quarta-feira, 25 de abril de 2012

UM ESPELHO PARA RAFAEL PAPODEMOS



Rafael Papodemos. Pediram-me para escrever a respeito. Aceitei, embora seja um grande risco; inevitavelmente ele lerá, deve estar lendo agora, neste momento, mesmo que este seja o momento em que eu estou escrevendo. Ou tentando. Tentaram-me com aquela frase de que todo homem tem o seu preço; uma frase que eu tanto repudio. Mas a necessidade obriga e o preço era irrecusável, vocês podem imaginar. No entanto, coloquei minhas condições: dizer tudo! Para minha surpresa, não titubearam em responder que era isso mesmo que desejavam. Nada poderia ser omitido. É claro que eu não sei tudo, somente o que todos sabem ou o que muitos dentre todos sabem; melhor, alguns dentre muitos dentre todos sabem. Mas querem que todos saibam. Dito isto, este pequeno prólogo, este intróito, este exórdio, esta introdução, esta explicação - menos para vocês do que para me explicar para o Rafael, que deve estar rindo, sarcástico, se é que ele consegue rir ou demonstrar sarcasmo, vamos ao que importa para os que me pagam.

     Rafael Papodemos. Não se sabe a sua idade, estado civil, profissão ou verdadeira nacionalidade, mas todos dizem que é grego, embora haja divergências. O que se sabe é que é uma pessoa horrível! O pior entre os piores, o maléfico entre os maléficos; talvez pior ainda do que Aleister Crowley, que foi considerado o pior entre todos os homens da sua época, e que se autodenominava a Besta 666. Não sei por que; no seu tempo não houve Apocalipse. Mas agora haverá, se deixarmos, graças a Rafael Papodemos. Tudo indica, inclusive o Calendário Maia, o Egípcio e tantos outros calendários ainda não descobertos porque estão muito bem guardados por aquelas sociedades secretas que adoram esconder tudo de todos, ou não seriam secretas.

     Rafael Papodemos. Fala-se muito sobre ele; que a primeira vez em que ficou milionário - depois de acertar em uma daquelas loterias não muito confiáveis, que engordam os bancos e os governos – não deu festas, não presenteou os amigos, não participou de grandes viagens em transatlânticos para ver o Roberto Carlos cantar, não comprou carros importados nem mandou construir mansões luxuosas, não casou com a BBB mais linda. Sumiu. Sumiu e investiu o dinheiro. Todo o dinheiro. Não comprou nem uma caixa de bombons para os irmãos, embora eu não acredite que ele tenha irmãos. Pessoas como Rafael Papodemos não tem irmãos, não tem parentes, não tem amigos, tem somente espelhos e muitos são os espelhos que existem nas casas de Rafael Papodemos. Mas vamos por partes.

     Rafael Papodemos. Logo que reapareceu foi muito fotografado, cada vez com um rosto diferente. Máscaras, só poderiam ser máscaras, mesmo que parecessem rostos verdadeiros, humanos, de carne e osso. Estava imensamente milionário. Mais imensamente milionário do que o mais imensamente milionário. Sabe-se apenas, com quase certeza, do seu corpo. Nem muito baixo, nem muito alto. Esguio e forte como o de um ginasta. E dos olhos. Os olhos são imperdoáveis, de um verde claríssimo que assusta e intimida. Poucos são os olhos assim, mas há quem diga que usa lentes. Apareceu, ou reapareceu, como que do nada, como se dissesse aqui estou; não esperavam por mim?

     Rafael Papodemos. Começou a circular em círculos... Mas o que estou escrevendo? Quem circula, circula em círculos, não sejamos tão óbvios! Círculos cada vez mais fechados. Fechadíssimos! Relacionando-se com poucas pessoas, selecionadas entre as mais seletas – e até aí estava tudo normal, porque é assim que os muito ricos agem. Fecham-se como ostras, com medo de que roubem a sua preciosa e escondida pérola. Ouvia muito, falava pouco, dizem que com uma voz metálica, mas deve ser lenda. Sempre arredio, cuidadoso, cercado por aqueles imensos guarda-costas. Mesmo quando o convidavam para participar de negócios, que deveriam ser secretíssimos, os guarda-costas ficavam ao lado ou em volta e ninguém podia dizer ou fazer nada a respeito. Não com Rafael Papodemos.

     Rafael Papodemos. Foi eleito O Cara Do Ano pela revista Forfaite e, ao receber o prêmio, fez aquele discurso que todos conhecem ou deveriam conhecer, absolutamente inútil e antiético. Disse que estava recebendo o prêmio porque era muito rico e não pelos seus belos olhos (foi esta a expressão usada!), porque se fosse um negro pobre jamais receberia prêmio algum, mas chibatadas travestidas de salário mínimo. Todos se retiraram e ele saiu gargalhando entre todos. No dia seguinte recebeu uma intimação judicial. Deveria se desculpar perante os negros. Negou-se. Foi preso simbolicamente e condenado simbolicamente a prestar serviços à comunidade ou pagar uma multa gigantesca para a indignada comunidade negra. Pagou a multa e ainda disse que era esse o seu desejo ao fazer aquele discurso: ajudar os negros pobres. Foi novamente intimado a comparecer em juízo para explicar-se, mas a acusação foi retirada, o promotor ganhou inesperadas férias com passagens pagas para Cancún e o juiz se considerou suspeito, porque pertencia a um dos clubes de Rafael Papodemos. Já naquela época todos os clubes eram de Rafael Papodemos.

     Rafael Papodemos. Alguns dentre os muito ricos, os mais afoitos e desavisados – e é difícil acreditar que existam afoitos e desavisados entre os muito ricos -, iniciaram uma campanha moral contra Rafael Papodemos, nas suas revistas, jornais e canais de televisão. Através de terceiros, Rafael Papodemos comprou todos os veículos de comunicação. Ou quase todos. Restou uma revista, que parecia inexpressiva, onde um dos colunistas disse que Rafael deveria ser gay, porque nunca fora visto com mulher. Em um dos seus jornais, Rafael concedeu uma entrevista onde dizia que não era gay porque abominava o sexo passivo, acrescendo que respeitava a escolha sexual de cada um. Foi processado e pagou a multa astronômica antes de ser condenado, afirmando que gostaria de ajudar as associações de GBLT. Juízes e promotores respiraram aliviados: não precisariam dar-se por impedidos ou viajar para Cancún. Naquele mesmo mês, Rafael disse, em outra entrevista para uma das suas revistas, que mulher era uma questão de preço. Chamou todas as mulheres de prostitutas. No dia seguinte, os seus advogados concordaram em pagar a multa muito acima do que as associações femininas previam, e Rafael afirmou que tinha dito aquilo porque era a única maneira que encontrara para ajudar o movimento feminista, que achava tão bonito. Divertia-se.

     Rafael Papodemos. Foi considerado louco, excêntrico, extravagante, mas, quando chegaram as eleições todos os políticos de todos os partidos correram a bater à sua porta. Rafael montou um escritório, que denominou de “Escritório de Ajuda Política”, onde todos os candidatos iam receber os seus cheques e prometer lealdade e honestidade com a coisa pública. A coisa pública era Rafael. Acredito que ainda seja. Lembram-se daqueles escândalos? Rafael. Todos eles. Sempre através de agentes fantasmas, que concordavam em dar a cara para bater no caso de serem descobertos. Quase todos foram descobertos, condenados e soltos. Ainda faltam alguns, que terão o mesmo belo e folgado destino.

