domingo, 12 de janeiro de 2014

SEU CHICO E O BAGUAL ALIENADO




- O senhor se considera um bagual, seu Chico? 

- Pois esta é uma palavra que andei pesquisando a origem, visto a sua grande difusão pela mídia globalizante, que adora quando um... digamos assim... cantor ou compositor aqui dos pagos solta a sua bagualice - ou o seu bagualismo, como preferir – e escreve letras ao mais das vezes tornando o gaúcho ridículo, grosseiro, estúpido. E o senhor sabe que há uma grande oposição lá no Brasil pelo que andam chamando de “gauchismo” – e até existe um Manifesto Contra o Tradicionalismo, apoiado por muitos porto-alegrenses muito alegres e que, de início, afirma que o Rio Grande é um estado da federação brasileira, o que já dá um indício do tipo de manifesto e do tipo de gaúcho que o assina... 

- Não é só em Porto Alegre. Tem gente de Santa Maria, Pelotas... 

- Não devemos confundir as coisas: gente de Santa Maria, Pelotas e outras cidades, mas que não refletem o pensamento da maioria. Apesar disso, muitos deles exercem profissões ligadas ao governo, que é potencialmente desestruturador em relação às nossas tradições. Intelectuais fisiológicos. Mas eu me referi a Porto Alegre devido à sua história extremamente reacionária. Veja que o poder está concentrado lá e os governadores são prepostos do governo brasileiro. Desde a época da revolução farroupilha, em 1835, a coisa não mudou. E foi por isto que os nossos bisavôs fizeram a revolução, que depois foi traída, como o senhor sabe. 

- Se bem que o Canabarro não era de Porto Alegre, seu Chico. Nasceu em Santana do Livramento. 

- A cidade não tem culpa disso. Ele era muito ligado ao poder. O único a assinar o armistício. Tecnicamente ainda estamos em guerra com o Brasil. Ou o Brasil está em guerra conosco, desde aquele tempo. Agora a guerra é mais cultural, e não faltam os "canabarros"... 

- Não foi só na revolução farroupilha, seu Chico. Também na revolução de 1893, contra Júlio de Castilhos. 

- Outra que foi traída! E não quero aqui acusar o Joca Tavares, que lutou o tempo todo e foi obrigado a assinar aquela paz ingrata, mas desconfio muito daqueles que depois viraram estátua e que tramavam nos bastidores para deixar tudo como dantes no quartel de Abrantes em troca de um cargo político. Não por acaso, a maioria das tropas de Aparício Saraiva se internaram, junto com o seu chefe, no Uruguai, não aceitando aquele tipo de paz submissa. E hoje Aparício Saraiva é um dos grandes nomes revolucionários dos castelhanos. 

- Em 1923 se conseguiu alguma coisa... 

- Veja o senhor que foi necessária uma segunda revolução federalista para se conseguir alguma coisa e não mais que alguma coisa. Mas nada para o povo que continuou sendo sangrado pelos chimangos. O senhor sabe a origem da palavra chimango? 

- Em 1923, os chimangos eram governistas e usavam lenços brancos no pescoço, enquanto os maragatos revolucionários usavam lenços vermelhos. 

- Se o senhor me permite, essa é a versão para vestibular. Não é tão simples assim. A origem da palavra vem de uma ave de rapina – o Chimango –, ave oportunista que se alimenta de carniça, assim como os governistas costumam fazer com o povo: usam até deixar sem sangue e depois ainda comem o cadáver. E o que restou de bom daquela revolução foi o livro “Antônio Chimango”, assinado por Amaro Juvenal e que teria sido escrito por Ramiro Barcellos um correligionário do chimango-chefe Borges de Medeiros, sucessor de Júlio de Castilhos na ditadura sul-riograndense. 

- E depois veio o Getúlio, que era de uma família chimango, mas arrumou o Rio Grande a criou a maioria das leis trabalhistas do Brasil. 

