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domingo, 15 de fevereiro de 2015

O PT NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA






O que aconteceu ao PT? Em que momento o partido que deveria ser uma frente de esquerda deu a guinada que o levaria inevitavelmente às práticas sujas da direita e a ela se uniu, resguardando-se demagogicamente nos discursos ufanistas e nas vestes vermelhas que enganam os parvos? Por que e como aceitou, o partido que deveria ser dos trabalhadores, a manobra que o atraiu para o centro do poder, aliando-se justamente aos inimigos dos trabalhadores – cartéis, trustes, empresários, latifundiários -, aceitando a globalização, o neoliberalismo econômico, um plano a médio e longo prazo de domínio imperialista sobre a América Latina? O que levou o PT, em seu processo de transformação de abóbora em carruagem real, a afastar do partido todos os grupos de esquerda e a eleger sucessivas direções de membros reacionários que aceitam os postulados do capitalismo? O que fez o que restava de inteligência no PT a concordar com a corrupção como norma – desde as prefeituras petistas até o Governo Federal nos seus três poderes – sob a pífia desculpa de pragmatismo político?

   Entre tantos fatores que levaram o Partido dos Trabalhadores a visitar o sistema e conviver com suas esquivas e lodosas sombras, destaco dois como mais importantes e, talvez, determinantes:

1.   A sacralização do ícone “trabalhador” na figura de Lula, uma nova versão do culto à personalidade, com objetivos essencialmente demagógicos.

2.   O surgimento de um curioso partido, denominado Partido Revolucionário Comunista (PRC), que tinha muito pouco de comunista, nada de revolucionário e preferiu a auto-extinção enquanto partido para ajudar a levar o PT para a direita e buscar uma política de alianças que o tornaram refém do capitalismo.


   Inicialmente formado por correntes de todas as tendências do variado espectro da diáspora esquerdista após as tentativas de guerrilha urbana e rural, o PT era um partido de muitas siglas, nas quais os militantes, quase obrigatoriamente, abrigavam-se, muitas vezes sem saber exatamente o significado ideológico da sua tendência política dentro do partido que, na verdade, foi criado por sindicalistas paulistas - como Lula e Jair Menegheli – inspirados no sindicato direitista Solidariedade, da Polônia, que recebeu ajuda da CIA para combater o socialismo.

   Inclusive, Lula era muito parecido fisicamente com Lech Walesa, o líder do Solidariedade, que mais tarde elegeu-se presidente da Polônia depois de transformar o sindicato em um partido político. A exemplo de Lech Walesa, Lula nunca foi marxista, seja por convicção ou por incapacidade de estudar e assimilar a teoria. Era meramente um sindicalista carismático que liderou greves de metalúrgicos e que sabia fazer acordos satisfatórios com os patrões.

   Isso chamou a atenção de diversos setores, inclusive de grupos de esquerda que logo o adotaram como totem, mitificando-o como símbolo da luta dos trabalhadores, mesmo que essa luta ficasse restringida a um cantinho do Brasil, a região do ABC paulista. E também chamou a atenção de grupos da “direita esclarecida”, notadamente empresários de todos os setores que já estavam fartos de uma ditadura militar que começava a atrapalhar os grandes negócios e precisavam de uma liderança “popular e democrática” para ajudar a forçar uma redemocratização que ao fim e ao cabo iria ao encontro dos desejos do capital nacional e internacional.

   Nunca, em período de ditadura, greves e passeatas de trabalhadores foram tão veiculadas pelos meios de comunicação aliados aos interesses do capital. E todos sabem que quando eles não querem, mesmo que milhares passem gritando na sua frente, não publicam. Os verdadeiros donos do Brasil sabiam que Lula nada tinha de nacionalista e que, mesmo aparentando ser o líder de um partido de suposta esquerda que estava sendo gerado a partir das greves, poderia ser manobrado gradativamente para aceitar as premissas capitalistas e, quem sabe, assim como Lech Walesa, recebesse em troca, em futuro não muito distante, a presidência do país. É dando que se recebe.

   Além disso, um partido que congregasse a esquerda, limitando-a a determinados preceitos organizacionais era uma ótima idéia que evitaria novas guerrilhas, ou, mesmo, uma tentativa de revolução. E, melhor que isso, um partido que usava o título pomposo de “Partido dos Trabalhadores” poderia, com o tempo, abafar de vez o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – este sim um partido muito perigoso, na medida em que se revelava nacionalista, contendo ideais subversivos, como o amor à pátria, a defesa das nossas riquezas e o desenvolvimento sem dependência externa.

   Lula serviu a todos os interesses e a todos os interessados que desejavam um país de joelhos frente ao capital internacional e aliado das grandes potências imperialistas. Lula agia como agente catalisador das emoções de um povo frustrado que tinha perdido a sua referência histórica com a deposição de João Goulart e que estava carente de líderes e de projetos para o país. Ali no ABC paulista teve início uma trama que visava unir todos os elos de uma esquerda esfacelada por guerrilhas suicidas e que, com o seu internacionalismo entreguista, nunca fora representativa dos anseios do povo brasileiro por um país unido e forte e buscando uma personalidade própria – assim como fizera o antigo PTB de Getúlio Vargas e João Goulart.

