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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A MISÉRIA DA MISÉRIA



Certa vez, em Porto Alegre, vendo pessoas dormirem ao relento, e falando a respeito com alguém que estava comigo e morava perto dos que hoje são chamados “sem teto”, recebi a resposta de que eles (os sem teto) gostam de viver assim. Não entendi e perguntei por que. A resposta foi: “Porque sim”.

     Não foi a única vez em que ouvi comentários de que as pessoas que não tem casa – eufemisticamente chamados de “moradores de rua” – sentem prazer com essa situação. Muitas pessoas acreditam nesse estranho prazer, mas não trocariam de lugar com os sem teto. Não sentiriam o prazer que eles sentem.

     Sem teto também é um eufemismo, porque pessoas que não tem teto, também não tem paredes, portas, janelas, banheiro, cozinha, sala, escritório. Sequer tem um jardinzinho ao fundo da não-casa onde possam plantar flores ou o que desejarem. Não tem nada. Vivem em situação de extrema miserabilidade, dependendo dos que tem para sobreviverem.

     Este é o país onde ter ou não ter é a principal questão. Ao vencedor as batatas e ao perdedor a ruína física e moral. Este é o país da barganha e quem não tem nada não pode barganhar. É o país do jeitinho e da malandragem, mas é impossível ser malandro quando a miséria é uma companheira cruel, e um sonho dar um jeitinho na vida quando se mora na rua à mercê dos piedosos cidadãos.

     Pois um desses moradores de rua, chamado Nelson Renato da Luz, em outubro do ano passado foi preso em flagrante quando tentava furtar placas de zinco da estação República do Metrô, em São Paulo. Dois dias depois, a juíza da 14ª Vara Criminal da Capital converteu o flagrante em prisão preventiva.

     No entanto, o laudo pericial comprovou que o suspeito é inimputável (sofre de doença mental e é pessoa comprovadamente incapaz de responder por seus atos) e, portanto, não poderia ser preso.

     “Inegável que a simples soltura do acusado não se mostra apropriada, já que nada assegura que, em razão dos delírios decorrentes da certificada doença mental, não volte a cometer delitos”, afirmou o desembargador Figueiredo Gonçalves, relator do habeas corpus que pedia a soltura do morador de rua.

     “Todavia, evidente também que inadequada a prisão preventiva, por colocar no cárcere comum pessoa que demanda cuidados médicos, situação que põe em risco a incolumidade física de eventuais companheiros de cela e do próprio paciente”, completou o desembargador.

     O relator cogitou da internação provisória de Luz em um hospital de custódia e tratamento, mas concluiu que a medida só se aplica nos casos de crimes violentos ou praticados com grave ameaça.

     Luz não se enquadra em nenhum dos casos. A solução encontrada pela 1ª Câmara de Direito Criminal, a partir do voto do relator, Figueiredo Gonçalves, de mandar o acusado responder ao processo em prisão domiciliar - quando ele não tem residência fixa - criou outro problema para o suspeito. Apesar de estar solto, poderá ser detido novamente.

     É um daqueles casos em que a Lei auxilia o criminoso e, ao mesmo tempo, o prejudica. Auxilia, porque o condena a prisão domiciliar e o prejudica porque o condenado não tem domicílio, não tem casa e – pasmem! – poderá ser preso novamente por não cumprir a pena de prisão domiciliar.

     Neste caso, o apenado é considerado doente mental e o artigo 196 da Constituição diz:

     Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

     É direito de todos e dever do Estado. Sabemos que isso não acontece, mas é o que reza a Constituição, e o Estado deveria ser responsável também pela saúde desse cidadão, independente da gravidade do seu delito.

     Além disso, se a pena é de prisão domiciliar, penso que caberia ao Estado providenciar uma casa para o senhor Nelson Renato da Luz. Caso contrário, ele corre o risco de ser preso por culpa do próprio Estado que o condenou a prisão domiciliar, sendo ele um sem teto. Se o Estado assim não fizer – não providenciar a casa para que Renato cumpra a sua prisão domiciliar – estará descumprindo a sua própria ordem, ou sendo omisso no caso de Renato ser preso novamente por não ter casa.

     Também vemos na Constituição Federal que:

     Art. 203. A assistência social será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social, e tem por objetivos:

     IV - a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária;

     Portanto, cabe ao Estado, através dos seus agentes autorizados, evitar a existência dos sem teto. E, se existem, o Estado está descumprindo com uma das suas funções constitucionais.

