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segunda-feira, 20 de junho de 2011

BOI MORTO


Como em turvas águas de enchente
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto

Árvores de paisagem calma,
Convosco – altas, tão marginais! –
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

(Boi Morto. Manuel Bandeira – Opus 10)

     Sobre este poema, Paulo Ronai escreveu:

     “O poema serve de referência à relação entre a poética de Manuel Bandeira e a geração de ’45. Disse o poeta, em certa passagem de Itinerário de Pasárgada, que jamais fez poema ou verso ininteligível para se “fingir de profundo sob especiosa capa de hermetismo”. Só com esse fim também não o teriam feito os melhores poetas daquela geração. A verdade, porém, é que “Boi Morto”, ao ser publicado em suplemento dominical, causou a maior celeuma pelo seu hermetismo...

     “Estrofe a estrofe, boi morto vai adquirindo um estranho valor para, afinal, dominar todo o poema. Ressalte-se o rejet dos 14º/15º versos, no qual o composto boi morto é seccionado, obrigando a uma pausa que lhe engrandece e dá força (...)”.

     (BANDEIRA – Seleta em Prosa e Verso. José Olympio Editora. 1957).


     Poesia é ritmo. Assim como na música, é necessário ter ouvido para escrever poesia. Aliás, nasceram juntas: música e poesia são irmãs-gêmeas. Os primeiros grandes poemas conhecidos, como o Rig-Veda ou os épicos Ilíada e Odisséia, de Homero, ou os poemas de Hesíodo, foram escritos para serem cantados. A recitação de um poema, o dizer a poesia, exigia um instrumento musical. E na época de Hesíodo e de Homero os poemas eram escritos em hexâmetros, uma forma de métrica ou esquema rítmico ideal para a poesia épica, escrita em grego. Permitia que o lirismo poético dos versos cantados fosse mais enfatizado e as histórias contadas no poema épico, ou “cantadas” tivessem a necessária conotação heróica.

     Boi, morto, boi morto, boi morto.

     Nosso futebol, que deveria ser a poesia do povo... como anda triste! Resolveram metrificá-lo e o que se assiste aos domingos são peladas homéricas, com jogadores sem criatividade, jogadas pré-fabricadas – sempre as mesmas! Conta-se uma história sobre Garrincha em um treino do Botafogo. Garrincha era um driblador; adorava o drible pelo drible, a arte pela arte. Mas o seu treinador, à época, era dado a modernismos. Queria que Garrincha chegasse na linha de fundo e cruzasse para a área. E Garrincha fingia que não entendia e continuava driblando depois de chegar à linha de fundo. Então, o treinador, que não lembro o nome, colocou uma cadeira exatamente na linha de fundo e disse para Garrincha que ele deveria cruzar a bola para a área quando chegasse ali onde estava a cadeira. Garrincha não se fez de rogado. Driblou um, driblou dois, driblou três, chegou na linha de fundo e viu a maldita cadeira. Driblou a cadeira e continuou driblando gol adentro. Garrincha inventou a sua própria métrica e a sua própria poesia no tempo em que o futebol brasileiro era esfuziante.

     Boi morto, boi morto, boi morto.

     E cada poema exige o seu andamento, assim como a boa música. Por exemplo, não se pode ler Boi Morto rapidamente. A forma como foi escrito exige um andamento lento e pensativo. E não só a forma. O conteúdo, por mais “hermético” que pareça, pede ao leitor a visualização de imagens paradas, quietas, quase assombradas. E isso exige um ritmo lento na leitura.

     Ao contrário de “Vou-me Embora Pra Pasárgada”, que pede uma leitura leve e rápida, quase singela, em acordo com o conteúdo proposto pelo poeta: “Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei/Lá tenho a mulher que eu quero/Na cama que escolherei (...)”.