   E o que parecia um grande acerto do PT a nível interno, apontando Lula como salvador da pátria para uma nova geração que não vivera o período anterior ao golpe de 1964 e que era incentivada à alienação em relação à própria história, detendo-se apenas no momento ufanista das “Diretas Já” e da Constituinte, também foi o seu grande erro – provavelmente um erro calculado e tido como acerto – ao reeditar no Brasil o culto à personalidade de alguém que ainda era uma promessa salvífica e que passou a deter as esperanças de milhões de pessoas desarvoradas ideologicamente e com pouca compreensão do seu passado e que eram incentivadas a acreditar que o presente - nos anos ’80 da “abertura democrática” – abria portas para um futuro de progresso e verdadeira independência – a partir do momento em que Lula fosse eleito Presidente e o Partido dos Trabalhadores tomasse o poder.

   Lula somente foi eleito quando concordou em se aliar ao capital nacional e internacional, cumprindo a agenda que o império propusera para o Brasil – um país subserviente com um governo que facilitaria todas as demandas das multinacionais e do empresariado sequioso por aumentar as suas riquezas. Em troca, o PT dominaria os sindicatos a ponto de amordaçá-los e eternizaria a luta pela reforma agrária. Nos dois setores – campesinato e operariado – imporia um forte controle, através da cooptação dos seus líderes para importantes cargos, no Congresso e fora dele, e imporia às massas uma visão idealista de um socialismo passivo e reformista. Para fins políticos, o PT poderia conservar a cor vermelha, o que provocaria dois resultados: iludir o povo e diminuir a força pedagógica dos partidos da verdadeira esquerda, empurrados para esquecidos nichos onde, inevitavelmente, acabariam por se diluir em cego burocratismo e abstrusas teses.

   Para que esse plano fosse realizado, faltava ainda fazer do PT não um partido frentista composto por tendências as mais diversas, mas unificá-lo em torno de idéias que, aos poucos, com o passar dos anos e a diminuição do fervor político dos militantes, poderia dar o necessário giro para a direita, aliando-se aos setores que antes combatia e que lhe daria a possibilidade de conquistar o poder e, quem sabe, todas as regalias, inclusive a aberta corrupção. Para este fim, uma das tendências internas do PT, o Partido Revolucionário Comunista (PRC), contribuiu com muita disposição e entusiasmo.



O PRC

   O Partido Revolucionário Comunista surgiu nos meios universitários durante os anos 1970 e foi organizado clandestinamente primeiramente como dissidência do PCdoB, que tivera a maioria dos seus quadros mortos na tentativa de guerrilha na região do Araguaia. No entanto, o PRC somente ficou conhecido nacionalmente a partir de 1984, quando se integrou ao PT como uma de suas tendências políticas.

   Dizia-se o PRC um partido marxista-leninista que repudiava toda e qualquer tentativa de conciliação com setores da burguesia. A princípio, o PRC considerava o PT como um partido tático - “uma organização político-frentista hegemonizada por posições reformistas, aprisionada nos marcos da ideologia burguesa”. Como partido tático, o PT poderia ser utilizado não como um objetivo de luta pelo poder nos padrões tradicionais, mas como uma alternativa para desestabilizar o projeto de Nova República, evitando que se consolidasse a “democracia dos monopólios” para que fosse criada uma correlação de forças favorável “ao avanço da luta por uma estratégia revolucionária”, pautando a possibilidade de construção de uma alternativa democrática, operária e popular, contrapondo-se à estratégia meramente democrática e popular formulada pela Articulação, que era a tendência majoritária no PT.

   O PT é um partido composto de siglas que encobrem nomes. A Articulação dos 113 surgiu a partir do Manifesto dos 113, em 1983, e logo se constituiu na tendência majoritária do PT. Era composta por sindicalistas, membros das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e ex-integrantes de organizações de esquerda como a ALN (Aliança Libertadora Nacional). A Articulação se impôs como a verdadeira classe dirigente do PT, como o próprio PT; mais que uma tendência, geria o comportamento das tendências dentro do partido, obrigando-as a seguir os rumos por ela estipulados. O líder de direito era o Lula, eterno presidenciável; o líder de fato era José Dirceu.

   Mas a Articulação necessitava de alianças com outras tendências para continuar no poder. Em 1987, a Articulação chamou o PRC e teve uma longa conversa com membros dessa tendência que se dizia de esquerda. Também chamou os líderes da Democracia Socialista (DS) e os intimou a um comportamento adequado à nova realidade petista. A Articulação, enquanto PT (ou o PT, enquanto Articulação), desejava impor as suas teses e tornar as tendências internas submissas a elas. Um documento assinado por José Dirceu e Wladimir Pomar, intitulado “Contra o socialismo legalista” dava o tom do que o PT (ou a Articulação) se pretendia enquanto partido.

   O documento chamava as demais tendências de sectárias e idealistas e as obrigava moralmente a assumir o PT-Articulação como único partido de esquerda no Brasil – uma esquerda que se propunha conservadora, que adotava a conciliação de classes e a luta meramente político-partidária. As tendências que não aceitassem as teses da Articulação estariam indo contra o PT e, naturalmente, seriam alijadas do partido. Dava-se um prazo para que as tendências se alinhassem à doutrina da Articulação e, em 1991, quando duas das tendências internas do PT – Convergência Socialista e Causa Operária – persistiram na sua integridade, foram expulsas do partido.