- E casou com dona Darcy Sarmanho, de família maragata, ocasionando a conciliação política em São Borja, que deveria ser a verdadeira capital gaúcha. Lá nasceram dois grandes presidentes: Getúlio Vargas e João Goulart. 

- Concordo com o senhor, seu Chico. Quando estive em São Borja, em 2009, para jogar um torneio de xadrez no Clube Comercial, fui recebido com muito cavalheirismo. É uma cidade ímpar. Inclusive, visitei o túmulo do Getúlio, sempre com muitas flores. 

- O senhor sabia que São Borja foi a primeira cidade dos Sete Povos das Missões? Não é pouca coisa, eu lhe garanto... Mas agora eu estava lembrando... O senhor me perguntou se eu me considero um bagual... 

- Foi uma pergunta provocativa, seu Chico. É que eu vi o senhor baixar o volume do rádio quando aquela música começou a tocar. 

- O senhor sabe que eu gosto muito da música gaúcha, da boa música gaúcha: uma milonga bem tocada, uma vaneira, um chamamé... No entanto, me dou ao direito de não gostar de certos ritmos, como o bugio e suas variações, como aquele terrível nhéc-nhéc ou aquele outro ritmo choroso de espantar visitas. Por isto baixei o volume do rádio. 

- Porém, não era um bugio, seu Chico. 

- Não era, e assim fosse!, que eu até ouvia com todo o respeito. O senhor percebeu que aquilo parece uma lambada? Agora deram para importar ritmos grosseiros do Brasil para misturar com a nossa música, e tudo devido a essa onda da Tchê Música – uma tristeza! Até nos CTGs esses grupos estão tocando e, a continuar assim, não será preciso mais nenhum manifesto para acabar com a tradição gaúcha. 

- Então, o senhor não se considera um bagual? 

- Como lhe disse antes, andei pesquisando a origem da palavra e descobri que é tupi-guarani e significa “de o que é mortal”. Havia um cacique lá na Argentina com o nome de Bagual, que sempre conseguiu fugir da escravidão e acabou assassinado. Isso foi em 1582, quando a Argentina fazia parte do império espanhol. Era um homem indômito e não demorou muito para que os cavalos não domados, ariscos, fossem chamados de baguais, ou “baguales”. Por extensão, o gaúcho, que se destaca pela liberdade e autoconfiança passou a usar a expressão para dizer que é independente e bravo. Depois é que o sentido da palavra foi adulterado. 

- Já sei. Mistificaram a palavra, que passou a ter o falso significado de “homem macho”. Não é assim? 

- Mistificaram e mudaram o sentido. Um homem certamente é macho, com as exceções que comprovam a regra. Foi pior que isso. “Bagual” passou a ser entendido como pessoa ríspida, sem educação, bruto, estúpido, grosso e por aí vai... E passaram para o homem rude do campo, principalmente para o peão de estância sem qualquer educação, que ser grosso e mal-educado é bonito e sinônimo de macheza. E veja o senhor que essa inversão de valores através da mudança do significado das palavras é parte da manipulação cultural própria das elites e das oligarquias, que desejam o povo submisso, quieto e de cabeça baixa. Um povo manietado até no pensamento. E para isso usam de todos os truques, como fazer o povo acreditar que ser grosso e estúpido é bonito e até, como nos últimos tempos, e em grande parte devido à indústria musical que vem incentivando esse tipo de coisa, querem dar a entender que a grossura e a ignorância são “virtudes” do gaúcho. 

- Assim como criaram a figura do “malandro” em outros estados, que faz samba em caixinha de fósforos e se acha muito esperto, sempre desejando passar a perna nos outros, e depois os corruptos se queixam dos juízes quando vão presos, como a dizer: “foi só uma malandragem a mais”. 

- E outras figuras, como o bom negro, a quem fizeram acreditar que a escravidão foi necessária para ajudar no progresso do país, ou a mulata que é “exportada” como objeto de consumo. Agora o senhor está pegando a coisa! E aqui no sul inventaram o “índio grosso barbaridade”, o que é tido como um elogio pelos néscios. E tudo isso para quê? Me diga o senhor. 

