terça-feira, 9 de junho de 2015

ACORDO ORTOGRÁFICO: MULUNGOS E COLONIZADOS







Em Portugal entrou em vigor o Acordo Ortográfico, ou AO/90, que tem por objetivo uniformizar a ortografia da língua portuguesa entre os oito países lusófonos integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Moçambique e Angola não estão muito satisfeitos com essa “uniformização” e os demais países que integram o Acordo provavelmente não venham a adotá-lo de fato, ou de facto, deixando que a letra da lei se perca nos escusos bueiros oficiais, uma vez que ninguém foi consultado sobre o AO/90, com exceção, ou excepção, das academias de letras e dos governos interessados em favorecer determinadas empresas que lucrarão muito com o Acordo. No Brasil o AO/90 vigorará a partir de fevereiro de 2016 e até agora, pelo que se tem visto e ouvido, não houve qualquer manifestação contra essa anomalia fascista forjada nos gabinetes da ditadura militar. 

  Por cá, ou aqui, vez por outra ocorrem manifestações as mais esdrúxulas e risíveis, todas elas copiadas de outros países, como passeatas gays patrocinadas por prefeituras e governos estaduais igualmente gays, curiosas “marchas das vadias”, em que participam mulheres das classes altas mostrando os seios e exigindo o direito de mostrar os seios, marchas a favor da legalização da maconha e até adolescentes consumistas da classe média fazendo, ou a fazer, “rolezinhos” ou passeios em procissão aos centros comerciais onde admiram, ou ficam a admirar, os artigos mais caros e praticando, ou a praticar, o produto importado que mais idolatram: o inglês. 

   Também acontecem manifestações aparentemente mais sérias, como aquelas que, no início do ano, pediram a saída de Dilma do Governo e a volta da ditadura militar. E também aparentemente essas manifestações diminuíram o seu ardor golpista assim que o Ministro da Fazenda, ou Ministro da Recessão (não confundir com recepção), Joaquim Levy, apoiado pela direita explícita e manifesta, chamou o FMI e achou por bem retirar os direitos trabalhistas e arrochar o povo com uma inflação ditatorial. Aquietaram-se os manifestantes da direita porque o governo que desejavam derrubar já está devidamente infiltrado e aceitando as diretrizes entreguistas. 

    As manifestações dos golpistas provocaram a reação dos partidos da esquerda reformista e de alguns sindicatos pelegos, como a CUT, que foram às ruas manifestando-se, ou a manifestar-se, com faixas e cartazes escritos em sofrível português e razoável inglês, revelando a sua inconformidade com o governo que apóiam. Passeatas que terminaram depois de muitos passos cadenciados por palavras de ordem pedindo uma greve geral que dificilmente acontecerá, agora que a Dilma resolveu pedalar para preservar a saúde e o satânico Dr. No brasileiro – um certo senhor Cunha, amigo de empresários e latifundiários – decidiu governar o país.  

   Além disso, o Campeonato Brasileiro começou e o povo está vidrado nas telas de tevê, e, os que não gostam de futebol assistem novelas extremamente medíocres ou vão brincar de amizade virtual no Facebook. Ninguém fez manifestações contra o Acordo Ortográfico, também apelidado de acordês ou desacordo ortográfico. Este é o país onde todos, ficcionalmente, obedecem às leis.  

   Em determinado dia foi veiculado pela mídia oficialesca que havia um acordo ortográfico datado de 1990 que entraria em vigor brevemente e o povo deveria obedecer às novas regras de ortografia. O povo, que nada sabe de regras, de língua portuguesa ou de ortografia, concordou bovinamente. Em seguida, começou a edição de livros em acordês e os jornais de todo o país contrataram professoras e professores acomodados às novas regras para ensinar os redatores a redigir. Os donos das gráficas ficaram muito faceiros por reeditarem mesmos livros com estranhas palavras para um público muito dócil. 

   Esta nova geração de brasileiros - e não somente ela - é essencialmente submissa. Ninguém discute nada, todos aceitam tudo. É um povo alegre e cordato, dizem por aí. É verdade. A alegria é tanta que fazem anedotas da própria tristeza. Se surgisse alguma lei obrigando as pessoas a andar de pernas para cima durante uma hora por dia, teríamos um povo de acrobatas. Discute-se futebol. E a corrupção nossa de cada dia, e, assim mesmo, miudamente. É tudo muito natural no país do carnaval, onde se cultiva, ou são cultivados, transgênicos e indignações mascaradas.  

   O desmatamento aumentou? –“Que pena!” Os corruptos estão soltos? – “Olha só!” A polícia massacra professores? – “Que horror!” O Congresso aprova leis contra os trabalhadores? – “Não é uma vergonha?” O custo de vida está mais alto? – “São todos uns ladrões!” Policiais invadem as favelas matando? – “Que violência!” Indígenas são assassinados? – “Coitados!” 

