quinta-feira, 6 de outubro de 2011

QUAL É A SUA FOME?


“Você come por impulso?” – é o título de uma matéria que apareceu no site da Yahoo. O objetivo é saber se você... come por impulso. Portanto, há quem coma por impulso, talvez gente que não tenha o que fazer, a não ser comer. Por impulso. Gente que tem dinheiro para comer por impulso e não devido à fome ou à necessidade de nutrição. Significa que muitas pessoas estão comendo mais do que deveriam e devem tomar cuidado para não ficarem doentes devido a esse impulso.
     É uma matéria muito interessante, ideal para pessoas que podem comer, mesmo que por impulso. Porque a maioria das pessoas não pode comer. Em 1974, durante a Conferência Mundial sobre Alimentação, as Nações Unidas estabeleceram que “todo homem, mulher, criança, tem o direito inalienável de ser livre da fome e da desnutrição...”. Simples assim. Todos os famintos do mundo ficaram muito felizes. Parecia que aquela conferência iria lhes dar comida. Mas continuaram famintos, apesar do direito à comida que a ONU lhes deu.
     Direitos temos muitos. A Constituição brasileira diz que o Estado é responsável pelo bem-estar dos seus cidadãos. Só não diz de quais cidadãos, porque milhões de brasileiros não tem nenhum bem-estar; outros muitos milhões não tem nem onde estar, e a grande, mas grande maioria, não sabe o que é bem. Mas está na Constituição.
     Talvez a nossa Constituição seja responsável apenas por aqueles que comem por impulso. Você come por impulso?
     Apesar da ONU ser tão boazinha e dar a todos o direito de ficarem livres da fome e da desnutrição, estatísticas dizem que existem 800 milhões de pessoas desnutridas no mundo. 11 mil crianças morrem de fome a cada dia. Um terço das crianças de países em desenvolvimento apresentam atraso no crescimento físico e intelectual. 1,3 bilhão de pessoas no mundo não dispõe de água potável. 40% das mulheres dos países em desenvolvimento são anêmicas e estão abaixo do peso. Uma pessoa a cada sete padece de fome no mundo.
     E você? Come por impulso?
     O Brasil, que tem um Produto Interno Bruto (PIB) em constante crescimento e que também tem os maiores impostos do mundo, e se diz um país em desenvolvimento – embora poucos saibam para onde vai esse PIB e esse desenvolvimento – tem cerca de 11,2 milhões de pessoas com fome em seu território. Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E o mesmo IBGE admite que 65,6 milhões de brasileiros não se alimentam direito.
     “Desse total, 40,1 milhões (20,9% da população total) convivem com a forma leve de insegurança alimentar (quando admitem que pode faltar dinheiro para comida). Mais 14,3 milhões estão na situação moderada – casos em que, no período de três meses anteriores à pesquisa, houve restrição de comida. Os demais (11,2 milhões) passam pela privação de alimentos, a insegurança alimentar grave.”
     Mas os que passam fome agora não devem se preocupar, porque a Dilma prometeu acabar com a pobreza e a miséria. É tudo uma questão de tempo. Aguentem mais um pouco e não morram durante esse tempo. O que é uma fomezinha diária? Pensem naqueles que comem por impulso e adquirem doenças crônicas. Assistam os noticiários e vejam como o nosso PIB está crescendo e fiquem esperando a sua fatia.
     A Dilma é uma boa pessoa. Só está um pouquinho gorda, mas como resistir a tantos quitutes e comidinhas especiais? Ela é obrigada a comer tudo que lhe oferecem ou ficaria feio. Uma dieta adequada resolve. Se você tem fome, lembre que temos até um ministério de combate à fome. Não se sabe exatamente como aquele ministério funciona, mas é um ministério. Ou um mistério. Aliás, se observarem bem, quase todos os ministros são um pouco gordinhos. Deve ser sedentarismo. Eu estou dizendo isso pelo que vejo na televisão, não porque conheça algum ministro. Por favor, não me acusem de corrupção!
     Você tem fome e não come por impulso porque é impossível? Lembre-se que ano que vem teremos eleições. E eleições rima com sopões. Engula o sapo, mesmo se for barbudo, e tome a sua sopa. Conheço pessoas que desde agora já estão correndo atrás de pessoas famintas, trocando votos por alimentos. Reze para que tenhamos eleições todos os anos.
     Você come por impulso ou somente tem o impulso de comer, mas não sabe como? Neste último caso, assista futebol. Talvez o seu time ganhe e a sua fome diminua. Se sobrar um dinheirinho, jogue na loteria. Poderá ficar rico e comer o que quiser. As chances são poucas, mas quem sabe? O difícil é jogar, se sobrar um dinheirinho, porque talvez você saia correndo e compre uma comidinha, pra enganar o estômago. E terá perdido a grande chance de ganhar na loteria. O estômago, às vezes, nos torna impulsivos.
     É o caso dos que comem por impulso. Coitados, padecem muito.
     Se você não come nem por impulso, por maior que seja a sua fome, não pense em assaltar os que comem por impulso porque, além de ser pecado, poderá aparecer a tropa que dá choque. A tropa que protege os que comem por impulso. Dizem que é uma tropa tão boa que até vai ganhar Oscar nos Estados Unidos. Muito boa para os que comem por impulso. Mas não se aproxime muito dela. Por uma questão de saúde. Preserve a sua saúde faminta. Não esqueça que a sua morte deve ser de fome e não de bala perdida.
     Se você está com fome, vá à missa e comungue. Além de salvar a sua alma, poderá aumentar as horas de vida do seu corpo. Se for o caso de morrer de fome, morra em paz com Deus.
     E não se esqueça que Deus é brasileiro.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