     Se formos mais adiante, a razão do crime de Nelson – crime de furto – foi provocada pela ausência do Estado que teria o dever de não só ampará-lo economicamente, evitando que caísse em extrema miséria, mas, também, por não lhe dar qualquer assistência social ou não providenciar cuidados para a sua saúde.

     Mas o Estado, nesses casos, não funciona – prefere o paradoxo – assim como não funciona em outros casos.

     Por exemplo, na Constituição, artigo 225, está escrito:

     Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

     No entanto, temos o novo Código Florestal, que a presidente Dilma deve sancionar, e que é um exemplo de como se deve depredar o meio ambiente.

     É gigantesca a distância entre as classes sociais no Brasil. Houve tempos em que eu acreditava que era por maldade que eles faziam esse tipo de coisa, mas é por falta de visão. Vêem o povo como nós vemos as formigas. Ou pior: como micróbios. Micróbios trabalhadores que podem ser descartáveis quando perdem a utilidade.

     Pessoas que não trabalham, que vivem na rua e que enlouquecem porque não lhes é dada qualquer perspectiva talvez não sejam vistas nem com microscópio. Pior ainda: são considerados não-existentes, cadáveres vivos que não tem direito a nada, porque nada possuem.

     O que acontecerá com Nelson Renato da Luz?

     Será preso e solto repetidamente, até o momento em que um grupo desses meninos e meninas da classe média decidir que matá-lo a pontapés é a melhor solução para a sociedade?

     Ou esperará, entre uma prisão e outra, as reformas da presidente Dilma, que diz pretender acabar com a miséria?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS NORDESTINOS SÃO UMA RAÇA?


Fiquei sabendo que os nordestinos são uma raça. Então temos uma raça no Brasil, que inclui todos os nordestinos, supostamente. Uma estudante de Direito postou algumas bobagens na Internet contra os nordestinos e está sendo acusada por crime de racismo.

     Que coisa mais estranha! Então o fato de nascer em determinada região do país – por exemplo, o Nordeste – significa pertencer a uma raça? Incrível! Fantástico! Espetacular!

     Eu gostaria de saber quais são as características da raça nordestina. Que eu saiba – mas poderei estar errado – a região nordeste do Brasil, constituída por nove estados é onde há maior miscigenação étnica. Ameríndios, europeus e africanos produziram mulatos, cafuzos e caboclos. Mas mulatos, cafuzos e caboclos continuam se miscigenando, o que poderá resultar, futuramente, o que até Darcy Ribeiro entendeu que poderia vir a ser uma raça “brasileira”.

     Mas ainda não há uma raça brasileira; não há uma raça nordestina. Nem uma raça sulista, uma raça amazônica, uma raça sudestina, uma raça do centro oeste, e por aí vai... Mas poderei estar errado...

     É sempre bom colocar esse adendo – “poderei estar errado” – porque o Estado brasileiro, principalmente depois da ascensão do petismo parece estar em uma espécie de estranha evolução centralizadora, para usar de todos os possíveis eufemismos, e quem não for Dilmístico deve tirar o cavalinho da chuva, porque o mar não está para peixe e vem por aí chumbo grosso. É o que parece, pelo menos... Poderei estar errado...

     Mas os nordestinos são uma raça!... Quem diria!...

     Provavelmente seja uma classificação estilo “politicamente correto” – o que não deixa de ser apenas uma expressão medrosa e não explica nada. Caso contrário, teríamos que andar com o Manual do Politicamente Correto embaixo do braço, porque as variações, classificações e conceitos a respeito tem mudado bastante. Depende sempre dos donos do poder. E você sabe que a dona do poder, hoje, é a dona Dilma e a dona Dilma é uma pessoa, como dizer, muito boa, embora um pouco exacerbada às vezes. Mas poderei estar errado.

     Cuidado ao andar pela rua! Há câmeras petistas observando tudo o que você faz. Comporte-se! Sorria.

     Principalmente, não fale mal dos nordestinos. É uma gente muito boa, com muito axé. Eles não tem culpa de terem votado em peso na Dilma. Tudo é uma questão de cultura política, de educação, de compreensão (ou não) dos fatos políticos. Nunca de interesse ou de dinheiro - o que é isso?!