     Rafael Papodemos. Certa vez um dos últimos grupos anarquistas o chamou de anarquista. Ele revidou dizendo como posso ser anarquista se eu sou a cara do Sistema? Aliás, eu sou o Sistema. O Sistema não reclamou. Sumiu novamente, depois de comprar todos os bancos e casas de crédito. Foi quando começou a crise na Europa e os seus seis gigantescos guarda-costas foram fotografados por um daqueles repórteres paparazzi em um café de Paris. Suspeita-se de que Rafael estivesse entre eles. Depois em Roma, Berlim, Tóquio, Nova Iorque, Londres e até nos Alpes suíços, quando aconteceu aquele desastre que matou três agentes da inteligência internacional. Rafael Papodemos. Ele também tem os seus agentes especializados, que se antecipam a qualquer ação. Antecipou-se e comprou os serviços secretos do mundo inteiro, com governos e tudo. Os governos não reclamaram, o preço era muito bom. Reservou-se o direito de escolher presidentes e primeiros-ministros. Através de eleições, é claro, mas todos os políticos eram de Rafael Papodemos. Foi quando surgiram os livros denunciando os Illuminati, o Clube de Roma, a Távola Redonda, o Foreign Office dos Estados Unidos, o Clube Bilderberg, a associação Caveira e Ossos, extremamente secreta, mas flagrada por um cineasta indiscreto em uma das suas iniciações de homossexualismo implícito e drogas estranhas, inclusive bebidas com alto teor alcoólico. Todos os escritores apontavam essas organizações secretas como as responsáveis pelos males do mundo, até pelo efeito estufa. Não posso afirmar com certeza, mas minhas fontes fidedignas dizem que eram escritores a soldo de Rafael Papodemos. Seria uma manobra diversionista para que o mundo internético acreditasse nas maquiavélicas manobras dos dominadores do mundo real – reis, presidentes, banqueiros, domadores de circo, apresentadores daqueles irritantes programas de variedades, jogadores de futebol que conhecem o drible do coice, princesas, misses e colunistas sociais que se deixam matar, aos poucos, pelo amor ao ócio, seriíssimas apresentadoras de jornais televisivos com olhar magnético e transbordante sex-appeal; blogueiros indiscretos que escrevem aparentes absurdos, sempre errando na pontuação e na concordância, artistas, escritores, poetas, escultores; especialistas em instalações onde tresanda o cheiro do amor e quase anda o engano da morte, entre cortinas que parecem irreais, sons multidimensionais, aparições surreais e atmosfera densa e voluptuosa; jogadoras de tarô, viciadas em bingo, adolescentes hipnotizados por jogos eletrônicos; mães, pais e filhos de todos os clubes comunitários onde se fala sobre a paz e o bem e se pensa em futebol e novelas; estudantes valorosos dispostos a mudar o mundo através de passeatas a favor da liberação das drogas mais leves; as últimas donzelas que ainda esperam o seu cavaleiro andante, perdidas nas nuvens de uma idade média não tão média, mas muito própria. Rafael Papodemos.

     Rafael Papodemos. Lembram dos tsunamis na Indochina e Japão, do terrível terremoto no Haiti, e outros terremotos menores, mas não menos sinceros e graves? Pensem bem nas ameaças de guerra entre as duas Coréias, na primavera árabe que já está virando outono, nas ameaças diárias entre Irã e Israel, na nova crise das Malvinas, nos assaltos diários no Brasil, na invasão dos morros do Rio de Janeiro, nas eternas balas perdidas que enfeiam o corpo de tantas pessoas. Pensem nas crianças mudas, telepáticas e nos adultos apáticos que fingem que nada está acontecendo e que sempre dizem que não é com eles a tragédia do vizinho. Rafael Papodemos.

     Rafael Papodemos. Dizem que foi ele que convenceu Dilma Roussef a construir a hidrelétrica de Belo Monte, mas pode ser boato. Ele teria sido o responsável pela aprovação do Novo Código Florestal, também conhecido por Código do Desflorestamento Final. São os seus satélites que vigiam, observam, anotam, fazem gráficos e análises complexas sobre a Mata Atlântica e a Amazônia, com o único objetivo de alegrá-lo quando aumentam as queimadas e mais árvores são cortadas e arrancadas. São os poucos momentos em que fica feliz. Também gosta dos programas do Jô Soares e do Silvio Santos, mas tem ojeriza pelos filmes de Fellini. Depois que ele comprou as bolsas de valores do mundo inteiro, brinca fazendo com que elas oscilem diariamente. Principalmente na Europa, porque detesta a figura que simboliza o euro. Acha o dólar mais rebuscado, mas passável; costuma rir-se do real e diz que nunca entendeu porque o FHC repudiou os próprios livros ao tornar-se presidente pela primeira vez. Considera o Lula uma graça, mas diz que a Marisa é mais simpática. Não gosta de falar sobre Dilma Roussef. Alguns mais próximos (e são tão poucos!) afirmam que o único momento em que sente algum temor é quando ouve Dilma falar. Não se sabe o porque. Talvez algum trauma de infância, se é que Rafael teve infância.

     Rafael Papodemos. Há boatos de que ele teria preferido o Brasil para morar devido ao Carnaval, período em que ele pode vestir-se de baiana e soltar a franga em várias escolas de samba que patrocina. Mas, evidentemente, são boatos maldosos, provavelmente espalhados pelo repórter que disse que Rafael é gay. Foi a primeira vez que Rafael reclamou da extrema liberdade de imprensa, embora quase toda a imprensa seja dele. Quase. Os veículos de comunicação anarquistas (aqueles dois!) recusaram-se a se vender por uma questão de ética. Ou de ótica, porque é muito comentada uma reunião extremamente anarquizada, onde rolou vodca com guaraná e aquela droga que o FHC defende, e alguns diziam que seria muito anarco-político-independente vender-se a alguém do Sistema, pegar o dinheiro e depois jogar coquetéis molotov no próprio jornal, em protesto. Mas voltaram atrás quando os que ainda não estavam bêbados lembraram que ficariam sem jornal e tornar a pichar paredes é contraproducente e cansativo, além do frio e da geada das noites de inverno. Já os comunistas não se fizeram de rogados. Venderam-se na hora. Como estão muito preocupados em promover a revolução burguesa, para somente depois tentar a revolução socialista, acreditaram que um dinheirinho a mais vinha a propósito. Restou, também, uma revista, a última das nanicas, cujo dono disse que preferia tentar o suicídio jogando-se nas águas poluídas do Tietê a vender a razão da sua vida, que é lida somente por ele, a família e alguns vizinhos e conhecidos. Eu inclusive. Rafael Papodemos não deu bola. Preferiu voltar a sua atenção para assuntos mais interessantes. Fundou a era do sertanejão country, aproveitando para vender chapéus de cowboy, cavalos de raça, bois que parecem touros e toda aquela parafernália que os adeptos e simpatizantes adoram usar nas festas que julgam tão necessárias. Depois de divertir-se um pouco com tudo aquilo, Rafael Papodemos sumiu de novo, justamente no momento em que se falava muito em aquecimento global e mudança climática.

