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domingo, 15 de dezembro de 2013

O FRUTO PODRE DA NOSSA POLÍTICA



Romeu Tuma Jr. em seu livro “Assassinato de Reputações – um crime de Estado” afirma que Lula foi informante do DOPS. Lula não respondeu. Não responderá. O que se sabe de Lula antes de aparecer como líder sindical no ABC paulista? As histórias pessoais podem ser forjadas, assim como os dossiês. Assim como os partidos políticos.

   O fato é que Lula surgiu no momento histórico ideal para os donos do poder. A pessoa certa no lugar certo que, no devido tempo, ajudou a fundar um partido absolutamente anódino e cediço, aglomerando tendências políticas de uma suposta esquerda que repudiava o marxismo, em sua maioria. Portanto, não era esquerda. No máximo, esquerdizante. Não por acaso Brizola, Luiz Carlos Prestes e outros líderes socialistas não quiseram entrar para o PT, que denunciaram corretamente ser um partido fabricado para abrigar toda aquela juventude oriunda das universidades que não sabia o que exatamente desejava no momento em que a ditadura militar promovia o seu próprio fim - a pedido de Washington, assim como ocorria com todas as ditaduras do cone sul - e surgia uma nova república que se anunciava democrática, porque permitia o voto. Um voto virtual, enclausurado em urnas eletrônicas, mas voto. As mistificações fazem parte da política, da nossa política.

   Todos aqueles movimentos que se diziam “socialistas”, ou “comunistas”, muitos deles oriundos de uma dividida luta armada muitas vezes traída ajudaram a construir o PT. Era o momento da “democracia”, do estado de direito e a revolução ficaria para depois, muito depois; ou ainda, como diziam muitos sábios ideólogos, a revolução estava acontecendo, mas de maneira pacífica e construtiva, os proletários não tinham consciência do seu papel histórico e era melhor que tudo continuasse assim, cada um no seu lugar, graças a Deus: os militares na caserna, os políticos que voltavam do exílio formando o seu coerente Centrão – depois de muitas aulas de como é bom o capitalismo suíço e francês - e os estudantes e ex-revolucionários, então redimidos à paz dos conformados, aliados a sindicalistas para formar o grande partido do futuro, que seria chamado, convenientemente, de Partido dos Trabalhadores. 

    Melhor nome impossível. Um achado! Os militares, que permeavam toda a nova organização social e tinham fundado dois partidos para início de conversa – MDB e ARENA – oficializando os dois lados de uma mesma moeda, pediam, suplicavam, exigiam, ameaçavam matar e arrebentar caso o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) não fosse extinto ou transformado em um partidinho inócuo. Afinal, a ditadura militar teve como principal objetivo liquidar com Jango, Brizola e todos os petebistas que ameaçavam fazer a reforma agrária e a reforma urbana, além da reforma da educação anunciada por Paulo Freire, ministro de João Goulart. A isso os militares entendiam como “comunismo”. Ficaram trinta anos no poder, prendendo, torturando, matando para acabar de vez com essas “idéias comunistas” e se o velho Partido Trabalhista Brasileiro voltasse com os mesmos líderes e as mesmas bandeiras, toda a chacina e tentativa de lavagem cerebral do povo teria sido inútil. Urgia acabar até com o nome PTB, suplantá-lo por uma agremiação nova com um nome muito parecido – e eis o PT.

O PLANO DE GOLBERY

   Simples assim? Não. Todos os grandes projetos políticos necessitam de muita análise, de muito trabalho e de aliados dentro dos partidos em formação. Quando se deseja uma república bem novinha, até com Constituição flamejante para alegrar o povo não se pode entregar o poder ao mesmo inimigo que foi enxotado e vilipendiado durante muitos e muitos anos e, de repente...  

    A sigla PTB foi reivindicada por Brizola e entregue a Ivete Vargas, uma ex-deputada que não era nem a favor nem contra a ditadura, muito antes pelo contrário. Era o primeiro passo para liquidar com o PTB e Brizola foi obrigado a fundar o seu PDT que se transformou, com o tempo, em mais um partido aliancista. O PT estava encarregado de aglutinar as esfaceladas forças da esquerda e de convencer os mais jovens de que o PTB era um partido populista e que ele sim, o PT, era progressista, ao contrário do velho partido de Vargas, Jango, Brizola, Paulo Freire e tantos nomes que fizeram a história do Brasil e que os donos da nova sigla faziam questão de sepultar, acreditando na propalada ausência de memória do povo brasileiro.

     Golbery do Couto e Silva, general, era o condutor do que foi chamado na época de “abertura lenta e gradual”. Ele foi o mentor dos generais presidentes Geisel e Figueiredo. No devido tempo, aconselhou a permissão das manifestações a favor das “Diretas” porque, afinal, eram somente manifestações pacíficas, muito pacíficas, e a transformação da ditadura em democracia concedida deveria ter uma aparência de exigência popular, com pessoas de confiança liderando as passeatas e showmícios, alguns mais exaltados, outros mais tímidos; todos unidos pelo mesmo ideal que, em última análise seria a volta da democracia traduzida no voto livre. Ou quase.

