sábado, 25 de julho de 2015

TROPICÁLIA COMBINA COM APARTHEID?



Caetano Veloso e Gilberto Gil estão fazendo uma turnê mundial, que inclui um show em Israel, no dia 28 de julho. Por curiosa coincidência, o dia 28 de julho foi o dia em que Israel promoveu um massacre na Faixa de Gaza, em 2014. Não se sabe ao certo se a dupla vai tocar em Israel justamente naquele dia para comemorar o massacre ou devido à sua característica ingenuidade que beira à alienação. Ao contrário deles, pessoas engajadas com a causa palestina, notadamente artistas, recusam-se a incluir Israel nos seus roteiros de viagens. Uma dessas pessoas, Roger Waters (Pink Floyd) escreveu duas cartas a Caetano e Gil pedindo que eles desistissem de tocar em Israel. Abaixo, alguns trechos da segunda carta. 

   “(...) A data coincide com o aniversário de um ano dos ataques de Israel a Gaza, nos quais mais de duas mil palestinas e palestinos foram mortos, incluindo mais de 500 crianças. (...)” 

   “(...) Tocar em Israel é endossar políticas e práticas racistas, coloniais e de apartheid – ilegais sob o direito internacional. Ademais, o governo israelense apresenta os shows em Israel como sinal de aprovação a suas políticas. (...)” 

   “(...) Nosso pedido faz coro ao chamado de artistas e da sociedade civil palestina para que artistas não se apresentem em Israel. Entre aqueles que responderam a esse chamado, cancelando seus shows no país, estão Lauren Hill, Roger Waters (Pink Floyd), Snoop Dog, Carlos Santana, Cold Play, Lenny Kravitz e Elvis Costello. (...)” 

   “(...) Não ignorem esse chamado. Tropicália não combina com apartheid!” 

   A primeira carta, datada de 22 de maio, foi encaminhada aos músicos brasileiros pelo BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), um movimento global com estratégias para pressionar Israel visando o fim da ocupação dos territórios palestinos. A carta também é assinada por Roger Waters. Destaco dois trechos. 

   “(...) Como vocês sabem, artistas internacionais preocupados com direitos humanos na África do Sul do apartheid se recusaram a atravessar a linha de piquete para tocar em Sun City. Naqueles dias, Little Steven, Bruce Springsteen e cinqüenta ou mais músicos protestaram contra a opressão cruel e racista dos nativos da África do Sul. Aqueles artistas ajudaram a ganhar aquela batalha, e nós, no movimento não-violento de Boicote, Desinvestimentos e Sanções (BDS) pela liberdade, justiça e igualdade dos palestinos, vamos ganhar esta contra as políticas similarmente racistas e colonialistas do governo de ocupação de Israel. (...)” 

   “(...) Caros Gilberto e Caetano, os aprisionados e os mortos estendem as mãos. Por favor, unam-se a nós cancelando seu show em Israel. (...)” 

   Gilberto Gil leu as duas cartas e disse que não respondeu e não responderá. Caetano Veloso foi mais educado. Escreveu uma carta onde entre outras coisas, comunica que cantou nos Estados Unidos quando O presidente era George Bush e o Iraque estava sendo invadido. Foi incisivo: “Eu me lembro que Israel foi um lugar de esperança. Sartre e Simone de Beauvoir morreram pró-Israel”. 

   É verdade, mas não se pode culpá-los por isso. Sartre e Simone pertenceram àquela geração de intelectuais franceses que ficaram de joelhos ante os Estados Unidos, que apelidaram de “América”. Acreditavam terem sido salvos do nazismo pelos estadunidenses e cultivavam uma imensa raiva da União Soviética, o país que realmente venceu a Segunda Guerra. Sartre chegou a participar de um grupo que se autodenominava “maoísta” e que era radicalmente contra os comunistas pró-soviéticos. 

   É certo que Sartre e Simone propunham-se um engajamento que poderia ser chamado de liberal-esquerdista, uma vez que denunciavam a ocupação francesa na Argélia e na Indochina e, ao contrário de Koestler e de Camus, não praticaram um anticomunismo histérico. Procuravam um caminho que unisse liberdade e socialismo e mesmo nos piores momentos da guerra fria não se deixaram envolver pela propaganda fascista. 

   Antes de tudo, Sartre julgava necessário participar dos combates do seu tempo. Ser e Fazer são verbos que, para o pensamento de Sartre, se interpenetram, mesmo sabendo que existe a liberdade de Não-Ser e de Não-Fazer. Para Sartre, era impossível não se comprometer, e isso significava ser o sujeito da sua história e da própria História. O contrário seria agir como um alienado moral, tratando as demais pessoas sem reflexão, sem questionamentos sobre justiça, igualdade, semelhanças e diferenças.  

   Sartre tentou ser coerente com o seu pensamento e acredito que não apoiaria Israel se tivesse acesso a maiores e melhores fontes de informações sobre a questão palestina. Durante e após a Guerra dos Seis Dias Israel posou como vítima de anti-semitismo na falta de argumentos por ter invadido a terra dos palestinos. Defender Israel era uma imposição da mídia que fabricava pessoas massificadas, uniformizadas em um pensamento que julgavam livre de estereótipos, até entre a intelligentsia européia. 

