segunda-feira, 15 de agosto de 2011

SIMON, CRISTOVAM & CIA



Pois o Pedro Simon, a Ana Amélia Lemos (que se diz independente), o Cristovam Buarque e outros senadores que fazem plantão permanente no Senado resolveram fazer um movimento que apelidaram de movimento de apoio à presidente Dilma no combate à corrupção. Dito movimento, que se move através de elogiosos discursos, baseia-se no fato de que a Dilma – segundo os citados senadores - está combatendo a corrupção no seu próprio governo. É risível, se não fosse dramático.

     O que a Dilma tem feito é o mesmo que o Lula fez, quando foram descobertos os esquemas de corrupção nos seus ministérios e no Congresso: demitir ministros e assessores.

     Nada mais que isso. Mas os senhores senadores afirmam que ela é um exemplo de perfeição, imune a qualquer desonestidade. Que desonestos são os outros. De Dom João VI a Lula. E que Lula teria namorado com a corrupção para o bem do Brasil e dos brasileiros, visto o bolsa-família e outras bolsas que elegeram Dilma.

     Cabe lembrar – porque a nossa memória de brasileiros diminui um pouco sempre que assistimos a uma partida de futebol ou quando chega a hora da novela, que Deus nos guarde! – que Dilma e Lula pertencem ao mesmo time. Tanto é assim, que Lula escolheu Dilma como sua sucessora, a qual, antes de ser candidata, era a ministra da Casa Civil, que é aquele ministério que organiza o “dando que se recebe”.

     Até aquele momento, Dilma era tão perfeita ou tão imperfeita quanto o seu chefe, o Lula. Mas, depois de eleita, e quando se sucederam as denúncias de corrupção no seu governo – denúncias que vieram da imprensa ainda não comprada e não devido à famosa faxina que esconde muita sujeira embaixo do tapete, como diz a jornalista Elaine Tavares, na matéria “A LIMPEZA DE DILMA E O QUE SE ESCONDE DEBAIXO DO TAPETE”, também publicada no jornal virtual Diógenes (http://www.diogenes.jex.com.br/) –, depois das denúncias, Dilma foi obrigada a demitir os denunciados, mas apenas isso. Igualzinho ao Lula.

     E os senadores citados, através dos seus nobres discursos, querem inverter a situação – porque além de futebol e novela, o que mais temos no Brasil é demagogia. Querem dar a entender que é Dilma, a Todo-Poderosa, que está de vassoura na mão, limpando os ministérios que ela própria formou, as pessoas que ela própria convocou para auxiliá-la em sua gloriosa gestão.

     Ou vocês acham que ela demitiria o Palocci, que foi o seu chefe de campanha, não fossem as denúncias da imprensa? Demitiria o ministro dos Transportes ou o pessoal do Dnit, não fossem as denúncias em jornais e revistas? Nem a demissão de Jobim foi por vontade própria, apesar do risco de ser golpeada no dia seguinte pelas forças que estão sendo armadas desde o governo Lula para o caso do governo ter algum “teor ideológico”.

     A faxina que ela está fazendo é uma forçada obrigação para que ela não seja demitida do seu cargo pelo grito dos que não agüentam mais tanta corrupção. Ou ela não conhecia o caráter das pessoas que convidou para seus ministérios? Será que todos foram nomeados pelo Lula?

     E esses senadores, que nada fazem a não ser falar e receber seus vultosos salários ao fim de cada mês querem dar a entender que não, que ela está “faxinando” o seu governo por vontade própria e que a apoiarão sempre, desde que continue assim, mas...

     Mas, no instante em que a diminuta oposição propõe uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a corrupção no governo, os mesmos ilibados senhores senadores gritam, desesperados, dos seus tronos, dizendo que isso não! Que deixem a Dilma trabalhar misteriosamente, porque ao povo não pode ser dado conhecer e saber o que realmente acontece em Brasília.

     E ficam ainda mais excitados e nervosos quando a Polícia Federal, que apenas cumpre honestamente o seu papel, prende, com o apoio da Lei, os criminosos do Executivo. Ou, pelo menos, alguns deles. Dizem que assim não pode ser, que a Polícia Federal deve ser mais branda, que os juízes não devem emitir ordens de prisão contra aqueles que foram contratados pela Dilma, que investiguem, mas não prendam e que, de preferência, sequer investiguem. Crime é para favelado e não para quem usa paletó.

