sábado, 19 de novembro de 2011

"OUSAR LUTAR, OUSAR VENCER"*


O blog está completando dois anos de existência neste dia 19 de novembro e agradeço aos seguidores e amigos que tem me incentivado a continuar, “não se entregar pros homens, de jeito nenhum”, seguir em frente, não aceitar as mentiras oficiais ou as verdades fingidas, desmistificar as manipulações dos poderosos e abraçar a causa da vida.

     Quixotesco? Talvez. Mas somente os muito passivos e acomodados ainda acreditam que a palavra “quixotesco” significa ingenuidade. Se a maioria das pessoas acreditasse que “sonhar mais um sonho impossível” pode ser possível, e lutasse por isso, não teríamos este mundo dominado pelos banqueiros e políticos que o estão destruindo, com o apoio das ovelhas muito ovelhas. 

     Felizmente, multidões no mundo inteiro estão acordando para a realidade e tentando agir como verdadeiros cidadãos nos seus países, apesar da troglodita repressão que sofrem. Talvez um dia os brasileiros também acordem.

     Com mais de 280 matérias escritas por mim, nestes dois anos, o blog tem sido visitado por pessoas de grande parte do mundo. Pessoas que moram em mais de 40 países já estiveram por aqui. Alguns, apenas de passagem; outros gostaram e tem sido assíduos freqüentadores. 

     Em número de visualizações, os 10 primeiros países são:

Brasil – 15.960.
Estados Unidos – 3.688.
Portugal – 290.
Alemanha – 289.
Rússia – 199.
França – 143.
Coréia do Sul – 143.
Polônia – 77.
Eslovênia – 75.
Ucrânia – 70.

     Hoje apareceu o primeiro visitante da Austrália, talvez avisado pelos amigos da Nova Zelândia, que, volta e meia dão uma olhadinha no blog. Não faltam os visitantes da América Latina, da África – principalmente Angola e Moçambique – e da Ásia. Pessoas de quase todos os países da Europa visitam este blog. 

     A todos eu deixo o meu agradecimento e um poeminha de fim de semana.


MOINHOS E OUTROS GIGANTES 


Tiro a lança do cabido 
Dizem-me louco por não quedar quieto
Em senil cumplicidade com o Tempo.
Estorva-me a idade, essa tediosa senhora
Que me espreita com seu olhar cego e sábio
Revelando  sonhos, sensações, cicatrizes
Cúmplices de horas súbitas, heróicas.

Eis que chega a aurora do meu dia                         
E a meu fraco rocim - pura magia -
Confere força e bravura tão galante
Que eu, Andante,
Enquanto a luz demora
A fiar em sua aura nossa via
A mim pergunto
Em tom de mote ou jura:
 - “É este o Quixote? Este o Rocinante?”

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* Frase de Carlos Lamarca.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A IRMANDADE DA IMPUNIDADE



É como uma grande irmandade. Sabem aquelas irmandades que, muitas vezes, funcionam como grandes clubes de ajuda mútua, escalando os seus membros para todos os cargos disponíveis, a ponto de influenciar as decisões dos governantes visíveis, que são títeres em suas mãos?

     Aquelas irmandades tão organizadas que tem bancos que fornecem crédito aos seus membros, ocultas Câmaras de Deputados, governantes que somente eles conhecem e, provavelmente, uma polícia particular, e cujos membros se consideram superiores aos poderes constituídos das nações.

     Irmandades que se autodenominam irmandades, justamente porque os “irmãos” que as constituem ajudam-se em todas as situações, como verdadeiros irmãos, e consideram os familiares que não são “irmãos” como agregados e serviçais – porque para eles os laços de sangue somente existem dentro das irmandades, que tudo lhes dá.

     Irmandades que se mostram aos olhos do público vulgar – ou “profano”, como eles preferem - como filantrópicas, revolucionárias, espiritualistas, e que provavelmente exerçam muita filantropia entre os seus membros, sejam revolucionárias quando as revoluções são reacionárias e lhes trazem grandes benesses, e espiritualistas quando essa espiritualidade lhes proporciona grande poder material.

