos frívolos que pensarem assim! É uma questão de política, de estratégia bem organizada a médio prazo, da busca da perfeição no trato do poder, da sublime arte da manipulação das massas. E quem for contra que se mude. “Brasil – ame-o ou deixe-o!”.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...