   Tendências políticas inexpressivas, como “O Trabalho” e “Democracia Socialista”, continuaram formalmente como tendências internas do PT, mas docilmente subordinadas à Articulação. Na Articulação destacam-se nomes como Ricardo Berzoini, José Dirceu, Chico Macena, Luiz Dulci, Marco Aurélio Garcia e Lula. Alguns deles são conhecidos da Justiça, outros esperam a sua vez. Atualmente, a Articulação adotou o apelido “Construindo um novo Brasil”.

   No revolucionário PRC, entre outros pontuavam José Genoíno, Adelmo Genro Filho e Tarso Genro. Alguma coisa aconteceu na reunião entre PRC e Articulação, em 1987. Dois anos depois, o PRC (Partido Revolucionário Comunista) mudava de nome e de ideologia. Passava a se chamar Nova Esquerda (depois Democracia Radical e hoje...) e aderia ao capitalismo. Entenda-se “Nova Esquerda” por “Nova Direita” – uma esquerda sem ideologia. Com esse apoio, a Articulação fortaleceu-se enquanto tendência de direita que mandava no PT e não mais deixou a direção partidária, mesmo que tenha trocado o nome algumas vezes.

   Nova Esquerda não foi um nome gratuito, encontrado por acaso. O movimento “New Left” (Nova Esquerda) atingira o seu pico em 1968 nos Estados Unidos e Europa. Nos Estados Unidos, devido, principalmente, aos protestos contra a guerra do Vietnã; na Europa, por medo do comunismo, e seus teóricos arriscaram a expressão “eurocomunismo” para designar movimentos apáticos formados por uma geração temerosa de mudanças que fossem além da liberdade sexual e da liberdade de usar drogas. Liberdade. A Nova Esquerda norte-americana e européia, formada por uma classe média ascendente e desejosa de participação no poder, lutava por mudanças nos costumes e a isso intitulava de liberdade. Nessa luta também entravam os direitos humanos, principalmente os dos negros dos Estados Unidos. Luta que foi sufocada, com o assassinato de líderes como o pacifista Martin Luther King e o revolucionário Malcolm X. Organizações como “Panteras Negras” e “Black Power” foram esmagadas, o movimento negro foi dissolvido e os negros discriminados refugiaram-se na música gospel ou preferiram uma passiva participação parlamentar, que acabou originando, entre outros, o reacionário Barack Obama.

    Longe de se colocar contra o capitalismo, a Nova Esquerda Européia das décadas de ’70 e ’80 visava a reforma de um sistema que estava se tornando caduco e asfixiante devido ao excesso de autoritarismo, às guerras fabricadas para enriquecer banqueiros e empresas multinacionais e às diferenças cada vez maiores entre as classes sociais. A direita ocidental, o “establishment”, necessitava de um aperfeiçoamento urgente ou corria o risco de ser suprimida pela ascensão do marxismo em todos os países. A Nova Esquerda, diferente do que classificava como “Velha Esquerda” (a esquerda marxista), teve origem nas universidades e não dentro de sindicatos ou devido à luta dos trabalhadores.

    Não se tratava, portanto, de luta de classes, mas do seu contrário: protestos de jovens dentro das classes dominantes objetivando reformas nos costumes burgueses, uma nova sociedade deveria emergir do pós-guerra, aparentemente tentando derrubar todas as formas de opressão social, desde que as estruturas do poder não fossem tocadas. Ao mesmo tempo, as novas tecnologias do chamado “primeiro mundo” auspiciavam a essa juventude supostamente rebelde uma vida cheia de facilidades. A geração que deveria assumir o poder alguns anos depois dos movimentos estudantis disporia de melhores meios para continuar alienando e subjugando os operários.

   No Brasil, por falta de um programa político claro, principalmente na área econômica, o PT assumiu a Nova Esquerda – uma mistura de misticismo New Age com dieta vegetariana, pensamentos ecológicos e algumas pinceladas do pensamento de Gramsci e Foucault – somente os pensamentos. E a reforma agrária no papel. Ao lado desse nada - que era muito para uma nação que nunca teve uma tradição socialista e que, em sua maioria, continuava a acreditar que comunistas são pessoas muito más que desejam escravizar os povos – o PT assumia-se como anti-nacionalista, namorava o neo-liberalismo econômico (para depois assumi-lo completamente) e demonstrava uma grande inveja de oligarcas como Sarney, Collor e Maluf, que, com o tempo, tornaram-se grandes aliados dos petistas. Principalmente em época de eleições.

    Enquanto a verdadeira esquerda brasileira saía em massa do PT, que preferira tornar-se um partido menchevique, os novos partidários petistas – em sua grande maioria pessoas que poderiam participar de qualquer partido de direita, como PMDB, PP ou, mesmo, PDT – tornou-se massa de manobra partidária, acreditando em mitos como “Lula salvador da pátria” e aceitando a idéia de que ser de esquerda é o mesmo que lutar pela emancipação das mulheres, patrocinar o movimento LGBT, dar mesadas para o povo miserável e cotas para os negros.