     Rafael Papodemos. Vocês adivinharam – foi ele! Não tinha mais o que fazer, disse certa vez a uma das amantes compradas, que foi logo vender a sua informação para aqueles jornais anarquistas. Não ganhou nada, apenas o prazer, embora não se saiba que tipo de prazer. Não tinha mais o que fazer, ora vejam! Os muito ricos tem essa mania de não ter o que fazer e é justamente quando fazem as coisas mais terríveis. Fabricou o seu próprio ônibus espacial, que o levou para a sua estação orbital particular. De lá, olhou para nós e disse a célebre frase: “A Terra é azul.” Pois, pois. Olhou para o céu e, no primeiro dia ficou extasiado, no segundo dia ficou deslumbrado, no terceiro dia demorou-se a olhar para as crateras da Lua. E viu que era bom. No quarto dia bombardeou a atmosfera terrestre com o seu laser especial, no quinto dia apontou o seu telescópio para a Terra e ficou chateado com tanta confusão e bagunça que ele tinha promovido; no sexto dia programou no seu computador um novo ser mais evoluído e complexo para povoar o nosso planeta e criou os genes sintéticos de uma natureza submissa. Adorou. No sétimo dia descansou, dormindo enquanto voltava.

     Rafael Papodemos. Nunca deveremos esquecer esse nome. Quando lutamos contra o aquecimento global, o buraco na camada de ozônio, os raios refletores que atingem a ionosfera e provocam todo o tipo de transtornos chamados pela sua mídia de “naturais”, os transgênicos que adormecem e desertificam a terra, o desmatamento desenfreado, a fome e a sede de milhões de habitantes deste nosso pequeno planeta, as injustiças que são consideradas normais pelos governantes governados por ele... lutamos contra Rafael Papodemos.

     Os mais trôpegos dizem que não se pode lutar contra alguém que domina a tudo e a todos, mas recentemente foi descoberta uma maneira. O dono daquela revista, a última revista nanica, enviou para um dos túneis onde Rafael Papodemos se refugia esperando o fim do mundo que programou para dezembro, com a ajuda dos seus cientistas comprados... O dono daquela revista enviou para Rafael Papodemos um espelho. Nunca se ouviu tamanho grito; inclusive, ouve ameaça de tsunami, porque a terra tremeu ameaçadoramente. Mas temos que correr todos os riscos contra o risco maior da nossa extinção. Espelhos continuam a ser enviados para Rafael Papodemos. Dizem que ele os quebra. Melhor: sete anos de azar. Mas sete anos é pouco. Se você não conhece o endereço de Rafael e quer participar da campanha envie espelhos para todos aqueles que se venderam, principalmente para os políticos. Ainda há uma chance.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

LEVEZA


Sejamos leves. É importante que a leveza esteja presente em todas as nossas ações, sejam elas quais forem. Leveza é sinônimo de democracia. Leveza e ar perfumado. Observemos a mídia amestrada: como é leve em seus falares e dizeres. Também os políticos amestrados. São leves e suaves. Jamais discutem, apenas colocam posições. Obviamente, estão todos perfumados. Faz parte dos hábitos da época. Adoram comissões de inquérito para inquirir o que todos já sabem.

     - Sr. Bicheiro, é verdade que o senhor é banqueiro de jogo do bicho? Pode me dar um palpite para que eu faça uma fezinha?

     - Oh, sim. Tente o 666.

     - Sr. Corrupto Reconhecido, quanto roubais?

     - Apenas o suficiente; tenho muitos parentes.

     E nos debates:

     - Exmº Sr. Deputado que se opõe a mim, saiba que eu me oponho a vós.

     - Anotado, Exmº Sr. Deputado que se opõe à minha oposição. Saiba que tenho o senhor em alta estima e o convido para um cafezinho na sala das Abóboras Coloridas para fazermos um acordo que una as nossas oposições tão ferrenhas.

     - Dependerá do preço, Ilustríssimo Excelentíssimo senhor prezado deputado.

     - Quanto a isso poderemos falar com um dos ministros amigos ou com algum dos empresários ansiosos por uma fraudulenta licitação. Nada que não se possa resolver com uma boa conversa. Estamos numa democracia.

---

     - Prezado senador que tanto ilustra com o seu saber e erudição esta casa do Congresso, gostaria de lembrar a todos as suas ligações com a ditadura oficial fardada naqueles anos de chumbo, quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo e ficamos tão felizes.

     - Foram apenas ligações tênues, Excelência. Um ou outro assassinato, algumas necessárias torturas, e nada que eu tenha visto; apenas informações sigilosas que perderão o sigilo daqui a cinqüenta anos quando esta democracia estará devidamente consolidada.

     - Foi como eu disse, Excelência. Eu apenas gostaria de falar a respeito, mas perdi o gosto subitamente quando Vossa Excelência mencionou aqueles atos de bravura e peço à Presidência que considere o meu discurso como lido. Quem desejar lê-lo na íntegra deverá entrar na página do Senado e ali encontrará todas as reticências e eufemismos necessários.

     - A Mesa considera lido o seu discurso, senador. Com a palavra agora, quem é mesmo, secretário? Está na lista, Presidente. Ah, o senador Sono Impenetrável, que já está na tribuna e vem nos honrar com a sua ilustre presença. Por favor, senador.

     - Exmº Sr, Presidente, excelentíssimas e belas senhoras senadoras, excelentíssimos senhores senadores, ouvintes da Rádio Senado, telespectadores da TV Senado, povo brasileiro.

     - Venho a esta tribuna, aliás, não mais venho porque aqui já estou, para denunciar veementemente o que está se passando bem às nossas vistas. São coisas que não me permitem calar, acontecimentos de tamanho significado que nem o verbo de um Cícero ou a indignação de um Silveira Martins conseguiria relatar. Estou aqui para dizer ao povo que me elegeu que estou perplexo e estupefato, talvez mais estupefato do que perplexo – embora não use estupefacientes. Sinto o meu peito doer, as minhas veias latejarem, o meu coração bater descompassado ante os fatos que estão aí para todos verem e julgarem. Estão aí, à vista de todos, senhoras e senhores! E é uma vergonha que estejam aí, porque não deveriam expor-se dessa maneira tais coisas vergonhosas; melhor seria varrê-las para debaixo do tapete, mas, nesse caso, até o tapete deveria ser varrido para debaixo de outro tapete e não teríamos tapetes suficientes para encobrir toda essa lama que não nos deixa caminhar direito nesta grande sala. Coro de vergonha ao narrar esses fatos, mas tenho o dever, a obrigação moral, de não ficar calado perante aqueles que me elegeram e que em mim confiam... Concedo aparte ao digníssimo senador Servílio Servílius, que muito honra esta casa com o seu trabalho, a sua magnificência, a sua lucidez, o seu destemor...

     - Obrigado, sapientíssimo senador Sono Impenetrável. Faço minhas as suas palavras neste momento de tristeza em que tantas coisas estão aí e aí não deveriam estar. Que é feito das faxineiras e dos encarregados pela limpeza? Estarão em greve de novo? Mas isso é uma desfaçatez! Gostaria de saber quem inventou a greve para mandar prendê-lo! Obrigado, senador Sono Impenetrável.