     E nisso se resume o movimento pró-Dilma de Simon, Cristovam & Cia.

     Tentam inverter a situação, colocar a culpa nos jornais e revistas que denunciam e demonizar a Polícia Federal que prende, ao mesmo tempo em que elevam Dilma ao altar da pureza e, subliminarmente a candidatam a um segundo mandato desde agora.

     A Polícia Federal, que tem sido obstada de todas as maneiras em seu trabalho, não só pelos demagógicos deputados e senadores como, também, por juízes amigos do poder, lançou um manifesto. Chama-se “Manifesto da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal” e pode ser encontrado em vários sites e blogs, assim como o “Movimento Ordem e Vigília” (http://movimentoordemvigilia.blogspot.com/2011/08/nota-de-esclarecimento-atuacao-da.html), mas segue abaixo.

Nota de Esclarecimento: atuação da Polícia Federal no Brasil.  

12/08/2011

     “A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal vem a público esclarecer que, após ser preso, qualquer criminoso tem como primeira providência tentar desqualificar o trabalho policial. Quando ele não pode fazê-lo pessoalmente, seus amigos ou padrinhos assumem a tarefa em seu lugar.

     “A entidade lamenta que no Brasil, a corrupção tenha atingido níveis inimagináveis; altos executivos do governo, quando não são presos por ordem judicial, são demitidos por envolvimento em falcatruas. 

     “Milhões de reais – dinheiro pertencente ao povo- são desviados diariamente por aproveitadores travestidos de autoridades. E quando esses indivíduos são presos, por ordem judicial, os padrinhos vêm a publico e se dizem “ estarrecidos com a violência da operação da Polícia Federal”. Isto é apenas o início de uma estratégia usada por essas pessoas com o objetivo de desqualificar a correta atuação da polícia. Quando se prende um político ou alguém por ele protegido, é como mexer num vespeiro. 

     “A providência logo adotada visa desviar o foco das investigações e investir contra o trabalho policial. Em tempos recentes, esse método deu tão certo que todo um trabalho investigatório foi anulado. Agora, a tática volta ao cenário.

     “Há de chegar o dia em que a história será contada em seus precisos tempos. 

     “De repente, o uso de algemas em criminosos passa a ser um delito muito maior que o desvio de milhões de reais dos cofres públicos. 

     “A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal colocará todo o seu empenho para esclarecer o povo brasileiro o que realmente se pretende com tais acusações ao trabalho policial e o que está por trás de toda essa tentativa de desqualificação da atuação da Polícia Federal. 

     “A decisão sobre se um preso deve ser conduzido algemado ou não é tomada pelo policial que o prende e não por quem desfruta do conforto e das mordomias dos gabinetes climatizados de Brasília.

     “É uma pena que aqueles que se dizem “estarrecidos” com a “violência pelo uso de algemas” não tenham o mesmo sentimento diante dos escândalos que acontecem diariamente no país, que fazem evaporar bilhões de reais dos cofres da nação, deixando milhares de pessoas na miséria, inclusive condenando-as a morte. 

     “No Ministério dos Transportes, toda a cúpula foi afastada. Logo em seguida, estourou o escândalo na Conab e no próprio Ministério da Agricultura. Em decorrência das investigações no Ministério do Turismo, a Justiça Federal determinou a prisão de 38 pessoas de uma só tacada.

     “Mas a preocupação oficial é com o uso de algemas. Em todos os países do mundo, a doutrina policial ensina que todo preso deve ser conduzido algemado, porque a algema é um instrumento de proteção ao preso e ao policial que o prende.

     “Quanto às provas da culpabilidade dos envolvidos, cabe esclarecer que serão apresentadas no momento oportuno  ao Juiz encarregado do feito, e somente a ele e a mais ninguém. Não cabe à Polícia exibir provas pela imprensa. 

     “A ADPF aproveita para reproduzir o que disse o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos: “a Polícia Federal é republicana e não pertence ao governo nem a partidos políticos”. 

     “Brasília, 12 de agosto de 2011.”