     Todos sabemos que o Nordeste é a região mais pobre do Brasil, com o maior índice de analfabetismo e ignorância, que sofre com o trabalho e com a prostituição infantil, com grande aumento da criminalidade, com o inchaço da periferia das maiores cidades e com o baixo desenvolvimento econômico do interior. É a região de menor índice de desenvolvimento humano (IDH) do Brasil. E de maior sofrimento. Em muitos lugares, as pessoas moram em palafitas e comem caranguejos.

     Culpá-los do quê?

     De serem eternamente explorados pelos grandes fazendeiros, pelos usineiros, pelos coronéis? E porque essas pessoas, que detem o poder político, como os Sarney, Collor e outros, trocam favores com o povo pobre em troca de votos? E que por essa razão a Dilma aliou-se a eles para conseguir se eleger? Usando a sua miséria, a sua ignorância, as suas múltiplas necessidades?

     O povo não tem culpa de ser explorado; o povo tem culpa de ser explorado.

     Onde está a verdade?

     O povo não tem culpa porque precisa urgentemente comer e tentar sobreviver aceitando as migalhas de onde vierem.

     O povo tem culpa porque não se organiza, não se conscientiza, prefere ser eternamente subjugado e nunca faz nada por si mesmo.

     Agora mesmo, a Dilma está prometendo mundos e fundos para o Nordeste. É dando que se recebe; uma mão lava a outra. E ele, o povo pobre e ignorante, acredita. Pensa que emprego e vida melhor cai do Céu por ordem do ou da Presidente. Ou porque o padre Cícero vai ajudar. Acostumaram-se com isso. Com essa atitude passiva, crente, sempre esperando ajuda dos outros, “porque a vida é assim mesmo” –pensam.

     Uma questão de cultura. De pobreza e de miséria. De ignorância. Uma questão que eles mesmos deverão resolver um dia, quando se decidirem a abrir os olhos.

     Mas não uma questão de raça. Contem outra!

domingo, 31 de outubro de 2010

A CONSOLIDAÇÃO DO FASCISMO PETISTA - A VITÓRIA DA MENTIRA E A DERROTA DO POVO


Venceu a melhor organização da amoralidade, a total ausência de ética na política, o uso do dinheiro público, o maquiavelismo em sua mais alta e purificada forma.


     Venceu a política das alianças, dos conchavos, do apadrinhamento, dos currais eleitorais, da institucionalização da pobreza e da chantagem sobre a miséria do povo brasileiro.

     Venceu a subcultura da alienação popular, incentivada pela política de massificação, através da utilização de todos os métodos de propaganda subliminar dos meios de comunicação, que muito devem ao governo e com ele se acumpliciaram.

     Venceu a mentira, a fraude, a miséria moral, a total ausência de cultura, a política de destruição das instituições, o aparelhamento do Estado com o único objetivo de buscar o poder pelo poder.

     Venceu o novo capitalismo brasileiro, que já foi nova esquerda e agora se assume definitivamente como nova direita, aliado aos interesses das multinacionais, subserviente ao império comandado pelos Estados Unidos, aparelhando-se – agora definitivamente – para impor a sua política de desenvolvimento desenfreado aos demais países da América do Sul.

     Venceu o populismo, o sindicalismo vendido, a ausência de ideologias, a política de esmagamento dos pequenos partidos de esquerda – e a acomodação de alguns desses partidos a estruturas ultrapassadas de luta, preferindo compor-se com a coligação partidária que consideraram “menos ruim” -, a cooptação com a velha direita para fins de negócios e de lucro, a imposição de um estado totalitário baseado na ilusão dos votos.

     Perdeu o povo brasileiro.

     Mais uma vez, teremos um período de retrocesso político, marcado apenas por lutas pontuais, as lutas permitidas pelo agora todo poderoso Estado petista brasileiro – que domina sindicatos, ONGS, compra a mídia, destrói qualquer semente de nacionalismo e usa a pobreza, a ignorância e o semianalfabetismo da maioria do povo brasileiro, principalmente os bolsões de miséria e inconsciência política do Nordeste, como trampolim para a sua eternização.

     Erram os que pensam que Dilma Roussef foi escolhida por Lula e devido a seus caprichos pessoais. A organização do PT não permite tiros no escuro. Dilma foi escolhida depois de muita pesquisa sócio-política, muito estudo e muitas deliberações entre os próceres do PT.

     O PT não é o Lula. Ao contrário: o Lula é um dos produtos do PT. Também não é um partido aventureiro, feito de grupos esparsos e de caciques com interesses pessoais. Por trás de tudo isso há uma estrutura muito firme. O objetivo é o poder; o meio para alcançar esse objetivo é a utilização do povo como massa de manobra.