- Para tentar perpetuar a ignorância, a desinformação e promover a alienação e a massificação cultural, seu Chico. Um povo alienado é um povo domado. 

- E porque “povo que não tem virtude acaba por ser escravo”, como diz a letra do nosso hino. E a pior escravidão é a escravidão mental, o senhor há de convir. Estão promovendo o termo “bagual” em sua versão deturpada como, em anos atrás, tentaram promover a expressão “morocha”, aviltando a mulher. E olhe que aquela foi uma música que ganhou prêmio em festival... Como eu disse antes: temos muitos “canabarros” infiltrados na cultura gaúcha, manchando e infamando a reputação do gaúcho, para felicidade daqueles que abominam os gaúchos. 

- Mas seu Chico, na música “Veterano”, interpretada pelo Leopoldo Rassier, tem um verso que diz assim: “Sou bagual que não se entrega assim no mais”. 

- Com a diferença que aquela música, composta por Antonio Augusto Ferreira e Ewerton Ferreira, se não estou enganado, é muito linda e mereceu vencer a 10ª Califórnia da Canção Nativa. Além disso, o termo “bagual” é empregado no seu verdadeiro sentido - independência e força - e não pejorativamente, como está se usando agora, com a música como veículo de desinformação que diminui a nação rio-grandense, amesquinha o nosso povo e influencia os mais humildes a acreditar na falsa interpretação de “bagual”: grosseiro, deseducado. Implicitamente, dá a entender que estupidez e burrice têm a ver com valentia e hombridade. 

- E a todas essas, seu Chico, o povo passa a acreditar que ser guapo é o mesmo que ser bagual e que bagual é até uma distinção. 

- É claro que as lides do campo tornam os homens rudes e ásperos – isso não se pode negar -, mas daí a aliar a natural rudeza com a necessidade de falta de educação vai uma diferença muito grande. 

- Talvez seja necessária uma nova revolução, seu Chico. 

- Tenho pensado nisso...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

A CONSOANTE MUDA E A PREGUIÇA





Observando as discussões sobre o Acordo Ortográfico, principalmente entre os portugueses, porque no Brasil nada se discute, tudo se aceita, surpreendo-me com o seguinte texto, de Pedro da Silva Coelho, no sítio www.pracadobocage.wordpress.com: “(...) Tal processo verifica-se também no Brasil, mas limitado praticamente a vogais átonas em última sílaba. Por esta razão, nunca passará pela cabeça dos brasileiros suprimir. e.g., os érres nas terminações da forma infinitiva dos verbos, érres esses que são «mudos» (diacríticos), nas pronúncias brasileiras mais representativas (aquelas que dominam a comunicação social, tendentes a levar à uniformização das outras). Repito: «andá» (andar), «comê» (comer) «ví» (vir), por exemplo. (...)”.

     Falamos tão mal a língua portuguesa, no Brasil, que os portugueses passaram a acreditar que palavras como “andar”, “comer”, “vir”, etc., aqui tem os erres mudos, ou diacríticos, e por esta razão nós, brasileiros, não os pronunciamos. É certo que os meios de comunicação social são os maiores responsáveis pela deturpação da língua e até pelo incentivo aos vícios de linguagem e corrupção do idioma pátrio, mas os principais responsáveis somos nós, o povo, talvez devido a uma herança de séculos de preguiça mental que se espraia no falar cotidiano e acabará – a continuar assim – por formar uma nova língua – o “idiotês”. Algumas pessoas que se consideram muito inteligentes já defendem o que intitulam de português vulgar como uma espécie de sub-língua sem qualquer normatização, que deve ser aceita ao lado do português que eles chamam de “culto”.

