sexta-feira, 8 de julho de 2011

CAUSA MORTIS




                                             (para Pedro Rubens)
     Causa mortis: poesia.
     Um gostava do Bandeira,
     Outro, do Pessoa.
     Ambos amavam e odiavam
                          o perfeccionismo do Drummond

- tão necessário quanto um alfinete de gravata
  em festa de formatura.

 Naquela noite, excederam as divagações.
 Passaram por 22,
                            45,
                                 o Concretismo,
                                                        o pós,
                                                                 o pós-pós,
o Su...

           E chegaram ao Realismo
           Quando a severidade do dia se anunciava,
           Exigindo urgência à métrica das horas,
           Diluindo todas as metáforas.

Morreram de choque tropofilático
Ao amanhecer.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

LIVRES PARA NOVOS CRIMES


Extorsão, furtos, maus tratos e formação de quadrilha, entre outros crimes que a partir de hoje são considerados “leves” e que tem pena de até quatro anos de prisão permitirão que mais de 4.500 presos sejam soltos devido à nova lei que altera mais de 30 artigos do Código Penal e entra em vigor nesta segunda-feira.

     De acordo com o site da Google notícias, somente em Campinas a nova lei permitirá que mais de 500 presos sejam soltos. “O delegado aplica a fiança de até R$ 54 mil e, se pagar, o acusado poderá sair pela porta da frente da delegacia e responder ao processo em liberdade.” Ótimo para quem tem dinheiro para pagar a fiança. Mas não se assustem tanto, há um lado ético nessa nova lei: o direito à fiança não se aplica a crimes hediondos, como estupro, violência doméstica, tortura, sequestro e latrocínio (quando o criminoso mata para roubar).

     O Estado quer se ver livre de muitos presos que ajudam a locupletar as penitenciárias e dá a eles a chance de também ficarem livres desde que paguem as devidas fianças. Se não pagarem, dá no mesmo. Serão libertados com o auxílio da nova lei. Parece que é uma questão de espaço. Como o Brasil adotou a visão medieval de prisão, que consiste no encarceramento dos apenados em prisões para afastá-los da sociedade, logo os responsáveis pelo governo do nosso país se deram conta que isso custava muito aos cofres públicos, tão bem gerenciados por eles.

     Ficarão livres para novos crimes e, ao cometerem esses novos crimes, se forem os crimes “leves” nada contecerá, porque a nova lei não permitirá a nova prisão. O Estado não se preocupou em procurar alternativas às penitenciárias, como, por exemplo, cidades prisionais. O Estado preferiu soltar os criminosos.

     Sobre esta nova lei, que nos deixará à mercê de milhares de bandidos que já estavam presos, além daqueles que continuam ameaçadoramente soltos, o promotor de justiça Giovani Ferri, de Toledo, Paraná, lançou a seginte matéria na Internet, no domingo, 22 de maio de 2011.


DESABAFO DE UM PROMOTOR

     “Caros colegas, após 15 anos de atuação na área criminal estou pensando seriamente em abandonar a área com a nova LEI 12.403/2011 aprovada pelo CONGRESSO NACIONAL e sancionada em 05/05/2011 pela Presidente DILMA ROUSSEF e pelo Ministro da Justiça JOSÉ EDUARDO CARDOZO.

     “Quem não é da área, fique sabendo que em 60 dias (05/07/2011) a nova lei entra em vigor e a PRISÃO EM FLAGRANTE E PRISÃO PREVENTIVA SOMENTE OCORRERÃO EM CASOS RARÍSSIMOS, aumentando a impunidade no país. Em tese somente vai ficar preso quem cometer HOMICÍDIO QUALIFICADO, ESTUPRO, TRÁFICO DE ENTORPECENTES, LATROCÍNIO, etc.. A nova lei trouxe a exigência de manter a prisão em flagrante ou decretar a prisão preventiva somente em situações excepcionais, prevendo a CONVERSÃO DA PRISÃO EM FLAGRANTE ou SUBSTITUIÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA em 09 tipos de MEDIDAS CAUTELARES praticamente inócuas e sem meios de fiscalização (comparecimento periódico no fórum para justificar suas atividades, proibição de frequentar determinados lugares, afastamento de pessoas, proibição de de se ausentar da comarca onde reside, recolhimento domiciliar durante a noite, suspensão de exercício de função pública, arbitramento de fiança, internamento em clinica de tratamento e monitoramento eletrônico).

     “Para quem não é da área, isso significa que crimes como homicídio simples, roubo a mão armada, lesão corporal gravíssima, uso de armas restritas (fuzil, pistola 9 mm, etc.), desvio de dinheiro público, corrupção passiva, peculato, extorsão, etc., dificilmente admitirão a PRISÃO PREVENTIVA ou a manutenção da PRISÃO EM FLAGRANTE, pois em todos esses casos será cabível a conversão da prisão em uma das 9 MEDIDAS CAUTELARES acima previstas. Portanto, nos próximos meses não se assuste se voce encontrar na rua o assaltante que entrou armado em sua casa, o ladrão que roubou seu carro, o criminoso que desviou milhões de reais dos cofres públicos, o bandido que estava circulando com uma pistola 9 mm em via pública, etc.

     “Além disso, a nova lei estendeu a fiança para crimes punidos com até 04 anos de prisão, coisa que não era permitida desde 1940 pelo Código de Processo Penal! Agora, nos crimes de porte de arma de fogo, disparo de arma de fogo, furto simples, receptação, apropriação indébita, homicídio culposo no trânsito, cárcere privado, corrupção de menores, formação de quadrilha, contrabando, armazenamento e transmissão de foto pornográfica de criança, assédio de criança para fins libidinosos, destruição de bem público, comercialização de produto agrotóxico sem origem, emissão de duplicada falsa, e vários outros crimes punidos com até 4 anos de prisão, ninguém permanece preso (só se for reincidente).