     Poesia é ritmo e não conheço nenhum outro poeta que tenha viajado por tantos ritmos como Manuel Bandeira. Antecipou-se alguns anos à Semana de Arte Moderna, de 1922, à qual criticou, no início, mas depois entendeu que era algo que ele já tinha feito. Tanto assim, que “Os Sapos” (que tinha sido escrito em 1918 e publicado em 1919), foi lida por Ronald de Carvalho durante aquela Semana de arte revolucionária. Sob vaias do público, que não entendia nada. Mas o público sempre vaia o que não entende. Leiam um pedacinho:

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- "Meu pai foi à guerra!"
- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - "Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A fôrmas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas..."

     Deu vontade de ler todo o poema, não foi? É uma crítica ao Parnasianismo, ao estufar dos papos daqueles que se pretendiam donos do perfeito ritmo, da esmerada métrica e da rima inatacável.

     Boi morto, boi morto, boi morto.

     Convocaram Tostão para a Copa do mundo de 1970 porque ele era melhor que Pelé. Escrever isso é uma heresia? Sejamos heréticos. Todos concordavam que Tostão jogava melhor que Pelé, naquela época. Época em que o Cruzeiro de Tostão foi à Vila Belmiro jogar com o Santos de Pelé e ganhou por seis a dois. A diferença é que Pelé tinha a coroa e a carreira de Tostão foi curta. Principalmente depois de sofrer um descolamento da retina que quase o tirou da Copa. Por isso, jogou o Mundial com todos os cuidados, evitando choques, mas fazendo jogadas brilhantes. Em uma ou outra partida, foi substituído por Paulo César Caju. Aquele era um time que se dava ao luxo de ter Paulo César na reserva. Foi a última vez em que o Brasil viu uma seleção de craques.

     Boi morto, boi morto, boi morto.

     A métrica nasceu naturalmente; não foi imposta à poesia. Mas antes da métrica veio o ritmo, a musicalidade. A rima nasceu junto, como uma espécie de “enfeite” rítmico. Talvez tenha surgido nos primeiros ditirambos a Dioniso, quando aquele deus foi incorporado ao panteão grego, no nascimento do teatro. Ditirambo, que significa "hino em uníssono", consistia numa ode ao deus, cantada e dançada por um coro de 50 homens (cinco para cada uma das tribos da Ática) vestidos de sátiro. Com o tempo, o ditirambo evoluiu para o drama, para a forma teatral, perdendo a métrica original e adquirindo outras formas, que incluíram a prosa poética.

     Hoje, entende-se prosa poética por verso livre, que é a libertação da métrica e da rima, que poderá acontecer ocasionalmente. Mas necessita do ritmo para ser poesia, ou será apenas prosa. Sem ritmo, poderá ser prosa em versos, mas prosa. Mas como saber o que é liberdade se você não sabe o que é prisão? Acredito ser essencial para o poeta o conhecimento das formas poéticas, dos diversos tipos de métrica, do colorido das rimas, para que possa adquirir o ouvido necessário para, talvez um dia fazer a sua própria e original composição poética. E originalidade é o mesmo que liberdade e também rima com criatividade. Foi o que bandeira nos mostrou, quando tecia suas redondilhas, escrevia seus sonetos, aventurava-se por um vilanelle e depois se permitia o ritmo dissoluto.

     Boi morto, boi morto, boi morto.

     O futebol acabou no Brasil. Por mais que a mídia insista – porque a mídia futebolística vive do futebol e tem que defender o seu ganha-pão – em dizer que jogadores médios, às vezes medíocres, são craques, ninguém se engana com o que vê. Ficou demasiadamente contido em parâmetros e compartimentos estanques. Sabe-se antecipadamente o que cada time vai fazer, de que maneira vai jogar. Os jogadores estão ricos demais, perderam aquele elã dionisíaco de um Garrincha, a capacidade artística de um Tostão ou a instintiva genialidade de um Pelé. Fabricam-se jogadores às dúzias nas escolinhas de futebol, mas os programam como robôs. Todos eles tem que chegar à linha de fundo e cruzar para a área. Aquela poesia do futebol brasileiro está morta.

     Boi morto, boi morto, boi morto.

