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sábado, 6 de agosto de 2011

GOLPISMO


Estamos todos proibidos pelas Forças Armadas brasileiras de ter comprometimento ideológico, porque elas continuam mandando no país desde 1964 e a única ideologia aceitável é a importada dos Estados Unidos: a ideologia do entreguismo. As Forças Armadas brasileiras há muito tempo – desde 1945 - não são mais brasileiras, mas uma filial das Forças Armadas dos Estados Unidos. E por isso se ufanam.

     Há quem chame isso de golpismo, mas eu prefiro chamar de servilismo, porque golpes militares foram vários na história da nossa triste república, sendo que o mais cristalizado e acadêmico foi o de 1964, que teve como principal objetivo instituir a adoração do futebol pelo nosso humilhado e inconsciente povo e, de quebra, matar, torturar e prender comunistas e simpatizantes, mas, principalmente, prender, torturar e matar nacionalistas – que, para as Forças Armadas são os elementos mais nocivos à nação.

     Mas poderá ser entendido como golpismo, se lembramos que toda vez que o assim chamado povo brasileiro – representado garbosamente pelas suas elites – pensou que poderia governar através de partidos e representantes eleitos teve os seus sonhos desfeitos em lamúrias e cacetadas.

     Foi assim com o suposto suicídio de Getúlio Vargas, do qual não me convenço, porque a CIA tem armas que somente o Demiurgo vê – e delas o vil mortal não poderá jamais escapar. Foi assim com o golpe de 1961, que instituiu o Parlamentarismo com o apoio de Tancredo Neves e foi assim em 1964 quando, muito aborrecidos, os militares decidiram que eles é que deviam governar o país, porque os civis estavam incomodando muito com a sua mania de fazer um Brasil para os brasileiros.

     E continuou nos anos 1980 quando, por força das circunstâncias internacionais e por ordem dos Estados Unidos, os militares tiveram que oficialmente abrir mão do poder, depois de algumas passeatas e concentrações de civis nas principais cidades do país, que foram devidamente televisionadas pelas muito amigas redes de televisão do poder e quando cantores se tornaram heróis e heróis de verdade foram lembrados para serem logo esquecidos e quando o povo pensou que era ele o autor das mudanças políticas que os fardados e seus amigos civis promoviam.

     E novamente o centrista Tancredo Neves foi usado para ser eleito indiretamente, mas uma estranha doença desconfiou que ele não era tão centrista assim e o liquidou em poucos dias na véspera de tomar posse e o povo chorou enquanto uma cantora famosa cantava o hino nacional com lágrimas que não eram de crocodilo e os crocodilos se confraternizaram nas casernas, porque colocaram o velho amigo do peito, José Sarney, no poder.

     E depois, Sarney fez o governo desejado pelos militares e possibilitou as eleições diretas e a Globo fabricou o Collor e depois o desfez quando Collor chegou a pensar que realmente era presidente e depois vieram outros presidentes igualmente amigos da farda e da mídia e sempre o Lula ali, via PT, dizendo que se eleito fosse faria um grande governo para o povo e com o povo e o Brizola lá, dizendo que queria restaurar a raízes do getulismo – o que era muito mais perigoso que um Lula que poderia ser manipulado -, mas Brizola morreu cedo demais para o gosto de todos e tão cedo que todos desconfiaram e finalmente foi eleito Lula, agora lá, mas devidamente amestrado e fez o governo mais corrupto da história recente do Brasil – para gáudio dos militares.

     E naquele governo dos mensalões e dos mensalinhos, que era dividido com todos os partidos amigos da direita, do centro e da pseudo-esquerda, aos quais permitia todos os desvarios da opulência do poder, porque é dando que se recebe, com disse beatificamente São Francisco, Lula se aliou oficialmente aos Estados Unidos para o que der e vier, através de tratados secretos e apertos de mão simbólicos e fez os militares novamente gargalharem, porque Jobim, o Grande, era eleito junto com Lula e se tornava seu ministro da defesa dos desejos dos militares.

     E no Haiti era deposto o presidente pelo povo esfomeado e pela guerrilha armada. Justamente o Haiti, que fica a um tiro de arcabuz de Cuba e os Estados Unidos nomearam o Brasil jobínico como chefe de uma grande força de paz da ONU, também formada por outros países servis para ajudarem aquele povo pobre até que chegasse o grande terremoto e os Estados Unidos tomasse conta definitivamente do Haiti e kaput!