Bolivar Steinmetz
Vice-presidente, no exercício da presidência.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

POEMA EM DESCONSTRUÇÃO


                                     (para ouvir Piazzolla)

Há algo que não se define
Que ficou suspenso
Em algum momento
Que perdeu peso e concretude
E não se projetou nem foi além
Para espraiar-se em objetivo ou realização
Mas está lá
Em algum lugar que não é lugar
Momento que não é momento
Nem preso nem solto
Apenas inerte
Em sua quase possibilidade
Estanque em vir a ser intangível
Sem perpetuar-se
Em instante de vácuo
De força em inação
Esperando...


 
               mesmo em mistura perfeita de tango e flamenco
               castanholas,
               leque,
               olhos frios e sedutores
               tamancos no tablado,
               dó sustenido de Piazzolla gemendo,
               ardendo na alma
               la sangre del toro derramada en la plaza,
               estrugir de motores na pálida manhã,
               rebentar de canhões que atropelam as almas,
               paixão intensa e brutal dos amantes alucinados...

Hay algo indefinido
Preso na inquietude
De sonhos sufocantes
Brumosos y calientes
Esperando

como la sangre del toro derramada en la plaza
fremente, dorida a cada gota espargida
em tímida unção,
viva, mas a morir.

Inquietos, expectantes, ansiosos
Todos são mortos-vivos nesta cidade de aparências
Com a arrogância dos bêbados histriônicos
Pensam que são eternos em sua cansativa ebriedade,
Em sua necessidade infantil de trocar as máscaras
Que os unem na mesma perplexidade ante a morte,
Na mesma letargia estupidificada de todos os dias,
Que os faz traçar com rapidez seus caminhos rotineiros
Na tentativa de beber a mesma água da mesma chuva
Que ainda não caiu.

Há algo que não se define.
Como uma planta
Em estado germinal,
Como a explosão de uma bomba
Ainda não fabricada
Ou um verso nunca tentado
De uma poesia que jamais será escrita,
Presa na eternidade de impossível ritmo,
Esperando.

como la sangre del toro derramada en la plaza
fremente,
dorida a cada gota espargida
como tímida unção,
viva, mas a morir,
hay algo indefinido,
preso en la calle por los pies
de los caminantes sufocados
por sus apresados miedos
da rotineira vida que os estrangula
a poco y poco.

O súbito enlouquecido grito daquele
Que todos matam de fome
Que todos matam de fome que todos matam de fome
Que todos matam
E mandam comer o lixo feito das migalhas
Das migalhas esquecidas pelo sarcasmo... O olhar perdido, parvo 
Condenado à eternidade do desespero pelos olhares bem nutridos
Bem nutridos que alimentam e engordam a miséria
A miséria não provoca pesadelos nos sonhos dos diletantes
Pesadelos nos sonhos dos diletantes esguios
Esguios em sua filosofia de prazeres
Insensíveis
Fechados em casas, casulos, castas
Em grades contra os gritos da loucura
Da fome
Do desespero
Em ritmo estanque, assustado, mórbido
Em eterna pausa mortiça

Hay algo indefinido
Preso na inquietude
De sonhos sufocantes
Brumosos y calientes
Entorpecidos em momento de concha
E aquário
Esperando




                         em mistura perfeita de tango e flamenco
                             tamancos no tablado
                                Piazzola ardendo na alma
                                    derramada en la plaza
                                         na pálida manhã dos amantes
                                            alucinados
                                               em seu momento de concha
                                                    cansativa ebriedade de prazeres
 


Hay algo indefinido
Como se cautivo,
Parvo em la perplexidad letarga
De imposible cadencia
Esperando




                                                        o súbito enlouquecido grito
                                                     do condenado à eternidade
                                                  do esquecimento,
                                               o olhar perdido
                                            vagando na impossibilidade...
                                          máscaras histriônicas
                                        sucedendo-se no carnaval da miséria
                                      em sádico divertimento
                                    feito de migalhas de sonhos,
                                  eternos em perplexidade,
                                imersos em esguios pesadelos,
                             sustentados em instante de vácuo
                          por medos represados... concha e aquário
                        esperando

Há algo indefinido
Preso nas gargantas de rios viscosos
Encobertos por neblinas de manhãs estranhas
A que sucedem tardes que se esgueiram,
Errantes em sua ânsia de caminhos,
E noites que revelam galhardia em sua escuridão,
Sempre misteriosa e sedutora,
Feita para o tatear de cegos
Em estradas escorregadias de esperanças,
Embrutecidas por pedras e desníveis,
Entorpecidas pelos inevitáveis tropeços
De instintivos passos em esquivas tentativas,
Na ambígua necessidade de ir além
E tentar espreitar.

...Y se queda involucrado en el aire
E não se decide a tornar-se em gotas
Ou pedaços,
Teoremas ou hieróglifos.