     “Em todos esses casos o Delegado irá arbitrar fiança diretamente, sem análise do Promotor e do Juiz. Resultado: o criminoso não passará uma noite na cadeia e sairá livre pagando uma fiança que se inicia em 1 salário mínimo! Esse pode ser o preço do seu carro furtado e vendido no Paraguai, do seu computador receptado, da morte de um parente no trânsito, do assédio de sua filha, daquele que está transportando 1 tonelada de produtos contrabandeados, do cidadão que estava na praça onde seu filho frequenta portando uma arma de fogo, do cidadão que usa um menor de 10 anos para cometer crimes, etc.

     “Em resumo, salvo em crimes gravíssimos, com a entrada em vigor das novas regras, quase ninguém ficará preso após cometer vários tipos de crimes que afetam diariamente a sociedade. Para que não fique qualquer dúvida sobre o que estou dizendo, vejam a lei. www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2011/Lei/L12403.htm

     “Também para comprovar o que disse, leiam o artigo do Desembargador FAUSTO DE SANCTIS sobre a nova lei, o qual diz textualmente que "com a vigência da norma, a prisão estará praticamente inviabilizada no país": advivo.com.br/blog/luisnassif/de-sanctis-e-o-codigo-de-processo-penal.


     “GIOVANI FERRI, Promotor de Justiça de Toledo-PR.”


     É preciso dizer mais? Só um pouco mais. O governo que solta bandidos é o mesmo governo que entrega a Amazônia e a Mata Atlântica às empresas madeireiras, através do novo Código Florestal. O mesmo governo omisso que permite o assassinato daqueles que defendem a terra brasileira. O mesmo governo cúmplice das invasões de favelas e do morticínio indiscriminado daqueles que ele considera marginais. O mesmo governo que nos obriga a comer produtos transgênicos. O mesmo governo que permite a devastação de grande parte do solo brasileiro para dar lugar à pecuária extensiva e à monocultura. O mesmo governo corroído por tantos escândalos com seus ministros e ministérios. O mesmo governo libertino que quer propagar a pornografia nas escolas e aprovar uma lei que favoreça apenas a uma pequena casta de devassos, mas ótimos consumidores, retirando direitos dos demais cidadãos - a lei da mordaça. O mesmo governo que quer nos fazer acreditar, atrvés do seu risível MEC que a língua portuguesa pode ser adulterada e que o certo pode ser errado e o errado estar certo. O mesmo governo dos mensalões.

domingo, 3 de julho de 2011

COMPLEXO DE TICO-TICO



     Li alguns comentários de pessoas desiludidas com o clube. Aqueles comentários que são postados após as notícias, na Internet. Alguns dizem que vão rasgar a carteira de sócio, outros, que vão dar um ano sabático para o Grêmio, esquecer que ele existe até o Odone sair. Os mais críticos. Aqueles a quem falta senso crítico e já se acostumaram a torcer pelo time, não importando qual time ou qual treinador ou qual diretoria, logo aceitarão a Nova Ordem vigente. Pensam que um clube de futebol é exatamente isso: um vaivém de jogadores e de treinadores e que a eles, torcedores, cabe apenas gritar durante os jogos, torcer pelas cores, aceitar qualquer coisa, porque a diretoria sabe o que faz e por isso é diretoria.

     Exatamente como a maioria do povo brasileiro, e o torcedor é povo, nada mais que povo amordaçado e inconsciente.

     No Brasil, elegemos uma desconhecida com os votos da fome, os votos da miséria, os votos da ignorância, os votos a cabresto, os votos da intimidação, os votos do medo daqueles a quem foi dito que se a Dilma não fosse eleita voltaria a ditadura militar e não sabem que a turma da Dilma nunca foi tão amiga dos militares como agora e os militares nunca estiveram tão satisfeitos com este, que é o governo civil dos seus sonhos.

     Um governo que faz exatamente o que eles gostariam de ter feito se a ditadura ainda fosse militar – invade os morros com blindados, desacata a constituição – e ainda faz o que eles fizeram: acordos com banqueiros, latifundiários e multinacionais. Um governo que não tem oposição, como eles não tiveram, e que se propõe a continuar devastando o Brasil em nome de um progresso que somente favorecerá os muito ricos. De vez em quando, o governo diz aos miseráveis que vai acabar com a miséria. E os miseráveis aplaudem e prometem mais votos.

     O Grêmio foi um clube que prometeu ser grande em determinada época, lá pelos anos ’80. Depois alguma coisa aconteceu. Principalmete neste século ficou claro que o Grêmio estava com complexo de tico-tico. Contentou-se em ser apenas o segundo melhor time gaúcho, o que significa ser o último, porque os demais times daqui são apenas celeiros de jogadores. E o Grêmio optou por também ser celeiro de jogadores para os times europeus. Os donos do Grêmio – aqueles que se revezam na diretoria – decidiram que seria mais compensador formar e vender dois ou três jogadores por ano e não lutar por títulos. Os títulos, se viessem, seriam acontecimentos fortuitos, mas não o objetivo principal. Em troca, a torcida terá um novo estádio.

     Isso lembra a história do bolo. Durante a ditadura militar houve um momento que foi apelidado pela imprensa coadjuvante de “milagre econômico”. Um momento muito parecido com o de agora. Só que agora é pior, porque a falsidade é maior. O país crescia, estradas eram construídas, empregos eram gerados, uma nova classe média surgia dos escombros da pobreza, pronta para tudo consumir e tudo aceitar. O PIB (Produto Interno Bruto) aumentava a cada mês.

