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segunda-feira, 5 de março de 2012

O GRANDE RANCOR




O exílio judeu na Babilônia durou setenta anos, e todos os exilados pertenciam a famílias da classe média para cima. O povo pobre ficou na sua terra de origem, porque alguém tinha que cuidar dos campos, do gado e até dos lugarejos que ainda existiam no outrora reino de Judá. Os membros das famílias ricas foram levados para serem reeducados na corte, embora não tenha dado resultado. Setenta anos depois, quando Ciro, o persa, reinava, representantes da nova geração judia pediram ao rei licença para voltarem à sua pátria, reerguerem a cidade dos seus antepassados – Jerusalém – e reconstruírem o Templo. Como não representavam mais nenhum perigo, Ciro concordou.

     Não poderia ter sido mais ofensivo. Nem com visita chata se faz uma coisa dessas! É de praxe dizer que fiquem mais um pouquinho, a conversa está tão boa... Imaginem com escravos, ou súditos!... 

     Informes sigilosos revelam que o atual estado beligerante entre Israel e Irã, o país Persa, tem como origem o rancor causado por Ciro ao ter aceitado o pedido dos judeus de deixarem a Pérsia, naqueles tempos longínquos, e não, conforme é divulgado atualmente, a suposição de que o Irã esteja construindo armas nucleares.

     Um antigo pergaminho caiu em minhas mãos num desses dias ventosos. Provavelmente veio direto do Irã ou de Israel e comprova essa teoria. Chama-se “O Rancor dos Rancores”. Leiam e julguem.


     - Como vai, doutor Ciro? Eu queria lhe falar uma coisinha...
     - Não precisa me chamar de doutor; basta Magnífico Rei do Mundo.
     - Perdão, Magnífico. É que o nosso povo é dado a profecias e daqui a alguns séculos o título de doutor vai ser tão reverenciado como hoje é o título de rei.
     - Magnífico rei! E já estou cheio dessa estória das profecias de vocês. O velho Nabucodonosor sofreu muito com aquele tal de Daniel, que interpretava sonhos e profetizava.
     - É provável, Magnífico, ouvi falar a respeito, mas eu queria lhe pedir um favor.
     - Pois fala, criatura do teu deus!
     - O senhor sabe que o nosso povo já está aqui há mais de setenta anos. Dá pra cansar um pouco. Além disso, sentimos muita falta da nossa humilde terra, das colinas verdejantes, das cidades que foram arrasadas e saqueadas, das ovelhas, das vacas e até da mísera ralé que ficou lá cuidando de tudo isso para nós...
     - Mãinha do Céu!
     - Como disse, Magnífico?
     - É uma expressão, uma frase comum, um dizer exclamativo que os magos da corte me contaram que vai ser usada daqui a muitos séculos em um país de dançarinos e malabaristas. Significa: para de me chatear e vai direto ao ponto.
     - Bem, me perdoe pela ousadia, Magnífico, mas indo direto ao ponto nós gostaríamos de voltar para a nossa terra. Pronto, falei!
     - Só isso? E precisava dar tantas voltinhas para um pedido tão simples? Podem ir.
     - Como assim, Magnífico, o senhor quer dizer...
     - Isso mesmo que eu disse: que podem ir. É só arrumarem as malas e pé na estrada. O dia está ótimo para uma boa viagem.
     - O senhor está nos correndo, Magnífico?
     - Não, súdito falador, apenas concordando com o seu pedido.
     - Mas eu pensei...
     - Não pense. Se você pensar, continuará falando e agora eu tenho muito que fazer. As minhas esposas estão me esperando.
     - Se essa é a sua resposta, Magnífico, eu terei que comunicá-la ao Super Grande Conselho Secreto.
     - Pois faça isso. Divirta-se.

                                ---

     Reunião do Super Grande Conselho Secreto.