     Manuel Bandeira morreu em 1968. Corrijo: o corpo de Manuel Bandeira morreu em 1968. E deixou uma obra imperecível. Viajou por todas as possibilidades e foi precursor de muitas escolas poéticas. Em um dos seus poemas ele escreve:


POÉTICA

"Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado.
Do lirismo funcionário público com livro de ponto
expediente protocolo e manifestação de apego ao Sr.
diretor.
estou farto do lirismo que para e vai averiguar no
dicionário o vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas.
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Toda as construções sobre tudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os numeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
de todo o lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do
amante exemplar com cem modelos de cartas e as
diferentes maneiras de agradar as mulheres etc...
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil dos bêbedos
O lirismo dos CLOWNS de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é
libertação."

     Boi morto, boi morto, boi morto.

     Admirava-se o futebol brasileiro quando ele tinha aquele lirismo dos clowns de Shakespeare; o lirismo dos loucos. Dizem que Bandeira gostava de ver o Botafogo jogar. Ver Garrincha e sua poética muito própria. Alguns anos depois de sua morte, o futebol também foi acabando no Brasil. Ainda durou uma ou duas décadas e depois se transformou no futebol empresa, sem poesia alguma. Mas o povo brasileiro continua hipnotizado pela métrica das quatro linhas, esperando um milagre a cada partida. Um milagre poético de jogadores milionários, que fazem um teatro meramente apolíneo.  A revolução do futebol já teve o seu tempo e agora transformou-se em dinheiro.

     Hoje, a poesia revolucionária está em outro lugar do Brasil, menos nos estádios. Talvez nas marchas das ruas, nas passeatas que germinam, no povo que diz não.

     Boi morto, boi morto, boi morto.

domingo, 12 de junho de 2011

AI DOS APAIXONADOS!



Ai dos apaixonados!
É deles o conhecimento e a dor

Sentem
A plena ternura
E a total paixão
Em pura entrega
Devoção possessão
Indizível diluir-se
Dar-se desejar
Fremir
Tocar
O jogo pleno da alma

Ai dos apaixonados!

Sabem
Da brevidade do Infinito
Quando tudo parece desfazer-se
No êxtase do só sentir.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SÚBITA SERPENTE




Súbita serpente

                                    a
                              c
                       ros          ç
              de s e    en                 gui
que se               s          pre

                                             r
                                               e
                                           c
na letarga cova                  s
onde estava em ovo         a
onde estava eu ovo        n
a prometer dentes        e
mordidas famintas       r
sibilar nervoso a me

Súbita serpente

esguia         sinuosa
solerte        insidiosa

a deslizar meu ser.

Ser serpentemente
Mente sigilosa
A esquivar-se em cova
Insinuar semente
Em ovo de cobra
Cobra que me cobra
Tão subitamente!

terça-feira, 19 de abril de 2011

NARCISOIARA


Ah!, eu quero as barbas brancas!,
Exclamativamente brancas.
Eu quero a pureza das praias cristalinas
De secretos corais.

Caretamente,
Na dimensão em que nasci,
Perceber no marulho o chamado
Do refluxo das águas,
Chama líquida de só esfinge
A indagar o meu porque.

Poraquê! - exclamarei, pensando pensar.
Por aqui ... rimarão as alucinógenas Ondinas.

NarcisoIara,
Não poderei negar
Ao orvalho de minhas barbas
- Por minhas barbas! -
O salino suor da imensidão das águas.

quarta-feira, 23 de março de 2011

AO LONGE, TÃO AQUI


Lá, ao longe, onde a serra geme
E eu paro
Tão inevitável a esperança
E eu corro
Há esperança?
É longe
A serra invade a madeira
Que estraleja
O meu cansaço é só cansaço é só cansaço
Eu ouso!
Já está tão perto eu quase lá
Quase ali estou chegando
O coração na boca
Olhos saltados
As mãos!
Minhas mãos se despem em última bravura
Derradeiro ardor
Em destemor
Impeço
Esse serrar insano
O soluçar da vida
Meu corpo
Nunca correu tão longe como agora
Entrego
O meu vermelho todo ao teu desejo morte
Em troca
Esta madeira é minha
Em verde me transformo.