     - A lama, senhoras e senhores! A lama! Exceto no Nordeste e no Sul, onde há estiagem sazonal - mas isso não nos compete, porque todos sabem que chuva é incumbência de São Pedro - haverá chuva e lama assim no restante do país? Até quando sofrerá o povo brasileiro com tanta chuva? Niemayer, oh Niemayer! Por que tantas curvas nesta cidade que está afundando na água pútrida, quando deveria haver apenas uma reta calha providencial? Até quando, São Pedro, abusarás da nossa paciência?

     A leveza. Sejamos leves. É a leveza que faz uma democracia. Vejam as notícias, como são ditas levemente.

     - Três criancinhas morreram de fome hoje, mas a presidente Dilma prometeu que acabará com a miséria em breve. O PIB está cada vez maior.

     - Cidadão morreu de ataque cardíaco em Farmácia Popular, devido à falha do sistema que estava fora do ar, e os vendedores da farmácia não quiseram liberar o remédio. O Governo informou que novas Farmácias Populares estão sendo abertas em todo o país para servir à população. O PIB está cada vez maior.

     - Acidentes com morte ocorreram em todas as estradas brasileiras neste fim de semana, mas o Ministério dos Transportes comunicou que o número de acidentados foi menor do que no ano passado, na mesma época. O PIB está cada vez maior.

     - O desmatamento na Amazônia foi apenas de 34% este mês; 14% a menos do que no mês passado. Os satélites que constataram o desmatamento funcionaram muito bem. O PIB está cada vez maior.

     Coisas assim, ditas com a leveza democrática que o tato jornalístico exige.

     De vez em quando, uma entrevista com seres estranhos e cultos.

     - O que o senhor acha do peripatético andar dos caminhantes?

     - Saudável. Aconselho a todos a caminhar. O povo brasileiro que está acostumado a andar de ônibus deveria andar mais com as suas próprias pernas. Além do mais, ajuda a emagrecer.

     Leveza. Devemos ser leves como é leve a vida para os que afirmam que a vida é leve. É uma questão de democracia. Cada um no seu lugar. Graças a Deus.

terça-feira, 3 de abril de 2012

GUSTAVO ADOLFO E DRICA DE BENFICA - PELO TELEFONE

- Gustavo Adolfo!

- Não precisa gritar, Drica. A cidade inteira vai ouvir.

- O que é um perigo, não é Gustavo Adolfo? Você viu o que aconteceu com o...

- Não diz o nome! Não diz o nome!

- Está bem, Gustavo Adolfo, não vou dizer o nome do...

- Não! De preferência não fala, se falar cochicha, se cochichar que seja bem baixinho.

- Credo, Gustavo Adolfo!... Você está com síndrome de pânico? Até parece que essa síndrome virou moda...

- Eu estou é com síndrome de guarda pretoriana, Drica.

- Preto, Gustavo Adolfo? Você não sabia que não pode dizer que preto é preto ou vai pra cadeia?

- Pretoriana, Drica. Não é preto.

- Mas começa com preto, não é Gustavo Adolfo? Onde é que você está?

- Eu estou numa reunião aqui no... na casa do...

- No partido, Gustavo Adolfo?

- Não fala em partido, Drica! De preferênca não fala em nada pelo telefone.

- Uai, mas não é um telefone celular? O que é que tem?

- O que é que tem? O que é que tem? O que tem é que hoje em dia até vídeo-game é perigoso.

- Mas eu não jogo vídeo-game, Gustavo Adolfo! Isso é coisa para adolescente que foge das aulas. E é tão ridículo! Mata isso e mata aquilo. Depois eles saem enlouquecidos e querem dar tiros nos outros.

- Não é isso que eu queria dizer, Drica. Estou tentando lhe falar que o silêncio é de ouro, entendeu?

- E agora eu vou ficar muda no telefone, Gustavo Adolfo? Me diz pra que o telefone serve? Não é pra falar?

- Drica, estamos vivendo momentos perigosos no nosso país.

- Grande novidade, Gustavo Adolfo! O que é que a Dilma fez agora? Se recusou de novo a dar aumento para os militares?

- Não fala o nome Dilma, nem menciona os militares, Drica! Se falar diz “a presidenta” e “os excelentes defensores da nação” – dá pra entender?

- Claro que dá, Gustavo Adolfo. Eu sou loura, mas não sou burra, viu! Já estou ficando com a língua engessada neste telefone. O que podemos falar? Ah, já sei... Lembra do meu colar de pérolas, aquele que tu me deste de Natal? Vou usar hoje de noite no nosso jantarzinho, só pra te alegrar. Pode ser que até lá você esteja melhor, Gustavo Adolfo. Toma um chazinho pra melhorar o humor.

- Não!!

- Não o que, Gustavo Adolfo? Não vai ter jantar? Tu não gosta mais de mulher bonita? Viraste gay?

- Não diz bobagem, Drica! É o colar. Sabe, na época de Natal eu estava com pouco dinheiro e pedi emprestado para um amigo para comprar o colar pra ti.

- Agora eu tenho certeza de que tu gosta de mim, Gustavo Adolfo, que tu me ama. Fazendo sacrifício, te endividando só pra me agradar!

- Na verdade, eu não me endividei, Drica. Foi uma troca de favores. Sabe aquele nosso amigo, aquele que não podemos dizer o nome?

- O...

- Não diz!

- O que foi, Gustavo Adolfo? Voltou a crise de pânico?

- Que crise, Drica? Não ouviu falar que o... o telefone é inimigo do homem?

- Só se for aqui no Brasil, Gustavo Adolfo, porque em outros países o telefone até que é um dos maiores amigos do homem. E da mulher também, não seja machista!

- Pois é aqui, Drica, é aqui. Há mais coisas entre o Brasil e o resto do mundo, Drica, do que sonha a tua vã filosofia.

- Ai, que bonito Gustavo Adolfo!... Eu não sabia que tinha uma vã filosofia, mas é bonito... Continua falando assim.

- Falar é que são elas – como diria o poeta mudo, espreitando as meninas na janela.

- Deu até rima, Gustavo Adolfo! Tu tá virando poeta?

- Se a coisa continuar assim, vai ser o único jeito de se comunicar, Drica.

- Que coisa, Gustavo Adolfo?

- A coisa que não podemos falar, Drica, os amigos que não podemos citar, os presentes que não podemos dar.

- Rimar em “ar” você já sabe, Gustavo Adolfo.

- Por falar nisso, vou desligar, Drica. Neste país que me engana nunca se sabe onde está a guarda pretoriana.

- Lá vem você com essa tal de pretoriana de novo, Gustavo Adolfo. Afinal de contas, o que é isso?

- Isso é o que não se sabe, Drica. Pode estar no ar, no mar, em qualquer lugar. Esta é uma época em que não é mais proibido proibir. “Atenção: tudo é perigoso”. Mas não é mais divino, maravilhoso...

- Por quê, Gustavo Adolfo? Agora você tá ficando depressivo?

- Só apreensivo, Drica. Ninguém escapa...

- Já sei: à tal de guarda pretoriana!

- Ao que tem censura e sempre terá Drica. E isso não tem sentido: afinal, éramos ou não uma democracia?

- Depende, né Gustavo Adolfo. Talvez falte um “r”.

- Como assim, Drica?

- Erramos! Acreditamos! Sonhamos! E acabamos com crise de pânico ou depressão.

- Drica, você às vezes...

- Te surpreendo, não é amor da minha vida?

- Drica!