   O que não se entende é como uma pessoa inteligente, como Sartre confundiu anti-semitismo com anti-sionismo, mesmo porque a expressão “anti-semita” não se restringe unicamente ao povo judeu. O termo “semita” designa o conjunto composto por uma família de vários povos que possuem as mesmas raízes culturais e lingüísticas. A família semítica abrange o acadiano, ugarítico, fenício, hebraico, aramaico, árabe, etíope, egípcio, copta-gala, afar-saho, assírio e caldeu – palestinos, sírios, líbios, afegãos, iraquianos, egípcios e os povos árabes em geral. O termo “semita” define todos os povos do Oriente Médio. Tampouco Judaísmo é sinônimo de semitismo. Judaísmo é uma religião, assim como Cristianismo ou Islamismo – e não designa um povo, uma raça, uma etnia ou uma nacionalidade. 

   Sionismo, por seu lado, é uma ideologia racista composta predominantemente por uma minoria de judeus que detêm os principais meios de comunicação mundiais, bancos, empresas multinacionais e, atualmente, dominam o Estado de Israel. O seu objetivo primeiro é restaurar os limites históricos e bíblicos da Terra de Israel ou Grande Israel (em hebraico: Eretz Yisrael Hahslemah). Os sionistas israelenses utilizam esse conceito para justificar as guerras árabe-israelenses e a ocupação da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Colinas de Golam. Theodore Herzl, fundador do sionismo, defendia que a Grande Israel é um estado judeu alongado desde o rio Nilo, no Egito, até o Eufrates, no Iraque, incluindo partes da Síria e do Líbano. 

   E, no entanto, Sartre defendeu o sionismo. Em 1975, a ONU adotou a Resolução 3379, considerando o sionismo equivalente a racismo, com 72 votos a favor, 35 contra e 32 abstenções. A Resolução 3379 afirmava que “o sionismo é uma forma de racismo e discriminação racial” e “o regime racista na Palestina ocupada e o regime racista no Zimbabwe e na África do Sul têm uma origem imperialista comum, formando um todo e tendo a mesma estrutura racista e sendo organicamente ligados na sua política destinada à repressão da dignidade e integridade do ser humano”. 

    Sartre, Simone de Beauvoir, Bernard Henry-Levy, Raymond Aron e outros intelectuais protestaram contra a Resolução 3379. Em 1976, Sartre recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Jerusalém. Em 1991, sob pressão de George Bush, a Assembléia Geral da ONU revogou a Resolução 3379.  
   A mesma ONU, a partir da Resolução 181 da sua Assembléia Geral, tinha criado artificialmente o Estado de Israel, em novembro de 1947, dentro do território palestino. A criação de Israel provocou a imediata expulsão de mais de 750.000 palestinos do seu território por um exército muito bem armado de colonos judeus oriundos da Europa devastada pela 2ª Guerra. Em 1949, ao final dos combates, Israel havia expandido as suas fronteiras, passando a ocupar 78% da Palestina histórica. 

   Era apenas desinformação de Sartre ou o fato de estar cercado por pessoas como Aron, Lanzmann, Levy e reacionários afins que, muitas vezes, passavam por pacíficos revolucionários, influenciaram o seu pensamento? O pacifismo que se diz revolucionário foi uma das piores pragas geradas durante a segunda metade do século XX, porque previa o quietismo, a sonolência, a contemplação e a passividade. O pacifismo que se diz revolucionário participou do Maio de ‘68, mas não chegou a junho, mês em que se recolheu ao escritório para escrever belas teses que defendiam a sua inação. O pacifismo que se diz revolucionário deixou como herança uma geração de acadêmicos apaixonados pela própria inteligência e que desejam, em primeiro lugar, ficar em paz com os opressores e donos do mundo. 

   Em maio deste ano, a Rússia, em resposta às sanções européias publicou uma lista com 89 personalidades proibidas de entrar no território russo. Entre elas, Bernard-Henry Levy e Daniel Cohn-Bendit. Assim como Sartre, ambos de origem judia e, ao contrário de Sartre, ambos defensores do capitalismo selvagem. Cohn-Bendit passou-se por anarquista no Maio de ’68 e hoje é um líder direitista da Aliança Livre Européia. Bernard-Henry Levy é um empresário francês que escreveu vários livros antimarxistas e participa de revistas pseudo-esquerdistas. Defendeu o boicote dos Jogos Olímpicos de 1980, na União Soviética, e atualmente é a favor da invasão da França na Síria. 

   A jornalista portuguesa Ana Navarro Pedro, correspondente do jornal “Público”, escreveu uma matéria muito lúcida intitulada “Sartre Revisitado”, a respeito do livro de Bernard-Henry Levy “O Século de Sartre” (http://www.publico.pt/culturaipsilon/jornal/sartre-revisitado-139057). Recomendo a leitura e destaco a frase final. 