     Um dos pontos principais para a escolha de Dilma foi o sexo. O PT percebeu que dava certo, principalmente dentro do eleitorado feminino, uma presidente mulher. Assim como deu certo um presidente negro nos Estados Unidos e outras presidentes em outros países. Pela novidade, pelo impacto provocado nas pessoas, como se a cor ou o sexo fossem determinantes para uma boa política social. As pessoas acreditam nisso, principalmente quando são escravas inconscientes da vontade da mídia e totalmente despolitizadas.

     Com a escolha de uma candidata mulher para a presidência, o lugar comum “mulher vota em mulher” poderia ser utilizado com sucesso, como o foi, e a maior parte do eleitorado feminino já estaria conquistado antecipadamente.

     Outro detalhe importante que os donos do PT perceberam é que não seria mais necessário outro Lula demagógico como candidato. A maioria do povo pobre do Brasil já estava devidamente comprada pelo assistencialismo de programas como o “Bolsa Família” e se acostumando a ser amparada pelo Estado em sua pobreza crônica. Ao mesmo tempo em que o povo foi despolitizado, perdendo a consciência de que o único fator transformador da História é a sua própria união e luta e não viver de mesadas.

     Depois da fase demagógica do Lula, do ufanismo que levou o povo a acreditar que mudanças sociais viriam da vontade de uma única pessoa, do messianismo usado pelo PT em torno do carisma de Lula, era necessário um tecnocrata. Alguém que organizasse o Estado conquistado e o levasse a alcançar maiores vitórias dentro da política de crescimento a qualquer preço, tipicamente capitalista.

     Esses dois fatores estão em Dilma Roussef. É mulher – apesar de não ser simpática, bonita ou meramente atraente – e é uma tecnocrata. Assim como Lula, é um quadro do PT, um produto preparado e amadurecido para ser vendido satisfatoriamente, e por um ótimo preço, agora.

     Dilma também não é o PT. Por trás de Dilma e por trás de Lula está uma organização que vai além das pessoas e que as manipula.

     Lembro que houve uma época durante a ditadura militar, a época do chamado “milagre econômico”, durante a presidência do general Médici, em que aquele governo foi regido por tecnocratas. Também foi a época de pão e circo, como agora. Futebol, carnaval e muita repressão.

     O “milagre econômico” aconteceu, provocando um inchaço na economia que se transformou em inflação galopante, que não foi contida pelos demais governos militares – Geisel e Figueiredo – e que muito contribuiu para a desmoralização e queda do regime militar.

     Hoje, o PT faz o mesmo. Aposta no desenvolvimento acelerado, na política de exportação e de aumento a qualquer custo do PIB, sem se importar com o inchaço da bolha que explodirá em inflação, inevitavelmente, em um futuro próximo. É um governo que quer crescer economicamente porque precisa de dinheiro.

     É o que Dilma chamou de capitalismo de Estado: o Estado engorda, o povo é manipulado e conservado quieto através de favores e as políticas do partido centralizador do poder poderão desenvolver-se porque esse partido deterá o poder econômico quase total.

     Na verdade, não é nenhum capitalismo de Estado. Para que haja capitalismo é necessário que o Estado atue apenas como gerenciador dos ganhos dos empresários e não como dono de toda a economia. A lógica keynesiana do capitalismo é o Estado não interferir na economia. Quando o Estado é centralizador, não é capitalismo, mas fascismo – mesmo que não ostente esse nome.

     Por isso, o regime militar, na época de Médici, foi claramente fascista, derivando depois, na época de Geisel, para uma busca nacionalista. Mas, sem o apoio das forças civis e devido a fatores relacionados com a política internacional, como o fato de depender dos Estados Unidos, esgotou-se em si mesmo, na época de Figueiredo.

     Agora, repete-se a História. O governo torna-se fascista ao dominar o povo com futebol, carnaval, alienação total e mesadas. Controla as Forças Armadas, que estão satisfeitas com o acordo militar com os Estados Unidos e com o seu reaparelhamento também acelerado, o que fará o Brasil tornar-se a maior potência militar da América do Sul em poucos anos. Isso imporá um freio aos países que se desejam socialistas, como Bolívia, Equador e Venezuela, porque são Forças Armadas ligadas estreitamente à política internacional do império norte-americano.

