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quarta-feira, 8 de junho de 2011

PELA PORTA DOS FUNDOS


Palocci saiu pela porta dos fundos, correndo, esfogueado, não porque tenha perdido o apoio da famosa base aliada ou por qualquer outra razão apontada na famosa mídia que nada informa, mas para fugir de uma investigação parlamentar cada vez mais próxima. Como ministro, seria obrigado a dar explicações detalhadas sobre o milionário aumento do seu patrimônio; como ex-ministro, no máximo poderá ser convidado a dar as mesmas explicações. E recusará.

     Palocci fugiu pela porta dos fundos do poder para poder, quem sabe, em próxima época de amnésia política, voltar ao poder que o aconchega e releva suas faltas, porque o poder não é ético ou não seria poder. E as pessoas que dominam no atual Brasil não tem a ética na política como principal preceito moral. Ao contrário: acreditam que o poder é a força em si mesmo e quem o detém não poderá ser jamais questionado se tiver os votos do povo a seu favor, mesmo que a maioria do povo seja constituída de pessoas com incapacidade de raciocínio lógico, ou por pessoas que prostituem o seu voto devido à fome, à miséria, à educação que deseduca e a todas as mazelas sociais que o poder perpetua para continuar sendo poder.

     Palocci fugiu pela porta dos fundos não por desejo próprio ou por acesso súbito de elevada moral. No dia 7/06, quando decidiu sair correndo, uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) proposta pela oposição tomava corpo e faltavam apenas sete assinaturas para que a Comissão fosse instalada no Senado. Membros da estereotipada base aliada já estavam assinando e em questão de minutos ou de poucas horas Palocci não poderia mais escapar à CPI. E teria de dizer a verdade sobre o seu enriquecimento gigantesco, o que, muito provavelmente iria provocar grandes dores de cabeça para a dona Dilma.

     A oposição detectou que a empresa WTorre, para quem Palocci tinha prestado consultoria, através da sua empresa Projeto, teria feito uma bela doação de campanha para a então candidata do PT. No mesmo período em que a empresa de Palocci ganhou mais de 10 milhões de reais – durante os últimos dois meses de 2010, novembro e dezembro, quando o então deputado Palocci era o líder da equipe de transição da eleita presidente Dilma.

     A WTorre Engenharia e Construções S. A. é uma grande empresa de engenharia, uma das maiores do Brasil, senão a maior, e está encarregada, no atual governo, de diversos empreendimentos. Um deles é a construção do estádio do Corinthians, o Itaquerão, onde será feita a abertura da Copa do Mundo de 2014. Também está construindo a Arena Palestra Itália, futuro estádio do Palmeiras, entre outros grandes empreendimentos. Na época a empresa recebeu uma restituição da Receita Federal no valor de nove milhões de reais e repassou dois milhões para a campanha de Dilma Roussef.

     Palocci saiu correndo antes de ser chamado para depor na CPI, porque teria de dar muitas explicações. Uma delas seria como aumentou o seu patrimônio em 20 vezes em apenas cinco anos. E nesse “como” ele teria de dizer para quem passou informações confidenciais – “consultoria” -, quais foram as informações prestadas e quanto recebeu cada vez que foi consultado. Consultado por empresários dos mais diversos setores, principalmente durante o período de transição do governo Lula para o governo Dilma, quando recebeu mais de 10 milhões por suas informações privilegiadas.

     E Dilma seria respingada, o seu belo vestido branco da posse ficaria um pouco sujo, porque é provável que, além da WTorre, outras empresas que teriam consultado Palocci também tenham contribuído para a campanha da atual presidente. Uma troca de favores.

     Palocci saiu pela porta dos fundos para não ser obrigado a informar à CPI, que estava sendo formada no dia em que ele pediu demissão, quais as empresas que tinham favorecido Dilma (e ele) e como essas empresas teriam sido favorecidas pelo poder. Quem teria ganhado, de que forma e o que.

     Então Palocci saiu correndo, esbaforido pediu demissão do seu cargo, para conservar o crédito e os clientes.

     O governo faz de conta que nada aconteceu, os supostos opositores fingem que vão esmiuçar o caso, o Congresso promete trabalhar, fala-se em democracia enquanto o povo reclama que não gostou muito da coisa, e conspira-se nos bastidores. Como sempre. Qualquer dia Palocci reaparece. Ninguém levou xeque-mate e o resto é quase silêncio.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

ELES PALOCCI E NÓIS PALÉCI PALHACI


Nada como um título que lembre a novilíngua que o MEC está tentando introduzir nas escolas. Em seu livro “1984”, George Orwell previa um Estado ditatorial impondo inclusive uma nova língua ao povo - a novilíngua – caracterizada não por novas palavras mas pela "condensação" e "remoção" delas ou de alguns de seus sentidos, com o objetivo de restringir o escopo do pensamento. Quem não raciocina, não fala. Ou somente fala o necessário, em acordo com o seu parco raciocínio. A tentativa de “blindagem” que o governo está fazendo em torno do Palocci lembra muito a novilíngua na prática: se nada for dito o caso não existirá e as pessoas esquecerão.

     O ministro Antônio Palocci (Casa Civil) já estava nomeado para chefiar o chamado governo de transição, após a eleição presidencial, inclusive recebendo salários de R$ 11.179,00, quando sua empresa Projeto faturou R$ 10 milhões, nos últimos dois meses de 2010. A nomeação dos integrantes da equipe de transição foi publicada no Diário Oficial da União. A equipe recebeu verba de R$ 2,8 milhões, prevista em lei.