A INSACIÁVEL FOME DOS BANCOS



Este é o país onde os banqueiros se rejubilam e os bancários fazem greve. É claro que é uma greve por melhores salários, não se estendendo como protesto contra a corrupção ou contra os imensos lucros dos bancos. Também não é uma greve que lembre as acusações de corrupção contra os três poderes que fingem nos representar. É uma greve de categoria, por um reajuste adequado ao seu trabalho. Mas é uma greve.

     Os bancos brasileiros, com o apoio do Governo Federal, lucram despudoradamente, enquanto um terço da população brasileira passa fome. Veja, abaixo, o lucro dos principais bancos somente no primeiro semestre de 2011.

     Itaú – R$7, 133 bilhões.
     Banco do Brasil – R$6,26 bilhões.
     Bradesco – R$5,487 bilhões.
     BNDES – R$5,3 bilhões.
     Santander – R$4,153 bilhões.
     Caixa – R$1,7 bilhão.
     HSBC – R$611,9 milhões.
     Banco do Nordeste – R$300,7 milhões.


     E os bancários reivindicam um reajuste de 12,8% (aumento real de 5% mais inflação do período), valorização do piso salarial e maior participação nos Lucros e Resultados. Os banqueiros oferecem 8% de reajuste e nada mais.

     O povo brasileiro pede um reajuste de 10.000% em suas condições de vida, mais o fim da corrupção e dos altos salários dos três desgovernos. Mas o povo brasileiro não pode entrar em greve, não tem poder de barganha; mesmo porque grande parte do povo brasileiro vive de esmolas e outra parte aceita qualquer serviço por qualquer salário.

     Em 2007, a jornalista Salete Lemos, que trabalhava na TV Cultura de São Paulo, não agüentou e falou, no ar:

     “Parece brincadeira, né? Os bancos, não bastassem as absurdas tarifas cobradas a todo e qualquer mínimo serviço, se sentem à vontade, também, para o enriquecimento ilícito no Brasil. Só o BRADESCO – que vale mais de 100 bilhões de reais – e que no primeiro trimestre deste ano lucrou – eu disse lucrou – 1,7 bilhões, teve a coragem de lesar milhares de clientes com o argumento de que não houve tempo para a pesquisa de dados (20 anos). A Caixa Econômica Federal, pior hein?, diz que não tem funcionários... É inacreditável! O Governo – ah, o Governo!... -, o Governo soltou a pior. Segundo o ministro Mantega, o Governo estuda reconhecer essa dívida. Reconhecer o que? Assumir o que? O roubo dos bancos que sonegaram extratos, que embolsaram um trilhão e novecentos bilhões de reais? Isso é praticamente todo o PIB brasileiro, o total de riquezas geradas pela economia brasileira, economia que trabalha - a nós, que pagamos bilhões de impostos e mais alguns outros bilhões em tarifas bancárias... Resta aguardar, agora, a decisão da Justiça... Hoje, a Defensoria Pública da União entrou com uma Ação Civil Pública, na décima-quinta Vara Federal de São Paulo, pra que todos os poupadores prejudicados pelo Plano sejam automaticamente recompensados sem a necessidade de entrar com ações individuais. É o mínimo que a Justiça brasileira – se é que ela existe – pode fazer.”


     Resultado: foi demitida da TV Cultura de São Paulo. Atualmente apresenta o CNT Jornal, da TV CNT.

     Os bancos continuam engordando e a censura na imprensa do Brasil agora é por conta dos donos dos meios de comunicação.

domingo, 2 de outubro de 2011

A CLAQUE DO NEYMAR


foto de Lidia Amaral


O triste da corrupção que nos aflige é a contínua mentira desinformativa dos meios que deveriam ser de comunicação, e o são, mas com o único objetivo de comunicar aquilo que interessa aos donos dos meios de comunicação – ao mais das vezes grandes empresários ligados ao capital que esmaga a grande maioria do povo brasileiro.

