terça-feira, 15 de julho de 2014

COMPLEXO DE TICO-TICO NO FUBÁ




Aqueles milhões de amestrados pela mídia triunfante que realmente governa o Brasil e o transforma nesta coisa disforme e corrupta, aquelas pessoas que aceitam e absorvem todas as mensagens publicitárias, os que são induzidos a viver em eterna oscilação entre o amor e o ódio e lutam para obedecer às palavras de ordem da moda, tendo como objetivo ostentar um preço ou um código de barras no peito, sempre atrás de receitas de vida em redes sociais, repudiando a tentativa de entender o significado de nação, cultura e História e dedicando a sua pobreza mental à adoração momentânea de ídolos fabricados, torceram desesperadamente para a vitória da Alemanha na final do torneio que foi apelidado de Copa da Copas. 

   E vibraram intensamente e soltaram foguetes e gritaram e buzinaram quando a Alemanha fez o gol da vitória, transferindo toda a sua frustração pelas desconcertantes derrotas da seleção brasileira para o ódio que lhes foi imposto contra a Argentina - um trabalho de dezenas de anos feito pela imprensa robotizadora e que visa unicamente a desunião entre os povos latino-americanos para que mais fáceis presas se tornem dos ditames europeus e norte-americanos, concordando implicitamente que o Brasil deve continuar como extensão passiva de interesses oportunistas e desagregadores. 

   Ao fingir-se de esquerda salvadora, ou de nova direita sempre amiga das forças mais reacionárias (veja-se Maluf, Sarney, militares no Haiti, etc.), uma das missões recebidas pelo PT – partido que deveria ser das transformações e virou abrigo de pulhas e tratantes -, além de acabar com o getulismo, que sempre ameaçou o império das multinacionais e desejava um Brasil para os brasileiros, foi o de extinguir qualquer sentimento de nacionalismo e, principalmente, provocar a despolitização do povo brasileiro através de uma educação pífia e da aplicação da teoria do pão e circo. O mesmo que acontecia durante a ditadura militar, sendo que durante aquele regime ainda existia resquícios de educação no país e preocupação com o civismo, a moral e o conhecimento da nossa organização social e política. Agora nem isso. 

   O resultado foi visto durante a Copa do Mundo, quando a ditadura, que nunca acabou de fato, tomou as favelas, reprimiu manifestações populares e, inclusive – como acontece em todos os países fascistas – prendeu ativistas em casa, em flagrante desrespeito às leis que protegem os cidadãos, na suposição de que se preparavam para novas manifestações. A isso eles chamam de democracia. E pior – se ainda pode haver coisa pior – a alienação do nosso povo é tão gritante que ninguém fica sabendo ou protesta contra os desrespeitos aos direitos humanos, e nenhuma daquelas instituições que outrora ousaram desafiar a ditadura ostensiva - como a OAB, por exemplo - ficaram ao lado dos presos políticos detidos ilegalmente. 

    Aliado a isso, exacerbaram o complexo de tico-tico no fubá, fazendo com que o povo entendesse derrota no futebol como ofensa pessoal ou à honra da pátria, somente lembrada quando é cantado o hino nacional em jogo da seleção. A exuberante imprensa que domina o Brasil, muitas vezes incitando ódio contra o povo argentino ao qual chamam desdenhosamente de “hermanos”, colocou nas mentes dos submissos que derrotas no futebol criam feias manchas indeléveis, o que é muito ruim para os negócios e para o orgulho supostamente “nacional”; se somos pequenos e frágeis em determinados momentos, devemos fragilizar e apequenar ao mais próximo, hostilizando-o como a um feroz inimigo. 

   A serviço de quais interesses escusos e indignos essa imprensa, a partir da paixão pelo futebol tenta fabricar uma mentalidade chauvinista e mitômana no povo brasileiro? Ao mesmo tempo, alardeia em todos os seus programas “extra-campo” – às vezes escancaradamente, outras, de maneira subliminar – a suposta superioridade do povo norte-americano e dos povos europeus, incitando a massa à servidão intelectual e moral e apontando o capitalismo consumista e selvagem como norma de vida. É uma imprensa que esconde a riquíssima cultura latino-americana, provoca a desunião entre o Brasil e as demais nações da América Latina e prescreve o materialismo que transforma as pessoas em produto alienado. 