     Parece uma daquelas irmandades cujos membros são facilmente reconhecíveis pela arrogância e certeza da impunidade.

     É como uma dessas irmandades.

     Dilma sancionou a Comissão da Verdade. Uma estranha Comissão da Verdade. Começa com as datas-limites. As investigações serão feitas, se forem feitas, de 1946 a 1988. Não fica especificado que a razão da “Comissão da Verdade” é deslindar os crimes da ditadura militar, que começou em 1964. É claro que aqueles crimes serão pesquisados, mas daquele jeito que todos sabem: com muito carinho, para que ninguém se machuque.

     O governo Lula/Dilma, desde que tomou posse, em 2003, tornou-se muito amigo dos militares. É o governo civil que os militares sempre desejaram. Podem pesquisar, podem descobrir, podem divulgar, mas não podem punir.

     Depois de 1988, “stop”. Faz de conta que não aconteceu nada depois daquela data; faz de conta que a nova Constituição, elaborada em grande acordo entre civis e militares, impediu que novas torturas e assassinatos políticos acontecessem.

     Além disso, a “Comissão da Verdade” tem algumas cláusulas muito interessantes. Os integrantes da “Comissão” terão o direito de julgar se os dados obtidos poderão ou não ser revelados. Vejam o que diz o Estadão de 18 de novembro de 2011:

     (...)“A lei determina o prazo em que os documentos deverão ser mantidos sob sigilo: 25 anos para informações ultrassecretas, 15 anos para os dados secretos e cinco anos para os reservados. A prorrogação do prazo só será concedida para os documentos ultrassecretos, por única vez, limitando a restrição ao acesso a 50 anos.”

     E essa é a verdade da “Comissão da Verdade”. Saberemos algumas migalhas, as migalhas que os militares consentirem, mas o governo sempre estará dizendo, em óbvia manobra demagógica, que tem uma comissão que busca a verdade.

     O mundo se surpreende com essa “Comissão da Verdade” muito brasileira.

     A revista britânica “Economist” (http://noticias.r7.com/brasil/noticias/-economist-analisa-atraso-brasileiro-em-lidar-com-os-crimes-da-ditadura-20111118.html), em matéria a respeito, diz que

     "O Brasil tem sido lento na revisão dos crimes da ditadura. A Argentina começou a processar os militares logo após o colapso do regime, em 1983", diz a reportagem. "A Suprema Corte do Chile decidiu em 2004 que os "desaparecimentos" não eram passíveis de anistia."

     Mas esse tipo de “Comissão da Verdade” já está dando anistia antecipada aos torturadores e assassinos do regime militar. Na mesma matéria:

     “Segundo a Economist, uma das consequências desse atraso "é que a repressão continua, só que agora a violência se concentra mais na polícia, e não no Exército".

     A revista destaca que a truculência da polícia é raramente punida e frequentemente aplaudida, como acontece nos filmes Tropa de Elite, e que ativistas esperam que a Comissão da Verdade altere essas opiniões.”

     O mundo inteiro sabe que o governo brasileiro marginaliza a pobreza, mas o governo manipula a nossa opinião pública e deseja manipular ainda mais com uma nova lei que está sendo elaborada nos bastidores para cercear, fiscalizar e monitorar a imprensa. Toda ditadura necessita que toda a imprensa fique ao seu lado, ou não será uma ditadura completa.