    O PRC, que já havia mudado de nome, dava à Articulação, que também se tornava camaleônica, o norte ideológico. A nova esquerda deveria promover a inclusão social das minorias discriminadas dentro do sistema capitalista. Como as empresas necessitam de constante rotatividade de trabalhadores para que o salário mínimo continue baixo e os lucros aumentem, a educação deveria ser sistematicamente facilitada para que todos tivessem condições de passar de ano e entrar para o mercado de trabalho, mesmo que isso implicasse no aviltamento da cultura e do sistema educacional.

    O operariado, seguindo a ilusão de “progressismo” e reforma petista tem sido alienado progressivamente da sua realidade de classe que poderia ser transformadora, ainda que no país do carnaval, e aceita a submissão e o peleguismo ditados pelos líderes petistas como atitudes ‘politicamente corretas’. Dominados pelo petismo anti-marxista, a maioria do operariado baixa a cabeça servilmente, aceitando o redil proposto pelo PT.

    Na política internacional, o PT serve aos Estados Unidos e seu império. Em algum momento da ascensão de Lula ao poder, foi-lhe acenada a possibilidade de dominar política e economicamente a América do Sul, como autêntica filial dos Estados Unidos. Não fosse Hugo Chávez ter liderado um movimento de países anticapitalistas, o Brasil de Lula teria aderido à ALCA (Área de Livre Comércio da Américas), que proporcionaria aos Estados Unidos dominar toda a economia da América Latina. Em contrapartida, os governos do PT (Lula e Dilma) não aderiram à ALBA (Aliança Bolivariana das Américas), deixando claro que seu projeto de governo é capitalista e neo-liberal.

    A aceitação do capitalismo sob uma fachada de “nova esquerda” que atrai multidões desinformadas tornou mais fácil para a cúpula petista aderir às práticas capitalistas; entre outras, a corrupção desenfreada. Curiosamente, os petistas acreditaram que roubar a nação não era corrupção, uma vez que governos anteriores, como o de FHC, tinham feito o mesmo. Ou, como disse Paulo Maluf quando foi convidado a apoiar a campanha do petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo: “Agora somos iguais”.

    Com o “Mensalão”, o “Petrolão” e outras ações ilegais que ainda poderão vir à tona, o PT não só tornou-se igual à oposição que antes condenava como conseguiu superá-la em muito no que concerne ao montante roubado ao povo. Adotando o capitalismo pseudo-reformista o PT caiu em todas as suas armadilhas. E gostou. Até o momento em que alguns de seus principais líderes começaram a ser presos pela Polícia Federal.

    Descaracterizou-se tanto o PT de seu projeto anterior de partido que a Presidente Dilma, em seu segundo mandato, preferiu formar um ministério pautado todo ele por uma política entreguista de direita, na contramão da História, justamente no momento em que as nações de alguns países, como Grécia e Espanha, estão a repudiar o capitalismo. E Lula, segundo consta, anda tão desarvorado com a possibilidade de, cedo ou tarde, vir a ser indiciado por algum crime que, como a avestruz, não sabe onde esconder a cabeça.

     Pior que todas essas ridicularias é o fato do PT ter deixado aberta uma imensa brecha política por onde estão a penetrar os partidos da direita oficial, além de favorecer a propaganda paranóica golpista que, mesmo não surtindo qualquer efeito na prática – porque as Forças Armadas estão muito felizes com o PT no governo  - passa às multidões que adoram futebol e carnaval e mais nada que a esquerda é corrupta, quando é exatamente o contrário: foi por ter assumido o papel de partido direitista fantasiado de esquerda que o PT, juntamente com seus aliados, passou a adotar a corrupção como prática de governo.

     A ideologia da reforma dentro do capitalismo que já havia sido explicada ad nauseam como um equívoco político, entre outros autores por Rosa Luxemburgo em seu livro “Reforma ou Revolução?”, ao ser adotada pelo PT enquanto ainda era uma frente de esquerda, agora que está sendo desmascarada também no Brasil faz do partido que já foi uma esperança para a nação, autor de um desmoronamento de expectativas principalmente naquela parte da população mais desavisada e que está acostumada às benesses do governo em troca de votos.

   Por outro lado, coloca em pauta o debate ideológico, que tanto o PT tem desejado abafar. Sabe-se que no país de Rosa Luxemburgo, a Alemanha, a socialista e reformista “República de Weimar” foi destroçada com o advento do nazismo. Mas a Alemanha sempre foi um país de pensadores. Infelizmente, não acredito que no país do carnaval e da preguiça mental, após o retrocesso histórico da revolução brasileira representado pelos governos do PT, as esquerdas se unam deixando de lado pequenos desacordos ideológicos, para combater a imensa vaga direitista que se avoluma no horizonte. No entanto, não convém desacreditar de todo.

sábado, 6 de abril de 2013

O BRASIL CONTRA A CORÉIA DO NORTE



PCdoB, PT, PSB e mais alguns movimentos e sindicatos, como CUT e MST, que se dizem “progressistas e anti-imperialistas” enviaram, no dia 2 de abril, uma declaração conjunta à embaixada da República Popular Democrática da Coréia, mais conhecida com Coréia do Norte, em Brasília. Nela, solidarizam-se com a luta dos norte-coreanos contra as provocações dos Estados Unidos, que desejam levar a península a uma guerra e prometem lutar para que o mundo se mobilize contra as “maquinações de guerra” dos Estados Unidos e seus parceiros. “Incentivaremos a humanidade e os povos progressistas de todo o mundo e que se opõem à guerra, que se manifestem com o objetivo de manter a Paz contra a coerção e as arbitrariedades do terrorismo dos EUA”.

