Mostrando postagens com marcador ALIENAÇÃO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ALIENAÇÃO. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de novembro de 2010

MAS NÃO FOI PÊNALTI?



- Zé Distêves!

- Quié, Zé Maria?

- Você viu o jornal, hoje?

- Na Globo? Claro. Quem não vê, Zé Maria?

- E você não viu o horror lá no Haiti? Além do terremoto, agora tem a doença do cólera!

- Que coisa, né, Zé Maria? Até parece que aquele povo tá enmandigado! Vôte!

- E você não viu que o mundo tá virano, que caiu pedra lá no sul, tsunami lá na Ásia, onde também teve vulcão e tão preparano guerra pra atacá o tal de Irão?

- Eita! Que mundo loco!

- E você aí nessa rede, balançando o pitoco. Não se manca, não tem pena do povo que ta sofreno? Não percebe a relevância de tanta notícia peba?

- Percebo em primeira instância, meu cumpadre Zé Maria. E não to cego nem mouco, apenas descanso um pouco, que as costas tão melindradas e o corpo qué água de coco.

- Mas sempre assim, Zé Distêves? Descansano pra dormir e dormino pra descansá?

- É que não sou loco-doido de ficá a vida inteira trabaiando sem pará... Eu também tenho direito de feriá e de cismá.

- E inda que mal pergunte: quanta cisma sai da rede onde tu tá?

- E é você que me pergunta? Está querendo mangá? Penso no acontecido naquele jogo de lá. Isso sim é relevante! Isso sim é pra pensá!

- Mas que jogo, Zé Distêves? Não consigo acompanhá...

- Mas tu não viu o fuxico que quase vira pipôco? No jogo lá do Coríntia, o pênal lá no Ronaldo. Uns dizem que acertaro, outros que foi jogo roubado.

- Arre égua! É verdade! Quem manda bulir com o fenômo? Não pode, né Zé Distêves? Mas, pra mim, foi só encontrão. Corpo com corpo e mais nada, no mesmo espaço de chão.

- Mas eu acho que foi pênal. Até a Globo afirmou.

- É tudo arenga pequena. Olha só a gente pobre que não tem o que comer. Isso sim é que dá pena!

- Mas o Ronaldo, coitado, caiu de bruços, deitado.

- Será que não tava cansado?

- Não sei mais o que pensá... Por isso fico cismando... Já viu se o juiz não dá?

- E o mundo ia virá, meu cumpadre Zé Distêves? A fome ia acabá? A tristeza ia passá? O juiz ia pená? Isso é coisa que interesse pra quem não tem o que chegue? Pra quem tem fome e sede?

- Talvez sim e talvez não. Não lhe posso afirmá. Quanto aos famintos tem Deus e padim Ciço a ajudá.

- E ajuda, Zé Distêves? Já vi gente falecer a rezar e a chorar. E na hora mais amarga não vi Deus descer do Céu.

- Não seja réu de pecado, meu cumpadre Zé Maria! Deus é bom e sempre ajuda, mesmo quando não se vê!

- Talvez, Zé Distêves, talvez... O triste mesmo é a cegueira, esta cegueira que insiste em não deixar tu enxergar.

- Mas eu vejo, Zé Maria. Tanto vejo que garanto: foi pênal lá no Ronaldo. Pixototinho, mas foi.

- Meu cumpadre Zé Distêves, uma coisa eu te garanto: se foi ou não foi o tal pênal não é para grande espanto. Levanta e olha pros lados, além da rede e da casa... Desliga a TV e pensa se vale a pena esperar sem nada fazer ou dar da vida que lhe foi dada.

- Muito bonito o que diz, meu cumpadre Zé Maria. Mas me responda de vez: foi pênal ou não foi pênal?

domingo, 31 de outubro de 2010

A CONSOLIDAÇÃO DO FASCISMO PETISTA - A VITÓRIA DA MENTIRA E A DERROTA DO POVO


Venceu a melhor organização da amoralidade, a total ausência de ética na política, o uso do dinheiro público, o maquiavelismo em sua mais alta e purificada forma.


     Venceu a política das alianças, dos conchavos, do apadrinhamento, dos currais eleitorais, da institucionalização da pobreza e da chantagem sobre a miséria do povo brasileiro.