     Governo e militares formam uma irmandade no Brasil. Uma irmandade daquele tipo.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

HIPÉRBOLE DESPICIENDA


Auxese, auxesys. Proto língua luminescente in barbaris tempus. Do verbo. Tempus fugit até chegar in mec, quando destruíram oficialmente a nossa língua e a tornaram em ruído fluido fluindo em escravo som, gritado som, inapreensível som, somente inteligível em ministérios histéricos e vorazes. Tanques avançavam nas favelas e o povo aplaudia: “Que bom!” Despiciendo povo, diziam os tanques hiperbólicos em sua auxese magnífica, tiros em sequência, que poderia ser poesia concreta, mas era somente o brasil dos iludidos, dos conformados com tão minúscula herança. Ou dos debochados, que se transformavam em metáforas de estátuas e fingiam-se de versos livres, mas seus versos estavam presos, muito presos à vulgar métrica do consentimento e da passividade.

     Alguém falava em liberdade abre as asas sobre nós e todos cantavam nos maracanãs em fúria nas calmas tardes de domingo, quando segunda-feira poderia ser o dia oficial da fome – mas que importa! – e os pássaros de sempre cantam nos hospícios, dizia Torquato Neto, pouco antes do suicídio das onças que se jogavam frente aos caçadores ou das matas que se ofereciam às motosserras ou dos indígenas que se deixavam afogar nas águas das gigantescas hidrelétricas, construídas para deleite de senhoras com tpm pós-menopausa, falando que eram poderosas, osas, osas, osas, repetia o eco pindorâmico em pletórico espasmo lingüístico.

     Signo em si, signo em si, signo em si bemol. Sol, sol, sol a crestar e destruir os restos daquela terra salve-salve-se quem puder, mas quem podia, naquelas tardes de outrora, quando não se ouvia mais o melódico canto do sabiá, somente o mercadejar dos mercadores oferecendo terras e minérios e mulheres com grandes seios e nádegas pomposas para vossa delícia, ó senhores que nos comprais tanto e por tão bom preço?!

     Feicebuques feicebuqueavam e orcutes orcuteavam com pessoas que escreviam sejamos bonzinhos porque tudo passa e a vida é uma ilusão como o amor da primeira primavera, quando vemos apenas a pele e os cabelos e agimos como os embasbacados que aplaudem corruptos, porque tudo é sentir na época das flores e as pessoas se transformam em sorrisos ambulantes e cantam canções bobas, porque somos bobos, mesmo nas últimas ou na última primavera e bendita seja a bobagem nossa de cada dia amém, para todo o sempre era assim no tempo pouco antes do tempo em que surgiram os grandes enganadores, com focinhos de raposa e desejos pretéritos de meretrizes, oferecendo, generosos, o lazer supremo da bem-aventurança, como somente políticos muito políticos sabem oferecer e todos preferiram a ilusão da possibilidade da verdade e somente perceberam a gigantesca e hiperbólica mentira quando já estavam acostumados com a sua presença e com a necessidade de mesuras lavapés rapapés quebraespinhas vênias discursos elogiosos prostituição moral e cívica, palavras esquivas e esguias na hora de pedir, pedir, pedir, talvez implorar de joelhos a tanta necessidade de participar do bolo, da bola, da bolinha, do trem bala da alegria - tanta necessidade de ser joguete nas grandes mãos dos domadores de vontades que diziam este país é nosso, somente nosso e você também poderá ter a sua parte se consentir em dobrar-se, assim, mais um pouco, pronto!, agora é dos nossos, somos todos iguais nesta noite, jorge sentou praça na cavalaria, fio maravilha faz mais um pra não dizer que não falei das flores e tico-tico no fubá não é o mesmo que chico-chico no oba-obá e tudo passa, tudo passará quando você cantar com ardor e dor a canção do grande líder, que agora já é amigo de todas as forças que antes eram inimigas e temos acesso à senha do enriquecimento, basta consentir em não mais pensar.

     Era o tempo em que pessoas se envolviam nas hipérboles oficiais e gostavam do carinhoso contato que oferecia empregos e viagens e uma velhice tranqüila e segura, desde que.