- Não precisa gritar, Gustavo Adolfo.

sexta-feira, 30 de março de 2012

A LUZ DA VERDADE


Está havendo um grande equívoco e muita gente esta caindo nele. O que houve em abril de 1964 foi a derrubada de um governo constitucional, eleito livremente pelo povo. As Forças Armadas, por não concordarem com o governo, o derrubaram através de um golpe militar, sem qualquer apoio popular. Deram a sua versão do golpe, chamando-o de revolução, quando, na verdade, foi uma quartelada contra a qual não houve resistência porque o presidente João Goulart preferiu fugir do país e as forças populares ficaram órfãs de liderança. Os demais líderes políticos da época seguiram o caminho de Jango, fugindo como se fossem culpados, quando a sua única culpa foi a fuga.

     Sabia-se que a IV Frota dos Estados Unidos estava em mares brasileiros para apoiar o golpe, mas até os generais golpistas se surpreenderam com tanta facilidade, quando tomaram o poder. Esperavam resistência, porque Jango era um líder popular que já tinha sido golpeado em 1961, mas conseguira assumir o poder graças à resistência do povo gaúcho, que recebeu a adesão do III Exército.

     Foi um golpe anunciado.

     O governo Goulart defendia a reforma agrária e o nacionalismo, e os militares brasileiros da época eram a favor do domínio dos Estados Unidos nas Américas. Desde 1945, quando derrubaram Getúlio Vargas, percebeu-se uma nítida mudança de rumo na ideologia das Forças Armadas brasileiras. Estas, tinham ajudado as forças aliadas a vencer a guerra na Europa e seus líderes militares voltaram daquela guerra com a “cabeça feita” pelos ideólogos estadunidenses.

     Era época da Guerra Fria e eles acreditavam que o Grande Mal residia na União Soviética e que os Estados Unidos e governos aliados da Europa eram os defensores das forças do Bem. Acreditavam que tudo deveria ser dado para essas forças do Bem, inclusive o território dos seus países e as mentes dos seus habitantes. Sucederam-se os golpes militares na América do Sul e Central.

     Em nome do que os militares chamavam de democracia os governos eleitos democraticamente eram derrubados.; e maior era a opressão quando esses governos eram a favor do povo, como no Brasil, que tinha um governo claramente nacionalista. Os partidos comunistas existiam, mas eram minoria insignificante, que nada pesava no cenário político nacional.

     O grande medo era o nacionalismo.

     Mas foi em nome do combate ao comunismo que, em 1º de abril de 1964 o governo João Goulart foi derrubado. E Jango não era comunista.

     Sucederam-se as perseguições, as torturas e os assassinatos, não somente contra os nacionalistas, mas também contra os socialistas e comunistas, e isso provocou a resistência armada de diversas facções, em sua grande maioria da classe média, sem nenhum contato com o povo ou organizações populares.

     Fundaram-se partidos clandestinos, objetivando a luta armada contra o regime militar e alguns tentaram fazer a revolução urbana, outros a revolução rural, e todos esses grupos foram dizimados, falhos em organização e diminutos em número. Nunca se leu tanto Marx como nos anos ’70 e ’80. O golpe militar dava seus frutos contraditórios.

     No final dos anos 1980 a União Soviética ruía e no Brasil – assim como nos demais países militarizados das Américas – havia uma “abertura política”, porque um regime ditatorial não é bom para os negócios e os grandes empresários que tinham bancado aquela aventura necessitavam abocanhar um crescente mercado de jovens sem rumo.

     Tudo pelo Mercado. O cenário foi armado através de passeatas, shows de músicos da moda, todo o apoio da mesma mídia que apoiara o golpe militar, e a geração pós-revolucionária se viu engajada na “luta pela democracia”, que nada mais era que a volta do voto livre e direto com a certeza de que os eleitos seriam sempre os amigos do poder.

     Anos depois de Sarney, o Obediente, Collor, o deposto pela Globo, Itamar, o magro passivo e Fernando Henrique, que começou a entregar o Brasil para as multinacionais, foi eleito Lula, já manso e obediente, que continuou a política dos presidentes civis anteriores e acelerou a entrega do país. Dilma é Lula de saias, atrapalhada e gritona, talvez por ser atrapalhada. Guarda o trono para o seu grande amigo, enquanto os militares dão gargalhadas nas casernas.

     Mas pararam de rir quando foi instituída a Comissão da Verdade, para apurar as torturas e assassinatos da ditadura. Reclamam em altos brados. “Mas como! O trato não era esse! Vocês podem até votar e eleger os seus corruptos representantes, desde que não toquem no que nós fizemos enquanto éramosos seus incorruptíveis donos. Comissão da Verdade?! Estão brincando?! Olha que nós damos outro golpe...”

    O trato não era esse. A anistia combinada pelos sarneys, tancredos, simons, ulisses e outros menos votados era uma anistia ampla, geral e irrestrita, incluindo os torturadores e assassinos militares. Os anistiados da oposição poderiam sair da cadeia ou voltar para o Brasil – e os que voltaram estavam devidamente aculturados, mansos e quietos, sedentos pela democracia suíça, mas o que fazer? Aqui é Brasil e era necessário dar tempo ao tempo ou tempo à mídia.

     Os tempos mudaram, apesar de Lula, de Dilma e dos demais acumpliciados com o poder fardado e ao poder de farda era dado o Haiti para invadir e as favelas do Rio para fingirem de guerra.

     Estava indo tudo muito bem, e até Copa do Mundo e Olimpíadas teremos para celebrar a paz dos guettos e a vitória da hipocrisia; todos os dias é descoberto um novo(?) corrupto e a imprensa de Dilma diz que este é um governo quase sem inflação e com um PIB gigantesco e todos ficam felizes quando assistem novelas, futebol e BBB, além de outras digestivas cassetas que servem para amainar a triste visão da nudez do Rei (ou da Rainha) quando, súbito!

     Súbito, os massacrados, os torturados de verdade e os assassinados pela ditadura militar saem dos túmulos, esbravejam nas desconhecidas covas onde foram escondidos, gritam, insepultos, nos papéis secretos dos órgãos de inteligência e exigem justiça.

     E os militares se unem novamente e dizem: “Não pode! Justiça não! Aquilo foi uma guerra, onde houveram mortos e feridos de ambas as partes e se nós matamos e ferimos mais é porque estávamos mais bem armados! Silêncio ao silêncio! Quede-se muda a Comissão da Verdade por mais cinquenta ou cem anos, até que todos esqueçam definitivamente aqueles anos que foram de muito chumbo, sim, e daí?”

     Daí que a memória não aceita a mentira. Não foi uma guerra. Foi um período ditatorial de opressão, de torturas e de assassinatos até hoje impunes. Não foi uma revolução, mas um período de retrocesso político; foi a Idade Média do Brasil, onde os suseranos moravam nos Estados Unidos e os vassalos fardados obedeciam as suas ordens.

     Os que resistiram, muitas vezes de armas nas mãos, exerceram um direito e, se hoje temos um governo destinado a passar para a História como subserviente e omisso aos donos do poder mundial, nem todo o povo brasileiro é formado por acomodados zumbis.