     Um belo dia, um daqueles jornalistas que hoje se ufanam de ter combatido a ditadura entrevistou um daqueles generais e perguntou quando toda aquela riqueza seria distribuída para o povo. O general respondeu que estavam esperando o bolo crescer para depois dividir. A fase ficou famosa, assim como o famoso bolo que continua aí, crescendo para ser dividido somente entre os amigos do rei. Ou da rainha.

     Pois o bolo do Grêmio chama-se Arena. Um novo estádio que está sendo construído para que a torcida fique melhor acomodada e somente depois do grande feito o Grêmio pensará em vitórias.

     Por enquanto, os dirigentes desejam ter um time medíocre, o suficiente para tentar não ser rebaixado novamente. Tiraram o Renato porque ele gosta muito de ganhar partidas e não tinha time para isso. O time existia quando Renato chegou, mas depois foi sendo desmontado. A tal ponto que, no final do campeonato gaúcho, o Grêmio que enfrentou o Internacional nas finais era um time de reservas e de jogadores inexperientes. Um time medíocre, ao gosto dos dirigentes, que aproveitaram a série de maus resultados para tirar o Renato, que representa para a torcida o Grêmio vencedor. Mas os dirigentes não gostam de vitórias; gostam de vender jogadores. E havia o perigo do Renato encontrar a fórmula mágica que levaria o time a novas vitórias.

     Entrevistado sobre qual seria o perfil do novo treinador, um dos vice-presidentes do Grêmio disse a frase que ficará eternizada: “Um treinador que não goste de ganhar sempre”.

     Do que se depreende que para os dirigentes do Grêmio ganhar não é a prioridade. Para que ganhar se é possível empatar ou perder?

     Talvez por isso tenham contratado um treinador desconhecido e que era auxiliar técnico do Falcão no Internacional. Para não ganhar. E também para humilhar um pouco o Renato e a torcida tricolor.

     É o mesmo que a Dilma ser eleita a pau e corda porque o Lula assim desejava. Uma pessoa que foi colocada como presidente para cumprir as ordens do seu partido. E entre essas ordens está construir Belo Monte no Pará e mais duas usinas em Rondônia – e destruir parte da Amazônia -, entregar a Amazônia e a Mata Atlântica para a sanha das empresas de desmatamento, afastar a feiúra das favelas para bem longe - mesmo que tenha que matar muita gente com a sua polícia especial – dos estádios em que serão realizados jogos da Copa do Mundo e ser governada por banqueiros e multinacionais – mesmo que isso custe a soberania do país. Entre muitas outras coisas.

     E o novo treinador do Grêmio terá de ser muito respeitoso com a diretoria e com os seus objetivos, que se resumem, preferencialmente, em promover novos jogadores da base gremista para que sejam vendidos – porque os resultados em campo não interessam.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

COMO DEMITIR UM TREINADOR


Alguns meses bem antes...

     A - Não suporto ele. Acho arrogante, metido a besta e, no entanto, tá aí, idolatrado pela torcida.

     B – Não só idolatrado pela torcida. É impensável demiti-lo.

     A – O pior é isso. Se o time continuar ganhando ele vai se eternizar como treinador e aí...

     B – Vai mandar mais do que nós.

     A – Não só vai mandar mais do que nós; vai fazer do time a sua extensão. Quando faltar algum jogador ele vai exigir uma imediata reposição e não poderemos fazer nada. E, hoje em dia, futebol é negócio. Temos que gerenciar esta empresa chamada clube de futebol de maneira a que nos dê lucro, como qualquer outra empresa. Os resultados são secundários. Em primeiro lugar os negócios.

     B – É, mas com bons resultados podemos fazer bons negócios, vendendo jogadores para a Europa...

     A – Mas às vezes bons resultados não são bons negócios. Se ele classificar o time para aquele grande torneio, por exemplo, a torcida exigirá um grande time e ficaremos no vermelho, se não tivermos outra saída.

     B – Temos que ver uma maneira de despedi-lo.

     A – Acredito que somente com maus resultados.


Poucos meses depois...

     A – Tenho algumas ofertas de clubes estrangeiros. Boas ofertas, mas não sei como fazer porque isso desfalcaria o time e está começando o regional.

     B – Mas temos que pensar nos negócios, não é verdade?

     A – Em primeiro lugar. Aquele tempo de amor à camiseta já passou. Só a torcida que não sabe disso. Mas a torcida não precisa saber de nada. Basta que fique torcendo e enchendo o estádio.

     B – Então vamos aceitar as propostas para fazer caixa.

     A – Mas tem que ser aos poucos. Um time não pode ser desmontado de repente.

     B – E a torcida idolatra aquela peste do treinador.

     A – Arrogante!

     B – Bem que se pode dar um jeito. Podemos usar esse mesmo argumento da arrogância. Falar com os jogadores que estão sendo pretendidos. Mostrar as vantagens que eles terão se forem vendidos, falar em seleção...

     A – Quem sabe? Parece ser uma boa idéia. Vamos ver o que se pode fazer...

     B – Se ele ainda entendesse que os negócios devem vir em primeiro lugar... Mas é uma besta quadrada! Quer só ganhar, ganhar...

     A – Sem time ele não vai conseguir ganhar e treinador que perde pode ser demitido, por mais que a torcida goste dele.

     B – A torcida tem mais é que torcer e encher o estádio, não é assim?

     A – Vamos vender aos poucos. Para isso, temos que criar situações. Para alguns jogadores mais broncos podemos dizer que a torcida não gosta deles e colocamos torcedores nossos no estádio, em dia de jogo, vaiando eles. Até que eles entendam que será melhor para eles se forem negociados.

     B – E os outros?

     A – Podemos fazer vazar comentários que o treinador não gosta deles até eles ficarem numa situação insustentável e não obedecerem mais as instruções... Há várias possibilidades...

     A - Poderemos contar com contusões, também. Sempre acontecem.

     B - E quando ele pedir para contratar outros jogadores para as posições desfalcadas dizemos que não temos dinheiro em caixa.