    Poucos se preocupam com a língua portuguesa, e falam e escrevem por obrigação, como se fosse um grande sacrifício. É uma geração que prefere o sintático inglês, idioma utilizado por robôs e máquinas afins. De resto, não se pode culpá-los por vícios mentais adquiridos, quiçá, durante o Brasil colônia.  

    Alguns peritos dizem que a miscigenação inclui os idiomas. O Nagô-Iorubá, o Ewe-fon e o Banto teriam influenciado diretamente na formação lingüística dos brasileiros. No entanto, sabe-se que os dialetos das etnias negras foram quase totalmente extintos no Brasil. De tal maneira, que os escravos foram obrigados a falar a língua do escravagista. Perguntem a um afro-descendente qual o seu nome original e ele não saberá dizer. Os escravos tiveram que adotar os sobrenomes das famílias que os escravizavam e, com o passar do tempo, perderam quase totalmente a memória da sua cultura africana. 

    É certo que várias palavras podem ser pinçadas e expostas como “prova” da presença dos dialetos africanos no nosso vocabulário. Mas são muito poucas, e, na verdade, nada provam, a não ser o massacre cultural que sofreram os povos negros escravizados no Brasil. Dirão alguns que temos o candomblé e a umbanda, religiões em que são utilizadas palavras originárias da África. Poucas palavras, se observarmos bem, e principalmente aquelas que designam os deuses dessas religiões, ou os pratos típicos. E quase unicamente no nordeste do Brasil. 

   Quanto ao tupi-guarani, a sua influência na formação do português-brasileiro é bem maior, notadamente palavras que designam animais, plantas, cidades e acidentes geográficos. E uma ou outra expressão idiomática. Ao contrário dos demais países da América Latina, que respeitam a tradição nativa, os indígenas estão sendo exterminados no Brasil. Moram em exíguas reservas e são constantemente ameaçados e mortos por madeireiros e agropecuaristas. No sul do Brasil, os restantes guaranis moram em acampamentos quase à beira das estradas, cercados por imensas lavouras de soja transgênica. É enorme a pressão para aculturar os indígenas e poucas são as tribos que conseguem resistir. 

   Há quem afirme que o português usado pelo caboclo ou caipira, encontrado principalmente nos estados de São Paulo e Minas Gerais, é fruto da mestiçagem também na língua, o que dificilmente poderá ser provado. Mesmo o continuado uso do “r” retroflexo (em lugar do “l”) nada mais é que um vício de linguagem alimentado geração após geração. Vício proveniente da má educação naquelas regiões, provavelmente resultado da preguiça em pronunciar o “l”. Sobre a preguiça do caipira, Monteiro Lobato escreveu longas dissertações introduzidas nos seus contos, e apelidou o caipira de “Jeca Tatu”. 

   Há vícios de linguagem e modos de falar o português em cada região do país. No Rio de Janeiro o “carioquês” chiado e arrastado, no Nordeste e região Norte a lentidão no falar, no Centro-Oeste uma mistura de sotaques, e talvez somente na região Sul, em particular no Rio Grande do Sul, a língua portuguesa seja menos maltratada, pois o gaúcho adquiriu o hábito de dizer as palavras por inteiro – e, assim mesmo, o gaúcho que mora na fronteira ou na região das Missões, porque o porto-alegrense está desenvolvendo um sotaque “cantado”. 

    Tornou-se clássica a sofreguidão dos portugueses ao falar. Pronunciam as palavras e frases tão rapidamente que parecem comer sílabas, mal se distinguindo vogais de consoantes. E assim nos demais países onde a língua portuguesa é falada, cada nação com o seu sotaque, o seu ritmo próprio. Da mesma maneira, também existem diferenças na ortografia, de país para país, o que é muito natural: a língua é viva e dinâmica e sofre um processo gradual de transformação. 

    O que não é natural é obrigar a mudança na ortografia em nome de uma sistematização ou uniformização ridícula e absurda, ou, conforme escreveu Fernando Pessoa: “A ortografia é um fenómeno da cultura, e, portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito”. As diferenças ortográficas enriquecem a língua portuguesa, revelando nuances e características muito particulares de cada país lusófono. Vejam a palavra “fenômeno”, que em Portugal é usada com acento agudo para designar a sílaba tônica grave e no Brasil, a mesma palavra tem acento circunflexo. No início do século XX a acentuação que hoje se usa em Portugal também era usada no Brasil e foi modificada com a introdução do acento circunflexo, por exemplo, para que o povo se acostumasse a pronunciar a língua portuguesa corretamente, ou correctamente. A educação é a única razão da acentuação em uma língua tão complexa e bonita como a nossa. 