     Imoralia maxima. O amor nasce do sexo, diziam os educadores que davam camisinha para os pré-adolescentes experimentarem o máximo amor e faziam-se passeatas pela liberdade da embriaguez e somente os cinco conhecidos sentidos recebiam nota dez nos festivais de patriotismo, onde meninas com plumas coloridas pulavam – nossa! – e ejaculações precoces, muito precoces eram oferecidas aos donos das nossas mentes, que diziam aqui está o futuro da pátria amada, cantemos o hino que lembra o tempo em que éramos valentes, agora erramos, mas acertaremos de tiro em tiro todas as favelas para que em suas terras tão valorizadas possam ser erguidos edifícios para o nosso lucro eterno.

     Ou quase. A eternidade era uma mentira e todos acreditavam somente no prazer e muitas eram as possibilidades vendidas para que todos tivessem o seu momento encantado de cada dia e poucos, somente os muito pobres e marginalizados, eram oficialmente presos, indignos de vender alegria sem autorização ou diploma de curso superior, este é um país de todos, diziam os donos das nossas vontades e veleidades. Os demais eram mortos. Mortos entre grades e campos de concentração, mortos pela fome ou pela desesperança e mesmo os mortos de esperança eram mortos, números, estatísticas, excesso de povo que deveria ser controlado em seu excesso de fome, caso contrário não teríamos o que exportar para os países ricos – como ficaria a nossa balança comercial?

     Tempos em que ainda existia um país, mesmo que agonizante em seus campos e matas, que se tornavam, a cada dia, mais estéreis e depredados para júbilo dos grandes negociantes, euforia de ministros e membros do congresso dos prostituídos e declamações orgulhosas dos donos das nossas vidas tão democráticas.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

SEU CHICO E OS GOLPES DA REPÚBLICA


- Esses brasileiros tem uma mania estranha de espichar feriados – disse o seu Chico, depois que me encontrou e cumprimentou no dia 15 de novembro, naquele deserto de cidade que até parecia que todos tinham morrido.

- Pois não é, seu Chico?

- Parece que ninguém gosta de trabalhar. Hoje é o dia, mas ontem já foi ponto facultativo e todos preferiram o facultativo ao ponto. Dizem que é costume de carioca essa coisa de feriadão, o senhor não acha?

- Lá malandragem é... Agora, se é coisa de carioca não posso lhe dizer com certeza. Quem sabe não é de paulista estressado?

- Mas estão sempre estressados aqueles paulistas! Será que é porque não ouvem o cantar dos passarinhos?

- Periga ser, seu Chico. Dizem que eles não param de correr mesmo quando estão dentro de casa. Mas deve ser lenda...

- Lenda é essa coisa de que a República foi proclamada com o apoio do povo. Na época, o povo nem sabia o que era República. Talvez até hoje não saiba.

- Foi um golpe de estado no Imperador, seu Chico. Colocaram ele num navio e depois repartiram os cargos.

- E mal repartidos. E olha que de lá pra cá golpes de estado é que não faltaram. Sem contar os da República Velha, que era toda hora, e a revolução de Getúlio em 1930, que foi um favor para o Brasil, depois foi uma sucessão de golpes.

- A começar pelo golpe no próprio Getúlio, em 1945, seu Chico, quando os militares o depuseram por ordem dos Estados Unidos. Na mesma época fizeram o mesmo na Argentina: depuseram o Perón.

- E o povo na orfandade, como sempre. Depois mataram o Getúlio, em 1954, porque eu não acredito que aquilo tenha sido suicídio...

- Mas e a carta-testamento, seu Chico?

- Pois aquela carta ele poderia ter escrito justamente para que o povo o ajudasse a evitar o golpe e teria sido usada pelos golpistas e assassinos para justificar o suposto suicídio. E depois golpearam o Jânio, em 1962.

- Se bem que o Jânio estava pedindo para ser golpeado, seu Chico. Um governo que não fazia nada.

- Não fazer nada por não fazer nada, temos exemplos mais próximos, o senhor não acha? E nem por isso há a necessidade de golpe... Mas aquele foi um golpe duplo. Na verdade, eles queriam era evitar que o Jango, que era o Vice-Presidente, assumisse, e se não fosse o Brizola...