Ali, tão perto,
Quando sorria a força do amor
A todo instante
Nas superfícies da vida,
Entre brilhos e ruídos festejantes,
A silenciosa raiz
A penetrar profunda
Para saciar-se em seiva...

Casais deitavam entre as flores
Para desnudar a sua paixão de primavera
E o riacho a cantar entre pedras
Que abriam caminho à eternidade da água
E seu amoroso deslizar profano...

Ali, tão aqui,
Antes do desfazer-se da terra
Em profunda, incontrolável, tristeza;
Antes da última visita das abelhas
Às derradeiras flores murchas...

Ao longe,
Onde meu corpo dorme em sonho verde,
Sob a languidez dos cipós
E o perfume das últimas orquídeas,
Desfazendo-se, aos poucos,
Na pureza da terra limpa,
Unindo-se à solidão da relva
Que ainda tenta a ressurreição...

Lá, aqui,
Quando tento ser inteiro
Eu posso?
Esgueirar-me nas tramas deste enredo
Eu quero!
É tanta a terra que parece sufocar
Mas tento!
O meu rastejar é rápido e disforme
Pura volúpia
A desejar todas as cores
A água!
A transformar-me em alimento
E fome
E amor perfeito
Um fluido renascer
Eu sou
Todas as belezas em súbito instante
De infinito e cosmos
E poeira.

sábado, 5 de março de 2011

SILÊNCIO


Silêncio tenso, encolhido,
Como águia medrosa,
Entorpecida em asas esquecidas.

Silêncio esquecido, sentido,
Ansioso de olhares antigos
A desvendar solidões.

Silêncio dos sonhos e devaneios
A esconder-se eternamente
Da sua figura fantasmal.

Silêncio do desamor,
Que não chora nem mais espera
Um resto de piedade dolorida.

Silêncio das tumbas inertes,
Desesperando da falsa eternidade
E a querer gritar seu escravo silêncio.


Denso,
Espreitando sombras,
Temendo desvanecer-se
Em ruídos hostis,
Perder-se
Na loquacidade das horas...

Inebriante silêncio de cores opacas,
Preso na solidão do imenso instante...
Solícito com as reverentes vozes internas
Que o emolduram,
Insinuam,
Afogam em brasas o seu quase dizer.

Sóbrio,
Solene,
Imerso em pureza claustral.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

CHUVA PEQUENA


O rumor das águas
Que me submerge
A sentir caminhos,
Desvendar lugares,
Penetrar desvãos,
Recolher-me em nichos,
Espreitar segredos,
Espiar meus sonhos
Que deixei vagar
Ao sabor das águas,
A correr tão dentro
Num sentir profundo
De chuva pequena
A se espraiar,
Penetrar raízes,
Ir além da terra
E do rumorejar,
Buscar no silêncio
A noite que veste
Seu disfarce pó...


O fingir-se pó,                            
Embriagar-se em tempo,
Enfeitar-se em caos,
Desfazer-se em nadas,
E deixar vagar
Ousar enfrentar,
Com a calma dos sonhos,
Lucidez perfeita,
A profunda ausência
De supostos eus
Sempre a insinuar,
A buscar guarida,
No rumor das águas,
Indefiníveis águas,
Que me submergem
Num sentir profundo
De chuva pequena
A buscar silêncio
Na noite que veste
O disfarce pó...

O sentir-se pó,                
Inevitável pó,
Desvendar a terra,
Inefável terra,
Transformar-se em seiva
E fazer brotar
A força da vida,
Infinita vida,
Disfarçada em verdes,
Tão suaves verdes,
E todas as cores,
Um fremir de cores
A dançar no olhar...