     O nosso problema é a preguiça crônica até no falar. Não se pronuncia “andar”, “comer”, “vir” por inércia verbal, falta de ânimo, assim como muitos pronunciam “nóis” em vez de “nós” e “mais” no lugar de “mas” não só por ignorância do idioma ou por sotaque cultivado nas ociosas malandrices, mas, principalmente, porque devem sentir prazer em deixar resvalar mais uma vogal, como bêbados que não conseguem evitar a voz arrastada.

    Talvez constatando as vadias características do povo do sudeste brasileiro, Mario de Andrade criou Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, que costumava dizer “Ai, que preguiça!” e Monteiro Lobato revelou o “Jeca Tatu”, tomando como referência o sertanejo que costuma pensar: “plantando nasce, mas não planto não”.

    E se temos a certeza que se fala melhor o português nos três estados do sul – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul -, devemos deixar essa certeza de lado, levando-se em conta o que escreve Luiz César Saraiva Feijó (que mora em Balneário Camboriú, Santa Catarina), em seu blog “Professor Feijó”, matéria datada de 29 de julho de 2010, intitulada “O Português Vulgar” (professorfeijo.blogspot.com.br). Abaixo, alguns trechos.

      “(...) Mas voltando às observações sobre o falar inculto que se generaliza nas principais cidades do sul do país, tenho observado que não se dá mais importância ao falar escorreito, ao emprego do registro culto da língua portuguesa, mesmo em situações onde isso seria exigido. Nas salas de aula das universidades, principalmente as particulares; nas salas dos professores das escolas; nas Câmaras de Vereadores; nas reuniões dos Conselhos Tutelares e em muitos outros lugares e em inúmeras outras situações em que se exige o falar culto, a língua culta não é mais utilizada e os vícios de linguagem de todos os tipos grassam, desrespeitando as mais comezinhas regras gramaticais. (...)”

        “(...) Assim, é comum ouvir-se “Nós compremos isso muito barato”; “Nós falemos”; “Nós abusemos” etc., sem falar que o –S- da desinência número-pessoal, -mos- nunca é pronunciado. (...)”

       “(...) Há, também, a má conjugação dos verbos INTERVIR, HAVER impessoal, FAZER no sentido de passar o tempo ou no de indicar a temperatura, além do emprego da voz passiva pronominal, como no caso de ALUGA- CASAS em vez de ALUGAM-SE CASAS. (...)”

       “(...) Aliás, a gramática não é bem vista em quase todas as classes sociais da região, muito mais interessadas na praticidade da vida, alegando que a língua portuguesa é muito difícil e que a toda hora estão se realizando reformas ortográficas, que só servem para piorar tudo (...)”

      “(...) De tanto escrever vc no lugar de você, fica-se sem saber que as palavras oxítonas terminadas em –a-, -é-, -ê-, -ó-, -ô- são acentuadas, por exemplo. (...)”

      “(...) Programas como SOLETRANDO e alguns outros contemporizam a mediocridade, mas é muito pouco. Uma das funções da televisão – são cinco – é a de informar. Mas nunca deformar. (...)”

     “(...) Portanto, se, por um lado o lingüista encontra nesses acontecimentos um prato cheio para pesquisar, para descrever os fenômenos da língua enquanto “langue” e “parole”, por outro lado é entristecedor ver a nossa língua portuguesa ser aviltada, vilipendiada, estropiada, por pura falta de conhecimentos específicos e pela falta, principalmente, de uma política séria e objetiva para a cultura e para a educação. Mas, convenhamos, o que se poderia esperar desse país que teve durante oito anos um governo, cujo chefe foi o mais popular e representativo apedeuta nacional? (...)” 

         O professor Maurício Silva (USP), em seu artigo “Reforma Ortográfica e Nacionalismo Lingüístico no Brasil” – WWW.filologia.org.br – defende que as reformas ortográficas, assim como “a discussão em torno da ortografia da língua portuguesa – como, de resto, em torno da própria língua – redunda na tentativa de afirmação nacionalista de uma vertente brasileira do idioma, em franca oposição à vertente lusitana”. Na matéria, lembra o movimento modernista e os tempos de Getúlio Vargas. Segundo o professor, em parte “há um discurso nitidamente nacionalista, o qual acaba por transformar toda discussão lingüística num embate tipicamente político”, sendo utilizada a ortografia da língua “como instrumento de afirmação da nacionalidade brasileira”. 