     A – Ou contratamos jogadores inferiores.

     B – Boa idéia! Pegamos um bom dinheiro com as vendas e ainda enfraquecemos ele, porque o time não vai render o mesmo que antes.

     A – A torcida vai começar a duvidar da capacidade dele como treinador.

     B – A mesma torcida que idolatra ele.


E depois...

     A – Estamos mal no campeonato e isso é muito bom. Ele já está se perdendo na hora de escalar o time. A mídia já começou a criticá-lo com força.

     B – Está mais que na hora da sua demissão, mas a torcida ainda idolatra ele. Não entendo essa torcida!

     A – Torcida é para torcer. Só isso. E para encher o estádio, claro. Mas o time já está descaracterizado; já não é aquele time vencedor e ele já não é aquele treinador vencedor.

     B – A estratégia deu certo. Poderemos nos ver livres dele ainda hoje. Dar uma forçada, comentar que ele tem que ganhar ou ganhar. Botar contra a parede. Usar o temperamento dele contra ele mesmo. Ele vai acabar não agüentando.

     A – Quem sabe falar com um ou outro jogador para não jogar muito?

     B – Falar diretamente, não. Insinuar alguma coisa, talvez...

     A – É. Talvez.

     B – E quem será o próximo treinador?

     A – Não interessa muito o nome. Mas tem que ser compreensivo, entender que futebol é negócio e não estar ligado ao clube emocionalmente.

     B – Que saiba ser flexível, não é?

     A – Flexível e compreensivo... Podemos até oferecer prêmio extra pra ele para o caso de vitórias necessárias ou de derrotas necessárias. O que for melhor para o clube. Futebol é negócio.

     B – Mas e a torcida?

     A – Torcida é só para torcer e para encher o estádio.

terça-feira, 28 de junho de 2011

O CONSUMISMO GAY E O ESTADO FASCISTA


A retirada de direitos civis, como pretende a PL 122 – e entendo como direito a livre manifestação do pensamento, a liberdade para educar os filhos sem que haja interferência do Estado, a liberdade de religião, entre outros – em favor da minoria homossexual, por razões obviamente políticas e comerciais, porá em perigo o equilíbrio das relações sociais, uma vez que a grande maioria heterossexual, mesmo que tolerante com as reivindicações dos homossexuais, não deverá aceitar passivamente um Estado claramente fascista no Brasil.

     Para combater a homofobia ou outro tipo de discriminação em relação a qualquer grupo social já existem leis vigentes, principalmente a Constituição, que assegura a todo cidadão a cidadania e a dignidade da pessoa humana. Se o Estado não está cumprindo com o seu papel de defender os cidadãos – seja de que grupo social forem – cabe ao próprio Estado reestruturar-se no sentido de assegurar que a Constituição seja cumprida. Mas não é cabível, sob qualquer alegação, que a falta da presença do Estado dê lugar a novas leis que se sobreporiam à Constituição ou que, em nome do direito de minorias venha a retirar direitos da ampla maioria.

     A apologia que vem sendo feito a favor do homossexualismo, principalmente por parte do governo, que tem defensores da liberação da cartilha gay – que nada mais é que pornografia e indução da juventude ao homossexualismo - faz parte de um jogo político que pretende cooptar para os quadros do PT e aliados os homossexuais. Além disso, faz parte dos planos da Nova Ordem a destruição gradual das grandes religiões para que seja imposta, posteriormente, uma única grande religião, ao lado de um grande estado global. A Sinarquia(1).

     E os homossexuais estão sendo usados nesse jogo como fator de desestabilização de conceitos e dogmas, que tem como objetivo a desmoralização da família tradicional, principal ponto de apoio do Cristianismo, que é a grande religião ocidental.

     Estão sendo usados. Em nome do sexo pelo sexo, do prazer pelo prazer, do hedonismo, para fins que não entendem ou nos quais não querem sequer pensar, desde que o altar do sexo seja colocado bem acima de todos os valores morais, convocando a juventude a cultuá-lo, com o apoio de governos cúmplices, como o nosso, dessa desestruturação social e moral.

     No capitalismo não existe moral. Aliás, o principal sintoma de que um país é capitalista é a amoralidade. E a existência de religiões em países capitalistas coloca um freio nessa amoralidade desenfreada; faz com que as pessoas pensem, reflitam, e não se atirem às compras loucamente ou se deixem dominar pelo consumismo. E isso é péssimo para os negócios, porque capitalismo é sinônimo de negócios, lucro, trapaça, corrupção e desapego ao próximo em nome da competição.

     Não foi por acaso que os grandes países capitalistas, notadamente na Europa e América do Norte, através dos seus governos e entidades civis, estão interessados em promover o homossexualismo. Há muito dinheiro envolvido nisso.

     Somente na internet, de acordo com “O Dia Online” (http://odia.terra.com.br/) - “sites voltados exclusivamente a gays oferecem produtos nas áreas de turismo, lazer, cultura e artigos de luxo. Iniciativa visa atrair 18 milhões de consumidores”. É uma grande cartada do sistema incentivar o movimento gay, através de paradas, leis discriminatórias e até inconstitucionais – porque os empresários estão de olho nessa faixa de mercado que antes era ignorada.

     Leiam parte da matéria citada , publicada no dia 19 de junho:

     “Rio - O forte poder aquisitivo do público GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e travestis) chegou ao mercado dos sites de compras coletivas. Pelo menos dois portais foram criados de olho nesse segmento, que, segundo o IBGE, corresponde a 10% da população brasileira, ou seja, 18 milhões de consumidores.

     “O primeiro lançamento, no ar desde a semana passada, é o comprey.com.br, idealizado pela empresa OfertaDia, um dos principais sites de compras coletivas do País. O outro serviço, que será lançado amanhã, é o http://www.gothanforman.com.br/.