E deixar-se estar,      
Como a mergulhar,
Ou desabrochar,
Somente existir
Sem se perguntar,
Só o devanear
De saber-se pó,
Tão vibrante pó
A se enlanguescer
Ao sorver da água,
Tão sublime água,
No seu toque tímido
De chuva pequena
Ou no seu jorrar
De chuva extrema,
Em breve infinito,
Em leve infinito
A deixar-se amar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CINZAS DA TERRA


Estranha Idade Média
Feita de chips e discos rígidos
E improvisada sabedoria binária.

Clonados palimpsestos
Em laboratórios alquímicos
Revelam novos seres
E novo beber místico
Em águas metálicas.

Choram os humanos que restaram,
Ao se lembrarem de si mesmos,
De seu antigo sentir e pensar
E de árvores e plantas orgânicas
E de pedras que não se desfazem
Como bolhas ao desejar do toque,
Ávido por sentir, e rios
Onde corria a água originária,
Encobrindo multitudinária fauna
Ensandecida pelo prazer da vida
E do viver.

Estranha, tortuosa, trevosa
Idade Média
Dos plácidos homens de plástico
E de mulheres virtuais

... Onde não há por do sol
E a Lua é um antigo mito
Narrado na eterna noite
Provocada pelas cinzas da Terra.

sábado, 8 de janeiro de 2011

BLUES


Para o Walmore, que foi cantar Tommy.




Que seja pássaro, sim. Voe.
Transmute-se em brisa, brisa leve,
Brisa-brisa. Brisa aladamente brisa.

Que seja pássaro assim:
Pleno planar.

Rume.
Rume-se, não se rumine.
Rume-se: on the road the sky is blue.

Blues.

Blue-se, não se retranque.
Não tranque o próprio céu.

Atmosfere-se,
Etere-se.

Não se entregue,
Não se aterre.

Aprume-se,
Emplume-se,
Are-se,
Apassare-se...

Que seja pássaro, enfim.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

TALVEZ SEREIAS







Margem.

Água vindo, água voltando, água enrolando nos pés.
Aguapés.
Água, ruído indefinível, fluidez, talvez sereias
A cantar no inescrutável além...

Areia.

Grãos de luz na Lua Cheia,
Fadinhas brincando de roda
No círculo mágico entre as ramagens.

Galhos.

Dedos ágeis de madeira a apontar...
Para cá, para lá,
A abrigar...

Aves.

Multidão de sons, liberdade plena,
Todas as cores da vida,
A inquietante leveza do planar...

Ar.

Sussurros súbitos a embriagar o céu,
Volúpia,
Vibrações intensas,
Sementes a buscar caminhos,
Pólen.


Miragem.

Menina nua a acenar no rio,
Ousadia das águas, voragem,
Meus olhos um só brilho e cor,
A temerária vontade de seguir o sangue,
Chuva a crepitar, água na água,
Dilúvio de cegueiras,
Deliciosas mortes a fremir na areia...

E o cisne.

A possibilidade de enxergar o cisne.
Em impávida noite de luar
Ou no extremo da total surpresa,
Quando a incredulidade e a mesmice ameaçam
O que resta de força de vida...
Súbito! – o cisne.
Belo, majestático, puro,
Deslizando a sua beleza improfanável.

E cachoeiras ribombando ao longe
Como um hino ao desafio.

domingo, 19 de dezembro de 2010

NO CORAÇÃO DA TERRA


Não quero os robôs do futuro
nem a beleza artificial de paisagens fabricadas.

Não quero a parvoíce da próxima
imbecilizada geração
de pacíficos mutantes.

Não quero prazeres metálicos.

Não quero o morrer senil,
sincopado,
das folhas a cair sem a possibilidade
de tornar-se em húmus
ou preparar a futura explosão da seiva,
sem transmutar-se em nova vida.

Esse morrer não quero.

Quero, ainda, um pouco
da sóbria solidão da sombra
sábia de árvores centenárias
e ouvir a sua conversa com o vento e com a chuva,
e a placidez dos dias de sol,
quando nos sentimos ancorados
no coração da Terra,
e com ela oramos,
silenciosos e reverentes,
no único perfeito momento
entre os múltiplos momentos
da tão perfeita inacabada perfeição.