    Com o AO/90 foram retirados, no Brasil, os acentos agudos dos ditongos das palavras paroxítonas, assim como o trema e o acento agudo de algumas formas verbais - porque é assim que se escreve em Portugal. Também o acento circunflexo foi retirado na vogal tônica de “o” nas palavras paroxítonas e nas formas verbais paroxítonas que possuem o “e” tônico fechado em hiato na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo. E isso foi um desserviço ao ensino da língua portuguesa no Brasil, país onde a maioria das pessoas mal sabe ler e escrever e, entre essa maioria, muitos não entendem o que lêem ou escrevem.  

    Existe uma enorme distância entre a educação em Portugal e a educação no Brasil. Em Portugal há um verdadeiro culto à língua portuguesa, enquanto no Brasil venera-se a iconoclastia à língua de Camões e Fernando Pessoa. Ou seja: lá, determinados acentos não são necessários porque as pessoas sabem falar, escrever e entender a sua língua; aqui, esses acentos são necessários basicamente para ensinar a população a falar, escrever e compreender a língua portuguesa.  

    Em 2014, um levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registrou cerca de 13 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais. Mas isso tem cura, ninguém tem culpa de ser analfabeto, exceto o Governo Federal que descura completamente da educação. Pior é o analfabetismo funcional: pessoas que sabem ler e escrever, mas não entendem o que lêem ou escrevem, embora possam reconhecer letras e números. O analfabeto funcional é incapaz de entender textos simples, bem como realizar operações matemáticas um pouco mais elaboradas. 

     E não pensem que os analfabetos funcionais são pessoas que vivem nas favelas ou em lugares distantes e ignotos dos sertões brasileiros. Aqueles são simplesmente analfabetos, em sua maioria. De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília, a partir da análise de 800 alunos, em seis cursos de quatro faculdades, 50% dos estudantes do ensino superior são analfabetos funcionais, ou seja, não entendem o que lêem. O último INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional), feito em 2012, apontou que 38% dos estudantes universitários são analfabetos funcionais, através de pesquisa com duas mil pessoas. 

    Vocês devem estar se perguntando como esses estudantes passaram no vestibular. Mas o ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio) não é aquele fiasco que aumenta a cada ano, sempre fraudado? E as escolas do ensino fundamental e ensino médio não são orientadas pelo Ministério da Educação a deixar o aluno passar, mesmo que não saiba nada? Este é o país do jeitinho, da fraude e da corrupção, e na educação não é diferente. 

    Eu fico imaginando, ou a imaginar, analfabetos funcionais lendo palavras como jibóia, odisséia ou idéia - que agora, no Brasil, devem ser escritas sem o acento agudo - e pronunciando como se a tônica fosse grave. Não se pode uniformizar forçadamente o que não está uniformizado naturalmente. Vou repetir: em Portugal as pessoas sabem ler, escrever e compreender o que estão lendo e escrevendo, e lá o analfabetismo deve ser quase inexistente. Aqui é exatamente o contrário. 

    No Brasil, escrever certo o português é chamado de “norma culta”. É de se pressupor que escrever errado também seja uma “norma”, a “norma inculta”. Pois o Ministério da Educação, para coroar todas as burrices que vêm patrocinando através dos últimos doze ou quinze anos publicou um livro que ensina a escrever e falar errado. Nele, o MEC assegura que certas expressões, como “os livro” ou “nós pega o peixe” estão certas. É a “norma inculta”. O livro é intitulado “Por uma Vida Melhor”, lançado pela ONG “Ação Educativa” e incluído na coleção do MEC “Viver, Aprender”, para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A edição custou cinco milhões de reais aos cofres públicos e o livro foi enviado para 4.236 escolas do país, com a chancela do MEC. 

     Chama-se a isso “evitar o preconceito lingüístico”, ou ainda: “livrar-se do mito de que existe uma única forma certa de falar”. Dizem os defensores da “norma inculta” que se deve evitar o “preconceito em relação à fala”; resumem que não é politicamente correto corrigir as pessoas quando falam ou escrevem errado. Certos “educadores” defendem o livro e tudo o que ele significa como forma de se evitar “preconceitos não visíveis”. 

     E criam uma divisão muito visível entre aqueles que usam a “norma culta” e a imensa multidão que não sabe falar e escrever e que é “defendida” em sua ignorância pelos governos manipuladores e desejosos de votos a todo custo. Para o MEC, educar ou deseducar é a mesma coisa, dependendo sempre do ponto-de-vista. E, a seguir essa míope visão, se alguém for corrigido poderá processar quem tentou ensiná-lo, com o argumento de “preconceito lingüístico”. Corretamente, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a ABL (Academia Brasileira de Letras) condenaram o livro, o que não evitou que a monstruosidade fosse enviada para jovens e adultos em fase de aprendizado. 

