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domingo, 15 de fevereiro de 2015

O PT NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA






O que aconteceu ao PT? Em que momento o partido que deveria ser uma frente de esquerda deu a guinada que o levaria inevitavelmente às práticas sujas da direita e a ela se uniu, resguardando-se demagogicamente nos discursos ufanistas e nas vestes vermelhas que enganam os parvos? Por que e como aceitou, o partido que deveria ser dos trabalhadores, a manobra que o atraiu para o centro do poder, aliando-se justamente aos inimigos dos trabalhadores – cartéis, trustes, empresários, latifundiários -, aceitando a globalização, o neoliberalismo econômico, um plano a médio e longo prazo de domínio imperialista sobre a América Latina? O que levou o PT, em seu processo de transformação de abóbora em carruagem real, a afastar do partido todos os grupos de esquerda e a eleger sucessivas direções de membros reacionários que aceitam os postulados do capitalismo? O que fez o que restava de inteligência no PT a concordar com a corrupção como norma – desde as prefeituras petistas até o Governo Federal nos seus três poderes – sob a pífia desculpa de pragmatismo político?

   Entre tantos fatores que levaram o Partido dos Trabalhadores a visitar o sistema e conviver com suas esquivas e lodosas sombras, destaco dois como mais importantes e, talvez, determinantes:

1.   A sacralização do ícone “trabalhador” na figura de Lula, uma nova versão do culto à personalidade, com objetivos essencialmente demagógicos.

2.   O surgimento de um curioso partido, denominado Partido Revolucionário Comunista (PRC), que tinha muito pouco de comunista, nada de revolucionário e preferiu a auto-extinção enquanto partido para ajudar a levar o PT para a direita e buscar uma política de alianças que o tornaram refém do capitalismo.


   Inicialmente formado por correntes de todas as tendências do variado espectro da diáspora esquerdista após as tentativas de guerrilha urbana e rural, o PT era um partido de muitas siglas, nas quais os militantes, quase obrigatoriamente, abrigavam-se, muitas vezes sem saber exatamente o significado ideológico da sua tendência política dentro do partido que, na verdade, foi criado por sindicalistas paulistas - como Lula e Jair Menegheli – inspirados no sindicato direitista Solidariedade, da Polônia, que recebeu ajuda da CIA para combater o socialismo.

   Inclusive, Lula era muito parecido fisicamente com Lech Walesa, o líder do Solidariedade, que mais tarde elegeu-se presidente da Polônia depois de transformar o sindicato em um partido político. A exemplo de Lech Walesa, Lula nunca foi marxista, seja por convicção ou por incapacidade de estudar e assimilar a teoria. Era meramente um sindicalista carismático que liderou greves de metalúrgicos e que sabia fazer acordos satisfatórios com os patrões.

   Isso chamou a atenção de diversos setores, inclusive de grupos de esquerda que logo o adotaram como totem, mitificando-o como símbolo da luta dos trabalhadores, mesmo que essa luta ficasse restringida a um cantinho do Brasil, a região do ABC paulista. E também chamou a atenção de grupos da “direita esclarecida”, notadamente empresários de todos os setores que já estavam fartos de uma ditadura militar que começava a atrapalhar os grandes negócios e precisavam de uma liderança “popular e democrática” para ajudar a forçar uma redemocratização que ao fim e ao cabo iria ao encontro dos desejos do capital nacional e internacional.

   Nunca, em período de ditadura, greves e passeatas de trabalhadores foram tão veiculadas pelos meios de comunicação aliados aos interesses do capital. E todos sabem que quando eles não querem, mesmo que milhares passem gritando na sua frente, não publicam. Os verdadeiros donos do Brasil sabiam que Lula nada tinha de nacionalista e que, mesmo aparentando ser o líder de um partido de suposta esquerda que estava sendo gerado a partir das greves, poderia ser manobrado gradativamente para aceitar as premissas capitalistas e, quem sabe, assim como Lech Walesa, recebesse em troca, em futuro não muito distante, a presidência do país. É dando que se recebe.

   Além disso, um partido que congregasse a esquerda, limitando-a a determinados preceitos organizacionais era uma ótima idéia que evitaria novas guerrilhas, ou, mesmo, uma tentativa de revolução. E, melhor que isso, um partido que usava o título pomposo de “Partido dos Trabalhadores” poderia, com o tempo, abafar de vez o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – este sim um partido muito perigoso, na medida em que se revelava nacionalista, contendo ideais subversivos, como o amor à pátria, a defesa das nossas riquezas e o desenvolvimento sem dependência externa.

   Lula serviu a todos os interesses e a todos os interessados que desejavam um país de joelhos frente ao capital internacional e aliado das grandes potências imperialistas. Lula agia como agente catalisador das emoções de um povo frustrado que tinha perdido a sua referência histórica com a deposição de João Goulart e que estava carente de líderes e de projetos para o país. Ali no ABC paulista teve início uma trama que visava unir todos os elos de uma esquerda esfacelada por guerrilhas suicidas e que, com o seu internacionalismo entreguista, nunca fora representativa dos anseios do povo brasileiro por um país unido e forte e buscando uma personalidade própria – assim como fizera o antigo PTB de Getúlio Vargas e João Goulart.

