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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

SOMENTE UM SONHO

26.723 Pessoas aproximavam-se com rapidez do Congresso Nacional. Alguém dentre eles gritou “Agora!”, e formaram um cordão em torno às duas casas do Congresso.


   A um sinal, 23 entraram primeiro na Câmara Federal, depois de imobilizarem guardas e seguranças. Um deles disse ao microfone: “A Câmara Federal está fechada! Os senhores estão presos. Por favor, façam fila ao sair para que as suas cuecas sejam revistadas”. Alguém do PSOL disse: “Não é assim que se faz uma revolução. Por favor, primeiro é necessário um projeto de lei!” – mas teve imediatamente a sua voz anulada pelo esguicho de um revólver com água, e diluiu-se. Os demais apenas tiveram diarréia e foram obrigados a limpar a própria sujeira por 26.723 dias seguidos.

     Depois o Povo – pois era o Povo – entrou no Senado. Lá dentro, Mão Santa dizia: “Luiz Inácio, eu avisei!...”, mas teve que parar de falar por outro esguicho de água. Encolheu-se a um canto, enquanto os cartões de crédito dos senadores eram recolhidos e as suas cuecas revistadas. Nus, eles lembravam baratas, e gritavam e gemiam e suavam como as pessoas normais suam, e imploravam: “O meu dinheiro!”. Mas também tiveram que sair em fila, indignados por sua nudez descoberta. O último a sair, Paulo Paim, ainda tentou falar: “Os aposentados...” Um novo esguicho de água calou a sua voz lastimosa e, por ser o último, foi obrigado a apagar a luz.

     Senadores e deputados, nus, saíram entre vaias e ovos podres e foram obrigados a ajoelhar no milho para rezar e purgar os seus pecados por 26.723 dias. Não foram permitidas joelheiras.

     Todos os ministérios e secretarias foram esvaziados e ministros e secretários foram obrigados a passar pela mesma revista dos senadores e deputados e a recitar “confesso que pequei” por 26.723 dias seguidos. Com intervalos para comer e beber pão e água, quando eram servidos por corvos e gralhas.

     Então o povo encaminhou-se para o Palácio da Alvorada. Lá dentro, acontecia uma grande festa. A banda PRÉ-SAL cantava músicas sertanejas para Lula, Dilma e embaixadores convidados. Bebiam e comiam e engasgavam-se e comiam e bebiam de novo e de novo se engasgavam. Seus olhos soluçavam de prazer a cada vez que a banda repetia a música “O Poder É Nosso”.

     Quando o Povo entrou nem perceberam. Todos cercavam o embaixador dos Estados Unidos, que estava em um trono feito de petróleo e ouro e repetiam, a intervalos: “Bendito é aquele que vem em nome do Senhor!”.

     Rapidamente foram imobilizados pelo olhar do Povo. Quando perceberam a situação, já estavam nus e encolhidos a um canto. Lula, mais esperto, ainda gritou: “Companheiros!”. Deixaram-no gritar. Dilma repetia, cada vez mais fracamente: “Trololó!, assertiva!, tergiverso!, eu tenho um compromisso! – tomada de pânico por ver o Povo à sua frente. Os demais diluíam-se em poças d’água. O embaixador dos Estados Unidos tornara-se verde como a sua moeda. Todos foram encaminhados para rezar de joelhos no milho por 26.723 dias, enquanto repetiam, junto com os seus ministros: “Eu mensalei, tu mensalastes, ele mensalou, nós mensalamos, vós mensalasteis, eles mensalaram”.

     O Povo ria.

     Nisto, ouviram-se tropas correndo, aviões voando, carros de combate chegando e Nelson Jobim à frente de todos, bufando ordens de prisão. O Povo nem se abalou. A um sinal, todos os 26.723 membros do Povo, que representavam todo o Brasil doente, esfomeado, miserável, iludido, gritaram “Mandrake!” – e as tropas pararam, imersas em sua estupidez natural, os aviões voltaram para as suas bases, os carros de combate estacionaram enquanto de dentro saíam pessoas que pareciam humanas, mesmo que com uniformes e gritaram “Viva o Povo!”, e Nelson Jobim transformou-se em uma estátua de sal.

     Foi quando apareceram os membros do Supremo. Vinham em procissão, apenas com as togas sobre as cuecas já revistadas. Rezavam: “26.723 e benesses e mordomias e habeas, habeas, habeas” – e teriam que rezar essa estranha reza por 26.723 dias seguidos, servidos por corvos e gralhas, enquanto caminhavam no milho em torno aos deputados, senadores, secretários, ministros, Lula, Dilma, embaixadores e demais seres amorfos que, a cada 23 segundos se transformavam em poças d’água de suas próprias lágrimas e depois voltavam a ser quase seres humanos ao pensarem que os Estados Unidos viria salvá-los das mãos do Povo.

     Mas toda a América Latina transformava os seus governantes em poças d’água e pedaços de gelatina e quando os Estados Unidos pensaram em atacar, todos gritaram “Mandrake!” e eles se transformaram em cândidos pingüins. E teriam que ficar assim por 26.723 anos, por seus imensos pecados contra a humanidade e a natureza.

     Pulando sobre os milhos, Lula ainda tentava dizer, a cada 23 segundos: “Companheiros, não é assim...!” – mas não chegava a completar a frase, com medo dos olhares do Povo. Dilma parecia ensandecida e repetia, como se fosse uma canção: “Trololó, trololó, trololó...”.

     O Povo apontava para os ex-governantes, dizendo: “26.723, 26.723, 26.723...”.