Não se faz determinado ou escuso,
Quieto ou instigante.

Apenas quase
Silente
Ominoso

Como fumaça despercebida
Que não se vê nem se desfaz
Em luxúria
De equívocas brisas
Trêfegas
Em seu bailar sorrateiro
A insinuar instantes
Imersos na volúpia
Da possibilidade

Como um staccato de Piazzola ao bandonion
Prestes
Casi

En la calle
Recuerdos de tus pasos
Un estupendo voltear en la memória
Las noches de nuestros corazones
Sequiosos y calientes
Súplices
A esperar


 
                         como rajadas de suspiros
                         transformados em murmúrios
                         que se revelam desnudos gritos
                         castanholas trepidantes
                         implacáveis
                         em sublime mistura de tango e flamenco


 
Há algo que não se define.
Como passos súplices,
Sequiosos,
Murmúrios implacáveis,
Rajadas de suspiros
Trepidantes, desnudos, a insinuar,
A espreitar
A memória de nossos corações.

A esperar
Equívocas brisas...

Passos imersos
Na volúpia da possibilidade,
Como fumaça despercebida
Em bailar sorrateiro...

Há algo indefinido
Que perdeu o seu momento de ser
De desnudar-se em perpetuidade
De desfazer a ansiedade de enigma
E permanece
Em seu deserto de esfinge...

Como sustenida nota
Perene
Inalcançável
Em estado de quase solidão

Como insensível dor
Em momento de quase
A espreitar


 
                       enquanto                         
                         corre                           
                                 o                  
                                 rio                         
                      em                            
                      desvairada           
                   liberdade                              
                    de águas                        
                       paixão                    
                         total                      
                           fúria               voluptuosa harmonia
                                                                             sombras e reentrâncias
                                                                    ruborizadas   
                                                          flores a nascer
                                                               tímidas
                                                    inquietas          temerosas
                                                       em destemor de vida

Ergo-me sobre meu coração
Volumoso impulso líquido
Desentranhar em etéreas espumas
Encachoeirar em súbitas águas
Desenfreada busca interna
Mansidão e espera
 
 
Lá!                                                             em mim
                                                              no aconchego
                                                                  da pele
 
                                                                         Sinto

Algo que não se define
Que não se decide a ser...
Como uma folha solta
A desfazer-se na ilusão
Da totalidade do pó,
Apenas um sopro...

A quase possibilidade
Da brisa
Do vento
Do redemoinho
Em louco movimento
De tango ou flamenco

Entorpecer de sonhos,
Inebriar...

Lá!

                                  Onde finge o campo
                                  De tecido verde
                                  Ou de cortina sacra
                                  Eu me deleito na suave
Solidão da espera 


Imerso                                              Solene

                          em                                        meu
                              totalidade                            perfeito
                                   de nadas                                estar

Embriagante quase...

Há algo que não se decide,
Não se define,
Que perscruta cada passo
De cada inquieta busca,
Como desnudada nota sustenida

Presa
Instigante
Desafiando eternidades
Desconstruindo-se em ritmo
Desatinada na sombra de sua mudez
Incrédula pela força interna informe
Desfazendo-se em sóbrios contrapontos
Desvendando extenuantes loucuras
Desabrochar de silêncios
Gota a gota
Pausa

                                                           Pausa
                                                          

                                                                  Ritmo
                                                        Tamancos no tablado
                                                 Força interna informe
                                        Sóbrios contrapontos
                               Medos represados em concha e aquário
                        Sustentados em instante de vácuo
                 Em sublime mistura de tango e flamenco
         Nas noites de nossos corações
  Indefinido quase                               como o espreitar da flecha
     Como rajadas de suspiros
          Como passos súplices
              Como fumaça despercebida
                  Como uma planta em estado germinal
                     Como a explosão de uma bomba ainda não fabricada

Como sustenida nota
Como insensível dor
Como um verso nunca tentado
De uma poesia que jamais será escrita
Como um staccato de Piazzola ao bandonion

Lá!
                                        
                                         Onde finge o campo de tecido verde
                                         Ou de cortina sacra
                                         Eu me deleito na suave solidão
                                         Imerso em totalidade de nada

Momento que não é momento,
Preso na inquietude de sonhos sufocantes,
Na eternidade de impossível ritmo...
Esperando...

sábado, 6 de agosto de 2011

GOLPISMO


Estamos todos proibidos pelas Forças Armadas brasileiras de ter comprometimento ideológico, porque elas continuam mandando no país desde 1964 e a única ideologia aceitável é a importada dos Estados Unidos: a ideologia do entreguismo. As Forças Armadas brasileiras há muito tempo – desde 1945 - não são mais brasileiras, mas uma filial das Forças Armadas dos Estados Unidos. E por isso se ufanam.