     Dentre os países que estão sendo chamados de “emergentes”, o Brasil é aquele que tem a maior desigualdade social; percebe-se, também, que é o país que tem o povo mais desinformado ou mais enganado pelos meios de comunicação, e que gosta de ser enganado. Entre os países apelidados de “desenvolvidos”, os Estados Unidos ganha o troféu de país que tem a maior desigualdade entre ricos e pobres – e o povo dos Estados Unidos – é sabido – é considerado um dos mais alienados e desinformados do mundo. Talvez perca para o povo brasileiro, mas existem divergências a respeito.

     Há quem pense que corrupção consiste unicamente em comprar ou ser comprado, em prostituição física, mental e espiritual, mas também é corrupção a mentira ou a fabricação de “verdades” – o que não deixa de ser uma prostituição espiritual, uma vez que é inculcado no espírito das pessoas, através de falácias, afirmações que acabam passando por verdadeiras, mas não correspondem àquilo que se vê ou que se constata.

     Estamos assistindo a um fenômeno de marketing que tem por objetivo transformar um jogador médio em um craque. Isso, talvez, porque a atual geração de admiradores do futebol, no Brasil, não sabe exatamente o que significa a palavra craque. Apesar de todos gostarem de falar inglês, por hábito ou por aculturação, ou simplesmente por complexo de inferioridade, convém lembrar que a palavra craque vem de “crack”, e foi incorporada ao futebolês na época em que existiam jogadores que “quebravam” a mesmice medíocre das partidas de futebol. Os mais conhecidos foram Pelé e Garrincha, mas existiram outros que já estão distantes no passado, mas que com um pouco de pesquisa e paciência o amável leitor interessado poderá descobrir por si mesmo.

     Talvez seja apenas uma experiência midiática, com objetivos sociológicos, objetivando observar até que ponto o chamado “torcedor brasileiro” é facilmente influenciável, ou se detém, ainda, um pouco de senso crítico. As massas existem para serem moldadas, manipuladas, o que acontece diariamente; mas no futebol, é a primeira vez que acompanho tamanha campanha de marketing para influenciar o povo a acreditar que temos, novamente, um craque no futebol brasileiro. É claro que ainda existem craques no nosso futebol – mas craques em relação aos demais jogadores, que são, quase todos, extremamente medíocres.

     No caso de Neymar, não há como negar que é um jogador acima da média, em se tratando do futebol brasileiro. Assim, se ele fizer alguma jogada acima da média será natural. Mas o que estão fazendo com o pobre do menino, endeusando-o como se fosse um verdadeiro craque está sendo ruim não só para a sua personalidade como para o nosso entendimento do que é certo ou errado.

     Menininhas com fitas na cabeça, onde está escrito o nome do jogador; as mesmas menininhas gritando toda vez que ele toca na bola. Isso, em qualquer lugar onde ele vá jogar. Ao ponto das pessoas ficarem se perguntando se aquelas menininhas são as mesmas ou se é apenas uma febre inoculada pelo marketing.

     E esse mesmo marketing – que parece ser extremamente ativo – faz com que narradores de futebol, pessoas que parecem idôneas e respeitadas, falem no Neymar a cada trinta segundos, basta ele estar em campo. É algo muito estranho. Basta o Neymar tocar na bola para os narradores ficarem excitados. E quando o Neymar, por acaso, dribla algum daqueles jogadores de terceira categoria, os narradores entram em êxtase. Ao final do jogo – em máximo atentado ao bom senso – mesmo nos jogos em que o time do Neymar perde, é mostrada uma edição dos momentos em que Neymar tocou na bola e fez alguma coisa. Mais ridículo ainda é quando o Neymar chuta uma bola no canto e o goleiro pula atrasado ou prefere levar o gol e esses narradores dizem que foi um golaço. E quando o Neymar joga na seleção – onde já tem um lugar cativo graças a esse marketing – há uma câmera exclusiva seguindo o menino.

     Mas senhores!... Quosque tandem pensareis vós que somos tão bobos?

     Todos desconfiam que a Copa do Mundo esteja sendo planejada para o Brasil vencer. E todo planejamento implica em marketing. Quando a seleção brasileira de futebol vencer a Copa de 2014 – caso os uruguaios não joguem a final – o ídolo que está sendo fabricado desde agora será transformado em herói, mesmo que fique no banco de reservas. Futuramente, os especialistas em futebol dirão que 2014 foi a Copa do Neymar, assim como 1958 foi a do Pelé e a de 1962 a de Garrincha.

     Coitados dos demais jogadores brasileiros que participarem daquela próxima Copa do Mundo que o Brasil deverá vencer! Serão apenas coadjuvantes.