     Por isso é necessário que a verdade histórica apareça, até para salvaguardar a honra das Forças Armadas. Urge que os responsáveis pelas três armas reconheçam que naquele momento de loucura da nossa história foram cometidos crimes que não podem ser aceitos como naturais, ou a corrupção moral também aparecerá dentro das Forças Armadas e o povo consciente acreditará que as Forças Armadas da época da ditadura militar são as mesmas Forças Armadas de agora. Só mudaram os chefes. Não se pode ter medo de fantasmas, se realmente são fantasmas; mas pode-se exorcizá-los com a luz da verdade.

sábado, 24 de março de 2012

A CULPA É DA VÍTIMA

(obra  de Portinari)

A culpa é da vítima. Principalmente se a vítima for pobre e desconhecida e tiver o desplante de pedalar em ruas que deveriam ser reservadas apenas para os carros, um símbolo de poder neste Brasil tão aculturado que até programa de culinária é temperado com música estrangeira.

     A nossa cultura deve ficar escondida embaixo do tapete, porque somos brasileirinhos e não brasileiros. De vez em quando alguns vão até a Disneylândia bater o ponto, outros vão ao Canadá aprender inglês ou são assassinados nas ruas européias. Outros, mais brasileirinhos ainda, pensam que o país é de todos e escolhem erguer casebres em lugares de onde serão expulsos a tiros e cacetadas, e depois assistem ao discurso da Grande Mãe que afirma que vai acabar com a miséria no país. Faz parte da nossa cultura ser expulso pela polícia a pauladas.

     A culpa é da vítima. Principalmente se a vítima não concordar com a cultura importada e preferir usar bicicleta nas ruas deste Brasil tão grande. Acreditar que o Brasil é nosso também faz parte da nossa cultura. Nunca aprendemos que o Brasil é, em primeiro lugar, daqueles que tem muito poder e dinheiro. Depois é que vem os outros, em gradual escala decrescente, de acordo com o poder aquisitivo de cada um. Este é um país que vai pra frente.

     Pra frente dos carros, dos ônibus, dos caminhões, de todos os veículos automotores dirigidos por pessoas com licença para matar principalmente pedestres e ciclistas – porque a culpa sempre será da vítima.

     Além dos pedestres – o que já se tornou corriqueiro e nem mais é considerado notícia – a moda agora é matar ciclistas. Ciclocídio no Brasil mambembe.

     Somente neste mês de março de 2012, de acordo com o blog VITÓRIA SUSTENTÁVEL –http://vitoria sustentável.blogspot.com.br – foram atropelados e mortos 50 ciclistas. Remeto o leitor àquele blog para ver a lista.

     Alguns dos assassinados, digo, dos acidentados, foram notícia, como a ciclista Juliane Ingrid Dias, atropelada por um ônibus, em São Paulo, a jornalista Márcia Shoo, que fazia uma trilha em Maceió e foi atropelada por um caminhão, ou o servente de pedreiro Misael Severino dos Santos, atropelado por um Chevette na região metropolitana do Recife, PE.

     Mas o mais famoso acidente foi o que envolveu Thor Batista, filho do milionário Eike Batista e que resultou na morte do ajudante de caminhão Wanderson Pereira dos Santos, de 30 anos.

     Thor afirma que a culpa é da vítima.

     A escritora catarinense Urda Alice Klueger, autora de diversos livros, em um trecho de sua recente matéria intitulada “MORREU NA CONTRAMÃO ATRAPALHANDO O TRÁFEGO”, escreve:

     “A verdade que se tenta encobrir com as versões de Eike e a omissão de seu até aqui mudo filho mais velho, visa resultar na transformação do ajudante de caminhoneiro de vítima fatal em principal culpado de sua própria morte. Uma manobra com requintes de crueldade. Com a mesma determinação demonstrada por Thor e os dois homens que o acompanhavam no carro de, até aqui, não abrir a boca sobre o que de fato aconteceu, Eike aninhou-se no twitter para pilotar pessoalmente a sua versão sobre o fato. Ele já determinou que o ciclista foi colhido quando pedalava pela segunda pista, a de ultrapassagem, em lugar do acostamento, como sustenta a família. Também disse que, apesar da falta de confirmação da perícia, ela foi sim feita pela polícia, apesar de o carrão ter sido liberado logo após a morte de Wanderson."

     E começa a sua matéria dizendo:

     “A sabedoria popular já traçou o desfecho do caso: "não vai dar em nada, vai ficar tudo por isso mesmo”."

     Óbvio. Qual o juiz que vai condenar o filho de Eike Batista?

     Eu moro em uma cidade onde não existem ciclovias, as calçadas são estreitas e os motoristas, ao mais das vezes, não são confiáveis. Dia desses, ouvi um motorista indignado dizer que os canteiros deveriam ser retirados para que as ruas sejam aumentadas. Já começaram a cortar as árvores. Em vez de árvores, agora temos florzinhas nos canteiros. O governo municipal chama isso de “revitalização”. Valentim Casali, ex-vereador, ano passado, amarrou-se com correntes em uma das poucas árvores restantes para evitar que fosse derrubada. Esta é uma cidade muito perigosa. O governo daqui é motorizado.

     Ainda sobre o acidente que matou Wandersson, Urda diz, no seu artigo:

     “Sua vida era, como a de tantos, uma repetição. Em muito parecida com a descrita por Chico Buarque em Construção, de 1971. Wanderson devia atravessar “a rua com seu passo tímido” e agradecer a Deus por lhe deixar “respirar”, por lhe deixar “existir”. Sabe-se que era humilde, respeitador das regras sociais, atento à família. No mesmo paralelo do operário que “ergueu no patamar quatro paredes sólidas”, ele também vivia do trabalho braçal, trocando pesados pneus, sujando-se de graxa e poeira. Como o personagem de 41 anos atrás, agora mais que presente, também Wanderson “morreu na contramão atrapalhando o sábado”. O sábado da elite. Thor teria ao chegar o desfrute de uma festa que estava sendo dada por seu irmão Olin, para 150 pessoas.”

     É muito perigoso atrapalhar o tráfego, o trânsito e até o tráfico. Principalmente se você for pedestre ou ciclista. Nos sábados à noite nem pensar! As pessoas tem o hábito de correr nesses dias. Geralmente embriagadas ou sob o efeito de outra droga. Mas estamos no Brasil, onde drogar-se é uma questão de status. A própria presidente do país está inclinada a transgredir o Estatuto do Torcedor e orientar a sua base no Congresso para que vote a Lei da Copa liberando bebidas alcoólicas dentro dos estádios durante os jogos da Copa do Mundo. Tudo para agradar e obedecer a FIFA, que estará mandando no Brasil naquele período de festividades, em 2014.

     Imaginem os torcedores adeptos desse tipo de droga, depois dos jogos, devidamente embriagados, saindo nos seus carros e atropelando pedestres e ciclistas. A culpa sempre será das vítimas.

     Esta é a terra do crescimento acelerado, onde tudo pode ser feito, desde que dê lucro. Por isso estão desmatando a torto e a direito e destruindo o Parque Indígena do Xingu, uma das maiores reservas ambientais do mundo que está sendo ameaçada de extinção pela construção da usina hidrelétrica de Belo Monte. A usina destruirá inúmeras espécies animais e vegetais e desalojará os indígenas das suas terras. Mas, segundo Dilma e seus assessores ávidos por desenvolvimento acelerado, cada vez mais acelerado ao ponto de atropelar o que estiver pela frente, os índios, os animais e as plantas que saiam de lá. A culpa é da vítima.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O ESTELIONATO ELEITORAL E O MEDO


Vinte e nove votos a zero foi o resultado da votação do reajuste do magistério do Rio Grande do Sul proposto pelo governo do estado e referendado pela sua base aliada na Assembléia Legislativa, no dia 20 de março. A proposta aprovada prevê reajuste de 23,5% parcelado até fevereiro de 2013. O Rio Grande do Sul paga o pior salário do país aos professores – em torno de R$800,00 por uma jornada de 40 horas semanais.