Quero espairecer, em tarde de total Primavera,
nas águas apressadas de riachos amigos,
que trazem notícias de lugares distantes,
feitos de sonhos e desafios
nos amores das flores silvestres
com esguias folhas efêmeras,
paixões desatinadas de nervosos cipós
ao enrodilhar-se em árvores esquivas e tortuosas,
verde naufragado
em outras cores e outros verdes,
na sôfrega e eterna volúpia da criação.

Quero as rochas
e o seu olhar de olhos luzidios e sinceros
e a palpitante carícia
da areia nos pés,
enquanto a tarde passa, quieta e febril,
entre o líquido marulho
e os feiticeiros rumores da margem
a prometer mistérios
no cantar dos pássaros.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

ENCOBRINDO OSSOS E CAVEIRAS


A naturalidade dos corruptos
Sorriso sarcástico
Lábios soltos
Mãos gulosas rápidas furtivas
Um desejar intenso de prazeres
A imoralidade do olhar cúpido
Estreitos caminhos
A vaguear
Na mente métrica rasteira
Tardas pernas claudicantes
A tropeçar na própria sombra
Fugidia
Anulando-se no destino pó

A impassibilidade dos juízes
Em suas extensas monografias
Frias e pegajosas
No apresentar de razões entorpecedoras
Cáusticos cavilosos corcundas
Transparecendo em vestes negras
Luzidias
Encobrindo ossos e caveiras
Mumificadas
No fastio das palavras de poder apodrecidas
Pela perfeita sentença do tempo

A crença dos candidatos
Nas próprias promessas sorridentes
Torpes mansas aliciantes
Aos famélicos seguidores
Desejosos de saciar com milagres
A devastadora insônia dos aflitos
Nas palafitas que fogem da pestilência
Nas redes que escondem a morte
E no acreditar na eternidade
Mesmo que imperfeita

O desdenhar dos corruptos
Sempre tropeçando em suas perfídias
Que pensam perfeitas
E esquivas

A suficiência dos juízes
Entregues às palavras mortas
De sua cega justiça incolor
E asfixiante

A ufana certeza dos candidatos
No vazio das palavras ocas plásticas inertes
A inebriar a miséria dos famintos
E escravizados

sábado, 27 de novembro de 2010

TERRA ADORADA


O pipocar enlouquecido dos tiros
nos morros cariocas
- e muito em breve nos morros e não morros
em outras cidades do mesmo país doente –
e nas vielas, nas esquinas, nas estradas,
nos nichos e esconderijos,
nos mínimos e imperfeitos lugares
onde a pátria amada vai caçar os seus filhos
na solidão deste solo, para humilhá-los, prendê-los, matá-los heroicamente,
com o seu brado retumbante e a sua clava forte.

A terra mais garrida desce
sobre os inanimados corpos
deitados na vala comum
onde nossos campos tem mais flores
sob o formoso céu profundo,
em berço esplêndido.

O penhor desta igualdade
conquistada pelo braço forte
dos insones assassinos fardados,
amparados pela lei
dos raios fúlgidos nas balas vívidas
brilha no céu da pátria.

A imagem do Cruzeiro resplandece
nos binóculos de longo alcance
e os tiros se sucedem a matar, colossos,
em verde louro e no lábaro vermelho da barbárie,
os impávidos filhos desta terra verdejante.

Coturnos em marcha batida
invadem lares de amor eterno
ao ritmo de “Sal-ve!, Sal-ve!”,
em sonho intenso de grandeza bélica,
enquanto olhos míopes aplaudem
a voz histérica, vampiresca,
da mídia feroz, idolatrada.

Alguém, pouco antes de ser baleado,
diz que em teu seio, ó liberdade,
desafia o nosso peito a própria morte,
terra adorada,
ó mãe gentil!