   Bonito e elogiável. Os membros da embaixada norte-coreana devem ter ficado muito felizes e agora estão esperando, com certeza, que esses partidos sindicatos e movimentos cumpram com a sua palavra. Estamos esperando. Melhor seria se o governo Dilma/Lula também se manifestassem nesse sentido, posto que os três partidos que assinam o documento e que se dizem “progressistas e anti-imperialistas” pertencem à base do Governo, sendo que o PT, depois do PMDB (que obviamente permaneceu quieto) é o maior partido no Congresso e elegeu os dois últimos Presidentes – Lula e Dilma. E Dilma será reeleita, apesar dos aécios da vida, principalmente se o Brasil ganhar a Copa do Mundo.

   Estamos esperando as manifestações do PT & Cia contra o terrorismo dos EUA na Coréia. Até agora não sei de nada, de nenhuma passeata ou coisa parecida, mas posso estar mal informado. Também não sei se a Dilma já se manifestou fortemente a respeito da clara tentativa de invasão dos EUA na Coréia do Norte, que só não foi ainda efetuada devido ao perigo de uma guerra nuclear. Afinal, com toda a imprensa demonizando a Coréia do Norte, seria necessária muita coragem e destemor da Presidente para falar a favor do povo norte-coreano. Isso implicaria em ir contra as ordens dos Estados Unidos, contra alguns acordos secretos e não secretos que o seu governo tem feito com aquele país.

   E contra nossos bravos militares, que tanto amam os Estados Unidos e estão loucos por uma guerrinha qualquer para dar outro golpe. Deixaram Lula e Dilma no governo desde que não saiam do ditado de Washington: em primeiro lugar o capitalismo. Em troca, ganharam o Haiti, manobras nas favelas e navios na costa do Líbano, o que não é pouco. Se pudessem, estariam participando das “manobras” contra a Coréia do Norte. Acreditam firmemente que o Brasil é dos Estados Unidos e deve continuar assim. Ai da Dilma se abrir a boca contra os patrões! Será demitida na hora.

   Temos um governo que já está acomodado à situação carcerária da nossa autonomia, independência e dignidade. E os partidos que o apóiam, apesar da retórica, são pobres em ideologia e extremamente carentes de qualquer atividade que não diga respeito a conchavos e eleições. O Brasil participa do sub-imperialista grupo dos BRICS (Brasil, Rússia, India, China e África do Sul), mas não quer participar, de jeito nenhum, da latino-americana ALBA (Aliança Bolivariana), que é declaradamente anti-imperialista.

   O governo brasileiro é obediente e seus partidos seguem a linha do fingimento ostensivo. A demagogia é tanta que mandam cartinhas de apoio para um governo, como o da República Popular Democrática da Coréia, com o qual nunca tiveram qualquer afinidade e, principalmente, contra o qual sempre atenderam às resoluções da ONU e dos Estados Unidos. Vejam o exemplo abaixo.

        

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, de acordo com o artigo 25 da Carta das Nações Unidas, promulgada pelo Decreto no 19.841, de 22 de outubro de 1945, e

Considerando a adoção, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, ao amparo do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, da Resolução nº 1.874, de 12 de junho de 2009, que aprofunda medidas previstas na Resolução nº 1.718 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 14 de outubro de 2006, incorporada ao ordenamento jurídico nacional pelo Decreto nº 5.957, de 7 de novembro de 2006, e, entre outros dispositivos, proíbe a exportação de armas e materiais relacionados pela República Popular Democrática da Coreia e restringe sua importação por aquele País; autoriza a realização de inspeções em embarcações destinadas à República Popular Democrática da Coreia, ou dela provenientes; restringe as atividades financeiras da República Popular Democrática da Coreia; e exige a cessação de todas as atividades nucleares e balísticas da República Popular Democrática da Coreia;

DECRETA:

Art. 1º Ficam as autoridades brasileiras obrigadas, no âmbito de suas respectivas atribuições, ao cumprimento do disposto na Resolução nº 1.874 (2009), adotada pelo Conselho de Segurança da Nações Unidas em 12 de junho de 2009, anexa a este decreto.

Art. 2º Este decreto entra em vigor na data da sua publicação.

Brasília, 12 de agosto de 2009; 188 da Independência e 121 da República.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Celso Luiz Nunes Amorim


terça-feira, 6 de março de 2012

A SOBERANIA A CABRESTO





Dilma foi a Hannover, esbravejando contra a guerra cambial e, depois de uma conversa com a Ângela Merkel, voltou dizendo que o Brasil vai emprestar dinheiro ao FMI para ajudar os coitados dos países europeus.