      Pessoas de confiança como Tancredo Neves, que ajudou, nos bastidores, a tentar depor João Goulart, em 1962, sendo guindado a primeiro-ministro de um parlamentarismo que não resistiu ao primeiro referendo popular. Outra pessoa de muita confiança era Ulysses Guimarães. Em seu depoimento ao jornalista Luiz Gutemberg – “Moisés – codinome Ulysses Guimarães” – cita um encontro que teve com Golbery em 1975. De acordo com o general, cinco seriam os modelos de partidos permitidos: a extrema-direita, reunindo fascistas e reacionários em geral; a direita moderada; a esquerda moderada, ou centro-esquerda, formada por socialistas social-democratas, que poderiam chegar ao poder ‘sem riscos à democracia’ e a extrema-esquerda, com os partidos comunistas que poderiam ser facilmente anulados ou cooptados pela esquerda moderada e demais correntes ou facções que acabariam trocando o modelo leninista pela ação parlamentar.

     E a Constituição, claro, a Constituição. A letra já nasce morta, disse certa vez um jurista, mas ajuda a respaldar direitos para quem já os têm e a separar as classes de maneira equilibrada, com a grande maioria acreditando que com novas letras e novas leis ela estará garantida contra qualquer truculência policial, mesmo contra o tantas vezes filmado BOPE, além dos famosos esquadrões da morte que apenas mudaram de farda.

       1989 foi o ano da grande farsa mundial e o Brasil foi convidado a dela participar. Depois de uma guerra fria que foi quente, muito quente, com terríveis batalhas principalmente no Oriente Médio, Gorbachev desfazia o Pacto de Varsóvia, desmantelava o exército vermelho e entregava a União Soviética de bandeja para a OTAN. As fronteiras estavam abertas para o mercado mundial e para o exército mundial. Na Polônia surgia um homem de baixa estatura, que usava barba, uma cuidada retórica e fundava um sindicato de direita que galvanizava o povo para uma ideologia conhecida como catolicismo. Chamava-se Lech Walesa e o sindicato Solidariedade mais tarde se transformou em partido e o elegeu presidente. Com o apoio do povo católico trabalhador e após várias visitas do Papa maçom João Paulo II, aquele que sucedeu ao Papa não maçom João Paulo I, assassinado por investigar a influência da Maçonaria no Vaticano, através da Loja Propaganda Dois, à qual pertence Berlusconi e tantas outras influentes pessoas.

     O mundo se transformava e os seus donos exigiam uma aparência democrática nos países sob sua tutela, como o Brasil, país onde surgia um homem de estatura baixa, usava barba e a sua influente retórica ajudou a promover algumas greves consentidas e a criar o partido ideal que seria, mais tarde, sucessor da ditadura militar. Junto a esse partido, um sindicato, a CUT, para forjar a união da classe operária com os patrões, espelhando-se na Federação Americana do Trabalho, dos Estados Unidos, que é contrária à reforma ou mudança da sociedade, defendendo o sindicalismo de resultados.

       Além disso, o PT juntava em sua sigla facções que iam da direita à suposta extrema-esquerda ainda leninista, propondo o caminho parlamentar em lugar da revolução – conforme tinha estipulado Golbery - porque, afinal, tinha a oferecer um operário como candidato à presidência, que seria eleito quando surgissem as condições favoráveis, e mesmo que esse operário não fosse exatamente uma pessoa culta ou letrada sempre representaria a classe trabalhadora no poder, e seria devidamente amparado por intelectuais que traçariam os planos do governo e o conduziriam a uma democracia muito, mas muito popular.

       Para isso era necessário desunir a esquerda no Brasil, que tradicionalmente sempre foi desunida, mas apenas entre dois ou três blocos, como o PCB – o “Partidão” -, o PCdoB e facções trotskystas sem expressão. Era preciso dividir mais ainda; dois ou três blocos de esquerda podem lembrar a sua origem comum e se unirem no caso de combater o bom combate. Não era o suficiente. Quanto mais facções, mais luta interna e mais divisão.

     Também para isso o PT foi criado. Para reunir dentro de um partido que se dizia aleatoriamente “de esquerda” – e hoje, com todos os malufs e sarneys a apoiá-lo, ainda mais aleatoriamente – o que foi apelidado de “tendências” internas, que nada mais eram que expressões ideológicas de todos os grupos políticos que estavam dispersos e não queriam entrar para o PCB, que é famoso pela sua inércia, ou para o PSB, um partido que gosta de andar para trás. Preferiram o PT. Ali havia uma esperança operária; esperança aposentada, mas esperança.