     “A expectativa do OfertaDia é alcançar 1,5 milhão de usuários até o fim do ano. Para conquistar o público, a página contará com ofertas de produtos e serviços com os quais esse perfil de cliente mais se identifica em turismo, lazer, cultura, moda, artigos de luxo e diversão.

     “Segundo o grupo, o consumidor GLBT não era atendido pelo novo modelo de e-commerce. Já o Gothan For Man aposta no público gay masculino. Oferta de produtos é semelhante à do primeiro.”

     Ao contrário de outros grupos discriminados, como os negros, as mulheres, os índios (estes sim, uma minoria que tende a desaparecer, dado o descaso do governo), os trabalhadores sem terra e sem teto e os pobres e miseráveis do nosso país que, a partir das suas condições sociais, vividas diariamente, preocupam-se em ir além, quando reunidos e organizados em movimentos, como o Movimento Negro, e a discutir a realidade do país, a contestar as premissas que o governo fascista usa para impor as suas políticas e a buscar a união com os demais trabalhadores discriminados dos outros países - gay se limita a ser gay, a fazer propaganda apenas da sua sexualidade.

     Não conheço nenhum movimento gay que revele preocupações sociais. E eles tem tido muitas chances para fazer isso, mesmo que seja apenas através das paradas do orgulho gay. Mas as paradas do orgulho gay tem sido apenas paradas de orgulho gay e mais nada. Pecam pela alienação e demonstram isso até na palavra “gay”, que é estrangeira, revelando, como todo o pensamento de direita, o seu desejo de aculturação.

     Porque os gays que aparecem nessas paradas são pessoas no mínimo de classe média, interessadas apenas que o sistema que eles já aceitaram lhes dê maiores privilégios, porque estão dispostos a consumir tudo o que diga respeito à sua opção sexual, sem maiores indagações e sem qualquer cultura política.

No site Inteligência (http://www.inteligemcia.com.br), em matéria de Miriam Matos, no dia 20 de junho, lemos, entre outras coisas, o seguinte:

     “Muitas empresas perceberam, nos últimos anos,a força do poderoso mercado gay. Público que gasta 30% mais que os heterossexuais e se mantém fiel às marcas, esse nicho tem atraído a atenção de diversos segmentos tas como moda, turismo, decoração, esportes, cultura, etc. Segundo o IBGE, 10% da população do Brasil é homossexual. Na visão corporativa, isso significa 18 milhões de consumidores. O potencial de compras dos gays é maior. Eles gastam mais em viagens, restaurantes, casas noturnas, cinema, teatro, roupas, carros, etc. (...)”

     Há uma lei não escrita no capitalismo, mas que todos os interessados entendem como perfeita. Pode ser escrita mais ou menos assim: “As leis são feitas para favorecer as castas possuidoras e para refrear qualquer reação da multidão empobrecida”.

     Um exemplo: as invasões dos morros no Rio de Janeiro, com a utilização de todo o aparato bélico possível vai contra vários artigos da Constituição, assim como o direito de ir e vir, a inviolabilidade do lar, a prisão por “suspeita”, etc. Isso só acontece porque a grande maioria dos favelados, senão todos, não paga IPTU, além de outros impostos, e são caracterizadas como pessoas marginalizadas ‘a priori’, significando que com eles tudo pode ser feito, mesmo que contra a lei.

     Mas para os homossexuais, que formam uma casta a parte no mercado de consumo, procura-se fazer leis que os favoreçam, mesmo que essas leis fiquem acima ou contra a Constituição. É uma questão de mercado. E também de ideologia.

     Para isso, procura-se tirar o direito das famílias – que são a base do Estado e o constituem – de educar os seus filhos de acordo com a moral vigente. Porque a moral vigente não dá lucro.

     Elimina-se o direito de opinião e crítica, a liberdade de expressão, se essa liberdade for usada para criticar leis que favorecem aquela casta exclusivamente consumista e que compactua com o sistema de desigualdades sociais. Uma casta que só pensa em si mesma.

     Proíbe-se aos cristãos o direito de expressar a sua crença livremente, de acordo com a Bíblia, porque aquele livro diz que homossexualidade é perversão - e os homossexuais devem ser considerados acima de qualquer suspeita e até acima de todas as leis que não os favoreçam, porque aos grandes consumidores devem ser dados todos os direitos, mesmo que em detrimento dos direitos dos demais cidadãos.

     E instala-se o Estado fascista. Disfarçadamente, mas fascista. Talvez um Estado fascista homossexual.

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(1) Sinarquia – De acordo com Héctor Honório, “o vocábulo grego Sinarquia, de Syn, que equivale a Integração, e Arkhia, que significa poder ou governo, literalmente quer dizer concentração de poder ou concentração de governos. Em grego antigo se escrevia ZYNAKIE. Para o mundo de 6.000 anos atrás era a união de vários príncipes poderosos coligados para a dominação de outros povos. Em nosso tempo, é a união das forças financeiras e econômicas multinacionais, associadas em um tremendo poder, para governar, desta maneira, à sua livre vontade, mediante a exploração, o atraso, a enfermidade, a massificação, as guerras e a ignorância a todas as sociedades humanas que a ela se submetem.”



domingo, 26 de junho de 2011

SEU CHICO NA PARADA GAY


Pois não é que o seu Chico foi à parada gay? Não por orientação sexual, pois quanto a isso diz que sempre se orientou muito bem desde rapazito com as moças da casa da dona Ideli, que Deus a tenha, e depois casou com mulher de verdade e continua gostando do sexo oposto, pois tem como lema “Viva a Diversidade!” e como mote “Nada como a diferença!”, mas estava em São Paulo de passada depois de comprar uns pastos lá no Mato Grosso e pensou em tomar um café na terra do café, enveredou pela avenida Paulista e se viu perdido numa multidão colorida que gritava e cantava.