     Recentemente tivemos o caso de Mario Fernandes, jogador do Grêmio que preferiu não aceitar a convocação para jogar contra o time de reservas da Argentina. Foi xingado por todo sudeste brasileiro e pelo norte-nordeste que segue as opiniões marketizadas, mas revelou personalidade. Se o próprio Diego Souza – o melhor jogador brasileiro da atualidade – ficou na reserva para dar lugar ao Neymar, que tem cadeira cativa na seleção, para que participar de uma seleção que, ao que tudo indica, costuma ser escalada pelos empresários dos jogadores?

     Acredito que outros jogadores – aqueles que tiverem mais personalidade e capacidade de discernimento -, à medida que se aproximar 2014, provavelmente vejam na atitude de Mario Fernandes um exemplo a ser seguido, preferindo dar mais atenção aos seus próprios clubes do que à seleção, que ainda é canarinho, mas pertence às grandes empresas multinacionais que a patrocinam.

     Até lá, muito ainda vai ser falado sobre o Neymar; sobre o grande craque que ele é, sobre os seus penteados, maquilagem, sorrisos, olhares. Toda uma geração está sendo predisposta a aceitá-lo como espelho. E muito se trabalha nos meios de comunicação para que isso aconteça.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

DIGA NÃO


Estamos aceitando tudo muito facilmente. Estamos aceitando que a Dilma realmente fará uma faxina nos seus ministérios, quando sabemos que a corrupção no Planalto vem desde o governo Lula, ou antes, com o Fernando Henrique; ou ainda antes, muito antes... Porque a corrupção está entranhada na alma brasileira e os nossos governos e governantes nada mais fazem que repetir o que essa alma conspurcada de “jeitinhos” pede.

     Somos um povo de corruptos porque elegemos corruptos; e mais corruptos ainda ficamos quando os corruptos oficiais mostram a sua cara corrupta e nada fazemos, a não ser apontar as feridas e rirmos delas.

     Estamos aceitando e rindo do que fazem conosco, mas nada fazemos porque temos medo ou porque nos sentimos impotentes ante o poder tão poderoso dos poderosos corruptos que assolam o país ou porque nos acostumamos a nada fazer, porque há uma lei brasileira que diz que malandro deve ser reverenciado e até cantado em óperas e uma corrupção maior será sempre uma malandragem maior e não exatamente um grande crime.

     Estamos ficando tristemente acostumados a aceitar a impunidade como lei, porque é através da lei que os corruptos ficam impunes; e a pensar que a cada vez que nos tiram um pedaço devemos agradecer porque foi somente um pedaço; e se nos escravizarem ainda mais, devemos rezar porque é uma servidão branda, que levará à morte em suaves prestações.

     Estamos ficando cínicos, debochados, tristes, apalermados, ridicularizados pelos povos que lutam pelos seus direitos, porque entregamos os nossos direitos justamente àqueles que denunciamos como corruptos, esperando que façam alguma coisa contra os seus próprios desmandos.

     Como crianças, esperamos que papai e mamãe nos consolem com mesadas e promessas.

     Estamos perdendo o ímpeto, a força, a energia. Não sabemos mais dizer não.

     Não dizemos não quando uma classe média alienada e deslumbrada passa quinze dias ouvindo música no Rock in Rio, enquanto a esmagadora maioria do povo trabalha para que eles se divirtam.

     Não dizemos não quando a Câmara Federal, através de dois deputados, com o plenário vazio, aprova 118 projetos em poucos minutos, sem discussão ou debates. E dois deputados que seriam, na aparência, de partidos opostos – PT e PSDB –, mas que se unem para defender os seus interesses comuns.

     Não dizemos não quando dois estados apadrinhados pelo governo federal – Espírito Santo e Rio de Janeiro – recebem todo o dinheiro oriundo dos royalties do petróleo extraído no que deveria ser o território brasileiro.

     Não dizemos não quando o governo investe milhões para a Copa do Mundo de 2014 – que será um evento que trará benefícios e ganhos somente para o governo e empresários aliados – ao mesmo tempo em que deseja lançar novos impostos, que seriam, talvez, para a área da saúde.

     Não dizemos não quando não há licitação para as obras da Copa do Mundo.

     Não dizemos não quando deputados corruptos são inocentados através do corrupto voto secreto.

     Não dizemos não quando os morros são invadidos por tanques e o povo é espezinhado em seus direitos, em clara demonstração de que a ditadura não acabou - apenas trocou de roupa.

     Não dizemos não quando a famosa Comissão da Verdade faz um acordo com os militares para que a verdade seja encoberta ainda mais.

     Não dizemos não quando filmes fascistas, que defendem o assassinato e a tortura – como os dois “Tropa de Elite” -, que instigam a violação dos direitos humanos, são veiculados como se fossem obras de verdadeira arte – quando são exemplos da natureza morta em nossos corações.

     Não dizemos não contra as comissões de parlamentares que apenas discutem a fome, apenas discutem o analfabetismo e a miséria, apenas discutem a falta de justiça em nosso país – em ambientes luxuosos, através de discursos emocionantes que não são mais que palavras vãs, pois se sabe que eles nada farão de concreto e visam apenas os votos dos passivos.