     Venceu a subcultura da alienação popular, incentivada pela política de massificação, através da utilização de todos os métodos de propaganda subliminar dos meios de comunicação, que muito devem ao governo e com ele se acumpliciaram.

     Venceu a mentira, a fraude, a miséria moral, a total ausência de cultura, a política de destruição das instituições, o aparelhamento do Estado com o único objetivo de buscar o poder pelo poder.

     Venceu o novo capitalismo brasileiro, que já foi nova esquerda e agora se assume definitivamente como nova direita, aliado aos interesses das multinacionais, subserviente ao império comandado pelos Estados Unidos, aparelhando-se – agora definitivamente – para impor a sua política de desenvolvimento desenfreado aos demais países da América do Sul.

     Venceu o populismo, o sindicalismo vendido, a ausência de ideologias, a política de esmagamento dos pequenos partidos de esquerda – e a acomodação de alguns desses partidos a estruturas ultrapassadas de luta, preferindo compor-se com a coligação partidária que consideraram “menos ruim” -, a cooptação com a velha direita para fins de negócios e de lucro, a imposição de um estado totalitário baseado na ilusão dos votos.

     Perdeu o povo brasileiro.

     Mais uma vez, teremos um período de retrocesso político, marcado apenas por lutas pontuais, as lutas permitidas pelo agora todo poderoso Estado petista brasileiro – que domina sindicatos, ONGS, compra a mídia, destrói qualquer semente de nacionalismo e usa a pobreza, a ignorância e o semianalfabetismo da maioria do povo brasileiro, principalmente os bolsões de miséria e inconsciência política do Nordeste, como trampolim para a sua eternização.

     Erram os que pensam que Dilma Roussef foi escolhida por Lula e devido a seus caprichos pessoais. A organização do PT não permite tiros no escuro. Dilma foi escolhida depois de muita pesquisa sócio-política, muito estudo e muitas deliberações entre os próceres do PT.

     O PT não é o Lula. Ao contrário: o Lula é um dos produtos do PT. Também não é um partido aventureiro, feito de grupos esparsos e de caciques com interesses pessoais. Por trás de tudo isso há uma estrutura muito firme. O objetivo é o poder; o meio para alcançar esse objetivo é a utilização do povo como massa de manobra.

     Um dos pontos principais para a escolha de Dilma foi o sexo. O PT percebeu que dava certo, principalmente dentro do eleitorado feminino, uma presidente mulher. Assim como deu certo um presidente negro nos Estados Unidos e outras presidentes em outros países. Pela novidade, pelo impacto provocado nas pessoas, como se a cor ou o sexo fossem determinantes para uma boa política social. As pessoas acreditam nisso, principalmente quando são escravas inconscientes da vontade da mídia e totalmente despolitizadas.

     Com a escolha de uma candidata mulher para a presidência, o lugar comum “mulher vota em mulher” poderia ser utilizado com sucesso, como o foi, e a maior parte do eleitorado feminino já estaria conquistado antecipadamente.

     Outro detalhe importante que os donos do PT perceberam é que não seria mais necessário outro Lula demagógico como candidato. A maioria do povo pobre do Brasil já estava devidamente comprada pelo assistencialismo de programas como o “Bolsa Família” e se acostumando a ser amparada pelo Estado em sua pobreza crônica. Ao mesmo tempo em que o povo foi despolitizado, perdendo a consciência de que o único fator transformador da História é a sua própria união e luta e não viver de mesadas.

     Depois da fase demagógica do Lula, do ufanismo que levou o povo a acreditar que mudanças sociais viriam da vontade de uma única pessoa, do messianismo usado pelo PT em torno do carisma de Lula, era necessário um tecnocrata. Alguém que organizasse o Estado conquistado e o levasse a alcançar maiores vitórias dentro da política de crescimento a qualquer preço, tipicamente capitalista.

     Esses dois fatores estão em Dilma Roussef. É mulher – apesar de não ser simpática, bonita ou meramente atraente – e é uma tecnocrata. Assim como Lula, é um quadro do PT, um produto preparado e amadurecido para ser vendido satisfatoriamente, e por um ótimo preço, agora.

     Dilma também não é o PT. Por trás de Dilma e por trás de Lula está uma organização que vai além das pessoas e que as manipula.