     E de lá voltam os orgulhosos militares brasileiros pensando porque não no Brasil também, afinal o Haiti é aqui e Lula dava ao povo futebol e mesadas e os militares subiam os morros com tanques e helicópteros e toda a força bélica que possuem para combater a droga do povo que insiste em ser favelado num país que tem um desenvolvimento tão acelerado e tanto petróleo do Sérgio Cabral, que não é Cabral por acaso...

     Mas – súbito! – para surpresa de muitos, é eleita Dilma Roussef, que era tida apenas como uma senhora que tinha o dever de guardar a cadeira da presidência para o Lula por quatro tediosos anos, uma senhora que parecia apenas feminista e defensora das causas sociais que não provocam revoluções, mas apenas leves indignações, que parecia estar somente fazendo hora enquanto seu lobo não vem, de novo, mas que, como consciente mulher que é, embora feminista, resolve fazer a faxina da casa.

     E todos aqueles que pareciam intocáveis – Palocci, Nascimento e a turma do Dnit – vão sendo espanados do poder e agora vem a turma do ministério da Agricultura, que é do PMDB e todos pensam que Dilma não pode mexer com o PMDB, porque é o principal aliado da sua base no Congresso, mas será?

     E para supremo desafio, Jobim, o Grande, do alto de seu quase inalcançável pedestal de grande preboste, transformando as Forças Armadas brasileiras nas mais armadas da América do Sul, que combaterão Chávez e Evo Morales juntos, se necessário for e os Estados Unidos pedirem, depois que derrotar o povo das favelas, Jobim, o Engraçado, põe-se a dizer gracinhas – que graça! – sobre a presidente e suas ministras e – pasmem, senhoras e senhores! – é demitido.

     Profundo silêncio nos quartéis. Manifestações de repulsa dos mais graduados entre os graduados militares, frases que ficarão eternas sobre o possível comprometimento ideológico do governo - como se o governo devesse ser uma coisa insossa, uma espécie de boneco nas mãos dos mais poderosos e mais bem armados -, lembranças de que eles, os militares, estão atentos para, se os brasileiros clamarem e a Globo insistir, fazer o que a hora requer.

     E para horror e estertores gástricos de generais e afins é nomeado Celso Amorim, que poderá viabilizar a Comissão da Verdade, para o Ministério da Defesa. Alguém que poderá não usar farda e ainda ajudar os não fardados a descobrir como foi que os militares mataram e torturaram, em seus momentos de lazer e beatitude, aqueles que julgavam inimigos.

     - Como ousa a Dilma agir como Presidente de verdade? – murmuram, bradam, os que preferem o silêncio como única inatacável verdade histórica. Como Dilma ousou tirar o Jobim, o amigão, que já estava, desde a triste época do Lula, transformando o Brasil num país novamente militarizado. O Haiti não é aqui?!

     E todos falam em golpe. Golpe. A lei do mais forte. Que o leão se torne leão devorador de instituições e constituições. Que os soldados marchem por estradas e ruas e atropelem a tudo e a todos; que desçam das favelas e entrem nas cidades, cerquem as assembléias, o Congresso, o Palácio do Planalto, porque Jobim deve ser vingado e a fúria marcial somente acabará com um general no poder – é o que pensam e talvez tramem os mais exaltados e saudosistas.

     Outros calculam saídas políticas. Dilma poderia se transformar em um segundo Jânio Quadros. Poderia renunciar, devido à força tão forte das forças ocultas não tão ocultas. E teriam o Temer no poder, de quem nada se deve temer.

     Ainda outros, que se arvoram de constitucionalistas, dizem que é melhor a Dilma terminar o seu mandato, porque depois voltará o Lula, o Cara, e com ele Jobim, O Grande.

     Enquanto isso, enquanto o golpe não se define, enquanto os que bufam contra Dilma, aos poucos se transformam em meros bufões e o Brasil assiste futebol, porque é muito grande a curiosidade sobre os cabelos do Neymar, o PSDB abre as portas para Jobim, que poderá acabar os seus dias dignamente no silencioso Senado. Ou como eterno candidato a Presidente.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DESTAQUES DE 2010


O ano de 2010 deixa saudades para alguns e tristezas para outros, como sempre acontece em todos os anos. Tivemos nascimentos, mortes, tragédias, guerras e momentos emocionantes...