- O Brizola e o povo gaúcho, seu Chico.

- Nas trincheiras. Mas pouco adiantou, porque o Jango não era exatamente um guerreiro. No primeiro ventinho ele saiu voando. Em 1964.

- Ele disse que era para evitar o derramamento do sangue brasileiro.

- Talvez até fosse, talvez até fosse... Mas não convenceu ninguém. De qualquer maneira, o sangue foi derramado e da maneira mais traiçoeira. Torturas, assassinatos...

- Mas agora tem a Comissão da Verdade, seu Chico, que vai desvendar o que realmente houve naquela época de tantas traições e mandar prender os torturadores e assassinos.

- E o senhor realmente acredita nisso?

- A gente tem que acreditar, seu Chico, senão vai acreditar em que?

- Em Deus e Nossa Senhora, meu amigo. Para mim os golpes não cessaram.

- Por que, seu Chico?

- Mas olha só essa roubalheira! Em pleno governo! Mas não é uma falta de pouca vergonha?!

- Mas dizem que isso é invenção da imprensa da direita, seu Chico.

- Se fosse invenção não tinha tanto ministro demitido, tanta CPI e tanta denúncia. O senhor há de convir que os roubos estão sendo provados, um por um. E só não aparece mais é porque o governo daquela senhora faz questão de esconder o lixo embaixo do tapete.

- Será que é por decoro, seu Chico?

- Até pode ser... Mas penso que deve ser mais por vergonha mesmo.

- E porque o senhor disse que os golpes não cessaram?

- Mas existe pior golpe que o golpe no nosso bolso? Além da miséria, do analfabetismo, da saúde porca, da educação zero e da única preocupação com a tal de Copa do Mundo que só vai dar dinheiro para o governo e seus amigos, ainda nos roubam descaradamente! Mas isso não é golpe atrás de golpe?!

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A BATALHA DA ROCINHA



E eu pensando que a culpa era do Jobim... Perdoe-me o Jobim, que apenas cumpriu o seu dever e não devia estar muito satisfeito de cumprir aquele tipo de dever. Atacar, humilhar, invadir as casas do povo pobre não é coisa digna das Forças Armadas. Inventou de falar das mulheres da Dilma e foi demitido. Coisas da vida.

     Hastearam duas bandeiras lá no alto da Rocinha: a bandeira do Brasil e a bandeira do Rio de Janeiro. Supõe-se, portanto, que até então, antes das bandeiras tremularem bem no alto do morro, a Rocinha – e favelas adjacentes – não era nem brasileira, nem carioca. No máximo era uma paisagem pitoresca, admirada pelos consumidores de drogas da zona sul.

     Agora cabralizou. Cabral tomou a Rocinha com o auxílio das Forças Armadas. Dizem que foi tudo em paz. Nenhum tiro foi trocado com o terrível e perigoso povo que habita naquela região. Nenhum morto ou ferido. O grande exército da Rocinha preferiu não combater. Esconderam-se! – pensam os nossos gloriosos militares, que estavam preparados para uma grande e penosa batalha.

     A Batalha da Rocinha, que ficaria nos anais da história guerreira do Brasil, não aconteceu. Talvez para tristeza de alguns mais afoitos soldados, que desejavam treinar tiro ao alvo. Não é todo dia que se tem a chance de atirar em alvo vivo. Ficaram frustrados.

     Terão novas chances, asseguram seus chefes. Povo é que não falta no Brasil. Principalmente povo pobre. Povo faminto, drogado, embebedado pelas ilusões lúlicas e dílmicas de bastante futebol, mas povo. E povo pobre sempre é alvo.