     Lembro que houve uma época durante a ditadura militar, a época do chamado “milagre econômico”, durante a presidência do general Médici, em que aquele governo foi regido por tecnocratas. Também foi a época de pão e circo, como agora. Futebol, carnaval e muita repressão.

     O “milagre econômico” aconteceu, provocando um inchaço na economia que se transformou em inflação galopante, que não foi contida pelos demais governos militares – Geisel e Figueiredo – e que muito contribuiu para a desmoralização e queda do regime militar.

     Hoje, o PT faz o mesmo. Aposta no desenvolvimento acelerado, na política de exportação e de aumento a qualquer custo do PIB, sem se importar com o inchaço da bolha que explodirá em inflação, inevitavelmente, em um futuro próximo. É um governo que quer crescer economicamente porque precisa de dinheiro.

     É o que Dilma chamou de capitalismo de Estado: o Estado engorda, o povo é manipulado e conservado quieto através de favores e as políticas do partido centralizador do poder poderão desenvolver-se porque esse partido deterá o poder econômico quase total.

     Na verdade, não é nenhum capitalismo de Estado. Para que haja capitalismo é necessário que o Estado atue apenas como gerenciador dos ganhos dos empresários e não como dono de toda a economia. A lógica keynesiana do capitalismo é o Estado não interferir na economia. Quando o Estado é centralizador, não é capitalismo, mas fascismo – mesmo que não ostente esse nome.

     Por isso, o regime militar, na época de Médici, foi claramente fascista, derivando depois, na época de Geisel, para uma busca nacionalista. Mas, sem o apoio das forças civis e devido a fatores relacionados com a política internacional, como o fato de depender dos Estados Unidos, esgotou-se em si mesmo, na época de Figueiredo.

     Agora, repete-se a História. O governo torna-se fascista ao dominar o povo com futebol, carnaval, alienação total e mesadas. Controla as Forças Armadas, que estão satisfeitas com o acordo militar com os Estados Unidos e com o seu reaparelhamento também acelerado, o que fará o Brasil tornar-se a maior potência militar da América do Sul em poucos anos. Isso imporá um freio aos países que se desejam socialistas, como Bolívia, Equador e Venezuela, porque são Forças Armadas ligadas estreitamente à política internacional do império norte-americano.

     A diferença para o fascismo tradicional que surgiu nos anos ’30 é a total ausência de nacionalismo. O PT optou pelo fim das ideologias e o nacionalismo é uma ideologia que se impõe quando o Estado perde a comunicação com as raízes culturais do seu povo, com o que se poderia chamar de sentimento de brasilidade.

     E esse sentimento vai bem além de meras políticas sociais de contenção popular. É uma reação natural de um povo, que surge em seus diversos estratos sociais, quando há a percepção de que os seus valores mais originais - assim como a sua diversidade cultural e sua identificação com a pátria – estão sendo trocados por valores impostos por uma cultura externa. Como é o caso do atual governo brasileiro, que em tudo quer se assemelhar à cultura e à política dos Estados Unidos, porque depende da mídia - que se vendeu aos valores estadunidenses - para manter-se.

     Quando a República Velha esgotou-se em suas contradições, enlameada nas suas corrupções, surgiu o tenentismo, o movimento Pau-Brasil e a Semana de Arte Moderna – entre outras manifestações de resistência – que foram precursores da revolução de ’30 e do nacionalismo de Vargas.

     O PT, com Dilma Roussef, parte para a sua fase tecnocrata. Acredita que com o domínio do Congresso, com os petiscos que dá às Forças Armadas e com a alienação que amordaça o povo, além das inevitáveis alianças com as velhas oligarquias, poderá impor o seu estilo de governo, mesmo que sobrenadando na amoralidade da sua corrupção moral e física. Pensa que tem tudo sobre controle e que poderá fazer do território e do povo brasileiro aquilo que considerar como melhor para os seus próprios interesses.

     Mas não pode escapar do futuro nem eximir-se do julgamento da História através da demagogia de um Lula ou da voz pesada de uma Dilma.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

VANDRÉ E OUTRAS FUGAS


“O terreiro lá de casa/Não se varre com vassoura/Varre com ponta de sabre/Bala de metralhadora (...)” (Geraldo Vandré).