   E faz as suas experiências sociológicas. A mais recente e visível foi lançar os embriagados por futebol contra os argentinos, provocando idêntica reação, o que gerou discussões e brigas que não serão esquecidas, mas incentivadas. O resultado foi a maior parte do povo torcendo a favor da Alemanha, não pelo futebol apresentado, que desintegrou a seleção brasileira, mas devido ao receitado ódio contra os argentinos. Surgiram mulatos alemães, negros alemães, índios alemães... Uma incrível legião de alemães que não se supunha existir no Brasil. Ainda estão festejando a vitória da Alemanha como se fosse a vitória do Brasil, porque é preciso fingir que não houve derrota e se deve substituir as lições da humildade pelo falso orgulho das feras irracionais.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

CONTA DE MENTIROSO




Foi pouco. A Alemanha ficou com pena daquele time que vestia a camisa da seleção e não quis fazer mais de 7. Conta de mentiroso, já bastava. Alguns comentaristas de futebol, ainda imbuídos da ufanista euforia da véspera, afirmaram que foi um acidente, que nem em cem anos a Alemanha repete placar igual. Repete sim. É só pegar o mesmo time, com ou sem Neymar. E não só a Alemanha. Qualquer time medianamente bem estruturado vence com certa facilidade esta seleção brasileira. O Brasil teve sorte de não pegar o Uruguai ou a Bélgica nas quartas-de-final. Enfrentou a alegre Colômbia, que só não empatou porque terminou a partida. Teve sorte com o Chile, que conseguiu errar mais cobranças de pênalti depois de ter dominado o jogo. 

   Morte anunciada. Desde a primeira partida, contra a Croácia, viu-se um time amorfo e desconjuntado. A seleção ganhou graças a um pênalti inexistente em Fred e ao fato do árbitro ter anulado um gol legítimo da Croácia. Mas o ufanismo aumentava. Via-se que era impossível aquele time vencer a Copa do Mundo e eu inclusive brinquei ironicamente em uma ou duas matérias que a seleção brasileira somente seria campeã com a ajuda da arbitragem em todos os seus jogos e que, se fosse assim, a final certamente seria com o aliado político Estados Unidos – país de reconhecido péssimo futebol. 

   Falava-se muito em Neymar, o conhecido garoto-propaganda que foi guindado ao nível de craque pela mesma imprensa que disse que o Brasil tinha um grande time. Este é um país de brincadeiras e piadas. Um país onde o povo acredita em aparências. Uma das piadas que surgiram pouco depois da lesão do Neymar era ele, ainda na maca, perguntando para o médico se o seu penteado fora desfeito. Tentaram iludir a todos, mais uma vez conseguiram manipular as mentes de milhões de brasileiros esperançosos, que agora estão chocados com a derrota vergonhosa no seu esporte preferido. A grande maioria não entende nada. O que houve? Houve que a realidade caiu em cima. Hora de acordar. Chega de faz de conta. 

   Faz de conta que o Brasil ia ganhar a Copa. Faz de conta que havia uma grande seleção brasileira. Faz de conta que o Felipão é um ótimo treinador. Faz de conta que a seleção tinha uma excelente defesa. Faz de conta que o meio-de-campo era perfeito. Faz de conta que o ataque era fabuloso. Faz de conta que o Neymar é um craque. E muitos ainda acreditam e seguirão acreditando nessa infinidade de invenções, mesmo que a medíocre seleção volte a perder ridiculamente. A imprensa especializada já está procurando maneiras de dizer ao povo que a goleada foi episódica, casual, acidental, quando só não vê quem não quer ver que esse grupo de jogadores chamado de seleção não pode representar o que temos de melhor no futebol. 

   É absurda a afirmação de que se Neymar estivesse em campo o resultado seria outro. Perderia de qualquer maneira, com mais ou menos gols. É bom lembrar que o Santos de Neymar levou quatro a zero do Barcelona, e Neymar quase não tocou na bola. A verdade é que a seleção estava esperando para perder para o primeiro time de verdade que encontrasse pela frente. E perdeu feio, com justiça no placar, que só não foi maior porque a Alemanha desistiu de atacar depois do sétimo gol. 