     Li que o povo da Rocinha estava com medo que os invasores fizessem o mesmo que fizeram na favela do Alemão: atirassem em quem se mexesse, invadissem as casas a pontapés de coturno, tirassem o direito de ir e vir, revistassem a todos – porque, no Brasil, todo pobre é suspeito de ser marginal e todo marginal é suspeito de ser bandido. Entre outras coisas inconstitucionais. Porque a Constituição, vocês sabem, é somente para os civis. Principalmente civis pobres.

     Que nada! Dizem os grandes veículos de comunicação que tudo transcorreu em paz. É claro que todos os mais de cem mil moradores estão sendo revistados sempre que entram e saem do local onde não se travou a grande batalha. Também é claro que casas foram invadidas – casas suspeitas – e que pessoas foram presas – pessoas suspeitas. Mas o que é isso perto do que poderia ter sido a Grande Batalha da Rocinha, para a qual Exército, Marinha, Aeronáutica e toda a polícia do Rio de Janeiro estavam preparadas?

     O que significa rasgar a Constituição. Nem a OAB se manifesta. Isso já vem acontecendo desde 1964 e ninguém reclama. Muito menos o povo que não é composto por bacharéis e que deve se dar por muito satisfeito por ainda estar vivo, em sua grande maioria. A grande vitória é conseguir viver um dia da cada vez – como dizem alguns dos grandes pensadores da Rocinha e de outras favelas que esperam a sua vez de serem “pacificadas”.

     Tudo por amor ao futebol, uma atividade que orgulha a nossa nação. Teremos uma Copa do Mundo limpa de pobreza.

     Claro que tudo se resume ao combate ao tráfico de drogas. Inclusive, temem alguns muito viciados, não somente da zona sul carioca, que as suas drogas preferidas escasseiem e se tornem mais caras. Craques o povo tem, mas a cocaína nossa de cada dia? – como diriam, ou devem estar pensando, alguns sérios senhores e algumas ansiosas senhoras.

     Ora!, senhoras e senhores... Não se apoquentem! É tudo uma questão de mercado. A apreensão e queima de drogas é necessária para que os preços não sejam demasiado aviltados. Afinal, este é um país muito capitalista. Além disso, este é o país do “jeitinho”. Se o traficante “A” foi preso, sempre restará o traficante “B”. Na falta dos dois e se você tiver alguma influência, é só falar com algum policial amigo.

     O importante mesmo é que as favelas desapareçam ou sejam afastadas para muito longe até a Copa do Mundo. Não esqueçam que o turismo é uma fonte de renda para os que tem renda.

     E o Brasil, principalmente o Rio de Janeiro, tem que mostrar uma cara bonita e faceira para os seus verdadeiros donos, quando eles começarem a chegar, em 2014.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

AMOR DE TENTAÇÃO


O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, disse na Câmara dos Deputados que ama a Dilma. Dilma, entrevistada sobre a crise no ministério de Lupi, perguntou: “Que crise?”

     Não há crise no Ministério do Trabalho, mas amor. Lupi também afirmou que adora o Lula. São muitas emoções. Fico me perguntando se Dilma, depois da declaração de Lupi, não se olhou no espelho, arrumou a maquilagem e ficou divagando sobre tempos não muitos distantes...

     Também fico me perguntando por que somente a revista Veja denuncia os casos de corrupção nos ministérios de Lula/Dilma. Os demais veículos de comunicação apenas retransmitem notícias, inclusive as da Veja, mas nada investigam. É claro que a maior parte desses veículos recebe do Governo muito dinheiro para fazer propaganda institucional e nem quer saber como vai a nossa corrupção diária.

     Logo a Veja, considerada a revista mais reacionária do Brasil, faz jornalismo investigativo e vai detonando um por um todos os ministérios da Dilma. Na verdade, tenta detonar, porque a dupla dinâmica Lula/Dilma não se deixa abater, como diz o Lupi, e apenas troca os ministros, deixando a corrupção em paz, porque dela necessitam para os seus negócios políticos.