     O reajuste proposto e aprovado pelo governo do estado – porque os deputados da oposição se retiraram na hora da votação - fica bem abaixo do piso nacional de R$1.451,00. Uma das bandeiras da campanha do governador Tarso Genro (PT) foi o reajuste salarial dos professores de acordo com o piso nacional. No mínimo. Agora, os professores estão chamando Tarso de estelionatário eleitoral, porque, além de não cumprir com a sua promessa, repete a política de tantos outros governadores que o povo gaúcho esperançoso tem eleito e com os quais tem sofrido.

     Os professores gaúchos estão muito surpresos com o governador. Em sua grande maioria votaram em Tarso, devido às suas promessas de campanha e também nele votaram porque é do PT – muitos ainda acreditando que o PT é um partido a favor do povo e dos trabalhadores. Outros, acreditando que votar no PT seria a única alternativa possível, uma vez que a oposição formal àquele partido é composta por partidos de extrema-direita.

     E assim tem sido, não só no Rio Grande do Sul como em todo o Brasil. Ao povo o PT é apresentado como um partido salvacionista, ao qual é necessário referendar nas urnas, caso contrário a extrema-direita tomará o poder e novamente e tudo o que foi conseguido desde a campanha das Diretas Já irá por água abaixo.

     É uma chantagem política que coloca as pessoas de boa vontade no paredão da confiança cega.

     O resultado dessa cegueira está sendo visto todos os dias. Mensalões e mensalinhos, acusações de corrupção em muitos ministérios, que respingam no vestido imaculado de Dilma Roussef, certeza de impunidade dos grandes ladrões da República, um governo aliado com todos os partidos que desejarem apoiá-lo, sem ideologia, desejando o poder pelo poder e nada mais, sem um projeto para o Brasil, apenas a velha demagogia; um governo aliado do latifúndio, para o qual faz leis como o novo Código Florestal; um governo aliado das grandes empresas, às quais auxilia de todas as maneiras; um governo aliado estratégico dos Estados Unidos, ao qual serve como vassalo; um governo que se mostra cada vez mais hipócrita em relação ao povo que o elegeu.

     E – o mais grave - um governo que promove a alienação, para que a inconsciência do povo lhe dê os votos que necessita para se perpetuar no poder.

     O descaso com as pessoas é gigantesco. O SUS é uma vergonha, a educação depende dos abnegados, e sem educação e saúde não existe um povo, mas um rebanho pronto para o abate, o que acontece a cada dois anos, quando, em fila, as pessoas são obrigadas a votar através de uma estranha máquina eletrônica chamada de urna, que só existe no Brasil, Costa Rica, Honduras e Equador – de acordo com o site http://www.fraudeurnaseletronicas.com.br/.

     E, em fila as pessoas votam no PT, que descobriu que um povo inconsciente e alienado pode ser facilmente manipulado. Pior que isso: as pessoas não só votam no PT – na ilusão de melhores salários – como acreditam que o sistema de democracia representativa é o melhor. Aliás, não acreditam, porque não raciocinam – aceitam. Tem medo de novas possibilidades. Medo de ir além de lutas classistas. Medo de tentar uma reforma geral do Estado.

     Quando ocorre uma traição – e tem havido tantas!... – os interessados gritam bem alto: Traidores!! E depois voltam para casa. Passam-se os meses, os anos, há uma nova eleição e as mesmas pessoas que gritaram contra a traição elegem os mesmos traidores, porque não vêem outra possibilidade. Ou por medo de tentar a verdadeira mudança.

sábado, 17 de março de 2012

SEU CHICO E OS SONHOS


Acordei de manhã cedo e fui até a praça para ouvir os passarinhos. Encontrei o seu Chico no seu banco favorito, chimarreando. Parecia distante, divagando. Cheguei perto e cumprimentei. Abriu-se em um sorriso.

     - Até parece assombração, aparecendo de repente – falou. – Mas senta e vamos matear. Que bicho te mordeu para levantar da cama a estas horas?

     - Dormi cedo, seu Chico, foi só isso. Acordei e resolvi dar uma caminhada. Mas aceito um mate.

     - E eu, o que me tirou da cama foram os sonhos.

     - Que sonhos, seu Chico?

     - Tive uns sonhos estranhos. Acordei, me vesti, fiz um mate e resolvi consultar as árvores a respeito. O senhor sabe que as árvores são sábias – embora existam aqueles que gostam de árvore só pra fazer celulose. Gente má, que maltrata a natureza para enriquecer. Estamos aqui para aprender, mas a maioria só pensa em usar os outros para ganhar dinheiro.

     - Lá isso é verdade, seu Chico. Este mundo está cada vez mais materialista, deixando as pessoas enlouquecidas, principalmente os ingênuos, que acabam acreditando que ter cada vez mais e mais é a única e principal razão da existência.

     - Pois veja o senhor: antes eu pensava que eram só os mais pobres e menos instruídos que alimentavam essa ânsia. No entanto, eles tem razão, passam necessidade, são explorados a vida inteira. Mas agora eu tenho visto gente com dinheiro sobrando e que não pecisaria se deixar envolver por essa volúpia diabólica, “correndo atrás” o dia inteiro – como eles dizem. E correndo atrás do quê? De mais dinheiro, de mais posses, de mais bens materiais. E fazendo isso por quê? – o senhor há de me perguntar. E eu lhe respondo que é por competição. Enfiaram na cabeça dessa gente que a vida é um jogo e os transformaram em aleijados mentais que só pensam em suplantar o mais próximo.

     - Mas não são todos, seu Chico, não são todos...

     - Concordo com o senhor, não são todos. Calculo que só noventa por cento, por enquanto. Temo que as próximas gerações completem os dez por cento que restam. Os que forem exceção serão considerados loucos. Os que sonham, como eu. Os que sonham nos dois sentidos.

     - Mas me conte esses sonhos, seu Chico, se não for pedir demasiado.

     - Os sonhos da noite ou os sonhos do dia?

     - Os da noite, porque os do dia eu imagino quais sejam.

     - Esta noite eu tive três sonhos estranhos e vim me aconselhar com as árvores, e quem sabe foram elas que trouxeram o senhor aqui para eu trocar uma ideia a respeito? Vou contar o primeiro e quero a sua opinião: "Sem perceber, faço a minha cama em cima de uma toca de cobras. Uma delas me morde, mas não é venenosa." O que o senhor acha? Traição?

     - Mais que traição, talvez confiança demasiada em alguém, seu Chico. E, apesar de não ter sido picada de cobra venenosa, cobra é sempre cobra.

     - Foi o que eu pensei. Às vezes eu confio nas pessoas erradas para algum assunto mais sério... Deve ter sido isso. E, como o senhor diz, picada de cobra é sempre picada de cobra, mesmo que não pareça venenosa.

     - Alguma coisa que eu possa auxiliar, seu Chico?