       Essa tese é válida para a época do governo de Getúlio Vargas, principalmente o primeiro, devido ao nacionalismo então existente. Hoje em dia, é muito improvável, porque acontece exatamente o contrário. O governo está “vendido” às multinacionais, às oligarquias estaduais e ao latifúndio, enquanto o povo perdeu toda a noção do que seja nacionalismo, aceita a massificação e identifica-se a passos largos com a cultura norte-americana, faltando pouco para restar do Brasil apenas o território, caso este não seja também leiloado. Vivemos um momento de caos nacionalista, com a cultura dos Estados Unidos dominando em todos os setores. Inclusive a cultura da corrupção. 

        Os brasileiros não se dão conta disso porque não pensam; e não pensam porque a lavagem cerebral a que são submetidos diariamente não lhes permite usar o raciocínio. Chegaram ao ponto em que não interessa mais raciocinar, estão dispostos a aceitar as receitas de vida que o governo impuser. Embora muitos ainda saiam às ruas para protestar, esses protestos estão sendo criminalizados e o povo em geral não tem uma noção clara dos seus direitos, deixando-se seduzir pelo assistencialismo que encobre os interesses fascistas dos donos do poder. No Congresso Nacional, que deveria representar o povo, não há oposição, não porque seja fraca ou subornável. Também por isto, mas os partidos que se dizem de oposição adotam a mesma linha dos partidos situacionistas e as eleições são uma farsa apelidada de democracia. 

     Em vista disso, não é por uma questão nacionalista que o Brasil quer impor essa reforma ortográfica a Portugal. Razões políticas, muito provavelmente, mas não resultantes de nacionalismo. Ocorre que nos últimos vinte anos a educação tem sofrido uma destruição sistemática; todos passam de ano, mesmo que nada saibam; os heróicos professores do ensino básico e fundamental são pessoas remuneradas mediocremente, sem qualquer força contra alunos drogados, em sua maioria. Não passam de repetidores – como dizia Paulo Freire – de um currículo fraquíssimo para alunos absolutamente desinteressados em aprender qualquer coisa e que tem ojeriza pelo ensino do português. 

       Formam-se analfabetos funcionais que, junto aos clássicos, são mais de 75% da população brasileira. Massa moldável que serve ao Estado prescritor. Serve nos dois sentidos. Massa que é mimada pelos políticos com leis permissivas, estimulada à amoralidade e induzida a desejar apenas o prazer material através do consumismo desenfreado – incluindo as idéias prontas. Como conseqüência, é um povo que está criando a sua própria língua - mistura de gírias com expressões idiomáticas e vícios de linguagem. Uma língua fonética com ortografia própria que lembra vagamente o português. 

   Essa grande massa de analfabetos ou semi-analfabetos, ratos de laboratório a participar inconscientemente de uma grande experiência sociológica, recebeu o poder de votar e de escolher representantes à sua imagem e semelhança, ao mais das vezes; viciou no brinquedo da troca de favores e deseja a liberdade de exercer a sua grande preguiça, incluindo a preguiça de falar e de escrever. E é a língua fonética que já está sendo aceita tacitamente dentro do território brasileiro que o Brasil deseja oficializar através do Acordo Ortográfico que, se vingar, será apenas o início da total deterioração da língua portuguesa. 

      Penso que deveríamos voltar a falar e escrever português. Comove-me a preocupação de muitos portugueses com o futuro (e o presente) da língua portuguesa. Exatamente o oposto da quase total inação dos brasileiros, acostumados a sempre concordar com regras e decretos. Voltar a falar e escrever português significa jogar fora as gírias, os vícios de linguagem, a malandragem, a corrupção, o “jeitinho” e, basicamente, a estonteante e deformante preguiça nacional. Concordo que será um gigantesco esforço, mas não custa tentar. Há séculos é dito que o Brasil é o país do futuro... Acredito que já é tempo de transformar esse futuro em presente. Para isto será necessário um povo dinâmico e com senso crítico, que não será encontrado, certamente, nos estádios de futebol ou nas festas de carnaval. 