     Com dados obtidos no sistema que registra os pagamentos feitos pelo governo federal, o PSDB apontou uma triangulação entre a liberação de recursos da Receita Federal para a empresa WTorre, para a qual o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, prestou consultoria, e a doação de campanha para a então candidata Dilma Rousseff. O partido levanta essa suspeita com base nas datas de pagamento. A oposição recorreu ao Ministério Público na semana passada pedindo investigação de suposta prática de crime do ministro com base no crescimento de seu patrimônio pessoal e apuração de suposto tráfico de influência.

     A WTorre protocolou, em 2009, um pedido de restituição de crédito de R$ 6.259.531, referente ao Imposto de Renda de Pessoa Jurídica (IRPJ) de 2007. O processo ficou parado até véspera das eleições do ano passado, quando a empresa protocolou novo pedido de crédito, no valor de R$ 2.920.770, referente ao IRPJ de 2008. No mesmo dia em que a WTorre entrou com o segundo pedido, dia 24 de agosto de 2010, a empresa fez uma doação de R$ 1 milhão ao comitê financeiro nacional do PT para Presidente da República. O mesmo valor de doação foi repetido 17 dias depois, em 10 de setembro.

     Notícia na Internet:

     Governo prepara-se para "guerra política" no caso Palocci

     (Por Jeferson Ribeiro. Reuters – seg, 23 de mai de 2011.)

     "BRASÍLIA (Reuters) - O governo está convencido que não pode dar margem a novos ataques contra o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, e considera que a oposição partiu para "uma guerra política" contra o governo da presidente Dilma Rousseff, segundo o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho.

     "Na avaliação do ministro, a presidente estava ciente de que em algum momento a oposição "trabalharia para desestabilizar o governo". Palocci, ministro mais influente no governo Dilma, virou o principal alvo depois de publicação de reportagens sobre seu aumento patrimonial por meio de sua empresa, a consultoria Projeto.

     "O ministro Gilberto Carvalho admitiu que as denúncias publicadas na imprensa sobre o enriquecimento de Palocci e a atuação de sua consultoria "atrapalham o andamento do governo" (...)

     Algumas reações:

     • Silvio :

     "Palloci é quem deveria ser o Presidente do Brasil. Ô homem inteligente, em tão pouco tempo multiplicou por 20 seu patrimônio! O que não faria pelo Brasil?!?! O mais incrivel é que isso não abala o povão, que ainda acredita nesse governo. Num governo que desde o começo governou para os seus correligionarios e amigos. Ao povo plantou a semente do orgulho em ser miserável e em troca deu auxilio isso, auxilio aquilo e o camarada que nunca teve um carro agora pode comprar um popular em 60 vezes. Povo bom é povo manipulado e nisso o Brasileiro se mostrou expert, guardando-se as devidas proporções é claro. E toda essa farra é com o seu e o meu Dinheiro!!!"

     • Elismar:

     "Que cara inteligente! Multiplica tanto em tão pouco tempo. Deve ser até professor do Eike Batista, Ermirio de Morais, etc. E ainda tem gente que defende. Se eu não devesse nada e me acusassem, entregaria até o extrato bancário. Enxerga Brasil."

     E mais de 400 comentários no mesmo estilo.

     Outra notícia:

     “Líderes partidários participaram de café com Lula na casa de José Sarney. ‘Se depender de nós, Palocci não será convocado e nem haverá CPI’, disse. (Lula)”

     Agora o Lula toma café da manhã com o Sarney. Junto estava Romero Jucá, acusado de envolvimento com o mensalão e quer prorrogar o prazo para que os latifundiários que desmataram tenham a sua multa perdoada.

     “Além de Jucá e Sarney, participaram da conversa com Lula o vice-presidente da República, Michel Temer, e os líderes Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), Gim Argelo (PTB-DF), Renan Calheiros (PMDB-AL), Francisco Dornelles (PP-RJ), Humberto Costa (PT-PE), Acir Gurgacz (PDT-RO), Magno Malta (PR-ES) e Marcelo Crivella (PRB-RJ).”

     Olhem só a turma. Só faltou o Maluf. Mas o Maluf já tinha se pronunciado a respeito do Palocci. Parece que são muito amigos:

     “Deputado, que chegou a ser preso em 2005 sob acusação de lavagem de dinheiro, diz confiar 'plenamente' em Palocci”.

     "(...)Pessoalmente, confio plenamente na integridade do ministro Palocci", disse ao chegar para a convenção estadual de seu partido, ontem em São Paulo. A opinião foi compartilhada pelo presidente nacional da legenda, senador Francisco Dornelles (RJ), que o acompanhava. (...)” (Matéria de Suzana Inhesta - O Estado de S.Paulo).

     Falta alguém entre os defensores da corruptalha? Talvez o próprio Palocci.

     Enquanto isso, os deputados, inclusive o Tiririca, aprovaram o novo Código Florestal, que só favorece o desmatamento e o latifúndio. Agora é a vez do Senado fazer o mesmo, porque as pessoas não só se corrompem e corrompem os demais como corrompem a terra onde pisam. Este é o Brasil da politicagem acelerada.

     Até os que não pareciam corruptos mostram a sua cara incorruptível. O Ministério da Cultura – agora defendido por todos aqueles sérios intelectuais – tem em Ana de Hollanda um triste exemplo para o que se pode fazer sob o favor da lei. A lei Rouanet deu 1,3 milhão para a Maria Bethânia fazer um blog, sendo que 600 mil somente para a cantora. Mas não foi só a Bethânia.