     Tirar um ministro não significa acabar com a corrupção do seu ministério. Poderá até acontecer o contrário. O Governo, avisado pelas matérias jornalísticas de que determinado ministério apresenta falhas gritantes no seu esquema corruptível, depois de um mês de fingidos bate-bocas e negativas demite o ministro daquela pasta e coloca outro do mesmo partido, mas bem mais esperto, que terá a função de tapar os buracos por onde vaza a corrupção ministerial.

     E Dilma, a presidente oficial, ao demitir o ministro em questão é vista pelo povo como alguém que foi traído por ministros inescrupulosos. E os demite, retira os malfeitores, acaba com os malfeitos e se transforma em heroína.

     Será a Veja uma revista do Governo?

     Se for, nada contra. Cada um escolhe o caminho que prefere, mas torna-se suspeita de ser uma grande auxiliar do Governo, quando se limita a críticas sobre ministérios, avisa por onde está correndo o óleo infecto da corrupção, para que possa ser contido a tempo, mas não se preocupa com outros assuntos igualmente malcheirosos e que são a verdadeira razão de Dilma ter sido escolhida para guardar o lugar do Lula.

     Não vejo nas revistas, jornais, redes de televisão acusadas de estar a serviço da oposição, nenhum grande artigo sobre o terror que impera nos campos do Brasil, os assassinatos quase em série daqueles que são contra a devastação e a degradação da natureza.

     Nenhum desses veículos de suposta informação combate as usinas de Jirau e Santo Antônio, em Rondônia, fonte de inúmeros males, ou denuncia com força o monstrengo chamado Belo Monte que está sendo criado no Pará.

     Não são contra a plantação de produtos transgênicos, que afetam a saúde de todos os brasileiros e desertificam as terras.

     Nada falam ou escrevem contra a monocultura extensiva, que traz a escravidão ao campo e provoca grandes desertos.

     Não pressionam o Governo para parar de vez com o desmatamento desenfreado na Mata Atlântica e na Amazônia, porque as outras regiões já foram desmatadas.

     Não se colocam a favor de uma distribuição agrária mais justa. Ao contrário: combatem os sem terra e fazem de tudo para desacreditar o movimento que luta por terras para quem nelas trabalha.

     Da mesma forma que o Governo, colocam-se a favor dos banqueiros, dos empresários, dos latifundiários, dos gananciosos que estão vendendo o Brasil.

     Além disso, assim como o Governo, adoram o Obama, os Estados Unidos e todas as ações opressoras que intentam impor um governo mundial.

     Vendem a idéia de que viver é igual a consumir e a buscar a depravação mental, a alienação.

     Por isso, aqueles que seguem as informações desses veículos aparentemente insossos, mas especialistas na ideologia da passividade e do mercantilismo, aos poucos passam a acreditar que o verdadeiro bem resume-se na volúpia de atropelar o próximo; rezam pela cartilha da moral predatória e pensam que mais inteligente é aquele que mais rouba.

     Lupi ama a Dilma e adora o Lula, mas além desse amor e dessa adoração – como todos os demais ministros e políticos de todas as áreas e de quase todos os partidos que fingem nos representar – ama e adora o seu ministério, que significa dinheiro e poder material.

     É um estranho amor, que tem como base um dote estipulado para enriquecer os membros do seu partido em troca dos votos a favor do Governo nas duas casas do Congresso.

     É a tentação, a sedução do poder que move esse amor e essa adoração.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

NEM NA ÉPOCA DA DITADURA OFICIAL


Durante o período que foi convencionado chamar “anos de chumbo” da ditadura militar, os estudantes sentiam-se livres dentro das universidades. Uma universidade é uma república independente, que possui outras repúblicas dentro dela: os alojamentos dos alunos as salas de aula, a reitoria...

     Estudei em Santa Maria e participei do movimento estudantil nos anos ’70, na cidade mais policiada e militarizada do Rio Grande do Sul. Lutávamos contra a vigência do decreto-lei 447 – que permitia a repressão ante qualquer tentativa de crítica política no interior das escolas e universidades - e contra o decreto-lei 228 – que impedia a politização e participação de eleições livres em diretórios acadêmicos.