     Há quem chame isso de golpismo, mas eu prefiro chamar de servilismo, porque golpes militares foram vários na história da nossa triste república, sendo que o mais cristalizado e acadêmico foi o de 1964, que teve como principal objetivo instituir a adoração do futebol pelo nosso humilhado e inconsciente povo e, de quebra, matar, torturar e prender comunistas e simpatizantes, mas, principalmente, prender, torturar e matar nacionalistas – que, para as Forças Armadas são os elementos mais nocivos à nação.

     Mas poderá ser entendido como golpismo, se lembramos que toda vez que o assim chamado povo brasileiro – representado garbosamente pelas suas elites – pensou que poderia governar através de partidos e representantes eleitos teve os seus sonhos desfeitos em lamúrias e cacetadas.

     Foi assim com o suposto suicídio de Getúlio Vargas, do qual não me convenço, porque a CIA tem armas que somente o Demiurgo vê – e delas o vil mortal não poderá jamais escapar. Foi assim com o golpe de 1961, que instituiu o Parlamentarismo com o apoio de Tancredo Neves e foi assim em 1964 quando, muito aborrecidos, os militares decidiram que eles é que deviam governar o país, porque os civis estavam incomodando muito com a sua mania de fazer um Brasil para os brasileiros.

     E continuou nos anos 1980 quando, por força das circunstâncias internacionais e por ordem dos Estados Unidos, os militares tiveram que oficialmente abrir mão do poder, depois de algumas passeatas e concentrações de civis nas principais cidades do país, que foram devidamente televisionadas pelas muito amigas redes de televisão do poder e quando cantores se tornaram heróis e heróis de verdade foram lembrados para serem logo esquecidos e quando o povo pensou que era ele o autor das mudanças políticas que os fardados e seus amigos civis promoviam.

     E novamente o centrista Tancredo Neves foi usado para ser eleito indiretamente, mas uma estranha doença desconfiou que ele não era tão centrista assim e o liquidou em poucos dias na véspera de tomar posse e o povo chorou enquanto uma cantora famosa cantava o hino nacional com lágrimas que não eram de crocodilo e os crocodilos se confraternizaram nas casernas, porque colocaram o velho amigo do peito, José Sarney, no poder.

     E depois, Sarney fez o governo desejado pelos militares e possibilitou as eleições diretas e a Globo fabricou o Collor e depois o desfez quando Collor chegou a pensar que realmente era presidente e depois vieram outros presidentes igualmente amigos da farda e da mídia e sempre o Lula ali, via PT, dizendo que se eleito fosse faria um grande governo para o povo e com o povo e o Brizola lá, dizendo que queria restaurar a raízes do getulismo – o que era muito mais perigoso que um Lula que poderia ser manipulado -, mas Brizola morreu cedo demais para o gosto de todos e tão cedo que todos desconfiaram e finalmente foi eleito Lula, agora lá, mas devidamente amestrado e fez o governo mais corrupto da história recente do Brasil – para gáudio dos militares.

     E naquele governo dos mensalões e dos mensalinhos, que era dividido com todos os partidos amigos da direita, do centro e da pseudo-esquerda, aos quais permitia todos os desvarios da opulência do poder, porque é dando que se recebe, com disse beatificamente São Francisco, Lula se aliou oficialmente aos Estados Unidos para o que der e vier, através de tratados secretos e apertos de mão simbólicos e fez os militares novamente gargalharem, porque Jobim, o Grande, era eleito junto com Lula e se tornava seu ministro da defesa dos desejos dos militares.

     E no Haiti era deposto o presidente pelo povo esfomeado e pela guerrilha armada. Justamente o Haiti, que fica a um tiro de arcabuz de Cuba e os Estados Unidos nomearam o Brasil jobínico como chefe de uma grande força de paz da ONU, também formada por outros países servis para ajudarem aquele povo pobre até que chegasse o grande terremoto e os Estados Unidos tomasse conta definitivamente do Haiti e kaput!