   E o que parecia um grande acerto do PT a nível interno, apontando Lula como salvador da pátria para uma nova geração que não vivera o período anterior ao golpe de 1964 e que era incentivada à alienação em relação à própria história, detendo-se apenas no momento ufanista das “Diretas Já” e da Constituinte, também foi o seu grande erro – provavelmente um erro calculado e tido como acerto – ao reeditar no Brasil o culto à personalidade de alguém que ainda era uma promessa salvífica e que passou a deter as esperanças de milhões de pessoas desarvoradas ideologicamente e com pouca compreensão do seu passado e que eram incentivadas a acreditar que o presente - nos anos ’80 da “abertura democrática” – abria portas para um futuro de progresso e verdadeira independência – a partir do momento em que Lula fosse eleito Presidente e o Partido dos Trabalhadores tomasse o poder.

   Lula somente foi eleito quando concordou em se aliar ao capital nacional e internacional, cumprindo a agenda que o império propusera para o Brasil – um país subserviente com um governo que facilitaria todas as demandas das multinacionais e do empresariado sequioso por aumentar as suas riquezas. Em troca, o PT dominaria os sindicatos a ponto de amordaçá-los e eternizaria a luta pela reforma agrária. Nos dois setores – campesinato e operariado – imporia um forte controle, através da cooptação dos seus líderes para importantes cargos, no Congresso e fora dele, e imporia às massas uma visão idealista de um socialismo passivo e reformista. Para fins políticos, o PT poderia conservar a cor vermelha, o que provocaria dois resultados: iludir o povo e diminuir a força pedagógica dos partidos da verdadeira esquerda, empurrados para esquecidos nichos onde, inevitavelmente, acabariam por se diluir em cego burocratismo e abstrusas teses.

   Para que esse plano fosse realizado, faltava ainda fazer do PT não um partido frentista composto por tendências as mais diversas, mas unificá-lo em torno de idéias que, aos poucos, com o passar dos anos e a diminuição do fervor político dos militantes, poderia dar o necessário giro para a direita, aliando-se aos setores que antes combatia e que lhe daria a possibilidade de conquistar o poder e, quem sabe, todas as regalias, inclusive a aberta corrupção. Para este fim, uma das tendências internas do PT, o Partido Revolucionário Comunista (PRC), contribuiu com muita disposição e entusiasmo.



O PRC

   O Partido Revolucionário Comunista surgiu nos meios universitários durante os anos 1970 e foi organizado clandestinamente primeiramente como dissidência do PCdoB, que tivera a maioria dos seus quadros mortos na tentativa de guerrilha na região do Araguaia. No entanto, o PRC somente ficou conhecido nacionalmente a partir de 1984, quando se integrou ao PT como uma de suas tendências políticas.

   Dizia-se o PRC um partido marxista-leninista que repudiava toda e qualquer tentativa de conciliação com setores da burguesia. A princípio, o PRC considerava o PT como um partido tático - “uma organização político-frentista hegemonizada por posições reformistas, aprisionada nos marcos da ideologia burguesa”. Como partido tático, o PT poderia ser utilizado não como um objetivo de luta pelo poder nos padrões tradicionais, mas como uma alternativa para desestabilizar o projeto de Nova República, evitando que se consolidasse a “democracia dos monopólios” para que fosse criada uma correlação de forças favorável “ao avanço da luta por uma estratégia revolucionária”, pautando a possibilidade de construção de uma alternativa democrática, operária e popular, contrapondo-se à estratégia meramente democrática e popular formulada pela Articulação, que era a tendência majoritária no PT.

   O PT é um partido composto de siglas que encobrem nomes. A Articulação dos 113 surgiu a partir do Manifesto dos 113, em 1983, e logo se constituiu na tendência majoritária do PT. Era composta por sindicalistas, membros das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e ex-integrantes de organizações de esquerda como a ALN (Aliança Libertadora Nacional). A Articulação se impôs como a verdadeira classe dirigente do PT, como o próprio PT; mais que uma tendência, geria o comportamento das tendências dentro do partido, obrigando-as a seguir os rumos por ela estipulados. O líder de direito era o Lula, eterno presidenciável; o líder de fato era José Dirceu.

   Mas a Articulação necessitava de alianças com outras tendências para continuar no poder. Em 1987, a Articulação chamou o PRC e teve uma longa conversa com membros dessa tendência que se dizia de esquerda. Também chamou os líderes da Democracia Socialista (DS) e os intimou a um comportamento adequado à nova realidade petista. A Articulação, enquanto PT (ou o PT, enquanto Articulação), desejava impor as suas teses e tornar as tendências internas submissas a elas. Um documento assinado por José Dirceu e Wladimir Pomar, intitulado “Contra o socialismo legalista” dava o tom do que o PT (ou a Articulação) se pretendia enquanto partido.

   O documento chamava as demais tendências de sectárias e idealistas e as obrigava moralmente a assumir o PT-Articulação como único partido de esquerda no Brasil – uma esquerda que se propunha conservadora, que adotava a conciliação de classes e a luta meramente político-partidária. As tendências que não aceitassem as teses da Articulação estariam indo contra o PT e, naturalmente, seriam alijadas do partido. Dava-se um prazo para que as tendências se alinhassem à doutrina da Articulação e, em 1991, quando duas das tendências internas do PT – Convergência Socialista e Causa Operária – persistiram na sua integridade, foram expulsas do partido.