     Chegou a pensar que era carnaval, tamanho o entrevero e quantidade de fantasias. Foi quando sentiu algo estranho na região glútea, olhou pro lado e viu que estava sendo bolinado por um dos fantasiados.

     - E aí seu Chico?

     - Mas dei-lhe um talabascaço que nem graça ele achou e já ia puxar do facão e degolar ali mesmo, quando lembrei que tinha deixado todos os trens no hotel, até a tesoura de cortar as unhas dos pés e tive que me contentar em dar mais uns tapas nas orelhas do fresco quando fui cercado por todos os lados por umas mulheres musculosas que me empurraram, aquelas que calçam 44, que Deus as perdoe, e quando fui ver eu estava no meio de um casamento – quem havéra de ver!

     - Mas que casamento, seu Chico? Ali, no meio da avenida Paulista?

     - Mas nem lhe conto! Até parecia pesadelo! Dois homens se beijando – que de homens só tinham a feição - e um outro vestido de padre, que deveria ser maricas também, fingindo que abençoava e eu ali, perdido que nem cachorro em procissão.

     - Mas quem diria!...

     - Nem contando eu acredito! E como eu estava pilchado em reverência aos pagos e para que não me confundissem naquela cidade de veados, foi por isso mesmo que me confundiram e até pediram que eu fosse o padrinho e entregasse as alianças para a noiva, que era o mais afrescalhado dos dois, vestido todo de rosa e pintado que nem mulher de zona.

     - E o senhor serviu de padrinho?

     - E fazer o quê?! Cercado, perigando até a vida se eu recusasse e chegaram a dizer que o prefeito e o governador estavam assistindo a cerimônia – você não há de ver a que ponto chegaram aqueles paulistas! – e eu tonto no meio daquela bicharada, me fiz de sonso, que pra bobo eu não sirvo, peguei as alianças e enfiei nos dedos dos dois e o que parecia homem até parecia homem – era o noivo! – e se beijaram ali na minha frente e todos os outros também começaram a se beijar e teve um que queria me agarrar e me dar um beijo – o senhor nem imagine a minha indignação! – e eu lhe dei um repelão dizendo que estava me sentindo mal e ele gritou um gritinho esganiçado e disse que ia me levar no banheiro, que tinha um ali pertinho – imagina só a intenção do qüera – e foi aí que eu encomendei a minha alma a Deus e fiz aquilo.

     - Mas que situação... O que foi que o senhor fez, seu Chico?

     - Como última saída, só pra me livrar daquele apertume e pra evitar de ter que matar um, mesmo que fosse só esgoelando eu tive que ser indecente.

     - O senhor ta querendo me dizer?...

     - Não me interprete mal, que eu não fiz o que o senhor está pensando, que seria melhor morrer que deixar de ser homem, não foi aquele tipo de indecência, nem parecido!, que senão eu não tinha nem voltado para o meu Rio Grande, tapado de vergonha como iria ficar! Não senhor! Indecências, tem várias e eu fui muito bem educado para evitar todas elas, mas naquele momento de extrema necessidade eu tive que apelar.

     - Mas não me deixe curioso, seu Chico! Conte logo!

     - Pois botei dois dedos na garganta e vomitei ali mesmo, cheio de vergonha, mas fiz aquilo e foi a minha salvação, acredite, porque deu um reboliço e correram para todos os lados, gritando fininho e dizendo “que cheiro ruim!” e outras coisas lá naquela gíria bichesca e eu fui saindo devagar, fingindo que tava passando mal e todos se arredando, que era mais o que eu queria e chegaram uns polícia tentando me ajudar e eu disse que não precisava, que as minhas pilchas não eram fantasia e que eu podia me agüentar sozinho e me arredei daquela multidão o mais que pude e quando vi já tava em outra rua e chamei um táxi e fui pro hotel.

     - Que alívio, hein seu Chico?

     - Alívio é dizer pouco! Cheguei no hotel mais morto que vivo.

     - E depois, pegou o avião e veio direto?

     - Quase fiz isso. Mas preferi tomar um banho, trocar de roupa e descer pra comer alguma coisa, enquanto botava as idéias no lugar.

     - E fez muito bem, seu Chico. Já imaginou se o senhor estivesse com o seu facão lá no meio da parada gay?

     - Nem quero pensar nisso, que na hora eu até pensei em fazer uma morte, mas foi Deus que me orientou a não sair de arma branca. Mas lá embaixo, no restaurante, eu já estava tranqüilito, depois de pedir o meu assado com um vinhozinho, que ninguém é de ferro e a vida é curta, e imagina só o que eu vi?

     - Viu mais gays, seu Chico?

     - Pois é verdade! Tinha um grupo voltando da parada – e foi o garçom que me contou que tinha sido uma parada guei, que deve ser uma palavra lá na língua deles pra distinguir veado...

     - Me permita, seu Chico: gay é uma palavra inglesa, que significa divertido, engraçado, alegre.

     - Pois lá estava aquele grupo de alegres, aquele mesmo do casamento na rua e ainda vestidos com as mesmas roupas, e quando eu perguntei ao garçom o que aqueles frescos faziam ali, o garçom me disse a mesma coisa que o senhor – que não eram frescos, mas gueis - só que na hora eu não atentei para o significado, mas deixei por isso mesmo, me fiz de morto, virei de lado e comecei a comer e a lembrar desta abençoada terra, que também tem os seus gueis, que isso tem em tudo que é lugar como se fosse uma advertência de Deus, mas que não se metem com homem de verdade, que Deus os livre!

     - E então, seu Chico?