     E outras tantas músicas com letras que eram consideradas revolucionárias na época, como “Caminhando” ou “Pra não dizer que não falei das flores”, que diz assim em alguns versos: “Nos quartéis nos ensinam/Antigas lições/De morrer pela pátria/E viver sem razão (...)”. Ou alguns versos de “Disparada”: “Se você não concordar/Não posso me desculpar/Não canto pra enganar/Vou pegar minha viola/Vou deixar você de lado/Vou cantar noutro lugar”.

     Na entrevista concedida ao repórter Geneton Moraes Neto no dia em que completava 75 anos de idade, ele diz que nunca foi antimilitarista. Fica difícil acreditar. As idéias evoluem, as pessoas mudam, mas a história pessoal fica. Exilou-se em 1968, mas voltou em 1973 – o que é estranho. Não haveria razão para voltar naquela época de grande repressão no Brasil, sem o risco de ser preso, torturado e até morto.

     Era o momento da Guerrilha do Araguaia, que terminou em 1974 com a morte da grande maioria dos guerrilheiros. Mais de cinqüenta ainda estão “desaparecidos”. Só não foram mortos aqueles que se entregaram no início das operações militares e que, devido à tortura ou a outras maneiras de intimidação, entregaram muitos companheiros – pontos em que estariam localizados e códigos que utilizariam.

     Foi quando houve a cisão no PCB, surgindo, então, o PC do B que, na época era um partido socialista e foi o mentor da guerrilha. Não confundir com o PC do B de hoje que é apenas um partido acomodado na base política do lulismo e que finge ser socialista.

     Ao contrário do PCB, que não acreditava em qualquer tipo de guerrilha contra um governo militarizado naquele momento, o PC do B pregou a teoria do “foquismo”: incrementar diversos focos de guerrilha no país, acreditando que o governo não teria condições de combater a todos eles. Mas só houve a guerrilha do Araguaia, entre fins da década de ‘60 e a primeira metade da década de ‘70. A partir de 1972 o Exército cercou a região do chamado Bico do Papagaio - às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo e Marabá no Pará e de Xambioá, no norte de Goiás (região onde atualmente é o norte do Estado de Tocantins) – e massacrou os guerrilheiros, que eram profissionais liberais e estudantes universitários, sem nenhuma prática militar, que acreditavam em um Brasil socialista e eram impulsionados em seus ideais pelos poucos livros sobre marxismo que conseguiam e pelas canções de protesto dos festivais.

     Em 1965 – e até 1985 - tinha surgido o Festival de Música Popular Brasileira - um gênero de programa, competitivo e musical, apresentado por várias emissoras de televisão brasileiras (TV Excelsior, TV Record, TV Rio, Rede Globo). Além disso, de 1966 a 1972 houveram sete festivais da canção. Eram patrocinados pela TV Globo e TV Rio e divididos em duas fases: a nacional, para escolher a melhor canção brasileira, e a internacional, para eleger a melhor canção de todos os países participantes — a concorrente brasileira era a vencedora da fase nacional. O prêmio era o Galo de Ouro, desenhado por Ziraldo.

     A ideia era promover o ufanismo patriótico.

     Durante o regime militar instaurado pelo movimento político-militar de 1964, o governo passou a usar de propaganda ufanista para conseguir a simpatia do povo e induzi-lo a uma sensação de otimismo generalizado, visando esconder os problemas do regime. Surgiram, então, os lemas e as músicas de apoio ao governo. As pessoas (principalmente as crianças) eram incentivadas a usar adesivos como "Brasil: Ame-o ou deixe-o!" nas janelas dos automóveis, de casa etc.

     Pouco faltava para que fosse o fascismo declarado e a ideia dos festivais da canção estava dentro daquele contexto. Com a desculpa de favorecer os jovens talentos da nossa música, pretendia-se mostrar ao mundo que o Brasil era uma espécie de oásis onde todos viviam felizes e agradecidos pelo regime que tinham.

     E surgiram excelentes cantores e ótimas músicas. Mas, à medida que se sucediam os festivais da canção, o regime militar percebeu que também eram ótimas oportunidades para as canções de protesto, com um público formado, em sua grande maioria, por estudantes que conheciam a verdadeira realidade nacional.