     A diferença para o fascismo tradicional que surgiu nos anos ’30 é a total ausência de nacionalismo. O PT optou pelo fim das ideologias e o nacionalismo é uma ideologia que se impõe quando o Estado perde a comunicação com as raízes culturais do seu povo, com o que se poderia chamar de sentimento de brasilidade.

     E esse sentimento vai bem além de meras políticas sociais de contenção popular. É uma reação natural de um povo, que surge em seus diversos estratos sociais, quando há a percepção de que os seus valores mais originais - assim como a sua diversidade cultural e sua identificação com a pátria – estão sendo trocados por valores impostos por uma cultura externa. Como é o caso do atual governo brasileiro, que em tudo quer se assemelhar à cultura e à política dos Estados Unidos, porque depende da mídia - que se vendeu aos valores estadunidenses - para manter-se.

     Quando a República Velha esgotou-se em suas contradições, enlameada nas suas corrupções, surgiu o tenentismo, o movimento Pau-Brasil e a Semana de Arte Moderna – entre outras manifestações de resistência – que foram precursores da revolução de ’30 e do nacionalismo de Vargas.

     O PT, com Dilma Roussef, parte para a sua fase tecnocrata. Acredita que com o domínio do Congresso, com os petiscos que dá às Forças Armadas e com a alienação que amordaça o povo, além das inevitáveis alianças com as velhas oligarquias, poderá impor o seu estilo de governo, mesmo que sobrenadando na amoralidade da sua corrupção moral e física. Pensa que tem tudo sobre controle e que poderá fazer do território e do povo brasileiro aquilo que considerar como melhor para os seus próprios interesses.

     Mas não pode escapar do futuro nem eximir-se do julgamento da História através da demagogia de um Lula ou da voz pesada de uma Dilma.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SOBRE O MANIFESTO DOS INTELECTUAIS


Pois saiu o novo manifesto dos intelectuais. Novo, porque nas outras eleições em que o PT concorria também houveram manifestos dos intelectuais. Poetas, escritores, artistas em geral, com Chico Buarque encabeçando a lista, depois Leonardo Boff e segue a fila. Esqueci de dizer que o Manifesto dos Intelectuais é para apoiar a Dilma. Ponto.

     Maniqueísta, o Manifesto coloca a Dilma e a coligação do PT como sendo o lado do Bem e Serra e sua coligação como o lado do Mal. E por isso eles apóiam a Dilma. Resumidamente, muito resumidamente, é claro. Você terá a chance de ler o manifesto na íntegra nos sites apropriados, sites de intelectuais. Não aqui; aqui é um simples blog. É um manifesto contundente, que diz que o PT está melhorando o Brasil e que a eleição de Serra provocaria um retrocesso. Por aí... Eles devem ter razão, porque são intelectuais, e todo intelectual, pelo simples fato de ser intelectual, sempre tem razão. Óbvio.

     Mandaram-me o manifesto, esperando a minha assinatura. Tergiversei. Li todo o trololó e confesso que me senti agastado. Parecia coisa antiga, de outras épocas. Li os nomes dos manifestantes e concordei que deveriam estar ali: são os pop-stars do intelecto brasileiro, os avatares, os ícones. Além do Chico Buarque, que deveria mesmo estar em primeiro na lista, tem o Leonardo Boff, que escreve muito bem na defesa da Natureza, a Marilena Chauí – que conseguiu desideologizar a ideologia marxista, para alívio de sua consciência (mas teve a sua tese rebatida com facilidade pelo Adelmo Genro Filho) e os demais seguidores. Perfeito para o PT.

     Para um partido sem ideologia, um manifesto de intelectuais também sem ideologia combina perfeitamente. Somente estranhei a presença do Oscar Niemeyer, mas não vou assacá-lo de pequeno-burguês somente por isso. Acredito que deve ter as suas assertivas muito particulares para assinar o manifesto. Assim como todos os demais.

     Pronto, já usei todas as palavras da Dilma: tergiversar, trololó, assacar e assertiva. Com isso, penso, ela ficou sem palavras para o próximo debate, mas sempre terá um grande apoio intelectual.

     Um Manifesto de Intelectuais é algo que pesa no intelecto daqueles que se pensam intelectuais.