     - Ele disse que nós podemos ir, irmão número 1?
     - Com essas palavras, irmão número 2.
     - Mas isso é terrível, irmão número 1! Que falta de respeito! Não pediu que ficassem alguns dentre nós para servi-lo?
     - Nem lembrou dos nossos imensos serviços ao reino, irmão número 2.
     - Isso entristece muito a minha alma, irmão número 1.
     - Eu tenho uma idéia!
     - Que bom que você tem uma idéia de vez em quando, irmão número 3! E qual seria essa idéia?
     - Devemos pedir mais, irmão número 1. Volte ao rei e peça que levemos conosco os objetos do Templo que foram roubados por Nabucodonosor. Quero ver se esse pedido não o fará enfurecer-se a ponto de proibir a nossa saída do reino.
     - Brilhante, irmão número 3! Amanhã mesmo vou fazer esse pedido ao rei.

                                 ---

     - Majestade, Magnífico Rei do Mundo, Excelsa Estrela do Universo...
     - Para de me puxar o saco e diz o que você quer.
     - Lembra da nossa conversa, Magnífico, quando eu implorei que deixasse o nosso povo partir de volta para a terra dos nossos ancestrais?
     - Se lembro!... Passei a noite em claro só pensando nisso.
     - Com insônia, Magnífico? Quer dizer que se arrependeu? Deseja que fiquemos aqui? Ficou triste ao lembrar que o nosso povo deixará a Pérsia?
     - Ao contrário. Foi tamanho o alívio que não consegui dormir. E quando vocês partem?
     - Magnífico, se me permite...
     - Permito, mas diga logo o que deseja que eu permita.
     - Magnífico, nós pretendemos reconstruir o Templo, mas faltam os utensílios. Vossa Majestade deve lembrar que são utensílios raríssimos e caríssimos, feitos por inesquecíveis artesãos. Estão no tesouro real e eu vim humildemente pedir que nos deixe levá-los.
     - Mas porque não pediu antes? Tem a minha permissão. É só falar com o tesoureiro real e pegar o que precisa.
     - Assim no mais?
     - Mas não é o que pediu? Podem levar. Eu sou um rei magnânimo.
     - Devo lembrá-lo, Magnífico, que são peças de ouro e prata de valor inestimável.
     - É verdade, mas eu não me importo muito com as coisas materiais. Eu sou um rei espiritualizado.
     - Muito bem, Magnífico, mas terei que comunicar a sua decisão...
     - Ao SGCS? Pode comunicar. E saudações aos outros dois irmãos do Conselho Secreto.
     - Como Vossa Majestade sabe que o nosso Conselho Secreto é composto por três pessoas?
     - É que o meu serviço secreto é muito aperfeiçoado, quase tanto quanto será o de vocês daqui a muitos séculos – segundo visões sobre o futuro dos magos da corte – ou o S2 daquele país de bailarinos e contadores de anedotas, daqui a muitos e muitos séculos.
     - Majestade, mas o senhor disse anteriormente que será um país de dançarinos e malabaristas...
     - Ou isso. Os meus magos, em suas visões, vêem um estranho povo que gosta muito de correr atrás do couro que salta, e de cantar e pular. Nas horas vagas, contam anedotas e falam incessantemente num estranho aparelho que colocam junto ao ouvido.
     - Que estranho, Magnífico!... O que o futuro nos espera!...
     - Espera a eles. É por essas e outras que estou ficando espiritualizado. Agora pode ir, porque está na hora de eu assistir ao grande espetáculo da ordenha das cabras reais.

                                  ---

     Reunião do Super Grande Conselho Secreto.

     - Então ele não nos quer mais, irmão número 1! Como a minha alma fica contristada!
     - Pssst! As paredes, o teto e até as goteiras e teias de aranha tem ouvidos.
     - Então vamos falar a língua do Pê, irmão número 1.
     - Não diga bobagens, irmão número 3! Eles devem conhecer a língua do Pê.
     - E só vamos ter um bom serviço secreto lá pelo século XX, irmãos...
     - E a Cabala será aperfeiçoada somente na Idade Média, irmão número 2...
     - Isso tudo deixa a minha alma...
     - Muito triste. Eu já sei disso, irmão número 2. Vamos conversar bem baixinho.
     - pstflsbsgnlstfsgmn........
     - flllstmancvcdassaso...
     - kasdfccmlsnvbdf...
     - Grande idéia, irmão número 3! Você está se sobrepujando!
     - Pssst, irmão número 2. Amanhã falarei com ele.