    “Compreende-se assim melhor que, ao cabo de 650 páginas de escrita ligeira como a espuma do melhor champanhe, não se saiba o que resta de Sartre hoje em dia: se as suas teses têm ou não alguma actualidade, se o autor de “As Palavras” ou de “O Ser E O Nada”, é ainda lisível. Ou se houve, ou não, impostura intelectual.”

   A direita também tem os seus defensores travestidos de intelectuais que se dizem de “esquerda”, uma nova esquerda que sempre pende para a direita carregando consigo medrosos pensadores de todos os lugares, que preferem pensar o estabelecido na tentativa de dar-lhe novas cores. Não é de estranhar que Caetano e Gil se apóiem em Sartre e Simone para defender o Estado fascista de Israel. Nem Caetano nem Gil são conhecidos como pensadores, ou filósofos, mas em muitas de suas letras influenciaram gerações entontecidas entre a ditadura militar e a falsa democracia civilista. 

   Gil e Caetano sentem uma certa náusea em falar em política e talvez não saibam que, inevitavelmente, todos os seus atos são referências políticas para os seus fãs. Tocar em Tel-Aviv será uma tomada de posição a favor do sionismo, o que fará com que Tropicália passe a combinar com apartheid.

domingo, 5 de julho de 2015

DILMA TRAIU?




Dilma foi aos Estados Unidos para pedir absolvição para Obama. Não quer ficar conhecida como a primeira Presidente a renunciar ou a ser derrubada do cargo, devido à sua absoluta incompetência, cegueira política e, quem sabe, corrupção. Assim que assumiu o segundo mandato, Dilma promoveu uma política recessiva, exatamente a mesma que seria feita por Aécio se ganhasse as eleições. Ficou com medo. Ficou apavorada com o golpe que parecia iminente e encolheu-se, diminui-se, tornou-se uma anã moral ao repudiar tudo o que havia dito em sua campanha para a reeleição. Os 55 milhões de brasileiros que votaram nela, hoje talvez não votassem no Aécio, mas a grande maioria, com certeza não votaria na Dilma. Além do mar de lama, teríamos um mar de votos em branco ou votos nulos. 

   Os milhões que votaram em Dilma e Aécio não o fizeram por amor aos programas políticos dos dois candidatos, principalmente porque nenhum deles apresentou qualquer programa político. Os votos foram um rotundo “não” contra o tipo de política que é feito no Brasil. Quem votou na Dilma – e foi posteriormente enganado – acreditou que ela faria um governo em apoio ao povo e à classe trabalhadora. Depois de eleita, Dilma Roussef preferiu governar para os banqueiros, o FMI e as multinacionais. Exatamente como faria Aécio. 

   Quanto ao candidato da direita, este teve várias espécies de eleitores. Houve aqueles que votaram no Aécio simplesmente porque não agüentavam mais a Dilma, suas manias, sua demagogia e seu dilmês. Uma porcentagem pequena votou no Aécio induzida pela imprensa golpista estilo Globo-Veja, em protesto contra o PT no governo. Outros votaram no Aécio porque acreditam que a Dilma representa a corrupção que acontece no Brasil desde a implantação da ditadura militar. Os mais conscientes votaram no Aécio porque são conscientemente reacionários, nada conhecem de política e tem medo de qualquer governo que se diga timidamente popular. 

   Todos disseram não a um modelo político que está completamente decadente e não representa o povo e sim as oligarquias que governam os governantes desde o golpe da República. Um modelo político que só funciona para países ricos, como Estados Unidos e Inglaterra, que dominaram o mundo graças aos seus exércitos, ao promoverem guerras de conquista invadindo países para roubarem as suas riquezas e apelidaram os seus atos de pirataria de implantação da democracia. Um modelo político que data da Revolução Francesa, quando a burguesia suplantou a monarquia com o apoio do povo esfomeado, que logo foi reprimido. 

   Atualmente, esse tipo de democracia está liquidando a economia de países como Grécia, Espanha e Portugal na Europa ocidental e amesquinhando os países do leste europeu, tornando-os dependentes da troika formada por FMI, Banco Europeu e União Européia. Uma nova democracia que arrasou a maioria dos países africanos, hoje enfrentando um processo de recolonização que leva à absoluta dependência. Uma “democracia” do capital que está destruindo o Oriente Médio com o apoio de um falso “Estado Islâmico”, subjuga a maior parte da América Latina e ameaça os países que a ela se opõem com a guerra nuclear. Uma “democracia” que promove golpes militares e usa as Forças Armadas dos países que deseja dominar como peões de uma política nefasta para a humanidade. 

   A essa “democracia” Dilma se rendeu, ou se vendeu, desmascarando e caracterizando o seu partido, o PT, como mais um partido reacionário, demagógico, ilusionista, enganador. Desde a época do Lula como presidente que se percebia que o discurso do PT era um e a prática o seu oposto. No entanto, muitos acreditavam que isso era devido à falta de cultura política de Lula, ao seu analfabetismo funcional, e que os erros na condução de uma política meramente assistencialista passariam como uma febre infantil. Logo se viu que a política de alianças com os partidos mais à direita era o principal objetivo do PT, o que implicava em corrupção. 