     A mesma lei Rouanet, ou talvez outra lei – mas tudo dentro da legalidade, porque corrupção é uma coisa legal no Brasil – favoreceu a sobrinha da ministra, a cantora Bebel Gilberto – filha de Miúcha e de Gilberto Gil - com 1,9 milhão para uma turnê e gravação de um DVD. Um dos primeiros atos, senão o primeiro, da ministra irmã do Chico Buarque. Chico Buarque que lutava tanto contra a ditadura, mas jogava futebol com ditadores - por uma questão de mera diplomacia.

     A mesma ministra da Cultura - irmã do Chico Buarque e da Miúcha e tia da Bebel Gilberto - que recebeu diárias para passar fins de semana no Rio de Janeiro, onde tem residência fixa e está sendo cobrada pela Controladoria Geral da União. E a ministra diz que tudo isso são “turbulências forjadas”. Ou influência do meio.

     Turbulências. O amor é turbulento, a vida é turbulenta, mas quando se mexe com o dinheiro do povo a coisa fica mais turbulenta ainda. Ou quando se mexe com a vida do povo. E estão mexendo com a vida dos povos indígenas. Em todo o Brasil, mas no Pará está ficando cada vez mais triste.

     De jeito nenhum o governo vai deixar de construir Belo Monte, porque isso se constituiu em uma questão de honra para a Dilma e os seus ministros e ministras. Não se trata mais de ecologia, meio ambiente, devastação da flora e da fauna ou porque o povo daquela região, e principalmente os indígenas, está sendo tripudiado em seus direitos. Não. Para o governo Dilma, essas questões são secundárias. Muito secundárias. O que importa é que foi ela que decidiu fazer Belo Monte quando ainda era ministra e mesmo que tenha que brigar com todo o povo brasileiro, fará Belo Monte. Ditadura civil é assim. Os índios tem o direito de gritar, mas não o de serem ouvidos.

     Assim como o resto do povo brasileiro. Este é um país que tem donos: políticos, latifundiários, empresários. O resto é só massa votante.

     E o Palocci. Que coisa mais feia! Todo o PT e todos os aliados do PT blindando o Palocci para que não haja uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre os astronômicos ganhos do ilustre ministro. Nada se pode falar, nada se pode descobrir, nada se pode anunciar. O povo nada deve saber e, se souber, deve esquecer rapidamente. E se não esquecer, blinda-se a memória e a boca do povo aumentando-se a mesada para que pense que ele ganha mais nóis também – como diria o Lula.

     Dizem os especialistas que o pior criminoso não é o assassino, mas o ladrão. Exceto em casos patológicos, o assassino age impensadamente, ou com premeditação, mas sob forte tensão mental. Já o ladrão, rouba uma vez, rouba duas, rouba três e vai acostumando de tal maneira que depois não para mais de roubar. Vira um vício.

     Principalmente no Brasil, onde todos os vícios são favorecidos. A polícia corre atrás, mas apenas corre atrás. Nunca corre na frente.

     E o Kit contra a homofobia, ou Kit gay?

     Depois de muitas pressões, a Dilma proibiu que se ensine homossexualismo nas escolas, mas o ministro da Educação, Fernando Haddad insiste em divulgar o tal kit nas escolas e diz que ele pode ser ‘melhorado’. Algumas reações populares a respeito:

     • Gutha:

     "O MEC precisa antes de tudo saber o que é homofobia. Homofobia é aversão violenta a um indivíduo homossexual, vamos então por partes. Deveriam criar um "kit heterofobia" pois dias atrás eu e minha escposa caminhávamos em um parque na nossa cidade e em nossa frente haviam três adolescentes homossexuais, e eles falavam e cantavam coisas absurdas em voz alta que constrangiam as pessoas ao redor; como eles exigem respeito se não respeitam os heterosexuais??? e os evangélicos? são alvos de piadinhas o tempo todo..cade o "kit evangélico"? Para de hipocirsia ede forçar uma situação em que somos obrigados a aceitar sem ao menos poder protestar e exgir que a família seja respeitada no nosso país."

     • Joao Erinaldo:

     "Eu acho que agora sai kits para ensinar como atender os idosos no serviço publico, como melhorar a merenda escolar, como diminuir as filas nos postos de saude pública, como reformar escolas públicas, distribuir medicamentos para os pobres...tô esperando será que veremos?"

     • Marcelo:

     "Porque não criar o KIT CIDADANIA. Ensinar aos alunos que não pode votar em político corrupto, que devemos reclamar pelos nossos direitos e que merecemos um Brasil melhor. Será que eles teriam coragem para isso?"

     Por falar em homossexualismo, um soldado alega que foi estuprado por outros quatro soldados na cidade de Santa Maria, RS. O Exército ainda não se pronunciou a respeito, mas a família do rapaz pretende acionar a União. Santa Maria é a terra do Ministro da Defesa, Nelson Jobim. Será que ele também não vai se pronunciar a respeito?

     E, caso se pronuncie, deverá aproveitar a ocasião para falar a respeito daqueles seis soldados que usaram uma versão do Hino Nacional para dançar funk. Gravaram a sua grotesca dança e lançaram na Internet. O Exército diz que vai fazer uma investigação a respeito e em quarenta dias dará o seu veredito. Em quarenta dias. Nos dois casos. No do estupro do soldado na terra do Jobim e na dança dos soldados em Dom Pedrito.