        Com o fim das consoantes mudas, ou diacríticas, poderemos ler frases assim: “Enfim, o brado retumbante da inorância venceu, e quem paga o pato do pato ortográfico?” Mas é mais provável que o grande G da palavra "ignorância" continue impávido e colosso, imune a todos os pactos.

sábado, 4 de janeiro de 2014

UMBERTO E OUTROS ECOS




Em “O Nome da Rosa”, primeiro romance de Umberto Eco que se tornou best-seller e mereceu um filme, o autor foi criticado pela fácil criação da personagem Guilherme de Baskerville, uma provável paródia de Sherlock Holmes, e não faltaram aqueles que o acusaram de plágio, o que foge à verdade, porque Sherlock Holmes tornou-se tão universal enquanto personagem, caracterizado como um ser humano muito humano com seus repentes de gênio e viciado em cocaína (na época a droga preferida da elite inglesa) que muitos outros escritores, além de Conan Doyle, deram-se à liberdade de escrever “aventuras” do famoso detetive. 

   O próprio Conan Doyle em seu tempo foi acusado de plagiar Edgar Allan Poe, o que não foi negado pelo autor. De fato, a personagem C. Auguste Dupin, que aparece em três histórias de Poe (Assassinato na Rua Morgue, O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Roubada) é anterior à criação de Sherlock Holmes, e quem narra as aventuras de Dupin é um amigo próximo, ficando ainda mais óbvia a cópia não muito criativa que Conan Doyle fez de Allan Poe, através de Sherlock Holmes e seu amigo Watson. 

   Na segunda novela de Sherlock Holmes, “O Signo dos Quatro”, inquirido por Watson, Sherlock admite que Dupin é um bom detetive, embora não passe de um bon-vivant, enquanto ele, Sherlock Holmes, dedicou a sua vida inteira a estudos e pesquisas para se transformar em um detetive particular de consultas, usando o método científico e a lógica dedutiva. É também naquele livro que se revela o Sherlock dado ao uso de morfina e cocaína, especialmente a segunda droga – uma solução na concentração de sete por cento, conforme explica ao amigo indignado. 

   Aproveitando a deixa, o escritor e roteirista Nicholas Meyer escreveu, em 1974, The Seven-Per-Cent Solution: Being a Reprint from the Reminiscences of John H. Watson, M. D. - traduzido no Brasil para “Uma Solução a Sete Por Cento”. No romance, Watson consegue levar Sherlock Holmes a se tratar com Sigmund Freud, na Alemanha. É sabido que Freud, criador da Psicanálise, utilizava não só a hipnose como a cocaína em seus pacientes mais histéricos, e ele próprio passou a usar a droga e somente largou o vício, a muito custo, depois que viu um de seus amigos morrer de overdose.  

   Na época, século XIX e início do século XX, cocaína, morfina, ópio e heroína eram considerados remédios. A heroína de Bayer, vendida em frascos, foi divulgada como remédio contra a tosse para crianças. O vinho de coca de Metcalf, o vinho Mariani, o Maltine, eram bebidas à base de cocaína. A cocaína era tão famosa, que a indústria C. F. Boehringer & Soehne (Manheim, Alemanha) lançou um peso de papel promocional onde estava escrito “os maiores fabricantes do mundo de quinino e cocaína”. A Martin H. Smith Company, de Nova Iorque, lançou a glico-heroína, indicada como remédio contra a asma, tosse e pneumonia. O Vapor-Ol, também à base de heroína, era indicado contra crises espasmódicas. Em 1900, a Vandenbrok Pharmacien criou os tabletes de cocaína – “indispensáveis para cantores, oradores e professores”. Existia o drops de cocaína para dor de dente, produto da Lloyd Manufacturing Co. e, para recém-nascidos, o frasco de paregórico (sedativo) da Stickney and Poor. O produto continha 46% de álcool misturado com ópio. E observem o nome da Coca-Cola. 