   Na política externa, o PT aproximava-se dos Estados Unidos, deixando-se conduzir obedientemente. Foi assim que o Brasil de Lula foi um dos protagonistas da invasão do Haiti, até hoje não devidamente explicada. Percebia-se que as Forças Armadas brasileiras agiam de maneira totalmente independente do Governo, como se houvessem dois governos no Brasil: o civil e o militar. O civil para enganar o povo, o militar para seguir os ditames do império. Acreditava-se, no entanto, que isso acontecia porque os governos civis eram reféns das Forças Armadas desde 1989, quando foi votada uma Constituição ditada pelos setores mais retrógrados, privilegiando o capital e as classes dominantes. 

    Também se acreditava que o PT era um partido de esquerda que mudaria o país. Vendeu-se o PT, rendeu-se a Dilma? Ou o PT de Lula, Dilma e todos aqueles que se diziam guerrilheiros - tão guerrilheiros como o famoso Cabo Anselmo - já estavam vendidos e rendidos antecipadamente, propondo uma política de pseudo-reformas em troca do poder de roubar? Literalmente, enganaram meio mundo. Até países socialistas acreditaram que Lula seria um segundo Chávez, ou Fidel ou, pelo menos, um simples Pepe Mujica, quando, na verdade, ele não passa de um segundo José Sarney. 

   Muitos petistas de carteirinha votaram na Dilma pensando que ela seria uma segunda Cristina Kirchner, mas há uma grande diferença entre as duas. Ao contrário de Dilma, Cristina ama o seu país, é nacionalista e não uma entreguista acomodada às ordens das multinacionais. Ao contrário de Dilma, Cristina combate de frente os abutres econômicos. Ao contrário de Dilma, Cristina apóia países como Venezuela, Equador, Bolívia e tantos outros que desejam um caminho próprio e verdadeiramente independente. Ao contrário de Dilma, Cristina não se curva aos Estados Unidos. 

   Para mostrar a independência do seu país, recentemente Cristina visitou a Rússia, país que está sendo cercado por forças dos Estados Unidos e da OTAN. Dilma, ao contrário, acaba de fazer uma visita aos Estados Unidos, país declaradamente inimigo da América Latina e que sobrevive através das guerras e golpes de estado que provoca em todo o mundo. Levou com ela Joaquim Levy, ministro a serviço do FMI e das multinacionais e que promove a recessão no Brasil com o aval de Dilma, para tornar o nosso (?) país definitivamente feudatário dos bancos internacionais. 

    No país de todas as fantasias e onde se planeja o domínio do mundo, Dilma sorriu muito para Obama e assinou tudo que ele pediu inclusive um acordo de cooperação na área de defesa. O acordo prevê a cooperação do Brasil no “combate ao terrorismo”. Os Estados Unidos consideram a Venezuela um “país terrorista”. Ao assinar esse acordo o Brasil se compromete militarmente a combater a Venezuela.  

   Os setores mais fascistas das Forças Armadas brasileiras estão muito felizes com Dilma, que se revela uma senhora bem educada por eles. Nem pensam em dar um golpe de Estado: o golpe já aconteceu em 1964 e continua a ser referendado pelos governos aparentemente civis. Dilma foi realmente uma guerrilheira ou sua prisão de dois anos foi um período durante o qual ela foi recrutada pela direita e depois infiltrada em partidos de centro-esquerda, primeiro no PDT e depois no PT? E Lula? Quem é realmente Lula? 

    O primeiro resultado da adesão descarada de Dilma ao império refletiu-se no voto contra a Síria, na ONU, apoiando resolução dos Estados Unidos e demais países capachos. Até o jornal “Vermelho”, órgão do PCdoB, até então aliado do PT, mostrou-se indignado com a mudança de posição do governo brasileiro. Segue um trecho da matéria do jornalista Wevergton Brito no Portal Vermelho, intitulada “O lamentável voto brasileiro contra a Síria”. 

“(...) A lamentável mudança na posição brasileira ocorre pouco depois de uma visita da presidenta Dilma aos Estados Unidos onde, para surpresa de todos, reuniu-se com um conhecido criminoso internacional, Henry Kissinger, um dos principais articuladores dos golpes contra Salvador Allende e João Goulart (...)” 

    Não precisava tanto. Só o fato de ir aos Estados Unidos, antro do terrorismo internacional, e encontrar-se com Barack Obama para ouvir as suas ordens depois de ser alvo de espionagem ianque reflete a falta de caráter de Dilma e de todo o governo brasileiro. Provavelmente, Dilma foi aos Estados Unidos para pedir a absolvição do envolvimento na corrupção da Petrobras. Por tabela, deve ter pedido perdão para o Lula. Os outros podem ir presos. Dilma traiu? Há fortes indícios de que já era uma traidora antes de seu primeiro mandato. Ela e Lula.