   Tendências políticas inexpressivas, como “O Trabalho” e “Democracia Socialista”, continuaram formalmente como tendências internas do PT, mas docilmente subordinadas à Articulação. Na Articulação destacam-se nomes como Ricardo Berzoini, José Dirceu, Chico Macena, Luiz Dulci, Marco Aurélio Garcia e Lula. Alguns deles são conhecidos da Justiça, outros esperam a sua vez. Atualmente, a Articulação adotou o apelido “Construindo um novo Brasil”.

   No revolucionário PRC, entre outros pontuavam José Genoíno, Adelmo Genro Filho e Tarso Genro. Alguma coisa aconteceu na reunião entre PRC e Articulação, em 1987. Dois anos depois, o PRC (Partido Revolucionário Comunista) mudava de nome e de ideologia. Passava a se chamar Nova Esquerda (depois Democracia Radical e hoje...) e aderia ao capitalismo. Entenda-se “Nova Esquerda” por “Nova Direita” – uma esquerda sem ideologia. Com esse apoio, a Articulação fortaleceu-se enquanto tendência de direita que mandava no PT e não mais deixou a direção partidária, mesmo que tenha trocado o nome algumas vezes.

   Nova Esquerda não foi um nome gratuito, encontrado por acaso. O movimento “New Left” (Nova Esquerda) atingira o seu pico em 1968 nos Estados Unidos e Europa. Nos Estados Unidos, devido, principalmente, aos protestos contra a guerra do Vietnã; na Europa, por medo do comunismo, e seus teóricos arriscaram a expressão “eurocomunismo” para designar movimentos apáticos formados por uma geração temerosa de mudanças que fossem além da liberdade sexual e da liberdade de usar drogas. Liberdade. A Nova Esquerda norte-americana e européia, formada por uma classe média ascendente e desejosa de participação no poder, lutava por mudanças nos costumes e a isso intitulava de liberdade. Nessa luta também entravam os direitos humanos, principalmente os dos negros dos Estados Unidos. Luta que foi sufocada, com o assassinato de líderes como o pacifista Martin Luther King e o revolucionário Malcolm X. Organizações como “Panteras Negras” e “Black Power” foram esmagadas, o movimento negro foi dissolvido e os negros discriminados refugiaram-se na música gospel ou preferiram uma passiva participação parlamentar, que acabou originando, entre outros, o reacionário Barack Obama.

    Longe de se colocar contra o capitalismo, a Nova Esquerda Européia das décadas de ’70 e ’80 visava a reforma de um sistema que estava se tornando caduco e asfixiante devido ao excesso de autoritarismo, às guerras fabricadas para enriquecer banqueiros e empresas multinacionais e às diferenças cada vez maiores entre as classes sociais. A direita ocidental, o “establishment”, necessitava de um aperfeiçoamento urgente ou corria o risco de ser suprimida pela ascensão do marxismo em todos os países. A Nova Esquerda, diferente do que classificava como “Velha Esquerda” (a esquerda marxista), teve origem nas universidades e não dentro de sindicatos ou devido à luta dos trabalhadores.

    Não se tratava, portanto, de luta de classes, mas do seu contrário: protestos de jovens dentro das classes dominantes objetivando reformas nos costumes burgueses, uma nova sociedade deveria emergir do pós-guerra, aparentemente tentando derrubar todas as formas de opressão social, desde que as estruturas do poder não fossem tocadas. Ao mesmo tempo, as novas tecnologias do chamado “primeiro mundo” auspiciavam a essa juventude supostamente rebelde uma vida cheia de facilidades. A geração que deveria assumir o poder alguns anos depois dos movimentos estudantis disporia de melhores meios para continuar alienando e subjugando os operários.

   No Brasil, por falta de um programa político claro, principalmente na área econômica, o PT assumiu a Nova Esquerda – uma mistura de misticismo New Age com dieta vegetariana, pensamentos ecológicos e algumas pinceladas do pensamento de Gramsci e Foucault – somente os pensamentos. E a reforma agrária no papel. Ao lado desse nada - que era muito para uma nação que nunca teve uma tradição socialista e que, em sua maioria, continuava a acreditar que comunistas são pessoas muito más que desejam escravizar os povos – o PT assumia-se como anti-nacionalista, namorava o neo-liberalismo econômico (para depois assumi-lo completamente) e demonstrava uma grande inveja de oligarcas como Sarney, Collor e Maluf, que, com o tempo, tornaram-se grandes aliados dos petistas. Principalmente em época de eleições.

    Enquanto a verdadeira esquerda brasileira saía em massa do PT, que preferira tornar-se um partido menchevique, os novos partidários petistas – em sua grande maioria pessoas que poderiam participar de qualquer partido de direita, como PMDB, PP ou, mesmo, PDT – tornou-se massa de manobra partidária, acreditando em mitos como “Lula salvador da pátria” e aceitando a idéia de que ser de esquerda é o mesmo que lutar pela emancipação das mulheres, patrocinar o movimento LGBT, dar mesadas para o povo miserável e cotas para os negros.

    O PRC, que já havia mudado de nome, dava à Articulação, que também se tornava camaleônica, o norte ideológico. A nova esquerda deveria promover a inclusão social das minorias discriminadas dentro do sistema capitalista. Como as empresas necessitam de constante rotatividade de trabalhadores para que o salário mínimo continue baixo e os lucros aumentem, a educação deveria ser sistematicamente facilitada para que todos tivessem condições de passar de ano e entrar para o mercado de trabalho, mesmo que isso implicasse no aviltamento da cultura e do sistema educacional.