     Em quarenta dias todos terão esquecido.

     Em quarenta dias teremos esquecido o último caso do Palocci? Teremos esquecido o dinheiro que a ministra da Cultura dá para os amigos e parentes, legalmente? Teremos esquecido a tentativa do MEC de liquidar com a língua portuguesa? Em quarenta dias a lei pró-homossexualismo terá passado no Senado e todos os que forem contra estarão fora da lei? Em quarenta dias o Senado terá aprovado a lei que aumenta a devastação das florestas brasileiras em favor do latifúndio? Como estará Belo Monte em quarenta dias? E o soldado que alega que foi estuprado no quartel? E os seis soldados que dançaram funk ao som do Hino Nacional?

     Só uma certeza: em quarenta dias o povo brasileiro continuará sendo considerado palhaço.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LOBÃO E OS TRÊS PORQUINHOS (a meiguice na política brasileira)


O governo está preocupado com as reações internacionais contra Belo Monte. As reações nacionais não interessam. Este é um país que vai pra frente, onde a classe média aprende inglês e se pergunta quem vencerá o BBB. Bárbaro buraco besta está sendo escavado no Pará. Feio buraco. Um buraco que vai dar muito dinheiro para poucas empresas e para o governo.

     Há dez processos na justiça que questionam as irregularidades no licenciamento ambiental para Belo Monte e desrespeito aos direitos das comunidades indígenas. Maurício Tolmasquin, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) diz que “Belo Monte é o resultado da participação social local”. E confia na justiça, ou melhor, no Judiciário. O Executivo também confia muito no Judiciário. São poderes unidos. Muito dinheiro vai render Belo Monte. Sobrará para todos.

     O Movimento Xingu Vivo Para Sempre, que reúne mais de 250 organizações e movimentos sociais, afirma que Tolmasquin mente. Como, de resto, todo o governo:

     “Essa afirmação é mais uma tentativa do governo de tentar fazer com que as pessoas acreditem que esse é um processo participativo, democrático, transparente. É quase uma tentativa de fazer uma lavagem cerebral nas pessoas que estão de fora, que não acompanham o debate” - diz Renata Soares Pinheiro, uma das coordenadoras do movimento.

     Não foi só Dilma que perdeu a sensibilidade feminina. Uma das mulheres do governo de Dilma, a ministra Izabella Teixeira, do Meio Ambiente, foi colocada nesse cargo por dois motivos: por ser mulher e para fazer andar Belo Monte. Sensibilidade fora. Meio ambiente fora.

     Tem um homem, também, chamado Edison Lobão, que é ministro de Minas e Energia, que foi colocado naquele cargo especialmente para fazer acontecer a tragédia. Como ficarão os Três Porquinhos da Dilma com o Lobão por perto?

     Edison Lobão já foi ministro de Minas e Energia do Lula – de 21 de janeiro de 2008 a 31 de março de 2010. 31 de março. Agora voltou. Chefiou o departamento jornalístico da Globo, no Distrito Federal. Muito amigo dos governos. Gente de confiança. De extrema-direita, como sói acontecer.

     Foi da ARENA, PDS, PFL, DEM, e agora PMDB. É maranhense, muito amigo do Sarney. Só poderia ser do ministério da Dilma. Mesmas idéias, mesmo time. A função desse ministro é pressionar o IBAMA para que este órgão conceda o licenciamento para Belo Monte. As pressões já começaram desde o início do ano, quando Abelardo Bayma, que era o presidente do IBAMA, foi exonerado, porque não quis dar o licenciamento para a usina.

     Ainda tem gente de caráter neste país.

     Depois desse fato, foi fácil conseguir um licenciamento parcial com o seu sucessor, que continua sendo pressionado pelo Lobão para que conceda o licenciamento total. Tudo muito hipócrita.

     Como tudo neste governo. É um governo de roupas bonitas, muita maquilagem e voz fina. Às vezes, voz grossa. Como quando a ditadora de plantão, também apelidada de presidente – ou presidenta, como ela prefere – obrigou as suas bancadas na Câmara e no Senado a votar o salário mínimo por ela prescrito.

     Na mesma lei está incluso que o Executivo vai mandar no Legislativo enquanto a senhora presidenta mandar no país. Simples assim. Ficará mais fácil para o Legislativo, porque não terá nada mais para fazer, a não ser aquelas conversas laterais – as Comissões – que não são mais que conversas laterais. Nenhum poder dentro do Poder nenhum.

     Isto, graças ao PMDB, principalmente. Seus votos de cabresto envergonham a sua história. Transformou-se em um partido mercenário. Vota junto com o governo em troca de ministérios, secretarias, etc. Os outros partidos seguem o mesmo ritmo, na esperança de algum ganho.

     Lamenta-se, também, a morte do PDT, que já foi partido de guerreiros, como o Brizola. Agora faleceu. Faleceu mas ganhou um ministério. 

     O PV, de partido verde só tem a cor, já bastante esmaecida. Nem contra Belo Monte consegue gritar. Ficou rouco e pálido. O PSOL ainda grita, mas não tem nenhuma força. Às vezes grita por desespero; outras, apenas para que todos ouçam. Mais nada.

     A extrema-direita continua sendo extrema-direita. PSDB e DEM concordariam com a Lei Dilma para o salário mínimo, desde que fosse 560 e não 545. Uma questão de detalhes. Ainda esperam alguns afagos governamentais.