  Portanto, não é de surpreender que uma personagem como Sherlock Holmes usasse morfina e cocaína e ficava subentendido que, talvez, a sua clarividência em muitos casos se devesse ao vício das drogas. Além disso, o público leitor de Conan Doyle, formado pela classe dos afortunados que sabiam ler, identificava-se com as historietas policiais onde os crimes eram solucionados por alguém muito próximo, com hábitos comuns a todos e com a vantagem de ser original e criativo. 

   Quando Marx escreveu a sua célebre frase “A religião é o ópio do povo”, não necessariamente atacava a religião, como muitos deduziram, mas provavelmente a revelava como única satisfação e consolo de um povo que não tinha condições de adquirir não só o ópio, como a heroína, cocaína, morfina e outras drogas que foram destinadas à alegria e regozijo das elites. E quando essas drogas passaram ao consumo das classes mais baixas e foram proibidas – porque não se pode ter subordinados bêbados e drogados – não é de estranhar que essa proibição tenha se limitado apenas ao tráfico e, em alguns casos, ao consumo.  

   Não é absurdo pensar que as grandes empresas ligadas à fabricação de remédios ou de drogas que apelidavam de remédios tenham facilmente largado o principal suporte da fortuna dos seus donos. Provavelmente continuaram a fabricar em suposto segredo a cocaína, heroína e outras drogas destrutivas, talvez com o apoio dos propalados cartéis de drogas. Quem não acha estranho o combate somente ao intermediário, ao traficante, sendo que as drogas são fabricadas livremente? 

   Assim, a personagem Guilherme de Baskerville, criada por Umberto Eco apoiando-se no estereótipo de Sherlock Holmes não pode e não deve ser considerada plágio do detetive inglês, mas uma realimentação do moderno mito do herói, ou anti-herói, que possui não só virtudes como defeitos, e vemos Guilherme, em determinados momentos, ingerindo plantas supostamente alucinógenas, assim como Sherlock Holmes usava cocaína. 

    Plágio é o início do primeiro capítulo de “O Nome da Rosa”. Não exatamente plágio no sentido vulgar da palavra, mas uma cópia, imitação ou adaptação do capítulo III do conto de Voltaire - “Zadig, ou o Destino”. Em “Zadig”, Voltaire escreve: “(...) divisei marcas de ferraduras que se achavam todas a igual distância. “Eis aqui”, considerei, “um cavalo que tem um galope perfeito”. Ainda: “Vi debaixo das árvores que formavam um dossel de cinco pés de altura, algumas folhas recém tombadas, e concluí que o cavalo lhes tocara com a cabeça, e que tinha, portanto, cinco pés de altura (...)”. 

    Umberto Eco escreve (“O Nome da Rosa”, primeiro capítulo): “(...) No trevo sobre a neve ainda fresca estavam desenhadas com muita clareza as marcas dos cascos de um cavalo, que apontavam para o atalho à nossa esquerda. A uma distância perfeita e igual um do outro, os sinais indicavam que o casco era pequeno e redondo, e o galope bastante regular (...). Mais adiante: “(...) Lá onde os pinheiros formavam como que um teto natural, alguns ramos tinham sido recém-partidos bem na altura de cinco pés (...)”. 

    Acredito que Umberto Eco, conceituado erudito, não resistiu à livre adaptação de alguns trechos do conto de Voltaire ao seu romance, o que não diminui a beleza da sua obra que, muito além de uma história detetivesca e a par do belo estilo, está recheada de informações históricas sobre a Europa medieval. 