    O operariado, seguindo a ilusão de “progressismo” e reforma petista tem sido alienado progressivamente da sua realidade de classe que poderia ser transformadora, ainda que no país do carnaval, e aceita a submissão e o peleguismo ditados pelos líderes petistas como atitudes ‘politicamente corretas’. Dominados pelo petismo anti-marxista, a maioria do operariado baixa a cabeça servilmente, aceitando o redil proposto pelo PT.

    Na política internacional, o PT serve aos Estados Unidos e seu império. Em algum momento da ascensão de Lula ao poder, foi-lhe acenada a possibilidade de dominar política e economicamente a América do Sul, como autêntica filial dos Estados Unidos. Não fosse Hugo Chávez ter liderado um movimento de países anticapitalistas, o Brasil de Lula teria aderido à ALCA (Área de Livre Comércio da Américas), que proporcionaria aos Estados Unidos dominar toda a economia da América Latina. Em contrapartida, os governos do PT (Lula e Dilma) não aderiram à ALBA (Aliança Bolivariana das Américas), deixando claro que seu projeto de governo é capitalista e neo-liberal.

    A aceitação do capitalismo sob uma fachada de “nova esquerda” que atrai multidões desinformadas tornou mais fácil para a cúpula petista aderir às práticas capitalistas; entre outras, a corrupção desenfreada. Curiosamente, os petistas acreditaram que roubar a nação não era corrupção, uma vez que governos anteriores, como o de FHC, tinham feito o mesmo. Ou, como disse Paulo Maluf quando foi convidado a apoiar a campanha do petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo: “Agora somos iguais”.

    Com o “Mensalão”, o “Petrolão” e outras ações ilegais que ainda poderão vir à tona, o PT não só tornou-se igual à oposição que antes condenava como conseguiu superá-la em muito no que concerne ao montante roubado ao povo. Adotando o capitalismo pseudo-reformista o PT caiu em todas as suas armadilhas. E gostou. Até o momento em que alguns de seus principais líderes começaram a ser presos pela Polícia Federal.

    Descaracterizou-se tanto o PT de seu projeto anterior de partido que a Presidente Dilma, em seu segundo mandato, preferiu formar um ministério pautado todo ele por uma política entreguista de direita, na contramão da História, justamente no momento em que as nações de alguns países, como Grécia e Espanha, estão a repudiar o capitalismo. E Lula, segundo consta, anda tão desarvorado com a possibilidade de, cedo ou tarde, vir a ser indiciado por algum crime que, como a avestruz, não sabe onde esconder a cabeça.

     Pior que todas essas ridicularias é o fato do PT ter deixado aberta uma imensa brecha política por onde estão a penetrar os partidos da direita oficial, além de favorecer a propaganda paranóica golpista que, mesmo não surtindo qualquer efeito na prática – porque as Forças Armadas estão muito felizes com o PT no governo  - passa às multidões que adoram futebol e carnaval e mais nada que a esquerda é corrupta, quando é exatamente o contrário: foi por ter assumido o papel de partido direitista fantasiado de esquerda que o PT, juntamente com seus aliados, passou a adotar a corrupção como prática de governo.

     A ideologia da reforma dentro do capitalismo que já havia sido explicada ad nauseam como um equívoco político, entre outros autores por Rosa Luxemburgo em seu livro “Reforma ou Revolução?”, ao ser adotada pelo PT enquanto ainda era uma frente de esquerda, agora que está sendo desmascarada também no Brasil faz do partido que já foi uma esperança para a nação, autor de um desmoronamento de expectativas principalmente naquela parte da população mais desavisada e que está acostumada às benesses do governo em troca de votos.

   Por outro lado, coloca em pauta o debate ideológico, que tanto o PT tem desejado abafar. Sabe-se que no país de Rosa Luxemburgo, a Alemanha, a socialista e reformista “República de Weimar” foi destroçada com o advento do nazismo. Mas a Alemanha sempre foi um país de pensadores. Infelizmente, não acredito que no país do carnaval e da preguiça mental, após o retrocesso histórico da revolução brasileira representado pelos governos do PT, as esquerdas se unam deixando de lado pequenos desacordos ideológicos, para combater a imensa vaga direitista que se avoluma no horizonte. No entanto, não convém desacreditar de todo.

domingo, 15 de dezembro de 2013

O FRUTO PODRE DA NOSSA POLÍTICA



Romeu Tuma Jr. em seu livro “Assassinato de Reputações – um crime de Estado” afirma que Lula foi informante do DOPS. Lula não respondeu. Não responderá. O que se sabe de Lula antes de aparecer como líder sindical no ABC paulista? As histórias pessoais podem ser forjadas, assim como os dossiês. Assim como os partidos políticos.

   O fato é que Lula surgiu no momento histórico ideal para os donos do poder. A pessoa certa no lugar certo que, no devido tempo, ajudou a fundar um partido absolutamente anódino e cediço, aglomerando tendências políticas de uma suposta esquerda que repudiava o marxismo, em sua maioria. Portanto, não era esquerda. No máximo, esquerdizante. Não por acaso Brizola, Luiz Carlos Prestes e outros líderes socialistas não quiseram entrar para o PT, que denunciaram corretamente ser um partido fabricado para abrigar toda aquela juventude oriunda das universidades que não sabia o que exatamente desejava no momento em que a ditadura militar promovia o seu próprio fim - a pedido de Washington, assim como ocorria com todas as ditaduras do cone sul - e surgia uma nova república que se anunciava democrática, porque permitia o voto. Um voto virtual, enclausurado em urnas eletrônicas, mas voto. As mistificações fazem parte da política, da nossa política.