terça-feira, 9 de junho de 2015

ACORDO ORTOGRÁFICO: MULUNGOS E COLONIZADOS







Em Portugal entrou em vigor o Acordo Ortográfico, ou AO/90, que tem por objetivo uniformizar a ortografia da língua portuguesa entre os oito países lusófonos integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) – Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe. Moçambique e Angola não estão muito satisfeitos com essa “uniformização” e os demais países que integram o Acordo provavelmente não venham a adotá-lo de fato, ou de facto, deixando que a letra da lei se perca nos escusos bueiros oficiais, uma vez que ninguém foi consultado sobre o AO/90, com exceção, ou excepção, das academias de letras e dos governos interessados em favorecer determinadas empresas que lucrarão muito com o Acordo. No Brasil o AO/90 vigorará a partir de fevereiro de 2016 e até agora, pelo que se tem visto e ouvido, não houve qualquer manifestação contra essa anomalia fascista forjada nos gabinetes da ditadura militar. 

  Por cá, ou aqui, vez por outra ocorrem manifestações as mais esdrúxulas e risíveis, todas elas copiadas de outros países, como passeatas gays patrocinadas por prefeituras e governos estaduais igualmente gays, curiosas “marchas das vadias”, em que participam mulheres das classes altas mostrando os seios e exigindo o direito de mostrar os seios, marchas a favor da legalização da maconha e até adolescentes consumistas da classe média fazendo, ou a fazer, “rolezinhos” ou passeios em procissão aos centros comerciais onde admiram, ou ficam a admirar, os artigos mais caros e praticando, ou a praticar, o produto importado que mais idolatram: o inglês. 

   Também acontecem manifestações aparentemente mais sérias, como aquelas que, no início do ano, pediram a saída de Dilma do Governo e a volta da ditadura militar. E também aparentemente essas manifestações diminuíram o seu ardor golpista assim que o Ministro da Fazenda, ou Ministro da Recessão (não confundir com recepção), Joaquim Levy, apoiado pela direita explícita e manifesta, chamou o FMI e achou por bem retirar os direitos trabalhistas e arrochar o povo com uma inflação ditatorial. Aquietaram-se os manifestantes da direita porque o governo que desejavam derrubar já está devidamente infiltrado e aceitando as diretrizes entreguistas. 

    As manifestações dos golpistas provocaram a reação dos partidos da esquerda reformista e de alguns sindicatos pelegos, como a CUT, que foram às ruas manifestando-se, ou a manifestar-se, com faixas e cartazes escritos em sofrível português e razoável inglês, revelando a sua inconformidade com o governo que apóiam. Passeatas que terminaram depois de muitos passos cadenciados por palavras de ordem pedindo uma greve geral que dificilmente acontecerá, agora que a Dilma resolveu pedalar para preservar a saúde e o satânico Dr. No brasileiro – um certo senhor Cunha, amigo de empresários e latifundiários – decidiu governar o país.  

   Além disso, o Campeonato Brasileiro começou e o povo está vidrado nas telas de tevê, e, os que não gostam de futebol assistem novelas extremamente medíocres ou vão brincar de amizade virtual no Facebook. Ninguém fez manifestações contra o Acordo Ortográfico, também apelidado de acordês ou desacordo ortográfico. Este é o país onde todos, ficcionalmente, obedecem às leis.  

   Em determinado dia foi veiculado pela mídia oficialesca que havia um acordo ortográfico datado de 1990 que entraria em vigor brevemente e o povo deveria obedecer às novas regras de ortografia. O povo, que nada sabe de regras, de língua portuguesa ou de ortografia, concordou bovinamente. Em seguida, começou a edição de livros em acordês e os jornais de todo o país contrataram professoras e professores acomodados às novas regras para ensinar os redatores a redigir. Os donos das gráficas ficaram muito faceiros por reeditarem mesmos livros com estranhas palavras para um público muito dócil. 

   Esta nova geração de brasileiros - e não somente ela - é essencialmente submissa. Ninguém discute nada, todos aceitam tudo. É um povo alegre e cordato, dizem por aí. É verdade. A alegria é tanta que fazem anedotas da própria tristeza. Se surgisse alguma lei obrigando as pessoas a andar de pernas para cima durante uma hora por dia, teríamos um povo de acrobatas. Discute-se futebol. E a corrupção nossa de cada dia, e, assim mesmo, miudamente. É tudo muito natural no país do carnaval, onde se cultiva, ou são cultivados, transgênicos e indignações mascaradas.  

   O desmatamento aumentou? –“Que pena!” Os corruptos estão soltos? – “Olha só!” A polícia massacra professores? – “Que horror!” O Congresso aprova leis contra os trabalhadores? – “Não é uma vergonha?” O custo de vida está mais alto? – “São todos uns ladrões!” Policiais invadem as favelas matando? – “Que violência!” Indígenas são assassinados? – “Coitados!” 

    Poucos se preocupam com a língua portuguesa, e falam e escrevem por obrigação, como se fosse um grande sacrifício. É uma geração que prefere o sintático inglês, idioma utilizado por robôs e máquinas afins. De resto, não se pode culpá-los por vícios mentais adquiridos, quiçá, durante o Brasil colônia.  