     Éramos vigiados, fotografados, intimidados, ameaçados, colocavam escutas em todos os lugares. Eventualmente alguns eram presos. Sabíamos dos “estudantes” infiltrados nos cursos e salas de aula com o único objetivo de vigiar os demais estudantes e fazíamos deles “amigos” que levávamos para beber cerveja e os deixávamos embriagados e desmoralizados, gritando vivas ao Che Guevara até que fossem recolhidos pelos seus amigos policiais. E tinham que ser substituídos.

     O estudante mais suspeito era aquele que falava em revolução ou em Che Guevara. Invariavelmente – com a exceção dos muito ingênuos – eram agentes da polícia em busca de informações. Informações que nem entre nós trocávamos.

     Se não podíamos espalhar panfletos do tipo “abaixo a ditadura”, fazíamos quase inofensivos jornais de aula – paginados em máquinas de escrever e mimeografados – onde os colegas ficavam sabendo quem estava namorando com quem e outras fofocas do gênero e, entre as fofocas, alguns toques como “votar em branco nas eleições espúrias e manipuladas do DCE ajuda a sua consciência a ficar em paz” – sob o título “COMO CHEGAR AO NIRVANA”.

     A repressão ostensiva era a cara do sistema, mas não era só a repressão. Tínhamos que lutar também contra a alienação promovida pelo governo que conseguia convencer os mais acomodados que ‘estudante é para estudar’. E essa era a luta mais difícil, porque a maioria costuma ter afeição irrestrita por diplomas e títulos. Talvez um hábito ancestral do nosso país.

     Também estudávamos muito e queríamos os nossos diplomas, mas acreditávamos que a participação política faz o cidadão desde a universidade. Ou antes.

     Quando nos sentíamos demasiadamente oprimidos, íamos para algum lugar do campus, de preferência para a Casa do Estudante. Ali podíamos respirar. E conversar. Conversar baixo, com uma música ao lado para atrapalhar as escutas.

     Outra possibilidade era buscar o refúgio do padre Clarindo, que estava sempre com o salão da igreja aberto para quem necessitava de apoio espiritual e material.

     Apesar de todo esse jogo entre sistema e alunos do movimento estudantil, entre a ditadura e estudantes, nunca tivemos o campus invadido, militarizado.

     Nunca algo como o que está acontecendo na USP ocorreu em Santa Maria da Boca do Monte. Talvez tenha acontecido em outras universidades brasileiras, porque foram os estudantes que derrubaram aquela ditadura – com o apoio fingido de políticos apodrecidos e de um operariado quase omisso, como o de hoje, manipulado por centrais sindicais.

     Mas estudantes se formam, a vida política do país é aparentemente normalizada, civis alcançam o poder e passam a agir com o apoio dos militares; favelas são invadidas, opositores de verdade são assassinados, ou ameaçados de tal forma que precisam deixar o país, marginaliza-se a pobreza, oferecem-se brinquedos eletrônicos para a massa da classe média, em troca de silêncio e passividade de rebanho, compram-se os líderes operários e os membros do Congresso, forjam-se eleições em urnas eletrônicas que garantem a vitória dos mais apreciados da mídia, entrega-se a base de Alcântara à NASA, barganha-se o território brasileiro, o desmatamento acelerado é parte da política do governo entreguista, a pornografia é oficializada e a destruição da língua portuguesa é uma das metas do MEC, usinas gigantescas são construídas para favorecerem o governo e um grupo de empresários, desagregando o ecossistema da Amazônia e desrespeitando os direitos das populações indígenas, o ensino e a saúde são colocados em último plano...

     E as universidades são militarizadas, com o apoio dos estudantes aliados do sistema de agora.

     Jamais os militares da ditadura imaginaram um entreguismo e um fascismo tão descarado.
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