   Todos aqueles movimentos que se diziam “socialistas”, ou “comunistas”, muitos deles oriundos de uma dividida luta armada muitas vezes traída ajudaram a construir o PT. Era o momento da “democracia”, do estado de direito e a revolução ficaria para depois, muito depois; ou ainda, como diziam muitos sábios ideólogos, a revolução estava acontecendo, mas de maneira pacífica e construtiva, os proletários não tinham consciência do seu papel histórico e era melhor que tudo continuasse assim, cada um no seu lugar, graças a Deus: os militares na caserna, os políticos que voltavam do exílio formando o seu coerente Centrão – depois de muitas aulas de como é bom o capitalismo suíço e francês - e os estudantes e ex-revolucionários, então redimidos à paz dos conformados, aliados a sindicalistas para formar o grande partido do futuro, que seria chamado, convenientemente, de Partido dos Trabalhadores. 

    Melhor nome impossível. Um achado! Os militares, que permeavam toda a nova organização social e tinham fundado dois partidos para início de conversa – MDB e ARENA – oficializando os dois lados de uma mesma moeda, pediam, suplicavam, exigiam, ameaçavam matar e arrebentar caso o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) não fosse extinto ou transformado em um partidinho inócuo. Afinal, a ditadura militar teve como principal objetivo liquidar com Jango, Brizola e todos os petebistas que ameaçavam fazer a reforma agrária e a reforma urbana, além da reforma da educação anunciada por Paulo Freire, ministro de João Goulart. A isso os militares entendiam como “comunismo”. Ficaram trinta anos no poder, prendendo, torturando, matando para acabar de vez com essas “idéias comunistas” e se o velho Partido Trabalhista Brasileiro voltasse com os mesmos líderes e as mesmas bandeiras, toda a chacina e tentativa de lavagem cerebral do povo teria sido inútil. Urgia acabar até com o nome PTB, suplantá-lo por uma agremiação nova com um nome muito parecido – e eis o PT.

O PLANO DE GOLBERY

   Simples assim? Não. Todos os grandes projetos políticos necessitam de muita análise, de muito trabalho e de aliados dentro dos partidos em formação. Quando se deseja uma república bem novinha, até com Constituição flamejante para alegrar o povo não se pode entregar o poder ao mesmo inimigo que foi enxotado e vilipendiado durante muitos e muitos anos e, de repente...  

    A sigla PTB foi reivindicada por Brizola e entregue a Ivete Vargas, uma ex-deputada que não era nem a favor nem contra a ditadura, muito antes pelo contrário. Era o primeiro passo para liquidar com o PTB e Brizola foi obrigado a fundar o seu PDT que se transformou, com o tempo, em mais um partido aliancista. O PT estava encarregado de aglutinar as esfaceladas forças da esquerda e de convencer os mais jovens de que o PTB era um partido populista e que ele sim, o PT, era progressista, ao contrário do velho partido de Vargas, Jango, Brizola, Paulo Freire e tantos nomes que fizeram a história do Brasil e que os donos da nova sigla faziam questão de sepultar, acreditando na propalada ausência de memória do povo brasileiro.

     Golbery do Couto e Silva, general, era o condutor do que foi chamado na época de “abertura lenta e gradual”. Ele foi o mentor dos generais presidentes Geisel e Figueiredo. No devido tempo, aconselhou a permissão das manifestações a favor das “Diretas” porque, afinal, eram somente manifestações pacíficas, muito pacíficas, e a transformação da ditadura em democracia concedida deveria ter uma aparência de exigência popular, com pessoas de confiança liderando as passeatas e showmícios, alguns mais exaltados, outros mais tímidos; todos unidos pelo mesmo ideal que, em última análise seria a volta da democracia traduzida no voto livre. Ou quase.

      Pessoas de confiança como Tancredo Neves, que ajudou, nos bastidores, a tentar depor João Goulart, em 1962, sendo guindado a primeiro-ministro de um parlamentarismo que não resistiu ao primeiro referendo popular. Outra pessoa de muita confiança era Ulysses Guimarães. Em seu depoimento ao jornalista Luiz Gutemberg – “Moisés – codinome Ulysses Guimarães” – cita um encontro que teve com Golbery em 1975. De acordo com o general, cinco seriam os modelos de partidos permitidos: a extrema-direita, reunindo fascistas e reacionários em geral; a direita moderada; a esquerda moderada, ou centro-esquerda, formada por socialistas social-democratas, que poderiam chegar ao poder ‘sem riscos à democracia’ e a extrema-esquerda, com os partidos comunistas que poderiam ser facilmente anulados ou cooptados pela esquerda moderada e demais correntes ou facções que acabariam trocando o modelo leninista pela ação parlamentar.

     E a Constituição, claro, a Constituição. A letra já nasce morta, disse certa vez um jurista, mas ajuda a respaldar direitos para quem já os têm e a separar as classes de maneira equilibrada, com a grande maioria acreditando que com novas letras e novas leis ela estará garantida contra qualquer truculência policial, mesmo contra o tantas vezes filmado BOPE, além dos famosos esquadrões da morte que apenas mudaram de farda.