     - E então que quando eu já estava achando até engraçada aquela aventura da tarde com os rapazes alegres ou gueis, como quiserem que pra mim não tem diferença no conteúdo, se chegaram os dois noivos pra minha mesa. Tinham me reconhecido, imagine o senhor!

     - Mas que causo, seu Chico! Até parecia perseguição...

     - Assombração, é o que o senhor quer dizer. Mas chegaram muito educadamente e me perguntaram se eu já estava bem do estômago. Respondi que sim, e que me desculpassem os meus modos naquela tarde, que eu não sabia que era uma parada guei e que sentassem se assim desejavam.

     - E...?

     - Pois não se fizeram de rogados. Puxaram as cadeiras, sentaram, se apresentaram e disseram que todo ano tinha uma parada assim lá em São Paulo, que até padre participa e mais autoridades e políticos e que era um movimento para lutar contra os homens fóbicos. Perguntei quem eram esses tais de homens fóbicos, eles riram e disseram que eram pessoas que não gostavam deles e que tinha uns que até perseguiam e matavam os gueis.

     - E é verdade, seu Chico.

     - Mas eu não sabia e lembrei de imediato do meu pensamento e da minha raiva, quando me bolinaram de tarde e me senti envergonhado e disse a eles que tinha gente pra tudo, mas que quem mata não precisa ser fóbico, porque bandido é bandido em qualquer lugar, mas que não me confundissem, que eu não era – e não sou, o senhor me conhece! – de violência. Mas que tinha me sentido perdido naquela multidão e passado mal devido ao aperto. Tentei me desculpar como pude; o senhor há de entender que aquela era outra situação e aqueles rapazes já não me pareciam mais tão estranhos, mesmo com aquelas pinturas na cara.

     - O senhor fez muito bem seu Chico. Nem tudo que brilha é ouro.

     - E Deus existe para todos, o senhor há de convir – até para os veadinhos, como dizia São Francisco – e aqueles moços alegres não tinham toda a culpa de serem assim, hoje em dia se coloca muito hormônio nessa comida industrializada e há quem diga que aquela poluição da São Paulo altera as pessoas. E eu estava pensando assim, já mais manso, e aceitando conversar uma coisa e outra com os dois gueis, porque o senhor sabe que eu sempre fui a favor da diversidade e da diferença – embora não tanto! – quando eles me convidaram pra uma festa.

     - Pra uma festa, seu Chico? Uma festa gay?

     - Não disseram assim. Disseram que era uma festa de São João, pois estamos no mês, o senhor sabe, e que não aceitavam recusa.

     - E o senhor foi, seu Chico?

     - De início, eu fiquei meio assim, querendo me desculpar que eu tinha viagem marcada, mas percebi que eles começavam a se sentir ofendidos e acabei concordando com a condição que eu teria que voltar mais cedo.

     - Não me diga!

     - Pois lhe digo. Confesso que me bateu a curiosidade e outro pouco por educação. Fui com aqueles dois, os noivos gueis, que insistiam que eu era padrinho deles e mais uma turma de travestidos, os que estavam jantando no hotel. Foi numa chácara, que eles chamam de sítio, não muito distante. E tinha até fogueira, docinhos e tudo que uma festa de São João tem que ter. Tinha até criançada brincando de roda.

     - E o senhor no meio dos gays...

     - Nem todos. Nem todos eram gueis. Aos poucos fui me acostumando ao ambiente alegre e descontraído e fui ficando. Já não me importavam as frescuras dos gueis, porque o estranho seria se não tivesse frescura, nem as vozes de falsete me perturbavam, nem as mulheres gueis que se tratavam com tanto carinho que chegou a me enternecer. E dizer que eu as tratava de sapatão!

     - Todos tem direito à própria vida, seu Chico, do jeito que desejarem, desde que não incomodem o próximo.

     - Foi o que eu pensei também. Aos poucos, mas pensei. E acabei me envergonhando com a minha atitude de grosso naquela tarde. Me trataram com toda a educação e carinho, simularam outro casamento, só que casamento na roça e eu até me propus a ser o padrinho de novo e foi tudo muito alegre e muito festivo. Os noivos eram duas gueis, mas naquela hora eu nem estava ligando se eram dois homens, duas mulheres ou um homem e uma mulher. Quando começou a amanhecer e o cansaço bateu, disse que era hora de voltar, que eu teria que viajar de manhã, o mais tardar de tarde e um deles se dispôs a me levar para o hotel. Abracei a todos, sem medo dos abraços, beijei as moças e desejei muitas felicidades e lhes dei até uma prenda – um isqueiro antigo, por falta de melhor presente, afinal eu era o padrinho! -, trocamos endereços e informações pessoais e voltei.

     - Mas que bonito, seu Chico!

     - Sabe, estes campos, esta terra que às vezes fica árida, esta vida que às vezes fica muito repetida e chata, rotineira, a educação que os nossos pais nos deram quando crianças, que era a que eles consideravam a melhor... Tudo isso nos deixa com idéias pesadas sobre tudo.

     - Nos deixa inflexíveis, não é seu Chico? Com medo de ir além também no modo de ser e de pensar...

     - Pois era isso que eu pensava quando estava chegando aqui e antes de encontrar o senhor e lhe contar essas aventuras. Vivendo e aprendendo... Sabe, ontem, quando saí de casa pra comprar uma coisitas que faltavam lá em casa, por ordem da minha patroa, eu vi o filho da dona Isolda, aquele que é meio guei. Antes, eu passava por ele reto, sem nem olhar direito. Pois imagine que eu o chamei, perguntei pela família, como ia passando a sua mãe, me informei sobre a vida dele e me ofereci para o caso de alguma necessidade. Sem me forçar a nada, de maneira natural. E sabe o que mais?

     - O que mais, seu Chico?