   O Acordo Ortográfico, além de desnecessário, facilita a tentativa da criação de uma nova língua a partir do Português. Uma língua baseada na fonética e, com o tempo, sem qualquer regra de ortografia. Uma língua para o povo, que então se sentirá “livre” para não estudar, não aprender, não desenvolver a inteligência – e permanecer eternamente dependente de governos demagógicos e populistas. Acreditam os governantes que o nosso é um povo que elege “tiriricas” e merece ser tratado de acordo com a sua incapacidade mental. “Pão e Circo” ainda é a máxima do maquiavelismo fascista no Brasil. 

   O Acordo Ortográfico prevê o fim do hífen em muitas palavras compostas, o que provocou a criação de horrendos vocábulos. Exemplos: extrassensorial, contrarreforma, ultrassecreto, etc. Não há razão para tal, mas assim é a mente extra-sensorial dos abracadabrantes subversores da ortografia. Para eles, vale tudo, e sempre haverá uma nova regrinha para justificar a hediondez. Para complicar ainda mais, foi retirado o acento diferencial de palavras homófonas, e de algumas formas verbais. 

    Em Portugal formaram-se vários grupos contra o AO/90. Alguns deles: “Professores Contra o Acordo Ortográfico”, “Tradutores Contra o Acordo Ortográfico”, “Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico”, "Em Acção Contra o Acordo Ortográfico", este último com mais de 60.000 participantes. Uma petição com milhares de assinaturas foi entregue ao Parlamento português e alguns jornais, como o “Público”, ignoram heroicamente o AO/90 e continuam a publicar em bom português. A pressão da sociedade portuguesa contra o Acordo Ortográfico é muito grande e muitos são os manifestos contra o Acordo, que está sendo chamado de “Desacordo”. 

     O que mais irrita os portugueses é a retirada das consoantes mudas que servem para diferençar o significado entre duas ou mais palavras. Somente em Portugal, onde muitas dessas palavras são pronunciadas como se a consoante não existisse. No Brasil, as consoantes são pronunciadas, inclusive e principalmente, a palavra corrupção. Exemplo: “recepção” tornou-se “receção”, tornando-se homófona de “recessão”. Outro: “facto” perdeu o “c” em Portugal, tornando-se “fato”, que é o mesmo que vestimenta, roupa. Observe-se que nesses casos torna-se claro o intuito dos acordistas de promover a criação de uma língua fonética, o que é um absurdo lingüístico. 

     A todas essas, os portugueses que se posicionam contra o AO/90 põem a culpa nos brasileiros. Alguns chegam a dizer: “Eu não quero escrever como os brasileiros!” Concordo que é ofensivo, mas devemos relevar. Afinal, nós sabemos escrever? Basta dar uma rápida olhada nas redes sociais brasileiras para que se obtenha uma resposta. É triste e assustador. A “norma inculta” prolifera, muitas vezes alimentada com gírias e palavras em inglês. Estamos a um passo de adotar o inglês como segunda, ou primeira, língua oficial. 

     Por outro lado, os portugueses estão errados ao dizer que não querem escrever como os brasileiros. Quais brasileiros? Há muitos brasis no Brasil. De região para região percebem-se as diferenças culturais, resultado das condições sociais e da maior ou menor alienação. Há brasis que adoram ser tutelados, colonizados, e não se sentem bem sem um senhor, um dono, alguém que lhes diga o que fazer a cada minuto e ficariam muito felizes com um ditador, um tirano, um rei, um déspota qualquer. Muitos anos atrás estavam em minoria, quase desaparecendo. Depois, veio o golpe militar, que se tornou golpe cultural a se perpetuar nos governos civis e os brasis e brasileiros entregues e entreguistas ressuscitaram com toda força. Um país não é apenas o seu território, é o seu povo, e quando o povo falha... 

     Moçambique é um país de gente brava e orgulhosa que lutou durante décadas contra a colonização portuguesa. Quando, finalmente, expulsaram os portugueses, passaram a reafirmar a sua nacionalidade. Em uma das redes sociais encontrei um texto de um moçambicano, que vale a pena reproduzir aqui. 

“Eh Oena, Lhe Can

“Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bula bula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família. E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem “autocarro” e está no dicionário; no Brasil falam “bus” e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos “machimbombo” e não está no dicionário.  Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates* que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com os chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th’xouco dele e aquilo que sai é só matope. Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.


“Bayete Moçambique!


“Assinado: Manuel Muanamucane.”