       1989 foi o ano da grande farsa mundial e o Brasil foi convidado a dela participar. Depois de uma guerra fria que foi quente, muito quente, com terríveis batalhas principalmente no Oriente Médio, Gorbachev desfazia o Pacto de Varsóvia, desmantelava o exército vermelho e entregava a União Soviética de bandeja para a OTAN. As fronteiras estavam abertas para o mercado mundial e para o exército mundial. Na Polônia surgia um homem de baixa estatura, que usava barba, uma cuidada retórica e fundava um sindicato de direita que galvanizava o povo para uma ideologia conhecida como catolicismo. Chamava-se Lech Walesa e o sindicato Solidariedade mais tarde se transformou em partido e o elegeu presidente. Com o apoio do povo católico trabalhador e após várias visitas do Papa maçom João Paulo II, aquele que sucedeu ao Papa não maçom João Paulo I, assassinado por investigar a influência da Maçonaria no Vaticano, através da Loja Propaganda Dois, à qual pertence Berlusconi e tantas outras influentes pessoas.

     O mundo se transformava e os seus donos exigiam uma aparência democrática nos países sob sua tutela, como o Brasil, país onde surgia um homem de estatura baixa, usava barba e a sua influente retórica ajudou a promover algumas greves consentidas e a criar o partido ideal que seria, mais tarde, sucessor da ditadura militar. Junto a esse partido, um sindicato, a CUT, para forjar a união da classe operária com os patrões, espelhando-se na Federação Americana do Trabalho, dos Estados Unidos, que é contrária à reforma ou mudança da sociedade, defendendo o sindicalismo de resultados.

       Além disso, o PT juntava em sua sigla facções que iam da direita à suposta extrema-esquerda ainda leninista, propondo o caminho parlamentar em lugar da revolução – conforme tinha estipulado Golbery - porque, afinal, tinha a oferecer um operário como candidato à presidência, que seria eleito quando surgissem as condições favoráveis, e mesmo que esse operário não fosse exatamente uma pessoa culta ou letrada sempre representaria a classe trabalhadora no poder, e seria devidamente amparado por intelectuais que traçariam os planos do governo e o conduziriam a uma democracia muito, mas muito popular.

       Para isso era necessário desunir a esquerda no Brasil, que tradicionalmente sempre foi desunida, mas apenas entre dois ou três blocos, como o PCB – o “Partidão” -, o PCdoB e facções trotskystas sem expressão. Era preciso dividir mais ainda; dois ou três blocos de esquerda podem lembrar a sua origem comum e se unirem no caso de combater o bom combate. Não era o suficiente. Quanto mais facções, mais luta interna e mais divisão.

     Também para isso o PT foi criado. Para reunir dentro de um partido que se dizia aleatoriamente “de esquerda” – e hoje, com todos os malufs e sarneys a apoiá-lo, ainda mais aleatoriamente – o que foi apelidado de “tendências” internas, que nada mais eram que expressões ideológicas de todos os grupos políticos que estavam dispersos e não queriam entrar para o PCB, que é famoso pela sua inércia, ou para o PSB, um partido que gosta de andar para trás. Preferiram o PT. Ali havia uma esperança operária; esperança aposentada, mas esperança.

      Esperança que consistia na eleição de uma pessoa para Presidente do país; eleição que transformaria completamente o Brasil – e nunca se viu tamanha alienação política em pessoas que se julgam inteligentes, nem maior culto a uma personalidade semi-desconhecida que figurava como promessa.

O PARTIDO QUE SE SUICIDOU 

        Enquanto Lula não era eleito, o PT cumpria a sua missão de, primeiro, transformar facções em tendências; depois, filtrar as tendências e, se possível, uni-las em tendências maiores, absorvendo e apagando o potencial das pequenas facções. Os que não obedecessem a esse filtro seriam naturalmente expulsos e formariam pequenos partidos que seriam colocados de lado. Para cumprir essa missão era mister uma liderança que aparecesse como revolucionária, altiva, suficientemente demagógica para suplantar dúvidas ou eventuais suspeitas, e é nesse contexto que um partido chamado PRC se suicida opondo-se radicalmente aos seus princípios, traindo as suas idéias para formar uma nova grande tendência dentro do PT e ocupar o que é chamado de Campo Majoritário, transformando o partido que se dizia revolucionário em um exemplo de submissão ao capitalismo. 

       O Partido Revolucionário Comunista deixou de ser um partido, abjurou a revolução e rejeitou o comunismo para assumir a liderança do PT com uma proposta reformista social-democrata, “sem riscos à democracia” – conforme a receita do general Golbery.  
       Foi um partido clandestino que durante a ditadura atuou junto às universidades, formando lideranças como Adelmo Genro Filho, Tarso Genro, Ozéas Duarte, Aldo Fornazieri e José Genoíno, somente para citar os mais destacados. 