És tu, Brasil, quem dorme
Hipnotizado
Em drogas plácidas,
Eternamente
No teu sono risonho e límpido.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A POSSIBILIDADE DO RESPIRAR



Nós, os desaparecidos
Que não pedimos esmolas
Nem mendigamos o apenas viver
Ou a solicitude
Dos que se crêem visíveis
Que já esquecemos o que é macio
Ou o que é sabor ou o que é belo
Que nada desejamos
Ou somos
Que não estamos mais aqui
Embora suspeitem da nossa presença
Desconfiem
Da nossa arisca sombra
Ouçam
O nosso espaçado respirar
O nosso quase existir

Nós, os desiludidos
Que não acreditamos mais
Em promessas e utopias
Que não pertencemos a partidos
Pois já estamos partidos por dentro
E não queremos ouvir as suas vozes
Porque são surdas
Nem as suas palavras
Porque são equívocas
Que nos esquivamos das suas presenças
Que nos são mesquinhas
Longe do entremuros das suas casas gordas
E estéreis
Do seu diário esmagar de consciências
E preferimos o nosso pouco sol
Mesmo quando furtivo e escuso

Nós, os devorados
Por suas fomes descomunais
De espaço e poder
Rechaçados
Para os mais escuros e exíguos
Lugares
Aonde não chegaram ainda
Os seus olhares sádicos e insaciáveis
Sequiosos
Pela infatigável sede de domínio
Procuramos apenas
A possibilidade do respirar
Ainda que sôfrego e ruidoso
Ou abafado e contido
Quieto
Quase letárgico
Mas ainda respirar

Nós, os que não sonhamos mais
Que não dormimos nem acordamos
Que não sofremos nem sentimos prazer
Nem tememos a morte
Pois já esquecemos da vida
Que apenas espreitamos
A nossa quase perfeita
Invisível
Solidão.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

DESIGUAL COR E ESCURIDÃO



Os que buscam os sonhos
Em voragem lírica
Em viagens lúdicas
De pagãos prazeres
Imersões oníricas
Fetichismos sábios
Pureza insana
Devaneios
Caos

Serpentes
Cristais
Sexo puro na beira do rio
Risadas sagradas
Deslizar de vida borbulhante
Olhos sorrisos cílios brilho perfumes
Invenções do corpo
Selva em escuridão profunda
Cicatrizes heróicas
Guerras secretas guardadas sentidas
Silêncio

Um pouco de sol entre o farfalhar das folhas
Ecos
Enlaçar suave de mãos tépidas
Murmúrios de água gelada
Sentir
O degustar do mistério do beijo
Pés em busca de estradas
O insinuar sereno da cumplicidade
A cega certeza do amor
Luz

Os que buscam a quase
Possibilidade de viver
Em devaneios púrpuras
Feitos de mantras macios cadenciados
Visões puras da plenitude
Universos sem geometria
Olhar balbuciante de prazer
Íntimo
Sorriso métrico insinuante
Do êxtase perfeito

Quase um suspiro mudo
Um latejar secreto
Um tímido espreitar físico
Um inquieto pensar
Enovelado em sonhos incolores
Imperfeitos solertes desejosos
Fragmentados em pequenas luxúrias
Prazeres táteis
Tentações

A busca interior
Mental anímica
Desfazer-se na totalidade
Refazer-se na nulidade
Suprema
Única
Etérea
Inefável

Os que buscam saciar
A única fome
Dos seus cinco sentidos
Que imploram viver
Mesmo que na palidez trágica
Dos magros dias
Em quase eterna
Fome
Quando a ilusão das cores
Refletida
Nos olhos desorbitados
Em pontos desiguais
De desigual cor e escuridão
Não são visões beatíficas
Ou o alucinar
Das paixões incontroladas
Mas a crueza intragável
Da necessidade urgente de evitar a morte
Pela fome

Que não oram nem pedem
Ou acreditam
Em uma cega e saciada justiça
Ou em um deus incólume
Às imperfeições

Que se encolhem nos cantos
Esperando o sublime momento
Do desencantar da vida
Tão faminta
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