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*Sócrates. Não confundir com o filósofo grego. José Sócrates é do Partido Socialista de Portugal e foi Primeiro-Ministro, de 2005 a 2011. Encontra-se em prisão preventiva desde 25 de Novembro de 2014, por corrupção.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O “ESTADO ISLÂMICO” DOS ESTADOS UNIDOS





Vândalos, arruaceiros, drogados, assassinos, bárbaros bestiais, seres absolutamente incultos, totalmente selvagens e insensíveis, inúteis, imprestáveis, empobrecidos mentalmente, entregues à mais hipócrita impostura, dominados pela ganância, a parcela mais pérfida da humanidade, o lixo do mundo – eis um pálido retrato do que são os mercenários do autodenominado Estado Islâmico, que não é um Estado e nada tem de islâmico. Já por definição, mercenário é uma pessoa que se vende para quem pagar mais para matar e destruir, o pior tipo de prostituição, o mais baixo nível de abjeção e aviltamento. 

   O Estado Islâmico surgiu em 2014, aparentando uma rebelde explosão dos sunitas do Iraque e rapidamente expandiu-se em direção à Síria. Na verdade, a partir de 2006, foi cuidadosamente organizado e treinado por forças norte-americanas no Iraque ocupado pelos Estados Unidos, tendo como modelo o grupo terrorista Al-Qaeda, organizado pela CIA no Afeganistão durante os anos ’80 do século 20, para combater o Exército Vermelho.  

   A Al-Qaeda, no entanto, tornou-se descartável à medida que foi ficando independente dos seus chefes de Washington e recebeu um grande golpe quando da conspiração do 11/09/2001, que destruiu as Torres Gêmeas. Naquela ocasião, a Al-Qaeda foi inculpada pelo atentado e seu chefe, o saudita Osama Bin Laden, sócio e amigo de George Bush (pai) passou a ser oficialmente perseguido pelos serviços secretos dos Estados Unidos. Há versões de que Osama teria morrido na véspera do atentado em um hospital do Paquistão, país aliado dos Estados Unidos, mas o seu nome e imagem foram usados durante muito tempo para tentar enganar a massa que paga impostos e necessita de um inimigo público número 1. Finalmente, Osama foi “morto” no mesmo Paquistão e o corpo sumiu. E não havendo corpo não há crime. 

   Nesse meio tempo, a Al-Qaeda foi novamente amansada e cooptada pela CIA, ainda servindo para pequenos serviços, como combater o Hezbollah, no Líbano, o Hamas na Palestina ou os revolucionários do Iêmen. Mas já estava desmascarada e não mais servia. Então, durante os anos de ocupação do Iraque, os Estados Unidos aproveitaram para forjar um novo grupo terrorista, usando a indignação dos sunitas, desarvorados após a perda do poder para os xiitas, no Iraque. Foi a partir daquelas células de sunitas que viviam jogando bombas em mesquitas de xiitas que os Estados Unidos organizaram o que depois apelidaram de “Estado Islâmico” – um exército formado por mercenários de mais de 90 países. 

   Há quem acredite que todos os países árabes são contra os Estados Unidos e aliados ocidentais, como se houvesse uma guerra não declarada entre Oriente e Ocidente – pelo menos isso é o que a mídia ocidental tenta incutir na mente de seus assíduos e fervorosos cultores. Essa mesma mídia quer dar a entender que é uma guerra religiosa, onde de um lado estão fanáticos terroristas muçulmanos e de outro os pacíficos cristãos. A verdade é que a maioria dos países muçulmanos é aliada dos Estados Unidos: Arábia Saudita (um dos maiores países do Oriente Médio e, com certeza, o mais rico e mais bem armado), Bahrein, Qatar, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, Omã, Afeganistão e Iraque.  

   O Líbano está cercado por terra e mar (incluindo a ajuda de algumas embarcações brasileiras), o Iêmen está em guerra civil, e seus guerrilheiros são diariamente bombardeados por aviões da Arábia Saudita, com o apoio dos Estados Unidos; a Síria também enfrenta uma guerra civil provocada pelo Ocidente, a Palestina está sendo gradativamente destruída por Israel e o Irã depois da queda do Xá Reza Pahlevi, em 1979, tornou-se o único país muçulmano a enfrentar não só os Estados Unidos e aliados ocidentais como a coalizão dos países árabes liderada pela Arábia Saudita. Além de tudo isso, Israel, uma extensão dos Estados Unidos, possui armas atômicas e está constantemente ameaçando atacar o Irã. 

   Quando os Estados Unidos tentaram derrubar o governo sírio através de uma revolução colorida que não deu certo, imediatamente promoveram a guerra civil, que também não funcionou. Então, foi acionado o “Plano B”. Subitamente, em 2014, surgiram milhares de militantes que se dizem islâmicos, sob a bandeira do que foi denominado “Estado Islâmico”, ISIS (sigla em inglês, para quem gosta da língua do império), DAESH (em árabe) ou Califado. O “Estado Islâmico” não possui um território próprio – portanto, não é um Estado – e poucos acreditam que seja realmente islâmico, ou formado unicamente por muçulmanos. 