      E eu acordei. Suava. E lembrei que ainda estava no Brasil deles, onde tem um povo submisso e acovardado e fui olhar para as estrelas do final de noite para ver se conseguia distinguir algum sinal entre elas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

NEM AS SUAS FIGURAS HILÁRIAS NOS COMOVEM


Estava assistindo aos discursos de três senadores, porque só havia três senadores naquela ampla sala que foi construída com a suposta ilusão de que os representantes do povo representariam o povo.

     Eles se revezavam na cadeira da presidência do senado. E falavam coisas bonitas e grandiloqüentes, fazendo pose para as câmeras da TV Senado, tentando conquistar futuros votos de mentes puras e incertas.

     Os demais estariam fazendo campanha, supostamente, para os seus candidatos à presidência, nos seus torrões natais, nos seus currais eleitorais, no que eles chamam de base política. Imaginei-os curvados, sorridentes, com roupas surradas, fingindo descer do seu pedestal, atrás das pessoas que ainda não sabem em quem votar, fazendo promessas, dando presentes, tentando parecerem pessoas normais, apelando para todas as possibilidades sintáticas de um jargão mais comum, suados, esbaforidos na corrida pelos votos que são tão significantemente monetários para eles.

     Cargos e pastas ministeriais sendo disputadas através do voto do povo, que se mostra ingênuo e quer acreditar que isso é democracia, que quer acreditar que o eleito com a sua aquiescência irá, de fato, melhorar o país e que não depende da sua ação qualquer mudança social, mas apenas do seu pequeno dedilhar na urna e pensei na possibilidade do povo acordar, perceber-se fraudado mais uma vez, como tornará a ser daqui a quatro anos se continuar mumificado na sua inação, apenas esperando que as pessoas que ocupam cargos importantes em Brasília façam por ele o que ele próprio – o Povo – poderia estar fazendo por si mesmo, se descobrisse a sua verdadeira força.

     E imaginei o Povo dizendo “não!” a toda essa campanha eleitoral feita por ilusionistas, a esses dois candidatos que se revelam um o espelho do outro em suas propostas ocas de verdade.

     E imaginei o Povo dizendo a eles:

     “Já basta! Temos certeza de que os dois candidatos não tem toda essa importância para os brasileiros, a ponto de ficarmos presos a seus balbucios, palavras e gritos, às suas idéias – que são as mesmas – ou aos seus tiques e manias.

     “Que se entredevorem! Vomitem a sua verborragia um para o outro, mas somente um para o outro. Não nos fustiguem mais com as suas propagandas descaradas, pedinchonas, com as suas melindrosas declarações de pureza, com os seus coquetéis de afazeres, com as suas entediantes frases vazias.

     “Façam-nos o favor do total silêncio em seus horários eleitorais gratuitos, que muito custam a nós, os brasileiros enfastiados da senilidade dos seus pensamentos, dos seus planos retrógrados, das suas extensas prosopopéias que sabemos mentirosas.

     “Um dos dois será eleito e isto não faz mais diferença, porque ambos são impuros e falsos e falso e impuro será o próximo governo que, mais uma vez tentará nos enganar; que, com certeza irá nos espoliar com a força do seu arbítrio travestido em leis, apoiadas pelos seus trogloditas oficiais fardados, redigidas pelos seus nunca pouco loquazes parlamentares, tão distantes de nós como estamos distantes do bem-estar e da tranqüilidade – defendidas pelos seus encarquilhados ministros togados.

     “Deixem-nos em paz, já chega! Cansamos das suas declarações de perfeição que nunca irão se concretizar.

     “Além do mais, vocês não são vocês. São apenas porta-vozes, de grupos, de coligações, de conchavos, de alianças entre partidos que estão mais partidos que os seus pensamentos e idéias e palavras decoradas.

     “Nem as suas figuras hilárias nos comovem mais. Convençam-se: vocês nada sabem de nós, o povo. Não sabem o que é não ter casa, conforto, higiene, alimentação, saúde, enquanto vocês dormem muito bem em seus travesseiros de penas de ganso e sonham com o poder que somente terão com a nossa exploração.

     “Estamos cansados do seu palavrório televisivo que nada diz de verdadeiro sobre a nossa realidade. A turma de vocês é outra. Procurem-na, mas não a nós. Decididamente, não somos iguais, por mais que vocês sorriam e peguem no colo as nossas crianças. Não nos convencem suas lamúrias atrás de votos. Sabemos para que vocês os querem... Com certeza, vocês não votariam em nós.

     “Até fingimos acreditar. No nosso íntimo, numa espécie de auto-engano, de ilusão premeditada, de tentativa desesperada de fé... Mas sabíamos, também no nosso íntimo que, por mais desesperada que fosse essa tentativa, seria sempre uma fé frustrada, uma vã ilusão.

     “Troquem telefonemas, e-mails, conversas secretas. Discutam cargos, alianças, dinheiro e possibilidades outras. Outras que não nós – sabemos. E decidam, finalmente, qual dos dois irá assumir o tão cobiçado cargo e em troca de quais favores. Isso já não nos diz respeito, porque não estamos representados. Para nós restarão as suas amáveis migalhas de fingido conforto.

     “Nada mudará com a eleição de um de vocês. Por que ainda nos torram a paciência? Por que ainda fazem esses debates ridículos, quando se mostram tão iguais em suas convicções?

     “Mas ainda resta uma esperança para vocês se mostrarem minimamente humanos. No próximo debate fiquem quietos, em absoluto silêncio, com as cabeças baixas, os rostos ruborizados. Nem uma palavra, por favor! Depois, nos últimos segundos, peçam desculpas ao povo brasileiro. Em conjunto, ao mesmo tempo. Dispam-se de suas máscaras embonecadas”.
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