                                         ---

     - Majestade, Magnífico, Supremo entre os Supremos, Luz da Melíflua Beleza, Grande e Portentoso Sábio do Universo...
     - Você está querendo me gozar, não é? Pensei que você e todo o seu povo já estavam a caminho. Diga logo o que deseja.
     - Magnífico, depois que pedi desesperadamente para que deixasse o meu povo partir para a terra onde mana leite e mel e que hoje, infelizmente, está devastada por feras e salteadores, e depois que Vossa Majestade concordou com os meu pedidos, porque sabe que somos súditos leais e eternos...
     - Confesso que ao ouvi-lo falar, súdito leal e eterno, quase esqueço que um dia os nossos povos serão inimigos.
     - Inimigos?! Mas como isso poderá ser, Majestade?
     - Segundo os meus magos, por causa daquele líquido negro e viscoso que usamos para acender fogueiras e lampiões.
     - Mas isso é impossível, Majestade! Ainda se fosse por ouro...
     - Pois os meus magos me disseram que daqui a muitos séculos aquele líquido mal-cheiroso vai valer mais do que ouro.
     - Ah, é bom saber desde agora... É bom saber...
     - Mas você dizia...
     - Eu dizia... O que eu dizia, mesmo, Magnífico? Perdão, fiquei um pouco perturbado ao falar em ouro... Lembrei, Sapientíssimo! Apenas um último e, creio, doloroso pedido para Vossa Majestade.
     - Doloroso? Doloroso é saber o que aquele povo do futuro - aquele que gostará de rir e de dançar – vai fazer com a sua fauna e flora daqui a muitos séculos. Isso sim é que é doloroso. Você nem imagina o que os meus magos tem me contado sobre suas visões do futuro!...
     - Parece que será um povo um tanto extravagante, Magnífico...
     - Extravagante é dizer pouco. Totalmente inconsciente! Mas o que você deseja agora? Armas e mantimentos? Podem levar. Material de construção para o Templo e para a cidade, idem. O que mais?
     - Sinto ter que comunicar à Vossa Presença Iluminada que o nosso povo tem que sair sem que falte um só membro. Sentiremos muita saudade da Pérsia, mas temos que ir todos, inclusive levando os ossos dos nossos pais que morreram aqui. É uma questão de tradição.
     - Uh! Que tradição horrível! É isso que é doloroso para mim?
     - Não exatamente, Magnífico Rei. Sabe a sua esposa número 3?
     - Aquela que tem lábios de rubi, olhos cor de mel, seios como os montes mais altos do meu reino, cabelos negros como a asa da graúna?
     - Essa mesma, Majestade. Mas o que é graúna, se me permite a pergunta, Magnífico?
     - É um dos pássaros que vai ser extinto naquela terra que já lhe falei. E o que tem a minha esposa número 3?
     - Ela é da nossa raça, Magnífico, e terá que ir junto para a nossa terra. Claro que somente se Vossa Majestade permitir... Se não for possível, teremos que ficar todos aqui. O nosso lema é “Um Por Todos e Todos Por Um” – ou “Por Uma”, como é o caso.
     - Oh, isso me deixa muito entristecido! - como diria o seu irmão número 2. Mas que fazer? Leve-a. Afinal, eu tenho mais 333 esposas que tem os olhos cor de mel e todos aqueles outros atributos necessários a uma esposa real. Vão com o vosso deus e com a minha bênção, e não percam tempo, aproveitem o tempo bom, partam amanhã mesmo.

           A caminho da terra muitas vezes prometida, os membros do Super Grande Conselho Secreto conversavam.