     No Brasil, a eleição de Dilma e a convocação de “Dilmetes” para todos os cargos possíveis – desde segurança até Apontadora Oficial de Lápis Para a Presidente mostrou que a ideologia de Dilma é o Feminístico, ou a mistificação do feminismo. E este é o fato mais brega e engraçado do ano de 2010.

     Não escrevi sobre as lágrimas do Lula ao deixar o Palácio do Planalto com os seus muitos caminhões repletos de presentes – biscuits, fitinhas, porta-retratos, coisas assim... Ou sobre as enchentes ou o assalto às favelas do Rio de Janeiro. Ou, ainda, sobre as fabulosas vitórias dos nossos atletas em suas diversas competições.

     Esses assuntos mais importantes eu vou deixar para as grandes redes de televisão e suas equipes de reportagem.

     Este é um blog simples, limitado. Por isto, simplesmente, limitadamente, segue abaixo o que considerei alguns destaques do ano de 2010.


     A frase do ano: “Você sabe que eu tenho o poder do veto!”. Lula para o seu amigo Sérgio Cabral, sobre os royalties do pré-sal.

     A piada do ano: COP 16. Terminou como começou – emissão de gases 100%, principalmente dos participantes.

     O fiasco: a seleção dos Amigos do Dunga na Copa da África do Sul.

     Prêmio “Segredo de Estado”: a “zerésima” urna eletrônica brasileira. Todos desconfiam e ninguém tem certeza.

     Prêmio “Brumas de Avalon”: as eleições brasileiras com as inescrutáveis urnas eletrônicas.

     O canal de televisão do ano: Globo News, que provou que é possível não informar sorrindo.

     O canal de televisão estrangeiro do ano: Globo News (!), que também acumula o prêmio “Nós Amamos Os Estados Unidos”. Os jornalistas até sabem falar português.

     Prêmio “Time do Ano”: Mazembe.

     Prêmio “Mamãe Eu Quero”: PSDB e aliados.

     Prêmio “Amigo Secreto do Ano”: Aécio Neves, amigão do PT.

     Prêmio “Impostômetro”: vai para o brasileiro, que paga os impostos mais altos do mundo e ainda faz carnaval.

     Prêmio “O Que Será, Que Será?”: para Eduardo Suplicy (PT), que deu cartão vermelho para José Sarney (PMDB), no início do ano, pedindo a sua renúncia e o Sarney terminou o ano como presidente do Senado e aliado do PT.

     Prêmio “Luzes Que Se Apagam”: Yeda Crusius, que conseguiu a façanha de conquistar 19% do eleitorado na tentativa de reeleição como governadora do Rio Grande do Sul.

     Prêmio “Expectativa”: ao Supremo Tribunal Federal, por suas (in)decisões.

     Prêmio “Quem Sou Eu?”: INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), que continua atolado na beira da História.

     Destaque “Quase Poder do Ano”: a Câmara Federal, agora representada dignamente por Tiririca.

     Prêmio “Estória Infantil”: Os Três Porquinhos – de Dilma, la Rousseff.

     O idioma do ano: o Dilmês, somente inteligível pelos altos iniciados do partido da caríssima R$26.723 e todas as mordomias Dilma.

     Melhor Atriz: Marina Silva.

     Melhor Ator: Lula Silva.

     Melhor Atriz coadjuvante: Dilma Silva Rousseff.

     Melhor Ator Coadjuvante: José Serra (que não é Silva).

     Prêmio “Eu Voltei”: Antonio Palocci.

     Chefão do ano: Sérgio “Pré-Sal” Cabral.

     Morte anunciada: Julian Assange, criador do Wikileaks.

     Prêmio “Ditadura II – O Regresso”: Dilma, por arquitetar e construir a hidrelétrica de Belo Monte, em pleno parque do Xingu - o que provocará grande impacto ambiental e desalojará mais de 30 povos indígenas.

     Prêmio “Esquerda Amestrada”: PSOL.

     Prêmio “Direita Travestida”: PT.

     Prêmio “Este É Um País Que Vai Pra Frente”: Ministério da Educação, que acumula o prêmio “Comigo Ninguém Roda”.

     Prêmio Ignóbil da Guerra: Obama, por razões óbvias.

     O desmatador do ano: Aldo Rebelo, do patético PC do B, também conhecido como o partido pelego preferido do PT. Foi o relator do projeto que permitirá desmatar ainda mais a Mata Atlântica.