     Do PT, falar o que? Do Paim, defensor emérito dos aposentados, que tinha anunciado que não iria votar a proposta do governo, e, depois de uma conversa séria com Dilma, voltou atrás? Falar o que do PT?

     Os membros do PT no Congresso não querem correr ou fazer qualquer tipo de exercício. Muito menos Pilates. Já se acostumaram com as costas curvas, o olhar parado e sem cor e os gestos lentos e perdidos.

     A única novidade do PT é que existem três porquinhos no ministério de Dilma e que, segundo a presidenta, chamam-se Dutra, Cardozo e Palloci. Fica a dúvida: são apenas três? Será que a presidenta contou bem ou só consegue contar até três?

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O PT É DE ESQUERDA!


Enquanto a direita dava um golpe na direita, lá no Egito, com o apoio dos Estados Unidos e das Forças Armadas do próprio Egito, e prepara-se para novos golpes via internet - porque a estratégia facebook, twiter e outras engenhocas deu certo para a classe média egípcia, que pensa estar fazendo uma revolução - Lula esteve no Fórum Social Mundial, em Dakar, Senegal.

     Acostumado com Davos – aquele Fórum Econômico Mundial que se reúne na mesma época do Fórum Social – e sua linguagem restrita, onde os grupos dos muito ricos avisam para os governos do mundo inteiro como deve ser a política econômica durante o resto do ano, Lula meio que se confundiu: foi contra o aumento do salário mínimo no Brasil. Mesmo assim foi aplaudido.

     Todos aplaudem Lula aonde quer que ele vá e diga lá o que diga. É um hábito, no mundo inteiro. O Lula aparece e as pessoas já se preparam para aplaudir. É como aqueles palhaços que quando surgem as pessoas já começam a rir antes que façam palhaçadas. Reflexo condicionado.

     Lula exaltou o Fórum Social e criticou Davos – para onde irá, na semana que vem, receber ordens e orientações. Fez do Fórum Social Mundial um palanque e elogiou o próprio governo de oito anos. E o público aplaudindo. Chegou a dizer – pasmem! – “Nós ensinamos ao mundo como é que uma força de paz deve agir. É motivo de orgulho a quantidade de brasileiros que querem se inscrever para ir até o Haiti.”

     E o público aplaudiu essa tolice gigantesca. No Haiti, o exército brasileiro está às ordens do exército dos Estados Unidos para o que der e vier. Como sempre esteve, desde 1945, ou pouco antes. Desconfia-se que o Fórum Social Mundial não seja o mesmo: cada vez menos social e menos mundial.

     O ministro-chefe da secretaria geral da Presidência, Gilberto Carvalho, com todo esse título pomposo também esteve lá, provavelmente para fazer propaganda do seu governo. Envolveu-se em um debate – o que talvez não esperasse – e disse a seguinte pérola: “O governo do PT não é socialista, mas é de esquerda”. Uma confissão interessante.

     Todos já sabiam que o governo do PT não é socialista, mas a afirmação de que é um governo de esquerda foi surpreendente. O ilustre ministro-chefe, etc., baseou a sua afirmação no fato de que o governo do PT segue, em parte, a Constituição, dando mesadas ao povo mais faminto. E considera que isso é ser de esquerda.

     É claro que ele não citou Belo Monte e os continuados casos de corrupção em muitos setores do governo Lula (e no governo Dilma é uma questão de tempo, a continuar o mesmo ritmo).

     Vou lembrar de alguns:

     - Caso Celso Daniel. Assassinato do prefeito de Santo André, em 2002. Sete testemunhas morreram em circunstâncias misteriosas. A família pressionou as autoridades para que o caso da morte do prefeito fosse reaberto. Em 5 de Agosto de 2002 o Ministério Público de São Paulo solicitou a reabertura das investigações sobre o sequestro e assassinato do prefeito. Em Agosto de 2010 a promotora Eliana Vendramini, responsável pela investigação e denúncia que apura o assassinato do ex-prefeito Celso Daniel, sofreu um estranho acidente automobilístico em uma via expressa de São Paulo. O veículo blindado e conduzido pela promotora, capotou três vezes após ser repetidamente atingido por outro automóvel, que fugiu sem prestar socorro.

     Há a hipótese de crime político. O irmão de Celso Daniel, João Francisco alega que Celso Daniel, quando era prefeito de Santo André, sabia e era conivente de um esquema de corrupção na prefeitura, que servia para desviar dinheiro para o Partido dos Trabalhadores. O suposto esquema de corrupção envolvia integrantes do governo municipal e empresários do setor de transportes e contava ainda com a participação de José Dirceu. Zé Dirceu foi inocentado recentemente, pouco antes de assumir um dos ministérios de Dilma.

     - Caso José Eduardo Dutra. O senador José Eduardo Dutra foi acusado de envolvimento na violação do painel eletrônico do Senado no episódio da cassação de Luiz Estevão. A denúncia questionava o fato de Dutra ter afirmado que ouvira boatos sobre a violação. A partir de um parecer da Advocacia Geral do Senado, o conselho de ética do Senado decidiu arquivar a denúncia por falta de evidências. José Eduardo Dutra é o atual presidente do PT.

     - Caso Benedita da Silva. Foi governadora do Rio de Janeiro. Deixou o Governo sob polêmica após usar recursos públicos em um evento religioso na Argentina. Devolveu o valor das diárias e das passagens após o caso ser divulgado pela imprensa.