     Não dizemos não quando destroem as nossas florestas, liquidam com a fauna e flora, para plantarem transgênicos que provocarão a desertificação do solo.

     Não dizemos não quando constroem hidrelétricas que provocam cataclismos climáticos e ecológicos e expulsam os povos indígenas das suas terras ancestrais – apenas para dar dinheiro a um grupo de empresários.

     Não dizemos não quando o governo faz a opção obsoleta e assassina pela energia nuclear.

     Não dizemos não quando o governo diz não à energia eólica e à energia solar.

     Não dizemos não quando empresas de pecuária e agricultura extensiva transformam a terra que deveria ser dos brasileiros em imensos desertos.

     Não dizemos não quando empresas estrangeiras compram o Brasil aos pedaços.

     Não dizemos não quando o ensino brasileiro é um dos piores do mundo e os professores recebem salários de miséria.

     Não dizemos não quando as informações que recebemos são filtradas de tal maneira pelas agências de notícias, que sabemos no máximo 5% do que acontece no país e no mundo; e muitos são tão massificados que realmente acreditam que Nova Iorque é a capital do mundo.

     Não dizemos não quando nos tratam como massa, como bois no curral esperando pelo abate; como incapazes e inconscientes.

     Não dizemos não quando eles pedem os nossos votos.

     Raramente dizemos sim às lutas dos povos oprimidos, às lutas dos povos segregados, à luta dos martirizados por uma política que diz não ao povo.

     Diga não. Não somente para as grandes corrupções neste país de tantos carnavais. Diga não a si mesmo quando perceber que está concordando em ser roubado pelos impostos, roubado pelas falsas informações, roubado quando acredita nas promessas dos políticos que dizem não a você, roubado quando acredita que eleições resolverão todos os males, roubado quando não é atendido nas repartições dos governos que você ajudou a eleger, roubado quando espera nas eternas filas para receber atendimento médico, roubado quando eles aumentam ainda mais os próprios salários e não lhe dão nada, a não ser, talvez, um olhar de escárnio.

     Diga não, comece a dizer não, experimente dizer não. Continue dizendo não, insista em dizer não.

     Diga sim à sua dignidade.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

CAI A MÁSCARA DA ONU



Em 14 de maio de 1948, a recém formada Organização das Nações Unidas (ONU) autorizou que os judeus dispersos pelo mundo inteiro invadissem a terra dos palestinos, no Oriente Médio, e formassem um Estado. O Estado de Israel. Na verdade, muito antes daquela data, judeus do mundo inteiro tinham emigrado para a Palestina, fugindo de perseguições e seguindo orientações da Organização Sionista Mundial, que desejava que o estado judeu fosse formado na terra dos palestinos.

     Quando do Primeiro Congresso Sionista, realizado em 29 de agosto de 1897, na cidade suíça de Basiléia, sob a presidência de Theodoro Herzl, discutiu-se onde deveria ser instalado o estado judeu e venceram os partidários da Palestina, com o argumento de que aquela era a região de origem de toda a identidade judaica na Antiguidade.

     Desde aquela época, realizaram-se 21 congressos sionistas até a eclosão da Segunda Guerra Mundial. Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a Palestina ficou sob o domínio britânico, mas logo após o término da Segunda Guerra Mundial, quando os aliados estavam decidindo qual a melhor maneira de dividir o mundo entre eles, concluíram que o sonho sionista de fundar um estado judeu na Palestina era uma justa recompensa aos seus aliados de sempre.

     Em 1945, logo após a vitória sobre as forças do Eixo, Estados Unidos e União Soviética estabeleceram um acordo que permitiu a criação do Estado de Israel. O acordo previa a constituição de um Estado judeu com 57% do território e um Estado Palestino com 43%. Os árabes rejeitaram a proposta. Naquele momento viviam no território da Palestina, 1,3 milhões de árabes e 600 mil judeus.

     Em 29 de novembro de 1947, na assembléia geral da ONU presidida pelo brasileiro Osvaldo Aranha, o plano britânico de divisão da palestina é aprovado. Os países da Liga Árabe (Egito, Líbano, Síria e Jordânia), rejeitaram o plano. Em 30 de novembro de 1947 se iniciou o conflito entre forças sionistas e as palestinas, ao mesmo tempo em que as forças britânicas se retiravam do território. Com a derrota das forças palestinas cerca de 400 mil palestinos foram expulsos iniciando o êxodo que continua até os dias de hoje.

     Em 14 de maio de 1948, terminou o mandato britânico sobre a Palestina, sendo proclamado o Estado de Israel. O Estado de Israel substituiu as forças britânicas que dominavam o Oriente Médio, especialmente a Palestina. Com o apoio bélico e político dos Estados Unidos puderam enfrentar vitoriosamente a revolta dos países árabes, desalojar os palestinos e murá-los em duas estreitas regiões – Cisjordânia e Faixa de Gaza.