    Ficção histórica é o que mais se vê atualmente nas livrarias. Depois do indefectível e ridículo Dan Brown pipocaram livros sobre Templários, Illuminati, Maçonaria e demais temas esotéricos e ocultistas e se é certo que não se pode comparar um grande escritor como Umberto Eco com fabricantes de thrillers suspeitos como Dan Brown e outros, preocupa o fato de que muitos desses livros tentam fazer uma revisão histórica sem qualquer base científica, e seus leitores, muitas vezes falhos em informação, tendem a confundir ficção com História, não fazendo diferença entre a imaginação e o fato comprovado. 

    Principalmente neste momento em que as drogas estão sendo novamente liberadas, voltando para o controle dos seus antigos donos – as empresas multinacionais – é de se temer que o grande exército de zumbis que está se formando em todos os países passe a aceitar facilmente, devido à incapacidade do uso do raciocínio, a revisão histórica feita através dos livros de ficção e as mentiras impostas através dos filmes norte-americanos (principalmente), porque para um mundo novo devidamente globalizado não só no comércio, mas, principalmente, nas idéias e pensamentos, a aculturação deve ser o principal pressuposto. 

    A absorção da cultura dominante exclui a pesquisa da verdade no instante em que são criados mitos falaciosos que devem ser venerados como deuses e entregues às massas como receituários de conhecimento, cada vez mais diminuto e suficiente para pequenos cérebros que não mais se importarão se o escritor A copiou um pequeno trecho de um conto do escritor B, porque a falsidade e a velhacaria, assim como a corrupção, farão parte do dicionário dos donos do ínfimo saber. 

   E o leitor atento poderá imaginar que estou me referindo somente ao Brasil dividido em tantos brasis e em tantas culturas que alguns poucos teimam em preservar, a despeito dos meios de comunicação que as desejam sufocar. Aqui, apesar dos corruptos que, aos poucos, estão conhecendo o seu lugar nos presídios, apesar dos péssimos políticos e de uma maioria da população que aceita o jugo, ainda há algum resquício de dignidade. Luta-se nas ruas, luta-se nas universidades e nos centros culturais. Refiro-me principalmente aos autodenominados países do primeiro mundo, exploradores da miséria e da fome. Os que enriquecem com a fabricação das drogas e das guerras. Estes são os mais aculturados, os mais domados e subservientes ao império desonesto e medíocre que ajudaram a formar. 

    Para ilustrar, entre tantos exemplos cito um livro que li recentemente, do escritor português Joaquim Fernandes. Chama-se “O Cavaleiro da Ilha do Corvo”. Em uma tentativa de thriller, onde não faltam as corridas e as perseguições, os bons e os maus, adivinhem quem é o herói principal? Um norte-americano. Não pode conter-se o autor e reverencia aqueles “que sabem tudo” (palavras suas). É da personagem estadunidense que surgem as grandes idéias e soluções. Há maior exemplo de aculturação do que este? Com certeza há, é só um pequeno exemplo.  

     Além disso, o tema do livro trata da descoberta de indícios sobre a navegação de cartagineses e fenícios não só no Mediterrâneo como no oceano Atlântico e tem como principal virtude a citação de algumas fontes confiáveis. O que não é nenhuma novidade no Brasil. Além da saga de Erik, o Vermelho, viking que andou pelas Américas, há numerosas evidências que estão sendo pesquisadas há muitos anos sobre as visitas dos nórdicos e dos povos do Oriente Médio e África do Norte às terras americanas, muito antes de Colombo. 

    Há poucos dias, fiquei sabendo de uma proposta para tornar a língua inglesa o segundo idioma oficial de Portugal. É muito triste saber que existem pessoas em Portugal tão afeiçoadas aos Estados Unidos e seu império!... Não são todos os portugueses, bem entendido, assim como no Brasil nem todos são corruptos ou selvagens. Aliás, os nossos “selvagens”, que estão sendo dizimados pela nefasta política fundiária de Dilma Roussef, têm a alma mais pura e o coração mais limpo que a grande maioria dos descendentes de europeus.
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