     O “CARA” do ano: Nelson Jobim – o poderoso invasor de favelas, que também leva o prêmio “O Haiti É Aqui”.

     Prêmio “WikiLeaks do Ano”: Nelson Jobim (de novo?), pela sua estreita amizade com o Grande Irmão do Norte.

     Prêmio “A Raça do Ano”: os nordestinos, segundo Dilma e seus fiéis crentes.

     Prêmio “Boneco Sorridente do Ano”: José Serra, que também leva o Prêmio “Me Engana Que Eu Gosto”.

     A intelectual: Dilma Silva Roussef, por suas inovações lingüísticas.

     Prêmio “Calcinha Preta”: para a semigótica música caipira, que pensa que é country e se diz sertaneja.

     Prêmio “Chico Buarque”: Ministério da Cultura de Dilma.

     Prêmio “Inteligência Artificial”: para os que desejam proibir Monteiro Lobato nas escolas.

     Prêmio “Zé Padilha Ataca Novamente”: “Tropa de Elite 2”, por defender a violência policial.

     Prêmio “Esperançoso”: Michel Temer, vice de Dilma.

     Prêmio “Temerária”: Dilma.

     Prêmio “Carnaval do Ano”: as eleições.

     Prêmio “Povo Brasileiro”: Tiririca.

     Prêmio “Bobo do Ano”: o povo brasileiro.

     Destaque artístico: Lucas Thomazinho. Um dos melhores pianistas brasileiros. 15 anos.

     Destaque de Honra: o povo grego que, ao contrário do brasileiro, vai para a rua e luta pelos seus direitos.


Um Feliz Ano Novo!

Fausto.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

ENTRE O DIREITO E A ILEGALIDADE MANDA O ESTADO FARDADO


O interessante é que a ordem de intervenção nos morros e favelas cariocas – através do apoio explícito da Marinha, Exército e Aeronáutica - contou com o assentimento, a ordem, do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, que é famoso como defensor da Constituição. Mas também está ficando famoso por outros motivos, como atacar o Plano Nacional de Direitos Humanos – 3 (PNDH-3) e comandar, atualmente, as forças brasileiras - autodenominadas de “Forças de Paz” – que invadiram o Haiti em 2004 e estão lá até hoje à revelia da vontade soberana do seu povo.

     A invasão do Haiti, todos sabemos que fez parte da política de boa vizinhança de Lula com os Estados Unidos, uma espécie de sinal de que o Brasil continua sendo um aliado fiel, embora já não seja mais um país oficialmente dominado pelas Forças Armadas e sim um Estado democrático. Ou seja: um país onde o povo vota regularmente.

     Quanto aos ataques do ministro Jobim ao PNDH-3, é resultado da necessidade de encobrir os crimes das Forças Armadas durante o que foi chamado, eufemisticamente, pela imprensa dominante, de “período de exceção”.

     Muitas pessoas que não conseguem se acostumar com mentiras oficiais, ou que desconfiam das verdades oficiais, gostariam de saber exatamente o que aconteceu naquela época da ditadura militar. Assim como já está sendo feito na Argentina, por exemplo, com punição para os culpados, como deve ser no que entendemos uma democracia. Mas no Brasil não é possível. Permanecem as verdades da ditadura militar, como se ainda fossemos governados pela Forças Armadas, ora vejam!

     É claro que o governo democrático do senhor Lula da Silva, tão amigo dessas forças tão armadas a ponto de ceder a pressões e fazer um acordo militar com os Estados Unidos, já está no fim, faltando apenas um mês para Lula passar o governo para a sua digna sucessora, e transformar-se em abóbora.

     Mas, como na maioria dos aspectos do seu governo de oito anos, o fato de Lula ter aceitado servilmente os argumentos do ministro Nelson Jobim e recuar sobre o Plano de Direitos Humanos, com medo das reações das Forças Armadas é um sintoma de provável torpor das forças civis ante os adestrados soldados que lutam heroicamente contra o povo haitiano. Pela paz, é claro.

     Pois agora surgiu a necessidade de assumir o controle da maioria dos morros e favelas cariocas. Vem aí a Copa de 2104 e as Olimpíadas de 2016 e o Rio de Janeiro deve voltar a ser o cartão-postal do Brasil. A desculpa é a luta contra o narcotráfico. Melhor: contra os narcotraficantes. Não é uma tentativa de eliminação das drogas ou do vício que elas causam, mas ficou claro que é, principalmente, uma reconquista de território.