     - Escândalo dos Bingos. O escândalo dos bingos é o nome de uma crise que surgiu em Fevereiro de 2004, após denúncias de que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil José Dirceu, estava extorquindo empresários com a finalidade de arrecadar fundos para o Partido dos Trabalhadores. O escândalo veio à tona após a divulgação de uma gravação feita pelo empresário lotérico (bicheiro) Carlos Augusto Ramos, conhecido como Carlinhos Cachoeira. A gravação mostra Cachoeira sendo supostamente extorquido por Waldomiro Diniz.

     - Escândalo do Mensalão. Escândalo do mensalão, escândalo ocorrido em 2005 no governo Lula e que causou indiciamento no STF de 40 políticos, entre eles José Dirceu. Também conhecido como mensalão do PT.

     - Escândalo dos fundos de pensão. O escândalo dos fundos de pensão foi um entre os muitos escândalos que eclodiram durante a crise do Mensalão, no governo brasileiro do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele veio à tona depois das denúncias feitas para uma Comissão Parlamentar de Inquérito, originalmente criada para investigar denúncias de irregularidades na estatal Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Nos primeiros depoimentos para esta CPI - que ficou conhecida como CPI dos Correios - foram feitas denúncias de que algumas instituições financeiras estariam recebendo investimentos de entidades privadas de previdência complementar (fundos de pensão) através de um esquema montado pelo empresário Marcos Valério.

     - Escândalo da quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa.

     Francenildo é um caseiro que obteve notoriedade ao dizer publicamente ter visto o então Ministro da Fazenda Antonio Palocci freqüentar habitualmente uma determinada mansão em Brasília, coisa que o ministro negava com veemência perante a opinião pública e a imprensa.

     No local, conforme narrou Francenildo, teriam ocorrido reuniões, churrascos e festas com a presença de garotas de programa, das quais participavam o ministro (que, segundo o caseiro, tinha o apelido de "Chefe") e os seus ex-assessores da prefeitura de Ribeirão Preto, com o suposto objetivo de se fecharem negócios considerados suspeitos e procederem à divisão do dinheiro relativo a tais negócios.

     Aos depoimentos de Francenildo perante a imprensa e a Polícia Federal seguiram-se um polêmico indiciamento por lavagem de dinheiro (já arquivado), tido por certos analistas como meio velado de pressão do governo do PT sobre uma testemunha julgada perigosa, além da muito comentada quebra do sigilo bancário do caseiro, que divulgou para a Revista Época extratos bancários sigilosos nos quais constavam certos depósitos em dinheiro. Aventou-se que tais recursos poderiam ter sido pagos ao caseiro pela oposição ao governo federal, mas logo após foi esclarecido que o dinheiro vinha do pai biológico de Francenildo.

     Os testemunhos de Francenildo e o envolvimento direto de Antonio Palocci e de seus assesores na quebra do sigilo bancário do caseiro foram a principal causa da demissão do mesmo, no dia 29 de Março de 2006. No episódio, também perdeu o cargo o então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, tido como co-responsável pela quebra do sigilo. Palocci foi inocentado e é um dos principais ministros de Dilma.

     - Escândalo dos Sanguessugas.

     O Escândalo dos Sanguessugas, também conhecido como máfia das ambulâncias, foi um escândalo de corrupção que estourou em 2006 devido à descoberta de uma quadrilha que tinha como objetivo desviar dinheiro para a compra de ambulâncias. Entre seus principais envolvidos estavam os ex-deputados Ronivon Santiago e Carlos Rodrigues.

     O caso daria origem, no mesmo ano, ao escândalo do Dossiê, em que integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) foram presos em flagrante pela Polícia Federal comprando, com 2 milhões em dinheiro vivo, um dossiê que revelaria a suposta participação de políticos do PSDB no esquema, entre eles o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, e o candidato à presidência da república Geraldo Alckmin.

     - Escândalo do Dossiê.

     O Escândalo do Dossiê ou Escândalo dos Aloprados, entre outros nomes, são as alcunhas pelas quais se chama a repercussão da prisão em flagrante, a 15 de setembro de 2006, de integrantes do PT acusados de comprar um falso dossiê, de Luiz Antônio Trevisan Vedoin, com fundos de origem desconhecida. O dossiê acusaria o candidato ao governo do estado de São Paulo pelo PSDB, José Serra, de ter relação com o escândalo das sanguessugas. O plano seria prejudicar Serra na disputa ao governo de São Paulo, para destruir em nível nacional o PSDB e ajudar o PT eleger o senador Aloizio Mercadante como governador naquele estado.

     - Escândalo dos cartões corporativos.

     O escândalo dos cartões corporativos foi uma crise política iniciada em 2008 após denúncias sobre gastos irregulares no uso de cartões corporativos. Os cartões foram instituídos em 2001 mas só entraram em funcionamento no ano seguinte para uma maior transparência e rapidez em gastos emergenciais. O problema do cartões corporativos é estrutural, pois o sistema que deveria ser usado para despesas pequenas e urgentes vem sendo usando para dispensar licitações e dar mimos aos governistas. Dos 150 cartões corporativos, o Portal Transparência, site oficial do Governo Federal, só divulgou os dados de 68 cartões.

     - Operação Santa Teresa.