     - Irmãos, andei verificando a caravana e está tudo certo. Temos cavalos, camelos, cabras, ovelhas, bois, vacas, material de construção, armas, todos os utensílios do Templo e os tesouros que tinham sido roubados do nosso povo, dinheiro persa, alimentos em abundância, os ossos dos nossos pais, a ex-esposa número 3 do rei... Enfim, tudo o que foi pedido e ainda muitas outras coisas. Só o povo é que anda murmurando por ter que deixar um reino tão rico como o da Pérsia.
     - Este nosso povo sempre foi murmurador, irmão número 3. Faz parte da nossa tradição. Mas sinto um grande rancor no meu peito porque o rei nos despediu assim, tão facilmente.
     - Eu também, irmão número 1. A minha alma sente-se atribulada com tamanha ofensa e o meu corpo esmagado pelo andar desajeitado deste camelo.
     - Ainda nos vingaremos, irmão número 2. O rei me falou de um futuro conflito entre os nossos povos, daqui a muitos séculos. Devemos nos preparar desde agora. Afinal, não deve ser por acaso que somos o povo escolhido.
     - É verdade, irmão número 1. Mas daqui a muitos séculos ainda vai demorar um pouco. Tudo que eu desejava era que o rei não permitisse a nossa saída da Pérsia.
     - Eu também, irmão número 2. Seria perfeito. Teríamos a oportunidade de reeditar a epopéia de Moisés, com todas aquelas pragas sobre o povo do Egito, a matança dos primogênitos, o exército do Faraó morrendo afogado no Mar Vermelho. Deve ter sido tão bonito!
     - Nem me fale, irmão número 1, nem me fale...
     - Irmãos, eu vejo!
     - O que você vê, irmão número 3?
     - Eu vejo muros cercando os nossos escravos e armas que lançam fogo e imensos anjos voadores que rugem nos céus e atiram raios que explodem e magníficos cogumelos de luz que antecedem a vinda do nosso Messias e...

     E o povo, embasbacado, ouvindo as exclamações do irmão número 3 começou a murmurar novamente e diziam: “Estará o irmão número 3 entre os profetas?”

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O PREFEITO E O CARNAVAL




O Prefeito estava em seu gabinete, depois de muito visitar as vilas da cidade, inaugurando tudo o que podia, até poço artesiano, e chegara muito cansado, pedindo um cafezinho, um chimarrão, um copo d’água, uma massagem, um escalda-pés, uma conversa amiga, um consolo, e o secretário reclamou:

     - Companheiro prefeito, sinto muito, um consolo só no Dia de São Nunca, que é santo muito milagreiro, mas posso providenciar qualquer outra coisa dessas que o companheiro citou. Ou quer todas ao mesmo tempo?

     - Companheiro secretário, para que eu preciso de um secretário?

     - Deve ser para guardar os seus segredos, companheiro prefeito. Para que mais seria?

     - E entre os meus segredos, um consolo significa alguma coisa obscena ou algum malfeito, companheiro secretário?

     - Desculpe, companheiro prefeito, é que nunca se sabe...

     - Você é que nunca sabe, companheiro secretário. Os meus pés estão cansados, a minha vista turvada, o meu coração acelerado como o PAC, depois de tantas visitas à plebe ignara, que votará em mim porque entende, em sua santa ignorância – que Deus a abençoe - o quanto eu sofro por ela, e peço um consolo, que significa algo que me tire dessa turbação espiritual e o companheiro me vem com piadinhas sobre São Nunca, um santo da minha devoção!...

     - Perdão, companheiro prefeito... tome aqui um cafezinho... Mas quanto à massagem... Ainda quer um escalda-pés?

     - Não é mais necessário. Escaldarei meus pés quando chegar em casa, na companhia da minha companheira, no meu aprisco, na solidão dos meus pensamentos, no aconchego das minhas revistas de figurinhas, colhendo as impressões do dia no meu diário secreto, assistindo ao BBB...

     - Sublime! companheiro prefeito. É justamente o que eu faço quando chego em casa. Aprisco não é para ovelhas, companheiro prefeito?

     - É como eu me sinto às vezes, companheiro secretário: uma ovelha abandonada no meio de feras famintas.

     - Que pena, companheiro prefeito! Não sabia que o companheiro tinha todo esse complexo.

     - É que o companheiro não entende o âmago do meu ser... Dê-me os alfarrábios prefeiturais.

     - Aqui estão, companheiro prefeito. O primeiro item da pauta é o carnaval.

     - Carnaval! Sempre carnaval! Por que será que nesta época só se fala em carnaval? Associações burlescas, carnavalescas, extravagantes, grotescas, folianescas pedindo verbas e gente se queixando do carnaval de rua. Como solucionar essa equação?

     - Eu não sou muito bom de matemática, companheiro prefeito.