      Desde o início dos anos ’80 o PRC formou quadros que foram infiltrados no PMDB e no PT, com a intenção de usar o PMDB como alavanca para o PT. Em 1984 deu origem à tendência interna do PT “Articulação dos 113”, que logo se estabeleceu como força dirigente do Campo Majoritário do PT. Em seu 2º Congresso, em 1985, o PRC privilegia o PT como campo de atuação de seus militantes, deixando de lado o PMDB, mas ainda considera o PT um partido de reformistas – liderado pelo PRC. No mesmo ano, elege Maria Luiza Fontenele prefeita de Fortaleza pelo PT, a qual, por divergências internas, acabou rompendo com o PRC e participou da formação do Partido da Causa Operária (PCO).  

      Já naquele momento se percebia o PRC dando uma leve guinada para a direita, objetivando usar o PT como instrumento para chegar ao poder. Em 1989 o PRC se desfez para entrar em massa no PT e formar uma nova tendência chamada Nova Esquerda. Em aliança com algumas outras tendências minoritárias, a Nova Esquerda facilmente tomou conta do PT e tornou-se uma tendência não só reformista como claramente reacionária, a ponto de ser classificada de moderada. Em 1990, a Nova Esquerda apresenta a tese “Projeto Para O Brasil”, e a partir dali transforma-se na corrente Democracia Radical, aproximando-se do que restou da Articulação dos 113 (gerada pelo PRC) e unindo-se a outras pequenas tendências para continuar a dominar o Campo Majoritário.  

       Em 2001, depois de completado o “serviço”, a Democracia Radical dissolve-se na Articulação, que passa a se chamar Articulação – Unidade Na Luta e não deve ser confundida com a dissidência Articulação de Esquerda, porque a Articulação (AUNL) do ex-PRC já era ostensivamente uma corrente de direita. Atualmente, a Articulação – Unidade na Luta integra o campo de forças direitista do PT denominado “Construindo Um Novo Brasil”.

     O domínio da direita dentro do PT provocou diversas dissidências, como o PCO, o PSTU, a corrente Refundação Comunista e até o pragmático PSOL, que faz as vezes de antigo PT. O que restou da esquerda dentro do PT foi sendo afastado gradativamente. Muitos dos seus membros fundadores foram expulsos quando se revoltaram contra os rumos que o partido tomava. Outros saíram espontaneamente.


     A Articulação - Unidade Na Luta, projeto do ex-PRC, que depois se transformou no campo direitista “Construindo Um Novo Brasil”, abafou as demais fortes tendências do PT, restando somente um pequeno espectro ideológico representado basicamente pela tendência Democracia Socialista - que não é exatamente revolucionária e se diz trotskysta no sentido mais lento, gradual e marrano do termo. Além disso, a Articulação – Unidade na Luta recebeu apoio de petistas independentes atuantes em sindicatos (como o próprio Lula), das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica e de ex-integrantes da Ação Libertadora Nacional que, àquela altura, não tinha mais qualquer ação, não mais era libertadora e já cultivava algum ranço contra o nacionalismo.

       Aliás, o nacionalismo, principal luta do PTB de Getúlio Vargas e João Goulart, que pretendiam um Brasil forte e independente, foi e continua sendo um dos principais alvos de ataque do PT que, nessas horas, alia-se ao capitalismo globalizante. O fato de propor um amplo leque de alianças com todos os setores da sociedade como estratégia de conquista do poder revela o PT como o partido ideal da burguesia nacional e internacional, que recebe dos governos petistas aval para todos os seus negócios. O PT é o próprio partido da burguesia, que tem por ele grande carinho, e, nesse sentido, tende a absorver os partidos da direita clássica, como PSDB e DEM, que falharam na sua política de formação de quadros e estão isolados dentro do Congresso Nacional.

      O discurso anti-nacionalista sempre foi o preferido da direita, que deseja que o povo acredite que o Brasil é um país que já nasceu fracassado e que assim continuará, salvo no samba e no futebol, e necessita muito dos países que já nasceram vitoriosos, como os Estados Unidos, Inglaterra e demais aliados, e que importa se esses países vêm aqui levar todas as nossas riquezas se nos deixam as suas migalhas tecnológicas?

     Dentre os principais líderes do campo direitista “Construindo Um Novo Brasil” estão Ricardo Berzoini, José Dirceu, Chico Macena, José Genoíno, Luiz Dulci, Aloizio Mercadante, Gilberto Carvalho, Marco Aurélio Garcia, Tarso Genro, Luíz Inácio Lula da Silva e Adeli Sell.

DE VOLTA À VELHA REPÚBLICA

    Aquele partido que se dizia comunista e revolucionário, formado por pessoas da nova geração que se acreditavam vanguardistas, muito vanguardistas, e que fabricou pacienciosamente o PT que hoje conhecemos teria sido, de fato, um partido de esquerda ou no seu núcleo mais fechado já haveria um plano, desde os anos ’80, que uniria internacionalização a globalização através de um novo partido que se vestiria de vermelho para atrair os mais jovens e desinformados e, mais tarde, depois de todas as mudanças políticas que se faziam necessárias, assumiria o poder para entregar de vez o Brasil às multinacionais do império – de acordo com a prescrição do general Golbery?

    Observe-se que a primeira denominação que adotaram dentro do PT foi “Nova Esquerda”. Ora, o raciocínio lógico nos diz que não pode ser novo aquilo que já existe. Obviamente, estavam propondo algo diferente do que até então se entendia como esquerda, e o que é diferente da esquerda, senão a direita? Talvez quisessem dizer “Nova Direita”, uma direita esclarecida, assim como existiram os déspotas esclarecidos; uma direita que fingiria de esquerda e, aproveitando o momento histórico, quando Bush pai afirmava que o comunismo falecera de mal súbito e a estátua de Lênin era derrubada na Rússia, essa nova direita que se dizia esquerda, novíssima esquerda, renegava o marxismo, as lutas de classe, a revolução e todas as demais bandeiras da esquerda porque tudo aquilo ficara, de repente, velho, muito velho, e coisas velhas, ultrapassadas, devem ser esquecidas ou jogadas ao lixo.