    Alguns peritos dizem que a miscigenação inclui os idiomas. O Nagô-Iorubá, o Ewe-fon e o Banto teriam influenciado diretamente na formação lingüística dos brasileiros. No entanto, sabe-se que os dialetos das etnias negras foram quase totalmente extintos no Brasil. De tal maneira, que os escravos foram obrigados a falar a língua do escravagista. Perguntem a um afro-descendente qual o seu nome original e ele não saberá dizer. Os escravos tiveram que adotar os sobrenomes das famílias que os escravizavam e, com o passar do tempo, perderam quase totalmente a memória da sua cultura africana. 

    É certo que várias palavras podem ser pinçadas e expostas como “prova” da presença dos dialetos africanos no nosso vocabulário. Mas são muito poucas, e, na verdade, nada provam, a não ser o massacre cultural que sofreram os povos negros escravizados no Brasil. Dirão alguns que temos o candomblé e a umbanda, religiões em que são utilizadas palavras originárias da África. Poucas palavras, se observarmos bem, e principalmente aquelas que designam os deuses dessas religiões, ou os pratos típicos. E quase unicamente no nordeste do Brasil. 

   Quanto ao tupi-guarani, a sua influência na formação do português-brasileiro é bem maior, notadamente palavras que designam animais, plantas, cidades e acidentes geográficos. E uma ou outra expressão idiomática. Ao contrário dos demais países da América Latina, que respeitam a tradição nativa, os indígenas estão sendo exterminados no Brasil. Moram em exíguas reservas e são constantemente ameaçados e mortos por madeireiros e agropecuaristas. No sul do Brasil, os restantes guaranis moram em acampamentos quase à beira das estradas, cercados por imensas lavouras de soja transgênica. É enorme a pressão para aculturar os indígenas e poucas são as tribos que conseguem resistir. 

   Há quem afirme que o português usado pelo caboclo ou caipira, encontrado principalmente nos estados de São Paulo e Minas Gerais, é fruto da mestiçagem também na língua, o que dificilmente poderá ser provado. Mesmo o continuado uso do “r” retroflexo (em lugar do “l”) nada mais é que um vício de linguagem alimentado geração após geração. Vício proveniente da má educação naquelas regiões, provavelmente resultado da preguiça em pronunciar o “l”. Sobre a preguiça do caipira, Monteiro Lobato escreveu longas dissertações introduzidas nos seus contos, e apelidou o caipira de “Jeca Tatu”. 

   Há vícios de linguagem e modos de falar o português em cada região do país. No Rio de Janeiro o “carioquês” chiado e arrastado, no Nordeste e região Norte a lentidão no falar, no Centro-Oeste uma mistura de sotaques, e talvez somente na região Sul, em particular no Rio Grande do Sul, a língua portuguesa seja menos maltratada, pois o gaúcho adquiriu o hábito de dizer as palavras por inteiro – e, assim mesmo, o gaúcho que mora na fronteira ou na região das Missões, porque o porto-alegrense está desenvolvendo um sotaque “cantado”. 

    Tornou-se clássica a sofreguidão dos portugueses ao falar. Pronunciam as palavras e frases tão rapidamente que parecem comer sílabas, mal se distinguindo vogais de consoantes. E assim nos demais países onde a língua portuguesa é falada, cada nação com o seu sotaque, o seu ritmo próprio. Da mesma maneira, também existem diferenças na ortografia, de país para país, o que é muito natural: a língua é viva e dinâmica e sofre um processo gradual de transformação. 

    O que não é natural é obrigar a mudança na ortografia em nome de uma sistematização ou uniformização ridícula e absurda, ou, conforme escreveu Fernando Pessoa: “A ortografia é um fenómeno da cultura, e, portanto um fenómeno espiritual. O Estado nada tem com o espírito”. As diferenças ortográficas enriquecem a língua portuguesa, revelando nuances e características muito particulares de cada país lusófono. Vejam a palavra “fenômeno”, que em Portugal é usada com acento agudo para designar a sílaba tônica grave e no Brasil, a mesma palavra tem acento circunflexo. No início do século XX a acentuação que hoje se usa em Portugal também era usada no Brasil e foi modificada com a introdução do acento circunflexo, por exemplo, para que o povo se acostumasse a pronunciar a língua portuguesa corretamente, ou correctamente. A educação é a única razão da acentuação em uma língua tão complexa e bonita como a nossa. 

    Com o AO/90 foram retirados, no Brasil, os acentos agudos dos ditongos das palavras paroxítonas, assim como o trema e o acento agudo de algumas formas verbais - porque é assim que se escreve em Portugal. Também o acento circunflexo foi retirado na vogal tônica de “o” nas palavras paroxítonas e nas formas verbais paroxítonas que possuem o “e” tônico fechado em hiato na 3ª pessoa do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo. E isso foi um desserviço ao ensino da língua portuguesa no Brasil, país onde a maioria das pessoas mal sabe ler e escrever e, entre essa maioria, muitos não entendem o que lêem ou escrevem.  