     - O povo precisa gritar e cantar, mas os lojistas se queixam de que o carnaval de rua é perigoso, as pessoas de bem não querem ir para a rua durante o carnaval, com medo de assaltos. Mas o povo precisa pular, agitar-se, acreditar que tudo é festa, gastar a sua energia... Mas vejo um pedido da Associação de Impolutos Negociantes, a AIN, pedindo para acabar com o carnaval de rua. E agora?

     - Agora, é tirar o carnaval de rua das ruas, companheiro prefeito. No máximo, empurrá-lo para um cantinho de uma ou duas quadras bem escondidas e bem policiadas, com arquibancadas na volta e o povo pensará que aquilo é carnaval de rua.

     - Genial, querido companheiro secretário.

     - Controle-se, companheiro prefeito. Por favor!

     - Foi só uma efusão pré-carnavalesca, companheiro secretário. Olhe: outro pedido para extinguir o carnaval de rua. Um pedido drástico da PROFABEM, que pede o fim, inclusive, dos bailes nos clubes. Eles tem medo do que chamam de chinelagem.

     - A chinelagem é um grande problema, não só em nossa cidade, mas em todo o país, companheiro prefeito. Mas o que é PROFABEM?

     - É uma associação misteriosa, secreta, discreta e inquieta, formada pelas Probas Famílias de Bem. Gente que usa sapatos novos todos os dias. Por isso eles não gostam dos que usam chinelos e querem o fim do carnaval. Dizem que, no máximo, um carnaval bem longe da cidade, onde só possam participar aqueles que tem carros do ano e muito dinheiro - junto com seus fâmulos, guarda-costas e agregados – e onde não seja permitido o terrível cheiro de povo.

     - Sentirão cheiro de vaca, companheiro prefeito. Bem longe da cidade não seria na campanha?

     - Na campanha... Já sei! O castelo das Grandes Cuias. Recentemente foi tombado e se transformou em atração turística. Pintores pintaram afrescos em suas paredes, escultores esculpiram náiades e sátiros nos belos jardins, todos os dias pessoas pertencentes ao PROFABEM vão até lá para admirar a arte que só a eles pertence. E tem um grande salão. Que tal, companheiro secretário, um carnaval no castelo das Grandes Cuias só pra eles. E pra mim, é claro! Imagine um carnaval fora de época naquele belo lugar, para que o povo nem desconfie...

     - Perfeito, companheiro prefeito! Mas não venha com efusões pré-carnavalescas... Assim, mansinho, mansinho... Pronto!

     - Calma, companheiro secretário?! Foi apenas um entusiasmo passageiro. Aff!, cansei de tanto resolver problemas. Agora sim caía bem uma massagem.

     - Uma massagem, companheiro prefeito?

     - No ego, somente no ego, companheiro secretário. Diga que eu sou um gênio.

     - Gênio!, companheiro prefeito. Gênio!

     - Agora deixe ver o meu extrato bancário. Ah, como isso é bom!... Muito bom!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CONVERSA NA NOITE CEGA


Disse para ela que o contato acontece quando fechamos os olhos. Ela respondeu que quando fechamos os olhos somos omissos. Também era verdade, dependendo do ponto de vista, mas como ter ponto de vista se os olhos estão fechados? Tentei explicar.

     O espiritual e o físico estão juntos, um depende do outro, caso contrário nenhum existiria, só podemos conhecer a claridade se entendermos o escuro, a diversidade está dentro da unidade, o que seria da vida sem a morte, do preto sem o branco, da verdade sem a mentira?

     Ela me olhou com olhos de desespero e falou sobre a morte consentida. Que naquele exato momento, neste exato momento estavam morrendo de fome milhares de pessoas, principalmente crianças que nada sabiam sobre metafísica. Falou apressadamente, como se tudo fosse muito urgente – e tudo era muito urgente. Disse que não podemos brincar de viver quando logo ali à nossa volta havia um despudorado cinturão de miséria que um dia iria estrangular a cidade que se fingia de cega, cidade digna de políticos e representantes que só pensavam em enriquecer e se especializavam em falsos silogismos, na perdida retórica dos desertos e no estender as mãos para o poder.