   O ex-funcionário da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), Edward Snowden, revelou que a inteligência britânica (MI6), a CIA e o Mossad israelense trabalharam em conjunto para criarem o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS). Snowden disse que os serviços de inteligência dos três países criaram uma organização terrorista que é capaz de atrair todos os extremistas do mundo para um lugar, usando uma estratégia chamada de “ninho de vespas”, que inclui um pagamento milionário para cada mercenário recrutado. Alguns documentos vazados indicaram que o líder nominal do “Estado Islâmico”, Abu Bakr Al Baghdadi teve treinamento militar intensivo durante um ano nas mãos do Mossad, em Israel, além de cursos de teologia e da arte de expressão.  

   Objetivo: derrubar o governo da Síria, provocar instabilidade no Irã e, em seguida avançar para as antigas repúblicas soviéticas, como o Azerbaijão e Turquemenistão, que fazem fronteira com o Irã, derrubar os seus governos e envolver os demais países limítrofes com população muçulmana em uma suposta “guerra santa” contra a Rússia. O mais curioso é que a maioria da população da Síria é sunita, assim como o seu governo, não se sustentando a tese de que o “Estado Islâmico” é uma organização sunita que combate xiitas. 

   Os verdadeiros muçulmanos que perceberam que o “Estado Islâmico” é criação dos Estados Unidos e aliados preferem chamar a organização terrorista de DAESH, um acrônimo livre odiado pelo grupo terrorista e que é considerado um insulto porque soa como o árabe “DAES”, que significa “aquele que esmaga algo sob os pés”, bem como “DAHES” – “aquele que semeia discórdia”. 

   Semear discórdia entre os muçulmanos e esmagar sob os pés é especialidade do “Estado Islâmico”, cujos mercenários são ensinados a matar e destruir tudo o que encontram pela frente, lembrando o exército de Franco formado por assassinos, durante a guerra civil da Espanha. Não há qualquer ideologia no “Estado Islâmico”, nem mesmo sombra de religiosidade. Se Maomé fosse vivo, estaria na primeira linha de combate contra o “Estado Islâmico”. Além de tentar derrubar o governo sírio e transformar o Oriente Médio em um caos, o grupo terrorista tem um segundo objetivo, apoiado pela mídia ocidental: fazer com que a palavra islamismo torne-se sinônimo de terrorismo. 

   “Aviões militares norte-americanos fazem vôos regulares aos aeroportos controlados pelo grupo terrorista Estado Islâmico, e entregam armas, dinheiro e comida aos rebeldes” – declarou à Farsnews o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas do Irã, general Hassan Firuzabadi. De acordo com mais de 3.000 documentos vazados pelo Wikileaks o armamento começou a ser enviado ao “Estado Islâmico” em setembro de 2013. Para enviar as armas, o governo Obama usa bases clandestinas na Jordânia e na Turquia. Aliados dos Estados Unidos na região, como Arábia Saudita e Qatar também fornecem ajuda financeira e militar. 

   Como cortina de fumaça, os Estados Unidos “bombardeiam” seguidamente posições do “Estado Islâmico”, principalmente na Síria e no Iraque e, a cada um desses bombardeios o “Estado Islâmico” se torna ainda mais forte e os exércitos que o combatem, assim como a população civil, são os verdadeiros alvos. Com a desculpa de combater o “Estado Islâmico”, a aviação dos Estados Unidos aproveita para atacar as tropas do governo sírio e do governo do Iraque. No dia 24/05, a agência Almaalomah, citando testemunhas, informou que dois aviões de guerra do Iraque bombardeavam posições do “Estado Islâmico” quando um caça da aviação norte-americana apareceu e derrubou um dos aviões iraquianos. Este é um dentre tantos “acidentes de guerra” ou fogo amigo, sobre os quais o governo dos Estados Unidos tem pedido desculpas pelo engano. 

   Em contrapartida, o “Estado Islâmico” faz a sua parte na farsa. A mídia ocidental volta e meia assinala que o “Estado Islâmico” ameaçou os Estados Unidos, Inglaterra e demais aliados, sobrando também para líderes de países latino-americanos, como a presidente da Argentina, Cristina Fernandez de Kirchner.  

   Recentemente, Cristina foi ameaçada através de uma carta assinada pelo “Estado Islâmico”. Segundo o jornal Clarín, não só Cristina Kirchner, mas o chefe de Polícia Federal da Argentina, Román di Santo, e a presidente do Chile, Michelle Bachelet, estão marcados para morrer pelo “Estado Islâmico”. O autor da carta afirma que os três devem morrer para substituir Alberto Nizman, um fiscal argentino que se suicidou em janeiro deste ano. Detalhe: Nizman era judeu e defendia interesses judeus contra o governo de Cristina Kirchner. Que “Estado Islâmico” é esse que apóia sionistas? Sobre a carta, Cristina disse que se algo acontecer a ela, “não olhem para o Oriente, olhem para o Norte” – referindo-se claramente aos Estados Unidos. 