    Existe uma enorme distância entre a educação em Portugal e a educação no Brasil. Em Portugal há um verdadeiro culto à língua portuguesa, enquanto no Brasil venera-se a iconoclastia à língua de Camões e Fernando Pessoa. Ou seja: lá, determinados acentos não são necessários porque as pessoas sabem falar, escrever e entender a sua língua; aqui, esses acentos são necessários basicamente para ensinar a população a falar, escrever e compreender a língua portuguesa.  

    Em 2014, um levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registrou cerca de 13 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais. Mas isso tem cura, ninguém tem culpa de ser analfabeto, exceto o Governo Federal que descura completamente da educação. Pior é o analfabetismo funcional: pessoas que sabem ler e escrever, mas não entendem o que lêem ou escrevem, embora possam reconhecer letras e números. O analfabeto funcional é incapaz de entender textos simples, bem como realizar operações matemáticas um pouco mais elaboradas. 

     E não pensem que os analfabetos funcionais são pessoas que vivem nas favelas ou em lugares distantes e ignotos dos sertões brasileiros. Aqueles são simplesmente analfabetos, em sua maioria. De acordo com uma pesquisa feita pela Universidade de Brasília, a partir da análise de 800 alunos, em seis cursos de quatro faculdades, 50% dos estudantes do ensino superior são analfabetos funcionais, ou seja, não entendem o que lêem. O último INAF (Indicador de Analfabetismo Funcional), feito em 2012, apontou que 38% dos estudantes universitários são analfabetos funcionais, através de pesquisa com duas mil pessoas. 

    Vocês devem estar se perguntando como esses estudantes passaram no vestibular. Mas o ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio) não é aquele fiasco que aumenta a cada ano, sempre fraudado? E as escolas do ensino fundamental e ensino médio não são orientadas pelo Ministério da Educação a deixar o aluno passar, mesmo que não saiba nada? Este é o país do jeitinho, da fraude e da corrupção, e na educação não é diferente. 

    Eu fico imaginando, ou a imaginar, analfabetos funcionais lendo palavras como jibóia, odisséia ou idéia - que agora, no Brasil, devem ser escritas sem o acento agudo - e pronunciando como se a tônica fosse grave. Não se pode uniformizar forçadamente o que não está uniformizado naturalmente. Vou repetir: em Portugal as pessoas sabem ler, escrever e compreender o que estão lendo e escrevendo, e lá o analfabetismo deve ser quase inexistente. Aqui é exatamente o contrário. 

    No Brasil, escrever certo o português é chamado de “norma culta”. É de se pressupor que escrever errado também seja uma “norma”, a “norma inculta”. Pois o Ministério da Educação, para coroar todas as burrices que vêm patrocinando através dos últimos doze ou quinze anos publicou um livro que ensina a escrever e falar errado. Nele, o MEC assegura que certas expressões, como “os livro” ou “nós pega o peixe” estão certas. É a “norma inculta”. O livro é intitulado “Por uma Vida Melhor”, lançado pela ONG “Ação Educativa” e incluído na coleção do MEC “Viver, Aprender”, para a Educação de Jovens e Adultos (EJA). A edição custou cinco milhões de reais aos cofres públicos e o livro foi enviado para 4.236 escolas do país, com a chancela do MEC. 

     Chama-se a isso “evitar o preconceito lingüístico”, ou ainda: “livrar-se do mito de que existe uma única forma certa de falar”. Dizem os defensores da “norma inculta” que se deve evitar o “preconceito em relação à fala”; resumem que não é politicamente correto corrigir as pessoas quando falam ou escrevem errado. Certos “educadores” defendem o livro e tudo o que ele significa como forma de se evitar “preconceitos não visíveis”. 

     E criam uma divisão muito visível entre aqueles que usam a “norma culta” e a imensa multidão que não sabe falar e escrever e que é “defendida” em sua ignorância pelos governos manipuladores e desejosos de votos a todo custo. Para o MEC, educar ou deseducar é a mesma coisa, dependendo sempre do ponto-de-vista. E, a seguir essa míope visão, se alguém for corrigido poderá processar quem tentou ensiná-lo, com o argumento de “preconceito lingüístico”. Corretamente, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e a ABL (Academia Brasileira de Letras) condenaram o livro, o que não evitou que a monstruosidade fosse enviada para jovens e adultos em fase de aprendizado. 

   O Acordo Ortográfico, além de desnecessário, facilita a tentativa da criação de uma nova língua a partir do Português. Uma língua baseada na fonética e, com o tempo, sem qualquer regra de ortografia. Uma língua para o povo, que então se sentirá “livre” para não estudar, não aprender, não desenvolver a inteligência – e permanecer eternamente dependente de governos demagógicos e populistas. Acreditam os governantes que o nosso é um povo que elege “tiriricas” e merece ser tratado de acordo com a sua incapacidade mental. “Pão e Circo” ainda é a máxima do maquiavelismo fascista no Brasil. 