     Geraldo Vandré foi um dos nomes principais dos festivais da canção. Músicas como “Porta-Estandarte”, “Disparada”, “Caminhando”, “O Cavaleiro”, “Aroeira”, ficaram gravadas na memoria artística brasileira como algumas obras-primas do grande poeta e cantor. Mas, em 1968, pouco depois do Ato Institucional número 5, que tirava todas as liberdades dos cidadãos brasileiros, todos os que diziam “não” ao regime militar passaram a ser perseguidos, presos, torturados e, em muitos casos, assassinados.

     No meio musical e artístico houve uma série de prisões, ao mesmo tempo em que se descobria que alguns músicos, como Simonal, eram infiltrados pela polícia secreta do regime, na tentativa de descobrir os “comunistas”. Bateu a paranóia, todos era suspeitos. Até Caetano e Gil, sinônimos de alienação política, foram presos. Por pouco tempo, depois foram libertados e tiveram tempo para fazer um grande show no Rio antes de partirem para o “exílio”. Só não prenderam Roberto Carlos e a turma da Jovem Guarda porque seria o mesmo que prenderem aquele tipo de cultura musical promovida pelo próprio sistema politico vigente. Chico Buarque não foi preso porque tinha boas referências na sociedade, mas teve que aguentar uma censura prévia constante.

     Censura também nos jornais, nas revistas, nas rádios, na televisão. De tal maneira, que os jornalistas aprenderam a se auto-censurarem. Já sabiam o que poderia e o que não poderia ser escrito. Para continuar com os seus empregos, censuravam o próprio pensamento, e foram se acostumando a isso. Hoje é moda. O regime ditatorial foi substituído pela ditadura das grandes empresas de comunicação, que só empregam aqueles jornalistas que são somente técnicos e se negam a ter outras ideias que não as dos próprios chefes.

     Vandré não perdeu tempo. Partiu para o Chile e, de lá, para a França. Voltou ao Brasil em 1973.

     Além da guerrilha do Araguaia e da anterior malograda tentativa de guerrilha na serra de Caparaó, a teoria da guerrilha urbana ganhou força, logo após o AI-5. Já que toda a esquerda estava sendo perseguida, por que não morrer lutando? Esta era a idéia, que depois foi chamada de “suicida”, mas proliferaram os grupos armados: Ação Libertadora Nacional, MR-8, VAR-Palmares, POLOP, AP, VPR, PCBR, COLINA. Cada um deles com diferentes lideranças e com concepções teóricas diferentes dentro de uma mesma base marxista, mas com uma característica especial muito semelhante: eram grupos armados formados, em sua maioria, por jovens oriundos da classe média e não pelo povo ou pelo proletariado.

     Mesmo se dizendo marxistas, não percebiam, ou não queriam perceber que a revolução proletária depende de determinadas características específicas do momento histórico de cada nação e deve ser feita sempre... pelo proletariado. Uma revolução feita pela classe média e entregue, depois, ao povo, não é uma revolução, mas um golpe armado. Morreram muitos; muitos foram torturados e uma minoria conseguiu fugir do país.

     Vandré tinha fugido muito antes, em 1968. E tinha voltado quando ainda havia luta armada no Brasil: em 1973. Depois sumiu. E com o seu sumiço surgiram duas lendas a seu respeito. A primeira, mais difundida, a de que fora preso, torturado, castrado e, consequentemente enlouquecido. A segunda, de que fizera acordo com os órgãos de repressão na sua volta e, para tanto compusera "Fabiana" – um hino em homenagem à Força Aérea Brasileira. Nenhuma das duas versões tem respaldo nas declarações de Vandré, porque nos poucos momentos que concedeu entrevista, negou que fora preso, e alegou que simplesmente abandonara o país pela perseguição que sofria. Confessa o seu amor pela FAB, o que é muito natural, mas fica estranho naquele Geraldo Vandré dos anos ’60.

     Mas teve a sorte de não participar daquele movimento que uniu todas aquelas organizações políticas - que se diziam de esquerda e fizeram a luta armada - em um único movimento político, que já foi clandestino, chamado de “Nova Esquerda”, que formou a base do PT dos anos ’80 e o transformou no partido aliado do capital no século 21.

     Talvez Vandré, com o seu misto de louco, poeta e profeta, tenha entrevisto, em alguma janela do seu cérebro, naquele tempo, esta possibilidade de “recuo estratégico” – demasiado recuo e pouca estratégia – daquela esquerda que tentou ser revolucionária. E preferido encolher-se na pura magia da poesia sem eco.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...