     Para que isso acontecesse sem maiores traumas por parte da população favelizada foi criada toda uma estratégia de mídia – Rede Globo & Cia. – para fazer do BOPE (Batalhão de Operação Especiais) - e demais forças policiais - de um órgão odiado por significantes parcelas da população mais pobre no nobre defensor das comunidades excluídas. Além da propaganda midiática intensiva foram utilizadas as chamadas “redes sociais”. E, como uma espécie de preparação de terreno, os dois filmes do Zé Padilha, que defendem a ação fascista como uma forma de combater o “mal”. O povo, acostumado com os enlatados norte-americanos, adorou. O capitão Nascimento virou herói.

     E invadiram as favelas da maneira mais descarada e inconstitucional possível. O povo acostumado a ter os seus direitos ultrajados diariamente, não só pelos bandidos, como pela polícia e pelas milícias, acha tudo muito natural. O Bem está lutando contra o Mal, Batman derrota o Coringa.

MILÍCIAS, BOPE, CORE... E SUAS CHACINAS

     As operações policiais, bem como as invasões, são apresentadas, cinicamente, como uma "ocupação pacificadora".  Isso ficou ainda mais evidente diante de um estudo do Instituto de Ciências Policiais da Universidade Cândido Mendes Paulo Storani, que revelou que longe de serem controladas pelo tráfico, as favelas são em sua grande maioria controladas pelas milícias paramilitares.

     De acordo com o documento, cujos dados foram obtidos por meio das informações de líderes comunitários e da própria Delegacia de Repressão ao Crime Organizado da Polícia Civil do Rio de Janeiro (Draco), "os grupos formados por policiais militares e civis, bombeiros, agentes penitenciários, aposentados e da ativa ocupam hoje mais territórios do que as grandes facções do narcotráfico no Rio. Na lista das 250 principais favelas pesquisadas (estima-se que na capital são mais de mil), 100 são controladas pelas milícias, 84 pelo Comando Vermelho, 35 pelos Amigos dos Amigos e 31 pelo Terceiro Comando Puro" (Estadão, 11/11/2010).

     No segundo filme de Zé Padilha – “Tropa de Elite-2” – o capitão Nascimento, mesmo continuando fascista torna-se herói ao denunciar as milícias, e o BOPE passa a ser adorado pela população. Mas o BOPE é especialista em chacinas e o povo tem memória curta.

     O jornal A NOVA DEMOCRACIA http://jornalanovademocracia.blogspot.com/2008/05/chacinas-policiais-nas-favelas-do-rio.html, na edição de 6 de maio de 2008, denuncia:

     “Em Bangu, dia 3 de abril, a polícia invadiu as favelas da Coréia e da Vila Aliança e matou pelo menos 12 pessoas. A chacina, que durou quase metade do dia, teve a participação de várias delegacias, entre elas a CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais). De acordo com a diretora da creche comunitária da favela da Coréia, que ficou com medo de se identificar, crianças e educadores foram surpreendidos quando chegaram ao local antes das 7h da manhã e se depararam com uma base da polícia montada dentro da creche.

     “Dias depois da invasão, uma senhora foi até a Ordem dos Advogados do Brasil com a carteira de motorista, carteira de trabalho e contra-cheque do filho de 31 anos, executado pela polícia. De acordo com Margarida Pressburguer, presidente da comissão de direitos humanos da OAB, Clecio Amaral de Souza era motorista de vã e saia para trabalhar às 7h da manhã. Por causa do intenso tiroteio Clecio pediu abrigo na casa de um vizinho para se proteger. Policiais em um helicóptero viram Clecio entrando no barraco e ordenaram que policiais, em terra, invadissem o local. Depois de capturado, Clecio foi executado com um tiro na nuca e outro no peito, na frente de uma criança e de um homem, que seria o dono do barraco. O motorista que, mesmo desarmado, foi covardemente assassinado tinha anotações em sua carteira de trabalho desde os 15 anos, a última delas como gari da COMLURB.

     “Na manhã de terça-feira, dia 15 de abril o BOPE invadiu a Vila Cruzeiro, matou 9 pessoas e feriu outras 6. Nos dias seguintes à invasão o BOPE ocupou a favela e montou base no Posto de Policiamento Comunitário (PPC). Os traficantes fugiram para as comunidades vizinhas e os moradores, sem outra opção, seguiram suas vidas normalmente. Porém circular na favela com a presença do BOPE tornou-se um risco de vida iminente. Até agora outras 7 pessoas já foram mortas sem que se saiba a culpa de qualquer uma delas, já que nenhuma investigação foi, nem será feita.