   O Acordo Ortográfico prevê o fim do hífen em muitas palavras compostas, o que provocou a criação de horrendos vocábulos. Exemplos: extrassensorial, contrarreforma, ultrassecreto, etc. Não há razão para tal, mas assim é a mente extra-sensorial dos abracadabrantes subversores da ortografia. Para eles, vale tudo, e sempre haverá uma nova regrinha para justificar a hediondez. Para complicar ainda mais, foi retirado o acento diferencial de palavras homófonas, e de algumas formas verbais. 

    Em Portugal formaram-se vários grupos contra o AO/90. Alguns deles: “Professores Contra o Acordo Ortográfico”, “Tradutores Contra o Acordo Ortográfico”, “Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico”, "Em Acção Contra o Acordo Ortográfico", este último com mais de 60.000 participantes. Uma petição com milhares de assinaturas foi entregue ao Parlamento português e alguns jornais, como o “Público”, ignoram heroicamente o AO/90 e continuam a publicar em bom português. A pressão da sociedade portuguesa contra o Acordo Ortográfico é muito grande e muitos são os manifestos contra o Acordo, que está sendo chamado de “Desacordo”. 

     O que mais irrita os portugueses é a retirada das consoantes mudas que servem para diferençar o significado entre duas ou mais palavras. Somente em Portugal, onde muitas dessas palavras são pronunciadas como se a consoante não existisse. No Brasil, as consoantes são pronunciadas, inclusive e principalmente, a palavra corrupção. Exemplo: “recepção” tornou-se “receção”, tornando-se homófona de “recessão”. Outro: “facto” perdeu o “c” em Portugal, tornando-se “fato”, que é o mesmo que vestimenta, roupa. Observe-se que nesses casos torna-se claro o intuito dos acordistas de promover a criação de uma língua fonética, o que é um absurdo lingüístico. 

     A todas essas, os portugueses que se posicionam contra o AO/90 põem a culpa nos brasileiros. Alguns chegam a dizer: “Eu não quero escrever como os brasileiros!” Concordo que é ofensivo, mas devemos relevar. Afinal, nós sabemos escrever? Basta dar uma rápida olhada nas redes sociais brasileiras para que se obtenha uma resposta. É triste e assustador. A “norma inculta” prolifera, muitas vezes alimentada com gírias e palavras em inglês. Estamos a um passo de adotar o inglês como segunda, ou primeira, língua oficial. 

     Por outro lado, os portugueses estão errados ao dizer que não querem escrever como os brasileiros. Quais brasileiros? Há muitos brasis no Brasil. De região para região percebem-se as diferenças culturais, resultado das condições sociais e da maior ou menor alienação. Há brasis que adoram ser tutelados, colonizados, e não se sentem bem sem um senhor, um dono, alguém que lhes diga o que fazer a cada minuto e ficariam muito felizes com um ditador, um tirano, um rei, um déspota qualquer. Muitos anos atrás estavam em minoria, quase desaparecendo. Depois, veio o golpe militar, que se tornou golpe cultural a se perpetuar nos governos civis e os brasis e brasileiros entregues e entreguistas ressuscitaram com toda força. Um país não é apenas o seu território, é o seu povo, e quando o povo falha... 

     Moçambique é um país de gente brava e orgulhosa que lutou durante décadas contra a colonização portuguesa. Quando, finalmente, expulsaram os portugueses, passaram a reafirmar a sua nacionalidade. Em uma das redes sociais encontrei um texto de um moçambicano, que vale a pena reproduzir aqui. 

“Eh Oena, Lhe Can

“Nós aqui em Moçambique sabemos que os mulungos de Lisboa fizeram um acordo ortográfico com aquele tocolocma do Brasil que tem nome de peixe. A minha resposta é: naila. Os mulungos não pensem que chegam aqui e buissa saguate sem milando, porque pensam que o moçambicano é bongolo. O moçambicano não é bongolo não; o moçambicano estiva xilande. Essa bula bula de acordo ortográfico é como babalaza de chope: quando a gente acorda manguana, se vai ticumzar a mamana já não tem estaleca e nem sequer sabe onde é o xitombo, e a gente arranja timaca com a nossa família. E como pode o mufana moçambicano falar com um madala? Em português, naturalmente. A língua portuguesa é de todos, incluindo o mulato, o balabasso e os baneanes. Por exemplo: em Portugal dizem “autocarro” e está no dicionário; no Brasil falam “bus” e está no dicionário; aqui em Moçambique falamos “machimbombo” e não está no dicionário.  Porquê? O moçambicano é machimba? Machimba é aquele congoaca do Sócrates* que pensa que é chibante e que fuma nos tape, junto com os chiconhoca ministro da economia de Lisboa. O Sócrates não pensa, só faz tchócótchá com o th’xouco dele e aquilo que sai é só matope. Este acordo ortográfico é canganhiça, chicuembo chanhaca! Aqui na minha terra a gente fez uma banja e decidiu que não podemos aceitar.


“Bayete Moçambique!


“Assinado: Manuel Muanamucane.”

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*Sócrates. Não confundir com o filósofo grego. José Sócrates é do Partido Socialista de Portugal e foi Primeiro-Ministro, de 2005 a 2011. Encontra-se em prisão preventiva desde 25 de Novembro de 2014, por corrupção.
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