  Dinamarqueses, suecos, norte-americanos, ingleses, franceses, alemães, sauditas, líbios, chechênios, turcos, afegãos, mercenários dos mais diversos países formam fileiras no “Estado Islâmico” por um salário que jamais ganhariam nos seus países de origem. Não devem faltar brasileiros. As pessoas são recrutadas através da internet ou por meio de agentes.  

   Um exemplo é a Suécia. O jornal sueco Aftonbladet identificou um suspeito de recrutar mercenários que querem juntar-se ao “Estado Islâmico”. Afirma o jornal (http://br.sputniknews.com/mundo/20150522/1092210.html) que mais de 300 suecos já foram recrutados para lutar pelo “estado Islâmico”. A base do recrutamento é Estocolmo, e a administração da cidade dá assistência médica aos feridos e exige que organizações voluntárias, religiosos e psicólogos ajudem os terroristas quando eles voltam das suas ações no Oriente Médio. 

   Assim também na Dinamarca. Um documento do Ministério do Emprego da Dinamarca, obtido pela Radio24syv (http://br.sputniknews.com/mundo_insolito/20150519/1051586.html) mostra que dezenas de cidadãos dinamarqueses receberam ao todo quase $60.000 enquanto combatiam pelo “Estado Islâmico”, na Síria. Além disso, os terroristas têm direito à previdência social. 

   O grupo Anonymous está tentando combater as contas e sites de divulgação do “Estado Islâmico” na internet e descobriu que a maioria deles está baseada nos Estados Unidos e na Europa. O Anonymous declarou que até agora atacou mais de 200 sites e destruiu 85 deles. Além dos inúmeros sites, foram descobertas 9.200 contas no Twitter, associadas ao grupo terrorista. O Anonymous tem sido acusado de ser um grupo de direita – provavelmente da CIA, afirmam alguns -, devido às suas ações nas revoluções coloridas patrocinadas pelos Estados Unidos e aliados. E também no Brasil, durante as passeatas de 2013. Agora está combatendo outro grupo de direita, igualmente patrocinado pelos Estados Unidos e aliados. Sinal de que o império está começando a perceber que o monstro que criou poderá voltar-se contra o criador, e quer cortar-lhe as asas antes que voe muito alto. 

   Antes de destruir o “Estado Islâmico”, Estados Unidos e aliados preferem esperar para ver no que vai dar a investida do grupo terrorista contra a Síria. O “Estado Islâmico” conta com mais de 30.000 mercenários em seu exército, além de armamento moderno, artilharia, belos uniformes e bandeiras. Calcula-se que tenha mais de dois bilhões de dólares a apoiar toda essa organização. A mídia ocidental diz que esse dinheiro é resultado da venda do petróleo dos países invadidos, como Síria e Iraque. Uma explicação muito pouco convincente, se pensarmos um pouco. Quem está comprando esse petróleo, negociado em campo de batalha? O fato é que o “Estado Islâmico” já surgiu com muito dinheiro, antes mesmo de qualquer ação bélica. 

   Os Estados Unidos estão muito preocupados porque o Iraque tem um governo xiita, assim como o Irã. E pior ainda: um governo que pretende ficar independente do império. A extração de petróleo do Iraque é de 800 mil barris por dia e está previsto um aumento para três milhões e meio de barris por dia, prejudicando os produtores de xisto dos Estados Unidos, além de forçar a OPEP a uma redução do preço do petróleo. Então, o “Estado Islâmico” – organização que poderá não só destruir a Síria, como ajudar a destituir o governo do Iraque e ameaçar o Irã. 

   Enquanto isso, as fronteiras da Rússia estão sendo ocupadas por tropas da OTAN, que usam países aliados, como Polônia, Estônia, Geórgia e Ucrânia, entre outros, para sediar as suas forças. No Pacífico, os Estados Unidos estão tentando provocar uma guerra com a China, invadindo o seu espaço aéreo freqüentemente. Se a Rússia e aliados resolverem-se finalmente combater o “Estado Islâmico” para ajudar a Síria, isso poderá servir de desculpas para a OTAN e Estados Unidos inventarem uma nova grande guerra.

terça-feira, 19 de maio de 2015

IMORTAL FELIPÃO




“Neste país de rancorosos só se começa a ter um grande nome quando se deixa de sê-lo.” Ernesto Sábato – “Sobre Heróis e Tumbas”.