     “Na tarde de sexta-feira, dia 25 de abril, policiais do BOPE invadiram a Cidade de Deus deixando onze mortos e pelo menos 5 feridos. Entre os feridos estavam duas senhoras, Maria José Silva foi baleada no glúteo, no braço e na perna, e Maria dos Anjos Mendes Cruz foi atingida no glúteo. Elas foram levadas para o hospital Lourenço Jorge e liberadas depois um período em observação. Já uma outra senhora, Jozélia Barros Afonso, de 70 anos, não teve a mesma sorte. Ela foi baleada quando estava dormindo e faleceu momentos depois, no hospital. O seu marido, Valdair da Conceição Afonso, era casado há 51 anos com Jozélia e disse ter certeza de que o tiro partiu dos policiais.”

     Dificilmente você encontrará nos jornais da mídia dominante, aliada do Governo, algum relato sobre chacinas policiais. Mas até em outros países as façanhas do “capitão Nascimento” e seus cúmplices fardados estão ficando famosas. O jornal português "INFORMAÇÃO", em sua edição online de 20 de agosto de 2010, em matéria assinada por Marta F. Reis, da Agência Lusa, sob o título “Brasil: mulheres retratam em "Luto como Mãe" chacinas policiais no Rio de Janeiro”, descreve:

“Com uma câmara na mão, 11 mulheres retratam a dor de ter perdido entes queridos, vítimas da violência policial no Rio de Janeiro, mas também revelam a sua luta pela justiça no documentário “Luto como Mãe”, com estreia hoje no Brasil.

     "Durante 70 minutos, o filme reproduz o rosto feminino da violência armada em crimes cometidos pela polícia que chocaram a opinião pública, como “chacina de Acari”, “chacina da Candelária”, “chacina da Baixada” e outras que caíram no esquecimento.

     “O filme fala de mães que perderam os seus filhos. É a luta para não deixar os casos caírem em esquecimento ou passarem impunes na justiça”, disse à Lusa o jovem cineasta luso-descendente, Luís Carlos Nascimento, que acompanhou de perto durante quatro anos o drama dessas mulheres.

     “É um retrato emocional de mulheres que foram jogadas de forma muito abrupta e não por opção pessoal. Mas que, de uma maneira curiosa, elas saem de um lugar da invisibilidade e passam a ser visíveis e se movimentam fazendo a diferença”, destacou.

     “A luta traz coisas boas, você pode ajudar outras pessoas. Antes eu não era ativista e comecei a ser em 1995 porque o meu irmão sobreviveu à chacina da Candelária”, disse à Lusa Patrícia de Oliveira da Silva, da Rede de Comunidades e Movimento contra a Violência.

     "A chacina da Candelária ocorreu na madrugada do dia 23 de julho de 1993, perto da igreja com o mesmo nome no centro do Rio: seis adolescentes menores e outros dois homens foram assassinados por polícias.

     "Patrícia, que ajudou na criação do filme e também na investigação histórica, contou à Lusa como foi filmar pela primeira vez. “Foi uma experiência muito rica saber que estava a ajudar a construir uma coisa que poderia trazer o debate para todo mundo.” O documentário traz ainda a possibilidade de discutir “a polícia e política nós queremos”.

     "O realizador explica que as mulheres “passaram a documentar momentos em que a câmara principal não estava”. É um olhar “totalmente delas nos factos”, ressaltou, “de uma pessoa que atingiu um ponto de maturidade a ponto de minimizar a dor, sabendo que está a contribuir para que novas mulheres não sintam o mesmo”.

     "Nas cenas do documentário, as mulheres dão os seus relatos: “Fui inspetora, perita, delegada, tudo aquilo que a justiça não quis ser para mim. Eu fui uma mãe”, diz uma das mães vítimas.

     "Outra mãe afirma numa cena comovente: “Não sei se vou conseguir vê-los (os criminosos) atrás das grades. Mas talvez se eu tivesse uma classe social boa, fosse branca e não morasse na favela, já teriam resposta para mim”.

     "Entre 1998 e 2008, mais de cinco mil pessoas perderam a vida em resultado de ações da polícia no Rio de Janeiro. Essas vítimas eram, na maioria, negros, jovens e pobres.