     A Operação Santa Teresa da Polícia Federal foi deflagrada para desmontar um esquema de corrupção envolvendo a liberação de recursos do BNDES que pode ter beneficiado em torno de 200 prefeituras. Alguns presos na operação: Ricardo Tosto de Oliveira Carvalho, advogado, indicado pela Força Sindical para o conselho do BNDES. João Pedro de Moura, amigo do deputado Paulinho.

     - CPI da ONGs.

     A CPI das ONGs é o nome dado para investigações sobre repasses de dinheiro ocorridos no primeiro mandato do governo Lula (entre 2003 e 2006) para ONGs ligadas tanto ao governo federal como ao Partido dos Trabalhadores (PT), e à oposição.

     Tem mais, mas cansei de dar exemplos de corrupção do PT e seus aliados. Também existiram muitos casos de corrupção nos outros partidos de direita, como DEM, PSDB, etc.

     A direita é assim. Carente de ideologia, a não ser a ideologia do individualismo, atira-se ao dinheiro do povo como ratos ao queijo. E uma das características da direita é a corrupção desenfreada. Principalmente se tiver um Judiciário que garanta a impunidade.

     E o senhor ministro-chefe diz que o PT é de esquerda. Conheço várias pessoas que, ingenuamente, pensam a mesma coisa. Talvez eles entendam esquerda como uma posição que não seja exatamente a extrema-direita. Como a extrema-direita é muito mais atuante no Brasil, através dos grandes canais de televisão e de programas como “Manhattan Connection”, entre outros, dá pra confundir.

     Confunde ainda mais por não haver esquerda organizada no Brasil. Não se pode chamar de esquerda um PCB imobilizado que se alimenta de teses doutrinárias e ainda espera a revolução burguesa para depois, então, quem sabe, se as condições objetivas e subjetivas forem as apropriadas... É querer demais.

     Tampouco pode ser apelidado de esquerda o PSOL, que apenas tomou o lugar que o PT deixou vago quando o PT ainda se pensava socialista e que se solidariza ao sistema ao legitimar as eleições. O PCO ainda é uma incógnita e o PSTU quer ser trotskista sem saber exatamente o que seja marxismo. Apóia o golpe de estado no Egito como se fosse uma revolução proletária.

     Essa desorganização do que seria a esquerda no Brasil dá um grande espaço para que o PT se autoproclame de esquerda – e as pessoas acreditem. Principalmente pessoas que não tem nenhum conhecimento de política.

     Na verdade, a função do PT no Brasil é a de acabar com a esquerda, e de acabar até com o trabalhismo, que é o seu principal adversário, porque o desmascara.

     Se formos comparar, o governo João Goulart, que iniciou a reforma agrária, instituiu o método Paulo Freire na educação e as reformas de base – que abrangiam os setores educacional, fiscal, político e agrário – esteve anos-luz à frente do que hoje é o PT, com o seu falso humanismo social. E evoluiria naturalmente para o socialismo se não tivesse sido golpeado pelas Forças Armadas aliadas dos Estados Unidos, em 1964.

     Os governos de direita pós-ditadura militar brecaram tudo isso, e principalmente o PT que, fingindo-se de socialista, aos poucos foi se aliando novamente às mesmas forças retrógradas que o trabalhismo sempre combateu.

     O que foi golpeado em 1964 foi a força e a consciência do povo brasileiro em sua capacidade de transformação; foi o trabalhismo, o que ainda restava de nacionalismo no povo brasileiro e que os militares chamaram de “comunismo”. Foram os trabalhistas que foram presos, mortos, torturados e escorraçados do seu país.

     Aquela gurizada da classe média que formou grupos de guerrilha tentando uma resistência armada a um governo totalmente militarizado e que se considerava comunista depois de ler um Politzer e um livro do Che e que, ainda mais tarde, formou o PT e uma Nova Esquerda que abjurava o socialismo, e que hoje está no poder nada teve a ver com o nacionalismo da época de João Goulart.

     E hoje quer ser internacionalista sem conseguir, ao menos, ser socialista.

     Aceitaram alegremente a globalização imposta por Bush & Cia. E hoje pensam que são de esquerda, quando, simplesmente, cumpriram a missão que a direita lhes tinha imposta: a de acabar com qualquer sintoma de nacionalismo no Brasil. A recompensa é o poder. Um poder compartilhado com as Forças Armadas, com as multinacionais, com o grande capital nacional e estrangeiro, mas poder.

     E com o poder, eles podem fazer de tudo, incluindo o máximo de corrupção. E se dizem de esquerda.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

DILMA E SUA TROPA DE ELITE - PALOCCI


Há quem diga que a culpa da derrota de Serra foi do Aécio, que não quis se empenhar como deveria... Briga de tucano é sempre no bico.

     Outros afirmam que a omissão de Marina Silva e do PV foi fundamental para a vitória do PT. Eu não tenho dúvidas que, em cima do muro, o PV ficou apenas esperando para ver quem venceria e ofereceria o primeiro ministério.

     A política brasileira perdeu completamente o decoro. Isto, devido principalmente à curta memória dos brasileiros, que preferem todo o tipo de entorpecentes enquanto cantam “deixa a vida me levar”.

     “Ganhar no mole” e “deixa acontecer para ver como é que fica”, tem sido algumas das frases preferidas daquele brasileiro que se finge de contemplativo em todos os fins de tarde copacabânicos ou que outras praias sejam neste Brasil de muito axé e beleza apenas turística. Os dias com balas perdidas – que atingem somente os outros - estão ficando rotineiros. De noite, assiste-se aos filmes do Zé Padilha e fica tudo certo. Faz de conta que a vida é assim.