     Hoje cai a máscara da ONU. O presidente da Palestina, Mahmoud Abbas estará pedindo, na Assembléia Geral da ONU o reconhecimento do Estado Palestino. Não somente isso. Os palestinos pedem a delimitação de seu Estado a partir das fronteiras de 1967, que incluem a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental - territórios ocupados por Israel, que rechaça veementemente a decisão palestina.

     O que é lógico, porque o único interesse de Israel é o expansionismo, jamais a limitação do seu território.

     A ONU é uma organização estranha. Os países que a ela pertencem são totalmente dominados por apenas cinco países. Assim, para ingressar na ONU é necessário obter uma maioria simples de nove votos. Mas, além disso, os cinco países que detém o poder nuclear e, por esta razão, o poder de veto – Estados Unidos, França, Reino Unido, Russia e China - é que realmente são os donos da ONU. Desta forma, se o pedido palestino for aceito pela grande maioria da Assembléia Geral da ONU, um único país que tenha o poder de veto poderá barrar esse pedido.

     E os Estados Unidos já disseram que vão vetar o pedido da Palestina.

     O sonho da Palestina de ser reconhecida pela comunidade das nações como um Estado de direito cairá por terra, mas a ONU estará desmascarada como uma organização que não tem força alguma; que representa apenas os interesses dos países que tem armas nucleares.

     A luta dos palestinos continuará, mesmo que a pedradas, porque o julgamento da História é inexorável contra os opressores.

     Mas fica a pergunta: por que o Brasil de Lula e Dilma quer entrar para o conselho de segurança da ONU, que é uma organização que somente defende o interesse dos muito poderosos?

sábado, 17 de setembro de 2011

"MOSTREMOS VALOR, CONSTÂNCIA..."


[…] Regule V. S. suas marchas de maneira que no dia 14, às duas horas da madrugada possa atacar as forças a mando de Canabarro, que estará nesse dia no Serro dos Porongos. […] No conflito poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro. […] Não receia a infantaria inimiga, pois ela há de receber ordem de um ministro de seu general-em-chefe para entregar o cartuchame sob o pretexto de desconfiarem dela. Se Canabarro ou Lucas forem prisioneiros deve dar-lhes escápula de maneira que ninguém possa nem levemente desconfiar […]

(Assinado por Luiz Alves de Lima e Silva, Barão de Caxias. Reconhecido como documento autêntico pelo Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul).


     Nos festejos dos 170 anos da Revolução Farroupilha muita coisa bonita é falada sobre aquele acontecimento, nos meios de comunicação gaúchos. Documentários sobre caudilhos como Garibaldi, Bento Gonçalves, general Neto, tomam conta das telas de televisão e as pessoas se ufanam como se estivessem em plena revolução. No entanto, nada se fala sobre as mais de mil famílias de agricultores sem terra que ainda esperam assentamento.

     Nem se comenta sobre o solo deteriorado, em pleno processo de desertificação, provocado pelo desmatamento, pecuária extensiva, monocultura de produtos transgênicos, como arroz e soja, e excesso de agrotóxicos.

     As terras gaúchas estão entregues aos grandes latifundiários, aos grandes agricultores e às empresas de papel e celulose. A Revolução Farroupilha nada adiantou porque nada revolucionou. Trouxe dinheiro para alguns – aqueles que venderam as suas almas – que já eram muito ricos antes do início da revolução e se tornaram milionários após o seu término, em 1845 e que, cerca de duas décadas depois, em 1864, estavam a serviço do Império na Guerra do Paraguai.

     Naquela revolução o povo foi traído por grupos elitistas de bacharéis e fazendeiros que se reuniram no sigilo das Lojas, primeiro para derrubar o governo do estado; depois, como a revolução se tornou inevitável, para propor uma república que eles sabiam impossível naquele momento histórico e, mais tarde, para pactuarem com os agentes do Império a melhor maneira de acabar com a guerra, através de um armistício espúrio, somente assinado por David Canabarro – que ficou famoso pela batalha de Porongos, da qual não participou, ocasião em que desarmou os Lanceiros Negros e os deixou à mercê dos soldados de Caxias.

     Para que houvesse o armistício era necessário acabar com o sonho de liberdade dos negros do Rio Grande do Sul. Os negros tinham recebido a promessa de libertação, desde que lutassem ao lado dos patrões brancos. Como os patrões brancos decidiram com os outros patrões do império que a revolução deveria ter um fim – mesmo que esse fim resultasse em um armistício e não numa rendição dos revolucionários – Caxias e Canabarro urdiram a extinção do batalhão dos Lanceiros Negros no que foi chamado, mais tarde, de batalha de Porongos - que, na verdade, foi o massacre de Porongos.