     "Feito em parceria com o Observatório sobre Género e Violência Armada da Universidade de Coimbra e o Centro de Estudos em Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, no Rio, “Luto como Mãe” foi exibido em antestreia no ano passado em Lisboa.

     O documentário foi produzido por Cinema Nosso, Jabuti Filmes e TVZero, e também exibido em 2009 no Festival Internacional do Rio, além de ter participado no 1º Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa – FESTin (Portugal/2010).

     Precisa mais? Então, mais uma. O jornalista e escritor RAUL ZIBECHI, em matéria publicada no site Argenpress - Web site: www.argenpress.info (IRCAMERICAS), posteriormente traduzida e veiculada no jornal virtual DIÓGENES - http://www.diogenes.jex.com.br/ - sob o título “MÃES DE MAIO: A DIFÍCIL DEMOCRATIZAÇÃO DO ESTADO GENOCIDA NO BRASIL”.

     É uma entrevista que o jornalista argentino fez com um grupo de mulheres de São Paulo, intitulado “MÃES DE MAIO”, sobre chacinas ocorridas na Baixada Santista, em maio de 2006, praticadas pela polícia daquele estado. Uma parte da entrevista:

     "Meu filho se chama Edison e tinha 29 anos. Foi morto na rua, tinha ido comprar remédios e por gasolina em sua moto. Vivemos na Baixada Santista, um bairro de trabalhadores em São Paulo. Os policiais o seguiram e o mataram a 500 metros do posto de gasolina. Embora haja contradições nas declarações, o Ministério Público não fez nada e arquivou o caso", disse Débora Maria da Silva, uma mulher de 50 anos, mãe de outras duas filhas.”

     Outro trecho da mesma entrevista:

     “O Estado extermina os pobres e negros favelados por que é mais fácil matá-los do que dar-lhes educação e saúde, porque para eles os pobres sobram. Os rapazes negros são os mais vulneráveis. A política de segurança deste país é uma política de extermínio, eles preferem cárceres a escolas. Aos jovens é aplicada uma figura que é a "resistência seguida de morte", o auto da resistência, que não existe no Código Penal", diz uma Débora politizada pela sua experiência de vida.”

CONSTITUIÇÃO PARA QUÊ?

     No mundo inteiro, através dos veículos de informação não oficiais, que não pertencem aquele poderoso grupo de empresas de comunicação que somente veicula informações vinculadas ao Poder a que servem, o Brasil está famoso - também por suas chacinas promovidas por policiais. Mas a grande maioria do povo brasileiro não sabe de nada disso. Essa maioria está tão dominada mentalmente que somente aceita como verdade o que a mídia dominante disser que é verdade.

     E a mídia dominante disse que a invasão da Vila Cruzeiro, onde foram mortas várias pessoas pelas forças policiais e o cerco e invasão do chamado Complexo do Alemão foram ações legais. Mas diversos artigos da Constituição foram desrespeitados naquelas ações.

1. O Exército, Marinha e Aeronáutica apoiaram a ação da policia, mas a Constituição diz, em seu artigo 142, que

     “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.” Destinam-se à defesa da Pátria.

     Mas os donos do poder sempre acharão um inciso qualquer de uma lei qualquer feita para situações como as que estão ocorrendo nas favelas cariocas. Por exemplo, poderão alegar que aquele trecho: “por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”, é conveniente para este caso. Mesmo assim, somente com a declaração de estado de sitio ou estado de defesa no Rio de Janeiro. O estado de sitio vem depois do estado de defesa e somente se este se revelar ineficaz. Está previsto no artigo 137 e somente pode ser acionado em caso de comoção grave de repercussão nacional ou declaração de estado de guerra a potência estrangeira. São casos em que as garantias constitucionais são suspensas.

     E no caso de decretação de Estado de Defesa, o Presidente da República e o Conselho de Defesa Nacional teriam de submeter a sua decisão ao Congresso Nacional, que decidiria por maioria absoluta. Teoricamente, estamos numa democracia.

     Qualquer medida sem a participação do Congresso Nacional consiste em fato e não poder assegurado pelo regime Democrático Constitucional brasileiro. E mesmo que tivesse sido decretado o estado de defesa, a sua duração seria, no máximo, por 30 dias. Mas o governador do Rio, Sérgio Cabral, diz que o Exército permanecerá nas favelas por até sete meses. O mesmo governador que disse que “lei e ordem vêm antes dos direitos humanos” - segundo a revista Veja online de 29 de novembro de 2010.