     “São materialistas”, falei, “e um dia pagarão seu karma”. Esclareci que eram subdesenvolvidos espiritualmente e só pensavam em riquezas porque o seu espírito era muito, mas muito pequeno e que a sua capacidade de compaixão era nula. Que nada sabiam nem queriam saber dos horrores do mundo, porque entendiam o mundo como um lugar onde se deve desfrutar o prazer e apenas o prazer. Pessoas ligadas aos cinco sentidos, em muitos aspectos inferiores aos animais, que são puros por si mesmos, refletindo a Natureza e a divindade que os criou.

     Percebi em seu olhar uma imensa tristeza quando retrucou que pensar assim era consentir na inação; jogar tudo para um outro mundo, uma outra vida, uma outra possibilidade que consistia apenas em questão de fé e em nada contribuía para resolver os problemas da nossa realidade. Disse que sentia em si o desespero de milhões de desamparados que viviam a desilusão diária dos enganados pelos usurpadores das suas vidas, tripudiados e escarnecidos pelos muito ricos que desejavam ficar cada vez mais ricos e mais ricos, em troca da degradação e da miséria dos que só podiam apelar para a fé, porque nada mais lhes restava de esperança.

     Eu olhava para os seus olhos que cintilavam na escuridão daquela noite que parecia infinita. Eram belos e belo deveria ser o seu espírito. Insisti em dizer que tudo era uma grande prova, um teste a que todos estávamos sendo submetidos na nossa passagem pela Terra. Que talvez tudo fosse uma ilusão, quem sabe já estávamos mortos e não sabíamos? Um teste que consistia em contínuo aprendizado, promovendo a evolução espiritual de todos e individualmente. Disse que até as grandes tristezas, o desespero, a miséria, as doenças, as humilhações faziam parte desse teste cósmico. Que todos respondiam nesta vida de acordo com o karma adquirido em vidas passadas e que muitas vezes o sofrimento poderia resultar em aprendizado para o crescimento espiritual em vidas futuras.

     Ela me olhou com olhos apagados. Ficou um instante em silêncio e depois me perguntou se eu conseguia conceber um deus tão imensamente mau a ponto de ficar o tempo inteiro do seu inalcançável infinito olhando o sofrimento das suas criaturas que eram imperfeitas e por isso falhas e sujeitas a erros. E que por seus erros em vidas passadas teriam de sofrer no presente, enquanto ele, o grande criador, ficava apenas observando para ver quem passava no teste.

     Eu retruquei, dizendo que não dependia de Deus, que era o Criador, mas nos deixava o livre-arbítrio para errarmos e aprendermos com os nossos erros e que nos dava vidas e mais vidas, oportunidades infinitas para evoluirmos espiritualmente.

     “Mas é muito cômodo para Deus!” – contestou, com olhos pouco indulgentes. “Os que não conseguirem evoluir, através dos testes de fome, humilhação e sofrimento, porque são espíritos inferiores, provavelmente serão levados para o grande lixão cósmico onde serão reciclados – não é assim? E os que vivem em abundância - devido à exploração que transforma a grande maioria em escravos - são aqueles que já evoluíram espiritualmente e por isso tem direito a uma vida de paz e fartura na Terra?” – completou, irônica.

     Tentei dizer que aqueles também estavam sendo testados; um teste mais agradável, mas teste. Ela já havia se afastado, encoberta pela noite, mas ainda gritou: “Deus não é onisciente?”

     A noite estava escura, muito escura. Parecia cega aos gritos e pensamentos. Fiquei olhando para o céu e vi uma estrela cadente riscar aquela tanta escuridão, como uma heresia que se desnuda. Arregalei os olhos e lembrei: “crianças morrendo de fome neste exato instante...”

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

PIQUENIQUE NO PARQUE


Tentei chegar perto quando vi aquele montão de barracas. Já tinha visto de longe, porque eu sempre durmo no parque, a não ser nos dias de chuva, e a primeira coisa que imaginei é que tinham me tirado o lugar. Mas depois pensei: “é gente como eu, só que são um pouquinho menos pobres; tem até barracas”, e fui chegando perto, esperançoso de também encontrar comida, porque eu e meus amigos dividimos tudo, até os restos que achamos no lixo.

     Já era quase de noite. Fui chegando devagar, espreitando aqui, espreitando ali, sem ficar muito perto, porque vá que fossem da polícia... Quase eram! De repente, ouvi um grito de mulher: “Um mendigo!” É claro que sou um mendigo, não sei qual foi a surpresa e nem porque tanto espalhafato. Logo vieram outras pessoas e um deles me perguntou: “O senhor é de onde?” Ora vejam, que pergunta boba! De onde eu sou... Fiquei até pensando... De onde eu sou? Taí uma pergunta inteligente.