     Logo depois foi assinado o armistício, que foi chamado de “Paz de Ponche Verde”, e o que restava do exército riograndense era extinto, enquanto Neto e Bento Gonçalves iam para as suas fazendas no Uruguai.

     Não por acaso, Garibaldi ficou pouco tempo entre as tropas farroupilhas e preferiu participar de uma revolução libertadora de verdade, no Uruguai, liderando a coluna dos italianos.

     Não foram poucas as traições, e entre todos, tornou-se famoso Bento Manoel Ribeiro, que começou ao lado da Revolução, passou a apoiar o Império, voltou para a Revolução e terminou defendendo o Império e ajudando Caxias. Talvez fosse uma espécie de leva e traz entre os maçons dos dois lados.

     (Anos mais tarde, quando o Império se transformou em república, devido à quartelada dos generais, aconteceram as revoluções libertadoras – também chamadas de revoluções federalistas – entre maragatos, ou libertadores, e chimangos - que estavam do lado do poder. Mas foram cruelmente derrotadas).

     O povo não entendeu direito porque tinha perdido a guerra que não era guerra, a revolução que nada tinha feito de revolucionário. Mas foi domado aos poucos, com o passar dos anos, quando as glórias da revolução foram sendo lembradas pelos CTGs (Centros de Tradições Gaúchas), que insistiam que a revolução não tinha sido perdida, mas postergada para um futuro remoto e que a República Riograndense continua a existir, mesmo que sob o apelido de estado do Rio Grande do Sul, que pertence à República Federativa do Brasil – uma república dentro de outra república.

     Restaram as tradições gaúchas, a cultura gaúcha e o “sentimento de gauchismo”, que é uma espécie de sensação de liberdade dentro da prisão. A sensação de que vivemos em uma pátria gaúcha, embora presa ao Brasil. Os mais otimistas dizem que somos brasileiros por opção, mas a verdade é que somos brasileiros por obrigação.

     E essa obrigação faz com que tenhamos governos e governantes estaduais que pouco se interessam com a nação gaúcha e que são ligados estreitamente às tradições brasileiras que colocam a corrupção e o entreguismo em primeiro plano.

     Por isso temos tantos sem terra, quando a terra deveria ser de todos. E também por isso, essa terra que deveria ser de todos está sendo castigada, desertificada, tornada em pó.

     Nos festejos destes 170 anos que lembram a gesta farroupilha muita carne tem sido assada, mas o churrasco é para os que tem dinheiro. A grande maioria do povo apenas assiste pela televisão eles churrasquearem. No dia 20 de setembro teremos grandes desfiles, quando eles, os donos das terras, mostrarão os seus belos cavalos e as suas pilchas cada vez mais sofisticadas.

     O povo de verdade ficará olhando e aplaudindo, talvez com lágrimas nos olhos.

     Ao povo resta cantar o hino riograndense e lembrar que “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”. E acreditar que tudo é possível, até uma nação justa e igualitária, desde que “mostremos valor, constância...”.

sábado, 10 de setembro de 2011

SEU CHICO, O FUTEBOL E A REPÚBLICA RIOGRANDENSE


Estava espairecendo na noitinha do sábado que precede o famoso dia 11 de setembro e pensando na melhor maneira de ajudar a Dilma, que diz que não desistiu, só cansou de faxinar, quando encontrei o seu Chico que estava com ares de quem viu passarinho desconhecido.

     - Como vai, seu Chico, tudo bem?

     - Pra lá de bem! O senhor viu esse tempo. Só ameaça chover e nada. Arisco... Enquanto isso, lá em Santa Catarina o povo está debaixo d’água. De novo!

     - E nas mesmas cidades da outra enchente, seu Chico.

     - A dinheirama que esses políticos ganharam com aquela enchente pra arrumar tudo e evitar novos alagamentos... Pra onde terá ido? O senhor sabe?

     - Saber com certeza eu não sei, seu Chico, mas será que nessa faxina da Dilma ela não encontrou esse dinheiro embaixo de algum tapete lá do Planalto?

     - Pois é... Seria o causo de perguntar... Mesmo porque aquela senhora anda cansada de faxina, louca pra se aposentar... Enquanto isso, os servidores da Câmara receberam um aumento federal - o senhor viu?

     - Federal mesmo, seu Chico. Dizem que esses servidores estão ganhando mais que jogador de futebol da Arábia Saudita.

     - E mais não sei quantos milhões para o Corinthians. Parece que é pra algumas obras.

     - Eles são muito obreiros, seu Chico. Trabalham muito. Estão sempre conseguindo um dinheirinho pra um ou pra outro.

     - Por falar, indiciaram o chefe da quadrilha. O tal de Zé Dirceu. Quero ver quem vai ter caracu pra condenar!

     - Vai ser a maior surpresa, seu Chico, se condenarem alguém daquela turma dos quarenta ladrões.