2. As forças policiais que invadiram o Complexo do Alemão estão fazendo uma varredura nas casas dos moradores, mas a Constituição diz, em seu artigo 5º, parágrafos X-XI:

X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;

XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

     Segundo a definição jurídica, encontrada no artigo 150 § 4º do Código Penal, considera-se "casa" qualquer compartimento habitado, aposento de habitação coletiva e também compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou atividade (quarto, oficina, atelier, etc.).

2.1. A polícia está entrando em todas as casas da região, indiscriminadamente, mas há uma lei que diz:

Art. 243. O mandado de busca deverá:

I - indicar, o mais precisamente possível, a casa em que será realizada a diligência e o nome do respectivo proprietário ou morador; ou, no caso de busca pessoal, o nome da pessoa que terá de sofrê-la ou os sinais que a identifiquem;

II - mencionar o motivo e os fins da diligência;

III - ser subscrito pelo escrivão e assinado pela autoridade que o fizer expedir.

§ 1o Se houver ordem de prisão, constará do próprio texto do mandado de busca.

§ 2o Não será permitida a apreensão de documento em poder do defensor do acusado, salvo quando constituir elemento do corpo de delito.

2.2. E o Código de Processo Civil deixa claro:

Art. 841. A justificação prévia far-se-á em segredo de justiça, se for indispensável. Provado quanto baste o alegado, expedir-se-á o mandado que conterá:

I - a indicação da casa ou do lugar em que deve efetuar-se a diligência;

II - a descrição da pessoa ou da coisa procurada e o destino a Ihe dar;

III - a assinatura do juiz, de quem emanar a ordem.

3. Estão revistando todas as pessoas do lugar invadido, mas o art. 5º, XV da CFB prevê o direito de ir e vir, a saber:

"É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens.”

4. Estão prendendo pessoas “a torto e à direito”, mas a Constituição Federal, em seu artigo 5º, inciso LXI, determina que

“Ninguém será preso a não ser que tenha sido pego em flagrante delito ou exista uma ordem escrita e fundamentada emitida pelo Juiz competente determinando a prisão daquela pessoa, ou seja, exceto nos casos de flagrante (estar cometendo um delito, ter acabado de cometê-lo ou ser pego com o objeto do crime, dando a entender ser o seu autor) deverá ser exibido um mandado de prisão assinado pelo Juiz, em que conste a identificação da pessoa que está prestes a ser detida, e o motivo da prisão.

     Se a prisão ocorrer fora dessas circunstâncias, estará havendo ilegalidade, como na chamada "prisão para averiguação".

5. Cercaram, intimidaram, ameaçaram e invadiram as favelas e depois se queixaram de que foram recebidos à bala, mas o artigo 21 da Constituição diz:

“Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias, e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública”.

     Curioso é quando a ordem provém precisamente de autoridade pública, o que não anula – antes reforça – o direito de resistência.

     E O Código Civil (artigo 6º) fixa um princípio geral de Direito: “a ignorância ou má interpretação da Lei não justifica a falta do seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas”.

     Então, o que estamos assistindo é uma total truculência do Estado contra os cidadãos nas favelas do Rio de Janeiro. Em outras palavras – ditadura.

     Pessoas estão sendo baleadas e as suas casas estão sendo invadidas e revistadas – ilegalmente. Pessoas estão sendo paradas nas ruas e revistadas - ilegalmente. Pessoas estão sendo presas como suspeitas de crime – ilegalmente. Pessoas estão sendo mortas pelo Estado.

     Os números, segundo as fontes oficiais:

     50 mortos entre a população civil. 36 mortes de suspeitos registradas pela PM, 7 mortes registradas pela Polícia Civil e 7 registradas pelos hospitais públicos do Rio. 118 prisões, 130 pessoas detidas para averiguação, além de drogas e armas apreendidas.

     E o risível dentro do trágico é que o Estado utilizou 2.600 homens e mulheres das polícias cariocas e do Exército, Marinha e Aeronáutica, com o objetivo de prender cerca de 500 pessoas no Complexo do Alemão, sendo que, segundo a imprensa, para essas 500 pessoas tinham sido lavrados 100 mandados de prisão. E os supostos bandidos fugiram.

     A ditadura voltou, lenta e gradualmente.




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