   Com Pelé e Garrincha a seleção brasileira deu vexame na Copa de 1966, na Inglaterra, sendo eliminada na primeira fase da competição. O restante do time era muito fraco e havia, na época, a mesma sensação de ufanismo que agora. Só não levou alguma goleada porque aqueles jogadores eram mais esforçados, mais guerreiros e sabiam honrar a camisa da seleção. 

   Os jogadores desta seleção brasileira se preocupam muito com prêmios, dinheiro, honrarias e propaganda. A maioria deles joga em clubes estrangeiros, onde tem a fortuna garantida. Em pouco tempo esquecerão a humilhação, mas o povo brasileiro continuará com esse sentimento de culpa como se todos tivessem entrado em campo. A vergonha passa a ser nacional, mas os jogadores serão eximidos da culpa. Dirão que o único responsável é o treinador, quando o grande erro de Felipão foi ter convocado essa gurizada. 

   É hora de acordar não só para o futebol, mas, principalmente, para a realidade brasileira. O verdadeiro desastre, a real tragédia, foi o imenso desperdício de dinheiro público na construção de estádios faraônicos, reprimindo-se brutalmente as legítimas manifestações populares em uma reedição branca da ditadura militar; encurralando-se os favelados para que os estrangeiros não vissem a nossa miséria e deixando-se de lado setores sociais básicos, como educação e saúde. Fizeram do Brasil um circo, onde os palhaços somos nós. Está na hora de dar um basta a tudo isso. Hora de enfrentar de frente a realidade e não de ficar brincando ou se lamentando com a desonra que é só deles, da ridícula seleção de mercenários.

sábado, 5 de julho de 2014

AMARELOU!





Agora sim a seleção vai ganhar a Copa! Desde que N. levou aquele encontrão, sofreu aquela falta, aquele joelhaço, aquela tentativa de assassinato (dizem os mais afoitos) e ficou estirado no chão a chorar e a gritar e o Brasil inteiro chorou e gritou com ele, porque esta é uma nação de sentimentais e até os mais corruptos, depois de muito choro e algumas ameaças de morte são libertados por juízes sensíveis às suas lágrimas; naquele momento o início da noite que não era muito veloz em Fortaleza libertou um último clarão, um último fulgor, um último atrasado raio de sol muito travesso que desejava ficar assistindo o jogo e (meninos, eu vi!) o gramado ficou intensamente amarelo, enaltecendo a cor das camisetas da seleção, um canarinho solar resplandecente, como se o dedo de Deus apontasse o futuro campeão desta breve Copa do Mundo.

   Já era tempo! Depois de várias partidas medíocres da gloriosa seleção que será sempre lembrada pelo denodo, galhardia, arrojo, ímpeto, ousadia ao fazer tantas faltas, porque é necessário defender a mãe gentil, mesmo que a pontapés, lembremos que a pátria está de chuteiras, o Brasil é zil zil neste momento, e a cada gol muito chorado surge um herói idolatrado pela mídia retumbante... Depois de tantos prantos, soluços e ranger de dentes; reuniões, conventículos, mesas-redondas e algumas muito quadradas onde se discutia a ontológica questão de como fazer o time, o selecionado, jogar como uma verdadeira seleção... Depois que a grande maioria do povo estava temerosa, assustada, quase desiludida e ouviam-se gritos desesperados pelas ruas, os assaltos aumentavam em inimaginável desproporção, a ditadura voltava criminalizando as manifestações populares, o Apocalipse era anunciado, nasciam jacarés de duas cabeças, viadutos recém construídos desabavam, chuvas intensas afogavam inúmeras cidades e sóis inclementes como árbitros despudorados provocavam grandes secas... eis que o grande jogador que a pátria lamenta não ter encontrado o seu futebol, talvez esquecido na Espanha ou nos vestiários santistas – desaba. 

   Ó céus! Ó terras! Ó mares! Ó eleições!, pensa a dona Dilma e declara que a dor de N. feriu o coração dos brasileiros, fala-se em desastre, Felipão usa a palavra “catástrofe”, milhões de mensagens são enviadas para o desgostoso jogador que diz estar acabado o seu sonho de jogar uma final de Copa do Mundo, e muitos retrucam: “Não, não fale assim, ainda há muito tempo!”.  