     E de lá voltam os orgulhosos militares brasileiros pensando porque não no Brasil também, afinal o Haiti é aqui e Lula dava ao povo futebol e mesadas e os militares subiam os morros com tanques e helicópteros e toda a força bélica que possuem para combater a droga do povo que insiste em ser favelado num país que tem um desenvolvimento tão acelerado e tanto petróleo do Sérgio Cabral, que não é Cabral por acaso...

     Mas – súbito! – para surpresa de muitos, é eleita Dilma Roussef, que era tida apenas como uma senhora que tinha o dever de guardar a cadeira da presidência para o Lula por quatro tediosos anos, uma senhora que parecia apenas feminista e defensora das causas sociais que não provocam revoluções, mas apenas leves indignações, que parecia estar somente fazendo hora enquanto seu lobo não vem, de novo, mas que, como consciente mulher que é, embora feminista, resolve fazer a faxina da casa.

     E todos aqueles que pareciam intocáveis – Palocci, Nascimento e a turma do Dnit – vão sendo espanados do poder e agora vem a turma do ministério da Agricultura, que é do PMDB e todos pensam que Dilma não pode mexer com o PMDB, porque é o principal aliado da sua base no Congresso, mas será?

     E para supremo desafio, Jobim, o Grande, do alto de seu quase inalcançável pedestal de grande preboste, transformando as Forças Armadas brasileiras nas mais armadas da América do Sul, que combaterão Chávez e Evo Morales juntos, se necessário for e os Estados Unidos pedirem, depois que derrotar o povo das favelas, Jobim, o Engraçado, põe-se a dizer gracinhas – que graça! – sobre a presidente e suas ministras e – pasmem, senhoras e senhores! – é demitido.

     Profundo silêncio nos quartéis. Manifestações de repulsa dos mais graduados entre os graduados militares, frases que ficarão eternas sobre o possível comprometimento ideológico do governo - como se o governo devesse ser uma coisa insossa, uma espécie de boneco nas mãos dos mais poderosos e mais bem armados -, lembranças de que eles, os militares, estão atentos para, se os brasileiros clamarem e a Globo insistir, fazer o que a hora requer.

     E para horror e estertores gástricos de generais e afins é nomeado Celso Amorim, que poderá viabilizar a Comissão da Verdade, para o Ministério da Defesa. Alguém que poderá não usar farda e ainda ajudar os não fardados a descobrir como foi que os militares mataram e torturaram, em seus momentos de lazer e beatitude, aqueles que julgavam inimigos.

     - Como ousa a Dilma agir como Presidente de verdade? – murmuram, bradam, os que preferem o silêncio como única inatacável verdade histórica. Como Dilma ousou tirar o Jobim, o amigão, que já estava, desde a triste época do Lula, transformando o Brasil num país novamente militarizado. O Haiti não é aqui?!

     E todos falam em golpe. Golpe. A lei do mais forte. Que o leão se torne leão devorador de instituições e constituições. Que os soldados marchem por estradas e ruas e atropelem a tudo e a todos; que desçam das favelas e entrem nas cidades, cerquem as assembléias, o Congresso, o Palácio do Planalto, porque Jobim deve ser vingado e a fúria marcial somente acabará com um general no poder – é o que pensam e talvez tramem os mais exaltados e saudosistas.

     Outros calculam saídas políticas. Dilma poderia se transformar em um segundo Jânio Quadros. Poderia renunciar, devido à força tão forte das forças ocultas não tão ocultas. E teriam o Temer no poder, de quem nada se deve temer.

     Ainda outros, que se arvoram de constitucionalistas, dizem que é melhor a Dilma terminar o seu mandato, porque depois voltará o Lula, o Cara, e com ele Jobim, O Grande.

     Enquanto isso, enquanto o golpe não se define, enquanto os que bufam contra Dilma, aos poucos se transformam em meros bufões e o Brasil assiste futebol, porque é muito grande a curiosidade sobre os cabelos do Neymar, o PSDB abre as portas para Jobim, que poderá acabar os seus dias dignamente no silencioso Senado. Ou como eterno candidato a Presidente.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

DEPOIS DA PRIMEIRA MISSA NO BRASIL


Depois da primeira missa no Brasil, os índios que tinham participado daquela inesquecível cerimônia e entendido muito pouco do que se tinha passado, mas, ainda assim, entendido alguma coisa, voltaram para a taba e o Cacique os reuniu para dizer que o Pajé estava sendo tomado pelo Grande Espírito e desejava falar-lhes.