     - Nada que a vida não resolva com o passar dos dias, não se preocupe. É um alerta para que eu tome mais cuidado, esteja mais atento. É uma tristeza isso de ter que estar atento com as pessoas, confiar desconfiando... Viver está virando uma arte, o mundo está ficando muito árido.

     - Tem cobra pra tudo que é lado, seu Chico. Antigamente, e não muito antigamente, era na base do fio de bigode, do olho no olho, do respeito. Mas me conte os outros sonhos.

     - Pois o segundo sonho – e tudo nesta noite passada, veja só... O segundo sonho foi ainda mais estranho, embora eu creia que se relacione com o primeiro: "É uma noite muito escura. Estou pescando com meu pai em um poço muito fundo. Parece um poço artesiano. Pescamos peixes pequenos. Um deles me morde na mão e depois se transforma em morcego."

     - Pescando num poço, seu Chico?

     - Estranho, não é? Em outras épocas um lagoão pequeno era apelidado de “poço” pelo pescador. Mas, no sonho, era um poço mesmo. Fundo, escuro como a noite, e o meu pai – que saudade que me deu do meu velho pai quando acordei! – estava junto comigo. No sonho, é ele que me atende depois que o peixe-morcego me morde.

     - E esse sonho foi depois do sonho da cobra?

     - Foi depois, quase em seguida.

     - Então tem relação mesmo, seu Chico. E estou tentado a lhe dizer que, apesar das mordidas traiçoeiras, o senhor está sendo bem assistido pelo mundo espiritual. Provavelmente o seu pai esteja junto ao senhor e o proteja nessas horas amargas que ocorrem na vida de cada um de nós.

     - Quem diria, não é? Com a minha mãe eu sonho volta e meia, como se estivesse sempre com ela. Mas com o meu pai deve ter sido a primeira ou segunda vez desde o seu falecimento – e olhe que já são passados mais de dez anos! Foi ele quem me ensinou a pescar, e como eram boas aquelas pescarias! Quando eu era bem guri, ficava encarregado, durante a tarde, de tirar os lambaris que serviriam de isca para a pescaria dos mais velhos, de noite. Lembro que certa vez, em um lugar onde o pesqueiro era muito fundo, o meu pai me amarrou com uma corda comprida, prendendo uma das pontas em uma árvore e a outra na minha cintura, com medo de que eu caísse no rio, no afã de pescar os lambaris. Só depois de bem crescido é que fui iniciado nos mistérios de pescador de linha. Mas o senhor deve estar desejoso de ouvir o meu terceiro sonho – e o mais curioso. Desta vez não tem mordida de bicho ou coisa parecida.

     - Mesmo que tivesse, seu Chico. Os seus sonhos são muito interessantes. Eu raramente lembro dos meus. Às vezes, quando acordo, chego a pensar que não sonhei.

     - Pois eu li em algum lugar que todos nós sonhamos, basta dormir. Alguns, como eu, acostumam a prestar atenção e a lembrar dos sonhos. Mais que isso: a dar valor aos sonhos. Eu deixo um caderno na mesa de cabeceira só pra anotar os meus sonhos. Mas aí vai o terceiro sonho:

     “Estou em um lugar onde foi construída uma igreja em estilo moderno, mas foi repudiada pelo povo, devido às suas linhas heterodoxas. Ouço um engenheiro falando. Ele se prontifica com outras pessoas a destruir a igreja e a construir no mesmo lugar uma igreja em estilo antigo. Ao fim do dia eu olho de uma janela e vejo a nova igreja construída. É feia, mas agradável aos olhos do povo.”

     - Esse é difícil de interpretar, seu Chico. Deve se relacionar com a ideia de novo e de antigo; com aquilo que é conhecido e confiável e aquilo que é desconhecido e provoca suspeitas. O mais interessante, pra mim, é que o senhor ouviu a conversa e depois, no fim do dia, a igreja nova já tinha sido destruída e no seu lugar tinham construído uma igreja em estilo antigo.

     - Tenho pensado muito nesse sonho, desde que acordei, e por isso vim até aqui para me aconselhar com as árvores. Os outros dois sonhos, como o senhor percebeu, tem um simbolismo mais claro, mas esse...

     - Está mais parecido com o do poço escuro e fundo, seu Chico.

     - Pois é. Pescador não deve pescar em águas turvas; muito menos em poço escuro. Às vezes, querendo um resultado imediato a gente se atira no desconhecido. E acaba sendo mordido. Mas o sonho da igreja, ou das igrejas, pode ter várias interpretações.

     - É um sonho no qual o senhor apenas ouve e assiste, seu Chico. Não pode fazer nada a respeito. Os agentes são outros: o engenheiro que se prontifica a destruir a igreja nova e construir outra igreja no mesmo lugar, as pessoas que contrataram o engenheiro que, pela sua narração, o senhor não identificou e o povo descontente com a igreja anterior, que era nova demais para a sua compreensão.

     - Pois é aí que mora a coruja! O povo descontente! O senhor sabe que o povo, quando mal orientado, é a parcela mais reacionária da sociedade. Tem medo do novo e se ampara naquilo que já é conhecido e que considera seguro. Como um jovem assustado com a vida e que prefere morar na casa dos pais a procurar novos horizontes.

     - Ou como um velho que segue a mesma rotina, todos os dias, para não perder as referências conhecidas, até o momento em que não procura mais novidades e se conforma com a mesquinhez da sua vida.

     - Um povo assim é um povo morto – o senhor há de convir.

     - Sem dúvida, seu Chico. Morto porque não deseja mais do que aquilo que lhe é oferecido. Acostuma-se a apenas aceitar, aceitar, sem perceber que ele, o povo, é a grande maioria e deve ser o agente das transformações sociais, e não uma grande massa ausente e tutelada.

     - Pois eu me lembro que tivemos um povo consciente antes de abril de 1964. Um povo que estava fazendo as reformas de base, a reforma agrária, o método de educação de Paulo Freire era aplicado nas escolas – e Paulo Freire era o ministro da Educação de João Goulart.

     - Quanta diferença para os ministros de hoje em dia, seu Chico. O senhor conhece algum que seja minimamente inteligente ou corajosamente revolucionário?

     - Eu conheço vários que já deixaram o governo por suspeita de máxima corrupção e os que ficaram são cordeiros mansos que só desejam os lucros do cargo.

     - Esta não é exatamente uma igreja nova, não é seu Chico?

     - Longe disso! Esta é uma igreja estilo República Velha, com direito às mesmas corrupções e troca de cargos. No máximo, uma pintura para esconder a fachada carcomida. A igreja nova eles destruíram em um dia, no Dia dos Bobos, e ainda disseram que o povo é que estava descontente. Foi a grande mentira do dia.

     - E essa grande mentira continua até hoje, seu Chico. Será que o engenheiro que o senhor viu no sonho - aquele que se prontificou a destruir a igreja nova e a construir, no mesmo dia, uma igreja em estilo antigo – não estava fardado?

     - Não deu pra perceber. Mas hoje não faria a menor diferença.

     - Já tivemos um Brasil, seu Chico.

     - Que está sendo vendido aos poucos. Também já tivemos um povo lutador.

     - Que hoje luta nos campos de futebol. E como luta!

     - E dança muito no carnaval.

     - Se dança, seu Chico! Dança todos os dias.

     - E cada vez dança mais!
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...