     Imagine só, você achar que é um intelectual e ser convidado para assinar um Manifesto de Intelectuais e... não assinar! Terrível! Todos os intelectuais olharão você com o nariz empinado – o que já fazem naturalmente, porque são intelectuais, ora... – e de cima do seu pedestal lançarão aquele olhar de desprezo eterno pelo seu intelecto. Desconfiarão da sua capacidade de intelectualizar direito, chamarão o seu cérebro de factóide (eu tinha esquecido a palavra “factóide”, que também é uma das preferidas da Dilma) e se sentirão muito, mas muito, ofendidos. Depois, passarão a desprezá-lo.

     Por essas razões, que não são poucas – e por outras que não lembro – a maioria dos intelectuais que receberem o convite para assinar o Manifesto dos Intelectuais, deverá assiná-lo. Onde já se viu um intelectual não assinar um Manifesto de Intelectuais?

     Um Manifesto de Intelectuais, no Brasil, é uma ótima maneira de angariar muitos votos. Só o fato de você receber o convite para assinar o manifesto que outros intelectuais, reconhecidamente intelectuais, escreveram já faz com que o seu intelecto se sinta engrandecido, porque, implicitamente, você estará sendo reconhecido como igual àqueles intelectuais que constam do manifesto. Você se olhará no espelho e dirá para você mesmo: eu sou um intelectual!

     Mas eu tergiverso.

     Explico, há uma grande diferença entre assinar um manifesto apoiando o Lula, na época em que ele dizia que iria mudar o Brasil e assinar um manifesto apoiando a Dilma, depois que o Lula teve oito anos para cumprir as suas promessas e o que fez foi mudar o Brasil para pior.

     O PT era o Partido dos Trabalhadores, agora é o partido do capital.

     Promove a desigualdade social, através do neo-liberalismo econômico que apenas favorece as empresas.

     O governo do PT fez uma aliança militar com os Estados Unidos no mesmo momento histórico em que muitos países da América do Sul desconfiam das intenções dos governos daquele país e fazem alianças na qual evitam incluí-lo.

     O governo Lula combate militarmente o povo nas favelas do Brasil, combate militarmente o povo nas favelas do Haiti e está modernizando as suas Forças Armadas, o que deixa os demais países vizinhos bastante apreensivos.

     O governo do PT e do Lula degradaram o ensino e a educação no Brasil.

     O governo do PT e do Lula combate os trabalhadores sem terra e apóia os latifundiários e as grandes empresas transnacionais de produtos transgênicos.

     O desmatamento no Brasil aumenta a cada ano e eles nada fazem a respeito.

     A reforma agrária não existe.

     O Lula se transformou de trabalhador indignado em capitalista demagogo. E a Dilma seguirá o mesmo caminho se for eleita.

     E muitas outras coisas, como a corrupção, por exemplo, que vocês poderão lembrar por mim.

     Há pouco, depois de receber o convite por email para participar do Manifesto dos Intelectuais, saí na sacada de minha casa e vi um homem recolhendo parte do lixo que eu coloquei na lixeira ontem à noite. Ele estava separando o que poderia ser reciclado e colocando na sua carrocinha. Por cada quilo de material reciclável ele ganha um valor ínfimo.

     Oito anos atrás, era a mesma coisa. Talvez tenha mudado apenas a pessoa, mas a miséria é a mesma.

     Inclusive, na minha cidade, Bagé, existe uma vila chamada Vila Miséria. Não tem água, esgoto ou luz elétrica. Os que moram naquela vila são os que catam coisas para comer e vestir, ou para reciclar, no lixão da cidade. Já faz mais de oito anos que Bagé tem um prefeito do PT.

     Lembrando disso e escrevendo isto eu não tergiverso mais: na Dilma eu não voto. Dilma nem pensar! Prefiro anular o meu voto.

     Eu não tenho apenas intelecto. Também tenho corpo, e sei das suas necessidades, assim como todos. E não posso ignorar que as pessoas estão passando fome e se sentindo derrotadas pelo sistema vil que as joga para o último plano da existência e do qual o PT é cada vez mais cúmplice. E tenho a minha vida espiritual, que não aceita que a maioria das pessoas seja impedida de crescer interiormente. E tenho consciência.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

ENQUANTO ELES BRIGAM


Enquanto eles brigam através dos jornais, revistas e canais de televisão, e fazem passeatas e discursos e escrevem manifestos e panfletos... O que faz o povo?