   Milhares de cartazes dentro e fora dos estádios e outros centros esportivos e não esportivos repetem a mesma frase, desejando força, nem tudo está perdido, o mundo é dos bravos, tens médicos particulares, não necessitas entrar em fila do SUS nem acampar com os milhares de desabrigados vítimas de desastres muito maiores, como a fome, a miséria e o abandono, não és um favelado cercado pelo exército ou um manifestante ferido por policiais, não moras no negado Brasil dos esquecidos, no triste Brasil dos abandonados, no imundo Brasil dos políticos prostituídos, no desmatado Brasil dos latifúndios, és um deus, um ídolo, uma marca registrada; serás um mito. Força, muita força! 

   E dentro da noite lenta, muito lenta, enquanto o povo chora desconsolado por tragédia humana tão singular, uma verdadeira novela da vida real ao vivo e a cores, eis que o treinador da seleção prepara um final feliz. Agora está livre para armar o time que desejar. Antes do desditoso fato, Felipão era obrigado a escalar N. e mais 10, e todas as jogadas de ataque do time deveriam ser decididas (ou não) pela magnificente estrela que agora descansa. A própria torcida gritava “Vai N.! vai N.!” e, quem sabe, doravante, nas duas partidas que restam, os embriagados torcedores lembrem que é uma seleção formada por 11 jogadores e não o time de um só. Ainda mais: se perder, a desculpa está pronta - foi devido à sentida ausência do onipotente jogador; se vencer, a vitória será de todos, do Brasil unido que supera todos os obstáculos e mostra para o mundo a sua força e pujança. 

    Mais perfeito impossível. Não por acaso o amarelo do Sol vibrou sobre o berço esplêndido do gramado cearense quando tombou o herói vítima de covarde falta. Está confirmado: Deus é brasileiro, mesmo que o Papa seja argentino. Vai Brasil!

quinta-feira, 3 de julho de 2014

ELE




Se a seleção não joga bem ele está lá para decidir. O único e principal problema é o restante do time ficar tão dependente das suas jogadas a ponto deixar de fazer a sua parte, esperando que o gênio desperte e resolva tudo sozinho, o que nem sempre é possível, afinal o futebol é um esporte coletivo em que todas as peças são interdependentes, a não ser em caso de gol contra ou de excessiva emotividade que poderia provocar inusitados tremores ou cegueira devido às lágrimas e, mesmo assim, deve-se levar em conta que a prática esportiva mexe com as emoções e, inclusive, há casos de jogadores que conseguem jogar melhor quando choram, extravasam, destilam a sensibilidade, revelam-se humanos, demasiado humanos, perdendo um pouco aquele ar de feras a cantar o hino nacional aos gritos e que desejam entrar em campo para, literalmente, quebrar o adversário. 

  Quem quebra é o craque. É ele. A palavra está dizendo: “crak”. Não aquela droga que foi inventada para a grande maioria do povo que não pode assistir partidas de Copa do Mundo dentro dos estádios ou para iludir a fome, o abandono e a desesperança. Estou falando dele, o único verdadeiro craque que apareceu nos últimos anos, provocando acessos de raiva nos adversários, júbilo na sua torcida e surpresa entre aqueles que já estavam acreditando que o futebol se transformara em um monótono trocar de passes e cruzadas na área. Ele recebe a bola e diz: “É comigo”. Acredita e vai em frente, driblando quem aparecer, dando o passe milagroso ou o chute inesperado, batendo a falta com maestria ou fazendo o lançamento perfeito, passando por dois, três, quatro, cinco, e só parando quando a bola, satisfeita, aconchega-se dentro do gol. 

   Às vezes, parece desinteressado. Todos estranham. O que estará havendo com ele? Será que está machucado? Que nada! Todo bom jogador, principalmente o craque, tem aquele momento em que parece amortecido e busca se reequilibrar. É quando tenta interpretar o que está acontecendo dentro de campo. Dêem-lhe algum tempo, sejam pacientes. Inesperadamente ele sairá da sua aparente mediocridade e decidirá a partida, no exato momento em que os adversários pensam que ele está muito bem marcado, ou demasiado cansado. A vida é feita desses impulsos súbitos e só os verdadeiros criadores aceitam o desafio de desvelar o inesperado em extraordinário momento de lucidez e magia que provoca a beleza e o encanto. E, atualmente, só existe um jogador capaz de entrar nesse estado de graça: Messi.
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