     E fazer lastro para o caso de uma não tão distante necessidade de apelar para o FMI. Afinal, o PIB está crescendo pouco, a inflação está mascarada e quando houver uma grande recessão atingirá todos os países globalizados economicamente. E o Brasil é um deles.

     A nossa economia cumpre o papel que, desde abril de 1964, lhe foi atribuída: a de celeiro mundial. É a economia do cabresto, também conhecida como economia de exportação.

   Plantamos para exportar, desmatamos para exportar. No tempo da ditadura fardada, o governo militar lançou um slogan: “Plante Que O Governo Garante”. E os mercadores formaram as suas empresas e se atiraram a desmatar, a expulsar indígenas das suas reservas, a devastar as florestas para aumentar os campos agricultáveis e a plantar, plantar, plantar de tudo, porque tudo o que plantassem era subsidiado pelo Governo.

     Foi a época do chamado “milagre econômico”, quando as ferrovias foram abandonadas e dezenas de estradas foram abertas para que os caminhões das recém instaladas multinacionais de veículos automotores pudessem transitar livremente para escoar a produção. Para eles – Europa, Estados Unidos, Canadá e demais países interessados. Quando perguntaram a um daqueles generais de plantão quando o dinheiro do “milagre” seria repartido com o povo brasileiro, respondeu que o Governo estava esperando o bolo crescer para repartir.

     Também foi a época em que milhares de pessoas foram expulsas do campo e aumentaram as favelas nas grandes e pequenas cidades brasileiras. E surgiram os movimentos dos sem terra e sem teto, sempre reprimidos pela atenta polícia dos fazendeiros e empresários, aliados do Governo.

     Os operários começaram a reivindicar aumentos, porque as grandes empresas, principalmente as metalúrgicas, estavam enriquecendo rapidamente. Formaram-se sindicatos; surgiram protestos e greves, líderes sindicais apareceram para pacificar os mais revoltados e fazer os necessários pactos com os empresários. Era o momento da “abertura política” – uma metáfora utilizada pela mídia para tentar convencer o povo de que eleições e presidentes civis fariam a grande diferença. Fez-se uma nova Constituição. Grandes discursos falaram em estado de direito. A classe média saiu às ruas, pensando que fazia História e, depois, voltou para assistir as novelas.

     E a política continuou a mesma. Um pouco pior, concordo, mas isso porque agora podemos ver quem rouba e quanto rouba. O Brasil continuou um país agrícola e exportador, os operários foram amansados, os líderes sindicais foram para o Governo pactuar com os empresários e latifundiários e foi dado um salário mensal aos mais pobres. A miséria aumentou e foi marginalizada pelas tropas de assalto e maquiada pela mídia amestrada.

     Importamos tudo do exterior, menos tecnologia. Este é um país que exporta insumos para importar produtos eletrônicos, carros e tudo o mais que for necessário. Também importamos necessidades desnecessárias que as empresas de marketing e propaganda impõem a um povo que prefere não mais raciocinar.

     Também exportamos petróleo, embora tenhamos entregado todas as empresas importantes para o capital estrangeiro. Os governos deste país adoram o capital estrangeiro e reverenciam o deus Mercado.

     Neste momento está sendo votado o novo Código Florestal, que permitirá às grandes empresas agropecuárias desmatarem o que resta das nossas florestas. Não que isso não esteja sendo feito desde o Brasil colônia, mas será tornado lei.

     Os ganhos são muitos para os empresários e latifundiários. Cortam as árvores, vendem a madeira, utilizam a terra para agricultura, usando sementes transgênicas que rendem mais grãos, mas esterilizam o solo e o transformam em deserto verde em poucos anos. Ou utilizam a terra desmatada para pecuária extensiva, porque do boi tudo se aproveita e tudo se vende, até os chifres legitimamente brasileiros.

     Já ia esquecendo: Dilma também disse, antes de ir para a Alemanha, que o Brasil é um país soberano. Pois é...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

O PARTIDO DA DITADURA




À medida que eu acompanhava o desenrolar do “caso Negromonte” – mais um ministro acusado de corrupção e que entregou o seu cargo hoje, 2 de fevereiro, dia de Iemanjá, à presidente Dilma Roussef – percebia que os grandes jornais e revistas, que tanto batalharam para que os ministros anteriores fossem derrubados passavam da manchete para o título e do título para a notícia quase escondida em suas páginas virtuais.

     “O que está acontecendo?”, eu perguntava para o espelho ou para as sombras. “Será que desistiram de importunar a Dilma e seus malfeitores do Governo, porque a própria Dilma está disposta a acabar com os ‘malfeitos’?” Dúvida cruel.

     Resolvi pesquisar e eis que.

     Mario Negromonte pertence ao PP (Partido Progressista), era o Ministro das Cidades – ministério que recebe o terceiro maior orçamento da Esplanada, de R$ 21,1 bilhões – e a sua demissão não afeta em nada o PP. Aquele partido continuará com o Ministério das Cidades, porque Negromonte  está sendo substituído pelo líder do PP na Câmara, Aguinaldo Ribeiro.