     - E o Ali Babá, o senhor sabe onde anda?

     - Voando como uma mariposa. Tem dinheiro sobrando para passeios.

     - Foram oito anos. Deu pra juntar algum troquinho, o senhor não acha?

     - Acho que não precisa mais mendigar. Qualquer coisa é só falar pra companheira, que guarda o assento dele lá no palácio.

     - Essa gente vive de palácio em palácio, e o povo sendo agredido nas favelas, nos morros, nos barracos.

     - É que eles acreditam que povo é descartável, seu Chico. Usa-se durante as eleições e depois se joga fora. E os que reclamam levam chumbo.

     - Parece que agora não é mais chumbo. Eles estão ficando sofisticados. Deve ter sido o treinamento no Haiti. Agora eles atiram com balas de borracha, que só fura e provoca algumas contusões, quebra algumas costelas, um ou outro traumatismo craniano. E também usam aquele gás especial, que dizem que é recolhido nas sessões da Câmara e do Senado, porque faz chorar.

     - Alguma coisa também se recolhe nos arredores do Planalto, seu Chico. Mas, trocando de saco pra mala: o senhor chegou a ver o jogo da tardinha?

     - Pois não é que eu vi! Eu estava ouvindo o canto do sabiá, lá no pátio, quando a patroa me chamou dizendo que estava passando o meu jogo de sábado. Obedeci e fui ver. As mulheres tem dessas coisas: às vezes pensam que estão agraciando quando estão ofendendo... Mas é assim mesmo... Fazer o que? Sentei e comecei a ver dois bandos de jogadores correndo atrás de uma bola. Cada bando ostentava o nome da sua empresa na camiseta.

     - E viu as expulsões?

     - Mas tinha que ver! O narrador se esgoelava dizendo que era um jogo maravilhoso e eu fiquei bem atento para tentar achar a tal de maravilha e não encontrei por mais que tentasse. Até falaram que tinha um grande craque no time de branco e eu pensei se não seria o goleiro, que era o que mais se mexia naquele time. O senhor não acha?

     - Até acho. Mas o que eles chamam de craque é um rapaz que até chuta bem no golo e tem uns olhos arregalados. Gosta de fazer malabarismos...

     - É de circo?

     - Pois não sei se é de circo, seu Chico, mas o que me impressionou é que bastava chegar um dos de azul perto dele para ele cair e o juiz dar falta.

     - Isso acontece muito. O senhor sabe que esses meninos muito frágeis devem ser protegidos, principalmente se for chamado de craque pela imprensa. Não sei porque, mas a imprensa, vez que outra simpatiza com um desses meninos.

     - Pois eu também não sei, seu Chico. A imprensa futebolística é muito gozada. Falam cada coisa estranha... Mas então o senhor viu as expulsões?

     - Mas como não?! Foi o próprio menino que não agüenta o tranco que caiu duas vezes e duas vezes o tal de juiz, que dizem que é muito bom, expulsou os jogadores que chegaram bem pertinho dele. Parece que ele vale muito.

     - Milhões e milhões, seu Chico.

     - E pra fazer aquilo – caindo uma vez e outra também?

     - Pois dizem que o futebol brasileiro agora é assim, seu Chico. O melhor é aquele que cai mais.

     - E também o que cai mais no agrado da imprensa, pelo que vejo. Mas se são tantos milhões assim...

     - Incalculáveis milhões!

     - Se é assim, porque não vendem esse menino frágil pro exterior e melhoram a saúde do povo, o SUS, dão moradia pros pobres...

     - Vender eles querem vender, seu Chico, mas o dinheiro vai é pro bolso dos clubes, do que é vendido, dos empresários...

     - E pro povo nada, não é? O povo não vale nada pra eles.

     - Só nas eleições, seu Chico.

     - E se alguém se queixar, bala de borracha nos queixos e gás parlamentar.

     - Lá no Brasil é assim, seu Chico. Eles não perdem essa mania de matar gente da torcida que aplaude jogador rico. Não que aqui não aconteça.

     - É verdade. Não que aqui não aconteça alguma coisa parecida. Mas inventa de botar tanques pra cima do povo aqui no Rio Grande pra ver o que acontece de verdade!...

     - E o que, seu Chico?

     - Cantamos o hino da República Riograndense na cara deles e eles se micham na hora. Principalmente quando for cantada aquela parte da letra: “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

     - Isso é verdade, seu Chico. E vamos pra cima deles, gritando: “Mostremos valor, constância...”.

     - Saem correndo na hora, porque não sabem o que é valor, nem constância, mas adoram ser escravos.

     - Escravos de ilusões, seu Chico. Do futebol, das novelas, do consumismo e de outras ilusões.

     - Mas então Santa Catarina está debaixo d’água, de novo...

     - Pois é, seu Chico.

     - Terra de Anita Garibaldi... Dá o que pensar...
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