     Eu sou de onde der pra ser. De onde deixarem eu ser. Às vezes cato lixo, mas não paga a pena. Além de ficar todo esfalfado carregando aquele carrinho pesado o dia inteiro, fraco e com fome, quando entrego na fábrica que recicla o lixo dos que tem, recebo uma miséria. Moedinhas. E assim não dá! Por mais que digam que é trabalho e que é honesto, não dá pra sobreviver só com aquela honestidade. Coisa de escravo. Já não sou mais um moço; tenho minhas dores e minhas vertigens. “Qualquer dia caio morto”, pensei, no dia em que desisti de ser catador. As pernas doíam muito e não sentia mais as mãos. Mas de onde eu sou?

     “Eu sou ali da igreja”, expliquei, por falta de melhor resposta. Muitos riram, mas um deles ainda perguntou: “De qual igreja?” Tive que explicar que eu não podia escolher igreja; que ficava na mais próxima, quando podia ia para uma mais central onde passa mais gente e aproveitei para perguntar se eles tinham algum resto de comida, porque havia muita gente, tudo gurizada, e faziam comida aqui e faziam comida ali e tocavam violão e cantavam e falavam muito. Aqueles que estavam à minha volta pareciam já ter jantado. Tinham os olhos gordos e brilhantes. E logo uma das moças – bonita! – falou: “O senhor espere um momentinho aqui, que eu já vou lhe trazer um prato de comida.”

     Levei até um susto, esse tipo de coisa só acontece em época de Natal, e olhe lá! Mas acreditei. Sentei ali por perto, sobre um tronco caído, e esperei. Não demorou muito e veio um prato de comida, e até talheres.

     Comi. Comi. Comi. Comi de ficar feliz. Como é bom comer! Depois, entreguei o prato pra moça e perguntei se ela queria que eu fizesse alguma coisa em troca. Ela disse que não, que não precisava; que ali estava tudo muito bem organizado, pois era um acampamento da juventude. E eu pensei: “Então é piquenique, e dos grandes!”.

     Logo depois, vieram dois rapazes e me perguntaram se eu estava sabendo do Fórum Social. Disse que sim, para não parecer muito burro, mas que não sabia bem o que era, embora eu soubesse que existia, que estava acontecendo. Então, me disseram que era uma reunião com gente muito importante – reunião grande, que durava dias – para debater sobre como resolver o problema das maldades do mundo. Disse pra eles que a intenção era muito bonita, ainda mais se tratando de jovens, mas que não precisavam debater muito, porque as maldades do mundo estão bem à vista, era só olhar em volta.

     Foi quando um deles me falou que todas aquelas maldades em volta eram resultado de um modelo de política que eles queriam acabar e por isso se reuniam para debater a respeito. Vibrei! “E quando esse modelo acabar, eu posso não ser mais mendigo?”, perguntei. O que parecia mais esperto, ou mais falador, disse que sim, que quando aquele modelo errado acabasse eu seria tratado como gente, poderia até ter casa e emprego decente e assistência médica de verdade. Me entusiasmei e perguntei: “E quando vai ser?”

     O outro, que parecia mais compenetrado, disse que tudo iria depender do processo político, da conscientização das pessoas, da mobilização das massas. Aparteei, perguntando se até a semana que vem já dava para eu ter casa e emprego. Expliquei que eu já não era mais um jovem como eles e que não podia ficar esperando muito.

     Riram e saíram, me olhando com uma cara estranha. Não demorou muito e chegou uma moça dizendo que eu poderia dormir por ali naquela noite, mas nas noites seguintes não, porque aquele acampamento era vigiado pela polícia, que dera permissão só para a juventude ficar ali durante os dias do Fórum.

     Percebi que tinham desconversado, que era um piquenique mesmo, mas não me fiz de rogado. Agradeci, me afastei e fui dormir sonhando com o dia em que o tal processo político mudar. Parece que vai demorar muito, mas não custa nada sonhar. É só fechar os olhos.
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