     Em troca, um programa mínimo, que incluía a reforma do capitalismo, apoio às minorias deserdadas – drogados, gays, prostitutas... – melhores salários para que a classe média emergente se tornasse realmente emergente, participando, ufana, do obeso deus Mercado - e afastar os favelados e muito pobres que não podem consumir para longe, muito longe da alegre vida onde as festas se reproduzem e as pessoas lutam por nacos de prazer consentido.

      Todo poder à alienação e ao mercantilismo. Toda a aculturação ao povo alienado, que deverá aplaudir quando o inglês for adotado como língua oficial. Em caso de desconfiança, colocar frases de Paulo Freire nas escolas públicas e faz de conta que o frugal ensino não favorece a ignorância porque temos computadores para todos os alunos que os usam para brincar de internet e, na sua incapacidade de decodificar minimamente textos, frases, sentenças, de entender o que está escrito, inventam uma nova língua onde não existem vogais, porque até a inépcia necessita se expressar. Ao mesmo tempo, criar uma casta de privilegiados, de donos do saber, doadores de verdades imaginadas nos laboratórios de filologia e ciência política, nas agências de publicidade e propaganda, nos programas de televisão e até nos sites de entretenimento, porque o povo necessita de idéias prontas e isto não é fascismo – é Nova Esquerda.


 “(...) A nova esquerda afirma o valor transformador da democracia, estabelece como objetivo fundamental uma distribuição de renda mais justa, está pronta para arriscar a ordem em nome da democracia e da justiça social, afirma a superioridade do mercado na coordenação da economia, mas não dispensa a ação complementar do Estado na área social e na promoção da ciência e da tecnologia, propõe a adoção de novas formas participativas de trabalho nas empresas, dispõe-se a administrar e julga-se capaz de administrar melhor o capitalismo do que os próprios capitalistas (...)”

         
 (Luiz Carlos Bresser Pereira – ex-ministro da Fazenda no governo José Sarney – WWW.scielo.br – excerto de artigo escrito em fevereiro de 1990).


A expressão Nova Esquerda surgiu no mundo inteiro logo após a derrocada da União Soviética, e na maioria dos países europeus existem blocos de esquerda, ou da nova esquerda, absolutamente antimarxistas, que defendem um novo capitalismo e usam a palavra “socialismo” apenas como forma de propaganda.

A Nova Esquerda não é uma criação de setores de esquerda, mas um projeto elaborado há muito tempo pela direita ‘esclarecida’. Talvez desde muito antes de Golbery, que teve o mérito de organizar esse projeto no Brasil e passar o plano para âmbitos onde surgiam lideranças (universidades, movimentos sindicais, Igreja...), adestrando-as – direta ou indiretamente – para usarem o roteiro ideado no momento em que surgissem as condições propícias.

No Brasil, O PT, através do PRC, foi quem encampou o projeto. Dizendo-se de esquerda, fazia o jogo da direita, de uma direita muito inteligente que está por trás e acima dos pétreos oligarcas, dos broncos coronéis e dos gananciosos latifundiários. Uma direita que quer preservar o capitalismo a qualquer custo. Uma direita que provavelmente se reúne secretamente para idealizar e organizar o seu programa para o Brasil.

Essa mesma direita apeou do trono Dom Pedro II quando este não servia mais e, com uma quartelada, impôs a República. E os nossos primeiros presidentes eram todos dessa direita muito organizada, pertenciam à mesma organização por trás de todos os poderes: a Maçonaria.

Até chegar Getúlio Vargas e acabar com a farsa e com a corrupção que fazia do Brasil uma república das bananas. Foi golpeado pelos militares em 1945 e voltou em eleições diretas como Presidente em 1950. Em 1954 obrigaram-no ao suicídio. Dez anos depois deram o golpe militar. Essa direita não aceita o nacionalismo, porque considera o mundo a sua propriedade privada. No Brasil, essa propriedade privada foi entregue ao PT, travestido convenientemente de Nova Esquerda, e o PT, como nos tempos da Velha República, não resistiu à tentação.


     Alguns dos políticos contemporâneos que são maçons, de acordo com site da Maçonaria (fab29-palavralivre.blogspot.com.br): Álvaro Dias, Alceu Collares, Antonio Palocci, Beto Richa, Esperidião Amin, Francisco Dornelles, Gilberto Kassab, Golbery do Couto e Silva, Jânio Quadros, José Roberto Arruda, José Serra, Joaquim Marcelino de Brito, Luiz Antônio Fleury Filho, Mão Santa, Mario Covas, Michel Temer, Mozarildo Cavalcanti, Newton Cardoso, Orestes Quércia, Roberto Jefferson, Roberto Requião, Severino Cavalcanti, José Roberto Arruda (licenciado da organização), Tião Viana, Tarso Fernando Herz 
Genro.

- E Lula – perguntarão –, foi realmente informante do DOPS? E eu responderei: - Qual a diferença?
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