     - Os olhos do rapaz brilhavam enquanto eu falava com ele. E eu me senti mais leve, mais inteiro, mais homem, mais humano.

sábado, 25 de junho de 2011

BERRA BOI


Imagine-se um boi morto. Não qualquer boi magro a quem o sol reivindica o último suor da morte. Mas um boi aproveitável, um boi que, na verdade, não está morto. Ainda. Um boi vivo que já passou da idade de morrer, sob o constante e insistente olhar perscrutante de todos os outros animais da manada. Não somente os bois, mas todos os outros animais, principalmente aqueles que adoram carniça e que desejam que você morra logo e se transforme em carne. Carne morta. Degustável. Carne que servirá para ser bicada, estraçalhada, rompida, dividida.

     Imagine-se boi. Um boi que já passou da idade de viver, mas que insiste em saborear a vida. Agora sob o olhar vigilante dos corvos, que o querem morto como na poesia do Bandeira. Não por suposta fome, porque são tantas as carniças espalhadas pelo campo, que já estão enfastiados. Mas pelo prazer de vê-lo morto para poder dilacerar as suas carnes, para dividi-lo em postas que poderão ser comidas, eventualmente.

     Imagine-se um boi que acredita nos demais bois e tem afeição pelos outros animais que não são bois. Uma espécie de boi franciscano. Um boi ingênuo. Não interessa a sua idade, porque você não se preocupa mais com essas coisas, pois já viveu todos os tempos e saboreou todas as pastagens e bebeu de todas as águas e apenas deseja continuar a ser o que você sempre foi – boi, descomedido boi. Mas boi vivo, que ainda se delicia com o por-do-sol e com o amanhecer e com o estranho mistério do brilho das estrelas mortas, que você não vê, mas adivinha.

     Imagine-se um boi que confia nos demais bois, que não percebe as aves de rapina que já o desejam morto e que se enraivecem pela sua persistência em continuar vivo e um dia, sem qualquer aviso, decidem matá-lo. Não de frente, porque tem natureza traiçoeira, mas usando de ardis.

     Um belo dia – e todos os dias são belos para você – você acorda e vai beber água. E não encontra a água. Vai comer e o pasto já não está no mesmo lugar. Você reclama, ergue cartazes, faz passeatas, exclama um raivoso “buff” quando percebe aquelas aves a espreitá-lo. Mas de nada adianta. Os corvos são espertos e falaciosos e dizem que para você beber água deverá pagar o preço da rapina e para você comer o seu pasto precisará empenhar o seu couro para eles. Você reclama, mas eles mostram leis. Leis que favorecem apenas a eles, carnívoros voadores - tão espertos com os seus bicos sempre vorazes e a sua eterna roupa preta de velório.

     E você apenas boi. Inocente boi. Mas boi com fome e com sede. Boi a quem negaram o simples direito de continuar a ser boi e que somente reaverá esse direito se pagar aos rapinantes o preço da rapina.

     O que você faz, preclaro boi? Deixa-se morrer de tédio e desilusão e desânimo? Deixa-se matar, aos poucos, para que os corvos enfim se satisfaçam com a sua morte e com o seu penhorado corpo? Clama aos céus, esperando que um anjo vingador lhe faça justiça, ou lembra dos seus tempos de touro e investe contra os corvos?

     Mesmo sabendo que talvez não adiante nada, porque os corvos tem asas e voam e tem amigos, muitos amigos, que talvez também estejam interessados em alguma parte do seu corpo e você é um boi, pesado boi, insofismável boi, destemido boi. Talvez quixotesco boi.

     Quem olha para você vê apenas um boi dentre tantos bois do rebanho. Mas, se olharem bem, verão que você é o boi que berra, que não se intimida, que não se limita a apenas pastar indolentemente, mesmo quando o pasto é ralo. Você é o boi que busca novas pastagens e novos rios, o boi que muge forte e que investe contra os corvos que o desejam morto e estraçalhado e não se deixa dominar pelos seus fixos olhares, ceifadores como a morte.

     Agora você sabe que eles o querem morto, caído, quieto como um espólio a ser dividido por credores famintos. Mas não se importa mais porque descobriu que a vida é descoberta a cada segundo e bichos que comem bichos mortos não passam de lixeiros, que usam leis próprias para apressar a morte dos que desejam saquear. E você se rebela contra isso; prefere lutar a ser somente mais um boi.

     Mas como lutar, prestimoso boi, se a manada inteira é feita de bois de canga, subservientes bois, cansados bois, anestesiados bois, bois que apenas pastam e mugem e nada mais desejam senão pastar e mugir dolentemente, bois que nada sabem dos corvos, ou, se os vêem os ignoram, porque acreditam que não se pode fugir ao destino pré-traçado, escolhido pelo grande Deus Boi?

     Desesperas, revoltado boi? Ou ainda berras o teu berrar de boi inconformado com os eternos scraps pré-fabricados nas empresas dos que pregam o conformismo, a aceitação da mesma paisagem em variações para todos os tipos de bois, desde que sejam mansos? Como pesa sobre ti a sombra dos corvos?

     Talvez participes da marcha dos ingênuos, programados ingênuos, que somente desejam um pasto mais alucinógeno ou entre no twitter para declamar a tua insatisfação de boi inconformado em 140 toques, ou brinque de muitos amigos no facebook, onde muitas revoluções são feitas, estimado boi, menos a tua, a revolução que te libertará dos corvos, que te fará acreditar em outras possibilidades, além deste mundo pastagem, onde todos apenas pastam, satisfeitos ou submissos e trocam mensagens sobre como é bom este variado pasto, que um dia sumirá, mas é a vida!?

     O que te restará, mágico boi, quando sentires a inevitável coorte de corvos sobre a tua insubmissa carcaça, senão a magia suprema, a transformação em touro bravo, mais que isso, esfinge, aterradora esfinge, com suas asas a planar sobre a plácida manada em infinito berro?
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