     Ou seja, o mesmo partido do ex-ministro acusado de corrupção continuará com o mesmo ministério e, se desejar e achar interessante, razoável e lucrativo para seus membros, poderá continuar com os ‘malfeitos’ – porque dificilmente Dilma Roussef tirará duas vezes um ministro do mesmo ministério, confiado a um partido fiel ao Governo –por maiores que sejam as provas de corrupção.

     De acordo com dados do TSE, o PP é o segundo maior partido brasileiro, logo atrás do PMDB. O PT vem depois, seguido pelo PSDB e PDT. E, no entanto, vemos embates diários entre PT e PSDB que, na verdade, dependem do centro-direita PMDB e do auto-aclamado partido de direita PP.

     O PP é um partido fisiológico, aderente ao poder, seja quem for que estiver no poder. Acostumou-se a isso desde a época da ditadura militar, quando se chamava ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e, junto com o MDB, que ainda não tinha o “P”, brincava de fazer política, sob os olhos atentos dos ditadores de farda.

     É o partido dos latifundiários, empresários, coronéis, bacharéis e doutores. Toda a retrógrada elite brasileira.

     De vez em quando pede alguma coisa, exige alguma benesse, como o Novo Código Florestal, Belo Monte... E o Governo por ele apoiado sente-se na obrigação de retribuir o apoio, sem o qual não existiria de fato.

     É um partido camaleônico. Quando houve o acordo entre militares e civis desejosos de poder para que a ditadura militar se transformasse em civil, o PP, então ARENA, mudou a sigla para PDS (Partido Democrático Social). Passou a ser democrático. Em convenção nacional datada de 4 de abril de 1993 o PDS se fundiu ao Partido Democrata Cristão (criado em 1985) e deu origem ao Partido Progressista Reformador (PPR).

     Em 1995, houve a fusão entre o Partido Progressista Reformador e o primeiro Partido Progressista (PP), criado em 31 de janeiro de 1993, união que deu origem ao Partido Progressista Brasileiro (PPB), desde logo comprometido com o apoio ao Plano Real e ao governo Fernando Henrique Cardoso.

     O agora PP virava PPB, depois de ter sido ARENA, PDS E PPR. Foi aquilo que se viu. Privatização total, o Brasil entregue às multinacionais e Fernando Henrique pousando de grande estadista. Lá fora.

     Em 4 de abril de 2003, o PPR decidiu-se a ser somente PP (Partido Progressista). Lula vencia as eleições e prometia ser somente o “Lulinha Paz e Amor”. Coerente com essa nova postura, o presidente eleito pelo PT fez um grande leque de alianças com todos os partidos que desejavam um pedaço do poder e distribuiu ministérios e secretarias para os aliados.

     Todos saíram ganhando, menos o povo, e Lula teve que seguir a política aliancista e entreguista inaugurada por FHC e aceitar o jogo da direita, com quem já namorava. Também passou a namorar com os militares e deu-lhes uma missão intervencionista no Haiti, para começar. Nunca se rezou tanto para São Francisco e o “dando que se recebe” ficou famoso. O PT perdeu a moral e as bases políticas mais fortes, mas preferiu aliar-se com partidos de direita, que lhe garantiam o poder e, afinal de contas, o único objetivo do PT – que já foi um partido dos trabalhadores – era o poder. Maquiavelicamente.

     E o PP ali, adorando aquele poder. Quando Dilma assumiu, apenas repetiu a dose e seguiu a receita lulista, enquanto guarda a cadeira para o seu chefe.
Mas o chefe tinha deixado o que alguns chamaram de “herança maldita”, ora vejam! A corrupção.

     Como se corrompe? Pergunte aos políticos. Acredito que a teoria é a seguinte: “Todos tem seu preço e podem ser comprados”. Uma teoria simples e que pressupõe que todas as pessoas são corruptas ou passíveis de corrupção. Principalmente se morarem em um país chamado Brasil.

     A herança de Lula, que já era herança de FHC, faz com que Dilma gaste algum tempo trocando ministros. Não que isso resolva a corrupção, mas apazigua a opinião pública que passa a acreditar que a presidente é a única pura em um antro de corruptos nomeados por ela.

     Não somente os ministros.


     FAXINA

     De acordo com Vanildo Mendes, de “O Estado de São Paulo”, em matéria de 12 de dezembro de 2011, sobre a “faxina” no Governo, o grau de corrupção tem crescido entre os agentes públicos.

     A Polícia Federal já teria prendido 79 policiais, em dez operações de combate ao crime organizado realizadas em todos os Estados. Somente em 2011.

     “Além disso, segundo dados da Controladoria-Geral da União (CGU), órgão responsável pelo controle interno do governo, de janeiro a novembro deste ano 514 servidores federais foram expulsos da administração pública, um recorde para o mesmo período nos últimos oito anos.

     “Os expurgos do setor público atingiram não só a PF, mas todas as carreiras típicas de Estado, inclusive as que têm o dever cobrar dos outros o cumprimento da lei. De 2004 a 2011, a CGU puniu malfeitos de 64 analistas e técnicos de finanças da própria equipe.

     “Entre 2003 e 2010, a corregedoria da PF puniu mais de 600 policiais com penas que vão de advertência a suspensão e demissão. Desse total, 72 (12%) foram demitidos por irregularidades graves, incluindo corrupção e crime organizado.”