     Afinal, toda essa briga é para atrair a atenção do povo trabalhador, daqueles que verdadeiramente trabalham neste país – e que constroem o Brasil a cada dia, com a sua força, as suas dúvidas e inquietações e a herdada angústia de gerações de trabalhadores que acreditaram que teriam um dia, a igualdade social – mesmo que essa igualdade se realizasse em suas imaginações na forma de um terreninho para construir uma casa própria e plantar uma horta -, quem sabe, e quem sabe um mínimo de impostos para poderem sobreviver, de verdade, com o salário que seria justo, enfim, e a talvez possibilidade de poderem educar filhos sadios que teriam uma boa escolaridade e poderiam desenvolver as suas inteligências e com elas contribuírem alguma coisa para tornar mais visível em termos de igualdade social a terra onde eles gostariam de morar sem tanto desespero...

     Enquanto eles brigam, o povo quebra pedras.

     Aqueles do povo que foram sorteados com um emprego de meio salário mínimo, quebram pedras, arrumam ruas, consertam os esgotos e se conservam quietos e contidos em suas ocupações diárias, porque lhes é dito, diariamente, pelo infernal poder da televisão que todos tem – e é só o que todos que tem emprego tem – que a vida vai mudar logo após as próximas eleições.

     E fingem acreditar. Preferem acreditar que será assim, porque recebem múltiplas promessas, todos os dias, a cada hora de cada dia, dos engravatados e sorridentes cândidos candidatos e das bem arrumadas e perfumadas candidatas. E acreditam que um deles – aquele ou aquela que for eleito(a) presidente, ou presidenta desta república de todos os banqueiros e agiotas, estenderá os braços para a salvação de todos.

     Sabem no íntimo, que não será assim, mas preferem acreditar. E sabem que se não apoiarem um ou outro, com os seus votos e os seus sorrisos beatíficos de eternos subordinados, poderá ser bem pior, porque não acreditam em sua própria força e união, preferindo a compaixão da pouca miséria e das migalhas espargidas daqueles que pensam que são os escolhidos por um deus maquiavélico.

     E ainda abaixo desses que aceitam a submissão aos que tem dinheiro e poder e preferem ser ajudados, porque desconhecem a força da união, ainda abaixo deles existem aqueles milhões de desempregados, que nem meio salário tem para a sobrevivência de todos os dias e que vivem de catar lixo, entre os urubus e as fétidas fezes que unem a todos.

     Já não tem nem a força para o suicídio e sobrevivem quase que inconscientemente, em um dia-a-dia nebular, feito de escuros sonhos e poucas palavras, que se confunde com as noites que os arrastam para os cantos das calçadas, onde se cobrem de papelão e rezam para um deus muito distante pedindo para não mais acordarem.

     São os que não votam nem esperam mais nada. E a eles nada é prometido por nenhum candidato, porque já são contados como mortos que apenas entulham as ruas e calçadas e os caridosos das associações de benemerência chamam a eles de “moradores de rua”, como se eles fossem a escória da total miséria, e lhes dão o pão mofado do supremo escárnio.

     Enquanto eles brigam... Eles, os que se revezam no poder - que usam como definitiva arma para prorrogar a pobreza, a miséria e alimentar a sua própria crueldade – nas favelas, nos morros, e nos lugares que não são morros, mas também são favelas, aqueles que já perderam a esperança e que tem o Estado como inimigo, armam-se.

     Muitos são traficantes – os que alimentam os vícios dos filhos dos donos do poder e com ele compactuam - porque formam parte do mesmo sistema podre que necessita dos seus serviços para que possa sobreviver em seus lúdicos paraísos.

     Mas a grande maioria resiste por defesa própria, sem qualquer ideologia ou outra necessidade que não seja a de preservar a própria vida, que sabem que será curta, porque a qualquer momento podem surgir assassinos fardados e armados, que tem o único trabalho de prender e de matar – tentáculos do mesmo poder que os nutre e preserva, inconscientes e imbecilizados. Votam por obrigação, da mesma forma que os grandes rebanhos das cidades, formados por aqueles que ainda não estão favelizados.

     E mais além - enquanto eles brigam e dividem o poder e fazem acordos e se embrutecem na sua megalomania – em lugares distantes, talvez, ou até muito próximos, tão próximos que não podemos ver ou suspeitar, restam os conscientes, os que vêem o que realmente acontece e que sabem que este tipo de voto, de eleição, é apenas mais uma maneira de enganar, de fingir democracia, e se organizam e se preparam e se armam com enxadas e foices e sementes. Estes votam em si mesmos.
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