     Enquanto isto, vapores dílmicos diretamente do planalto central do Brasil - onde canta a coruja e outros bichinhos sobreviventes tentam sobreviver, enquanto seu lobo não vem - informam que Antonio Palocci volta a ser todo poderoso. Pertence à Tropa de Elite de Dilma.

     Lembram dele? Aquele mesmo. Para a nossa memória artística, tão brasileira, alguns dados a mais.

     Antonio Palocci Filho é um político de carreira. Já foi vereador e prefeito de Ribeirão Preto duas vezes. Embora seja médico, exerce, atualmente, o mandato de deputado federal pelo estado de São Paulo (2007-2011). Foi cofundador do Partido dos Trabalhadores e presidente do PT-SP (1997-1998).

     Em 2002, quando era prefeito de Ribeirão Preto, licenciou-se do cargo para se dedicar a campanha presidencial de Lula e depois para coordenar a equipe de transição governamental e assumir o cargo de Ministro da Fazenda, para o qual foi nomeado no ano seguinte.

     Atualmente, é a sombra de Dilma Roussef, o homem por trás dos bastidores do governo. Foi ele quem coordenou a campanha da presidente eleita e é ele quem está organizando a transição do governo e orientando Dilma na escolha do seu ministério.

     Mas a sua história como político profissional é recheada de acusações de corrupção.

     Somente este ano, em maio de 2010, Palloci sofreu seis ações populares que atestam propaganda irregular em 2001 em sua segunda gestão na cidade de Ribeirão Preto. Após duas ações movidas pelo deputado federal Fernando Chiarelli, o juiz André Carlos de Oliveira, da 2ª Vara da Fazenda Pública de Ribeirão Preto, julgou o caso, que reuniu todas as sentenças, e condenou Palocci a devolver R$ 413,2 mil aos cofres públicos, além de outros R$ 500 mil de suplementação de verba gastos com empreiteiras, valores não corrigidos monetariamente, mas a defesa afirmou que recorrerá da sentença.

     Antes disso, muitas foram as acusações de corrupção.

     - Palocci foi acusado de chefiar um esquema de corrupção da época em que era prefeito de Ribeirão Preto - SP. Através da cobrança de "mesadas" de até 50 mil reais mensais de empresas que prestavam serviços à prefeitura, o ex-ministro da fazenda alimentava os cofres do seu partido, o PT, com dinheiro ilícito.

     - Quando prefeito, Palocci foi acusado de fraudar licitação para a compra de cestas básicas, que deveria incluir a compra de uma lata de molho de tomate peneirado com ervilha - especificidade que gerou suspeita de fraude e favorecimento.

     - Seu assessor Buratti apareceu associado, em 2004, a uma suposta exigência feita por Waldomiro Diniz, ex-assessor da Casa Civil, para a renovação de contrato entre a empresa GTech e a Caixa Econômica Federal. A GTech também acusa Buratti de extorsão, que este fazia em nome de Antonio Palocci Filho.

     - Em 2005, Antonio Palocci Filho se viu envolvido no escândalo do Mensalão, após ser acusado por Rogério Buratti, seu ex-secretário na primeira gestão como prefeito em Ribeirão Preto, de receber entre 2001 e 2004 R$ 50 mil mensais de propina da empresa Leão & Leão, que seria favorecida em licitações da prefeitura. O dinheiro seria usado para abastecer um caixa dois de candidatos do PT. Em junho de 2007, Buratti retirou as acusações contra Palocci. O fato causou a indignação do delegado responsável, porém as investigações continuam, uma vez que existem outras provas documentais e testemunhais.

     - Em 27 de março de 2006, Palocci foi demitido pelo presidente Lula do cargo de ministro da Fazenda. Sua situação ficou insustentável a partir da quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa, testemunha de acusação contra Palocci no caso da casa do lobby, mansão alugada pela chamada "República de Ribeirão Preto" para servir de sede para reuniões de lobistas e encontros com prostitutas, conforme investigações da CPI dos Bingos.

     O ex-ministro seria processado pelo Ministério Público Federal, mas, em agosto do ano passado, por 5 votos a 4, os ministros do Supremo Tribunal Federal rejeitaram o pedido de abertura de uma ação penal contra ele.

     O relator do caso, ministro Gilmar Mendes, considerou que, a despeito da ocorrência da quebra irregular de sigilo, e de os dados do caseiro terem sido mostrados a Palocci pelo então presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso, não havia provas suficientes de que o ex-ministro tivesse ordenado a ilegalidade.

     Agora, Antonio Palocci Filho volta ao poder junto com Dilma Roussef, ajudando-a a compor os seus discursos e a sua proposta de governo.

     Com certeza, será nomeado para algum ministério.

     Tenho uma sensação de tédio, de déjà-vu, de desgosto, de sensaboria. Um auto exílio interno tentando se formar e, ao mesmo tempo, sendo rechaçado, mas somente levemente rechaçado. Sinto-me órfão de um Brasil que parece muito distante, cada vez mais triste, cada vez mais feio; às vezes irritante e grosseiro. Áspero. Nada a ver com a Mãe Gentil.


     “(...)Quem nos desviou assim, para que tivéssemos um ar de despedida em tudo o que fazemos?(...)”

     (Rainer Maria Rilke – “Elegias de Duíno”, oitava elegia).
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