     Junto com os ministros demitidos, tem sido exonerados inúmeros integrantes do segundo escalão. Pessoas que acreditam que ter um cargo é sinônimo de prevaricação. Ou de corrupção explícita.

     Este é um país de corruptos? Esperem as eleições. Enquanto isto, Dilma tenta caminhar no mar de lama que não deve ignorar, porque foi ministra de Lula e, se não corrompeu ou não foi corrompida, conhece a turma.

     Falta a faxina no Judiciário, mas essa não acontecerá, ou vocês acham que os que se consideram intocáveis deixarão que investiguem os seus negócios?

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

DILMA CANSOU DE FAXINA



Dilma mudou de ideia. Não quer mais saber de faxina. Disse, quarta-feira passada, que vai deixar a faxina ética em segundo plano. Isso, segundo todas as fontes confiáveis, mas acredito que essas fontes interpretaram mal o pensamento da nossa presidenta com “a”. Como se sabe, Dilma fala o dilmês, uma língua própria, às vezes não devidamente interpretada pelos meros mortais que não pertencem à turma do MEC que tanto deseja destruir a língua portuguesa.

     Ou reconstruí-la de acordo com a inteligência superna dos votantes do partido do governo. Há quem afirme que a novilíngua que está sendo proposta e imposta pelos pós-doutores do MEC – para que os votantes acreditem que aquela máquina de votar é igual a uma urna eleitoral de verdade e que falar portugueis é o mesmo que falar português – é inspirado no português camoniano – ou camonesco, conforme ele diria – do Lula .

     Observem que agora, depois de deixar o governo, Lula transformou-se em um doutor. Diversas universidades amigas deram a ele o título de Doutor Honoris Causa – e ele acreditou. Conforme as informações confidenciais que tenho (quem dá mais?), o MEC teria se baseado no camonesco falar do doutor Lula, agora aperfeiçoado para o dilmês dílmico para lançar a língua do “nóis temo i nóis tamo” como inculta, mas bela.

     Língua que está sendo aperfeiçoada gradualmente pela futura doutora Dilma. Sempre que ela fala todos pedem intérpretes e, às vezes, os jornalistas a interpretam mal. Assim, quando ela supostamente disse que deixaria a faxina ética em segundo plano, penso que queria dizer que estava deixando a faxina e a ética em segundo plano. Ficaria mais adequado não só ao discurso dilmês como à realidade brasileira.

     No mesmo dia, ela disse que o Brasil não é igual à Roma antiga – o que, convenhamos, significa um grande avanço nos seus conhecimentos. Tenho certeza que ela fez essa declaração visando aprofundar a cultura dos seus votantes, pois muitos deles, talvez a maioria, acreditam que o Brasil é a Roma antiga. Ou qualquer outro país, menos o Brasil. De preferência os Estados Unidos. Mas Roma antiga também serve. Para extirpar esse erro - principalmente da mente dos trabalhadores do MEC – a trabalhadora Dilma disse que não, que o Brasil não é igual à Roma antiga.

     Não sei se ela afirmou isso para rejubilar-se, porque aqui não temos leões que comem cristãos em arenas, mas apenas arenas de futebol, sem nenhum leão dentro e as feras que restam no Brasil, como onças, por exemplo, estão sendo devidamente exterminadas por projetos contra a natureza, como Belo Monte, ou se ela afirmou que o Brasil não é igual à Roma antiga com um certo ar de nostalgia. Nunca se sabe exatamente o que Dilma fala, quando fala.

     Mas o fato é que ela disse que chega de faxina. Que não gosta nem da palavra faxina. Que a única faxina que fará será a faxina contra a miséria. Mas isso já está acontecendo, embora talvez ela não perceba. Não faltam polícias especializadas para matar suspeitos de miséria e pobreza, no Brasil inteiro. E Exército, Marinha e Aeronáutica estão atuando fortemente nos morros cariocas para extirpar a miséria, com seus tanques e metralhadoras, antes da Copa do Mundo. E também são mortos os trabalhadores sem terra e os que protestam contra o latifúndio, contra o desmatamento desenfreado e acelerado do Brasil de Dilma, que pensa que isso é progresso.

     Mas ela não quer mais faxina. Não só disse que faxina ética – ou faxina e ética – ficam para segundo plano no seu governo, como quer e está acabando com a miséria, ou a escondendo embaixo do tapete ou nas valas comuns. Não só afirmou – ou deu a entender - tudo isso como reconheceu que o Brasil não é a Roma antiga – para suspiros profundos de alguns e alegria de outros.

     E disse que não quer mais demitir ninguém, por mais que os jornalistas bradem e mostrem os antros de corrupção no Executivo, também conhecidos como ministérios. Demitir nem pensar! Principalmente se for de algum partido aliado ou aliadíssimo, como o PMDB. Já imaginaram se continua a demitir todos os corruptos do seu governo?

     Duas coisas aconteceriam. Primeiro, o povo brasileiro teria a certeza de que o governo Lula foi extremamente corrupto; governo que incluía Dilma, com dilmês e tudo. Porque Dilma apenas confirmou as equipes dos ministérios que eram do Lula. Segundo, Dilma seria a última a sair e teria a grande responsabilidade de apagar a luz.
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