Felipão fez bem em pedir demissão do cargo de treinador do time do Grêmio. Não tinha mais ambiente e a campanha contra ele, desde que Romildo Bolzan Júnior assumiu como presidente do clube chegou a um momento insuportável. Só restava a demissão. Felipão agüentou o que deu, e as manifestações agressivas de um grupo de torcedores durante a chegada da delegação do Grêmio de Curitiba foi o sintoma mais claro de que a turma do Bolzan estava forçando a sua saída do Grêmio. Em seguida, instalou-se uma crise criada artificialmente, em parte pela imprensa porto-alegrense, em parte pelos amigos da nova direção gremista. 

   Luiz Felipe Scolari sempre foi uma pessoa de temperamento forte, do tipo que não leva desaforo pra casa. E também por isso, e não gratuitamente, sempre foi hostilizado por aquele tipo de jornalista esportivo pago para desagregar pessoas com temperamento independente e insubmisso – o que serve perfeitamente para os dirigentes do nosso corrupto futebol, ciosos por seus rendimentos pessoais. 

   Recentemente, quando da derrota da seleção brasileira para a Alemanha por 7x1, teve a dignidade de assumir toda a responsabilidade pelo fiasco dos jogadores. E a imprensa do Rio e São Paulo, que detesta Felipão, aproveitou a deixa para desviar a atenção dos jogadores que entregaram o jogo para o treinador que não entrou em campo. Queriam dar a entender ao povo mais bisonho intelectualmente, que a culpa do péssimo futebol apresentado pelos jogadores era somente do treinador, como se aqueles não tivessem qualquer responsabilidade pelos seus atos e fossem manipulados virtualmente. O grande erro de Felipão foi ter aceitado o cargo de treinador da seleção que havia sido treinada pelo Mano Menezes em acordo com empresas que exigiam a convocação e escalação de determinados jogadores. 

   A mesma imprensa que ficou furiosa quando Felipão ajudou a conquistar o penta-campeonato mundial como treinador da seleção brasileira na Coréia do Sul. Desejavam vê-lo derrotado, e tanto o criticaram, mesmo e apesar da vitória, que depois da Copa, Felipão não voltou ao Brasil e foi direto treinar a seleção de Portugal. E vibrou muito quando, em um dos seus primeiros amistosos, a seleção portuguesa venceu a seleção brasileira. E a seleção portuguesa treinada por Felipão, pela primeira e única vez em sua história, foi vice-campeã européia. 

   Luiz Felipe Scolari somente voltou para o Grêmio a convite do velho amigo e então presidente Fábio Koff. E foi com o apoio de Fábio Koff, que proporcionou ao treinador um time de qualidade, que o Grêmio alcançou brilhantes vitórias no campeonato brasileiro de 2014, incluindo a goleada de 4x1 sobre o Internacional. 

   Com a substituição de Fábio Koff pelo atual presidente Romildo Bolzan Júnior, a direção gremista resolveu desmontar completamente o time. Dava como desculpa a existência de dívidas ou de pouco lucro. Felipão que se virasse. E ainda mais: começaram a pressioná-lo para que conquistasse o campeonato gaúcho com jogadores muito inferiores aos que tinha encontrado quando chegou ao Grêmio. Quando o time perdeu, como era previsto, começou a campanha pedindo a sua demissão. E bastou um início ruim de campeonato brasileiro – o que também era previsível – para que a hostilidade contra Felipão aumentasse, e só lhe restou pedir demissão para salvar, pelo menos, a dignidade. 

   Não se pode aspirar a ganhar qualquer título com jogadores contemplativos e temerosos. Para dizer o mínimo. Enganou-se a torcida gremista ao idolatrar Yuri Mamute, um jogador que poderia ser um bom segundo reserva para o ataque, e não mais que isso. Enganou-se Felipão ao escalar repetidamente um lateral-direito abúlico e distraído, mas a direção não lhe deu melhor opção. Quando se tornou urgente a contratação de um armador, trouxeram um jogador cansado e sem inspiração. O ataque, formado por jogadores muito fracos, não agride, não chuta, perde-se em devaneios; o meio de campo, que não é mais que medíocre, fica assoberbado, porque a bola sempre volta para aquele setor e na defesa existem somente dois destaques: Rhodolfo e Marcelo Grohe. Qual o treinador que agüenta com um time desses, condenado, a continuar assim, à segunda divisão? 

    Felipão pediu demissão, e fez muito bem. A direção gremista em breve contratará um novo treinador que, com certeza, será agradado com novas contratações, o time voltará a ter bons resultados e a torcida será induzida a acreditar que a substituição do treinador foi correta. Torcida, por definição, sempre age emocionalmente. Felipão é um dos últimos treinadores decentes e nobres do futebol brasileiro e deixará saudade dos tempos em que o futebol gremista era jogado com garra e coração – e não somente visando lucros. Felipão deu alguns dos maiores títulos ao Grêmio, e isso ficou imortalizado.
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