     Com muita expectativa, todos se reuniram em um grande círculo no qual entrou o Pajé, fazendo soar o seu maracá e disse:

     - Filhos de Tupã! Povo das florestas e das praias! O Grande Espírito veio a mim e pediu que lhes revelasse a verdade sobre esse povo pálido e com pelos na cara que chegou em grandes canoas, vindos do outro lado do mar.

     Todos ficaram atentos, porque o Pajé tinha os olhos brilhantes e trazia em uma de suas mãos, em uma cumbuca, o sagrado cauim.

     O Pajé tomou mais um gole de cauim e continuou.

     - Tomem cuidado com esses homens que não trazem mulheres consigo, porque são loucos. Eu vi! – e sacudiu o maracá. – Eu vi que eles vieram para nos matar e nos escravizar e queimar nossas tabas e roubar nossas mulheres e nossos filhos, porque é um povo filho da ganância e da impiedade. Nada respeitam. Nem as matas, nem a água, nem o vento, nem o fogo.

     Todos no círculo exclamaram um grande "Óóóóó!". E o Pajé continuou, depois de beber outro gole de cauim.

     - Eu vejo um futuro de tristezas e devastações, quando o nosso povo será dizimado por ceder às tentações do povo branco. E vejo outro povo que será trazido em canoas ainda maiores; um povo de gente com pele preta que mora muito longe e adora a vida como nós. Por essa razão, serão escravizados e deverão servir a este povo de loucos, que veste estranhas roupas e carrega armas que cospem fogo.

     - Óóóóó!

     - Esse povo de brancos é tão louco, filhos de Tupã, que adora um deus que foi morto por eles mesmos, que chamam de Deus da Paz. Mas foi morto por eles justamente por pregar a paz; e é tamanha a sua loucura que somente se satisfazem com a guerra e a destruição de todos os seres vivos que os cercam.

     - Óóóóó!

     - E vejo ainda mais no futuro, filhos de Tupã! Vejo esse povo de loucos conquistando toda a terra de Pindorama, que nos foi dada pelo Grande Espírito e a destruindo com prazer e plantando sementes que não darão sementes e arrancando e cortando todas as árvores e matando todos os animais da floresta, apenas pelo prazer de matar, e destruindo a própria terra de onde cortarão as árvores, devido a estranho e imensurável cultivo de estranhas plantas. E quando não restar o que matar, matarão uns aos outros, por ganância e podridão de espírito.

     - Óóóóó!

     - E comerão e beberão, com estranho prazer, comidas e bebidas envenenadas e os seus homens agirão como mulheres e as suas mulheres serão como homens, filhos de Tupã! E andarão em estranhas máquinas feitas para matar e seus caciques serão estranhas pessoas com coração de pedra, que morarão em lugares imensos, também feitos de pedra e farão guerras e mais guerras contra o seu povo pobre. Porque, como mataram o seu Deus da Paz desejarão um Deus da Guerra, à sua imagem e semelhança, vingador e trucidador, devastador e assassino, com raiva da vida, do Sol e da Lua e com mais raiva ainda da própria Terra, filhos de Tupã!

     - Óóóóó!

     O Pajé, triste e com lágrimas nos olhos por receber tão nefasta revelação, continuou:

     - E naquele tempo, filhos de Tupã, os que restarem do nosso povo não terão o que dar de comer aos seus filhos, serão escorraçados de todos os lugares, perseguidos e mortos.

     E acrescentou, em tom paternal:

     - Por isso, peço a todos, filhos de Tupã, que resistam às tentações que os homens brancos trazem consigo, porque são doença e morte, e que nos afastemos o mais possível desses homens loucos.

     E calou-se. A Lua já tinha surgido e todos os guerreiros conservavam-se em silêncio. Então, um dos guerreiros mais jovens, que recém tinha passado pela sua primeira iniciação, pediu a palavra e disse:

     - Mas, enquanto isso, Pajé, enquanto nada acontece do que foi dito, através da sua boca, pelo Grande Espírito, será que podemos ficar com esses colares e essas pedras brilhantes que os homens brancos nos presentearam?

     O Pajé olhou em volta e viu que todos os guerreiros ostentavam os novos presentes e tinham o olhar modificado. Pareciam ansiosos.

     Calmamente, esvaziou o cauim que ainda havia na cumbuca, cuspiu no chão com força, jogou longe o maracá e dirigiu-se para a floresta. Nunca mais foi visto.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...