      Esperança que consistia na eleição de uma pessoa para Presidente do país; eleição que transformaria completamente o Brasil – e nunca se viu tamanha alienação política em pessoas que se julgam inteligentes, nem maior culto a uma personalidade semi-desconhecida que figurava como promessa.

O PARTIDO QUE SE SUICIDOU 

        Enquanto Lula não era eleito, o PT cumpria a sua missão de, primeiro, transformar facções em tendências; depois, filtrar as tendências e, se possível, uni-las em tendências maiores, absorvendo e apagando o potencial das pequenas facções. Os que não obedecessem a esse filtro seriam naturalmente expulsos e formariam pequenos partidos que seriam colocados de lado. Para cumprir essa missão era mister uma liderança que aparecesse como revolucionária, altiva, suficientemente demagógica para suplantar dúvidas ou eventuais suspeitas, e é nesse contexto que um partido chamado PRC se suicida opondo-se radicalmente aos seus princípios, traindo as suas idéias para formar uma nova grande tendência dentro do PT e ocupar o que é chamado de Campo Majoritário, transformando o partido que se dizia revolucionário em um exemplo de submissão ao capitalismo. 

       O Partido Revolucionário Comunista deixou de ser um partido, abjurou a revolução e rejeitou o comunismo para assumir a liderança do PT com uma proposta reformista social-democrata, “sem riscos à democracia” – conforme a receita do general Golbery.  
       Foi um partido clandestino que durante a ditadura atuou junto às universidades, formando lideranças como Adelmo Genro Filho, Tarso Genro, Ozéas Duarte, Aldo Fornazieri e José Genoíno, somente para citar os mais destacados. 

      Desde o início dos anos ’80 o PRC formou quadros que foram infiltrados no PMDB e no PT, com a intenção de usar o PMDB como alavanca para o PT. Em 1984 deu origem à tendência interna do PT “Articulação dos 113”, que logo se estabeleceu como força dirigente do Campo Majoritário do PT. Em seu 2º Congresso, em 1985, o PRC privilegia o PT como campo de atuação de seus militantes, deixando de lado o PMDB, mas ainda considera o PT um partido de reformistas – liderado pelo PRC. No mesmo ano, elege Maria Luiza Fontenele prefeita de Fortaleza pelo PT, a qual, por divergências internas, acabou rompendo com o PRC e participou da formação do Partido da Causa Operária (PCO).  

      Já naquele momento se percebia o PRC dando uma leve guinada para a direita, objetivando usar o PT como instrumento para chegar ao poder. Em 1989 o PRC se desfez para entrar em massa no PT e formar uma nova tendência chamada Nova Esquerda. Em aliança com algumas outras tendências minoritárias, a Nova Esquerda facilmente tomou conta do PT e tornou-se uma tendência não só reformista como claramente reacionária, a ponto de ser classificada de moderada. Em 1990, a Nova Esquerda apresenta a tese “Projeto Para O Brasil”, e a partir dali transforma-se na corrente Democracia Radical, aproximando-se do que restou da Articulação dos 113 (gerada pelo PRC) e unindo-se a outras pequenas tendências para continuar a dominar o Campo Majoritário.  

       Em 2001, depois de completado o “serviço”, a Democracia Radical dissolve-se na Articulação, que passa a se chamar Articulação – Unidade Na Luta e não deve ser confundida com a dissidência Articulação de Esquerda, porque a Articulação (AUNL) do ex-PRC já era ostensivamente uma corrente de direita. Atualmente, a Articulação – Unidade na Luta integra o campo de forças direitista do PT denominado “Construindo Um Novo Brasil”.

     O domínio da direita dentro do PT provocou diversas dissidências, como o PCO, o PSTU, a corrente Refundação Comunista e até o pragmático PSOL, que faz as vezes de antigo PT. O que restou da esquerda dentro do PT foi sendo afastado gradativamente. Muitos dos seus membros fundadores foram expulsos quando se revoltaram contra os rumos que o partido tomava. Outros saíram espontaneamente.


     A Articulação - Unidade Na Luta, projeto do ex-PRC, que depois se transformou no campo direitista “Construindo Um Novo Brasil”, abafou as demais fortes tendências do PT, restando somente um pequeno espectro ideológico representado basicamente pela tendência Democracia Socialista - que não é exatamente revolucionária e se diz trotskysta no sentido mais lento, gradual e marrano do termo. Além disso, a Articulação – Unidade na Luta recebeu apoio de petistas independentes atuantes em sindicatos (como o próprio Lula), das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) da Igreja Católica e de ex-integrantes da Ação Libertadora Nacional que, àquela altura, não tinha mais qualquer ação, não mais era libertadora e já cultivava algum ranço contra o nacionalismo.

       Aliás, o nacionalismo, principal luta do PTB de Getúlio Vargas e João Goulart, que pretendiam um Brasil forte e independente, foi e continua sendo um dos principais alvos de ataque do PT que, nessas horas, alia-se ao capitalismo globalizante. O fato de propor um amplo leque de alianças com todos os setores da sociedade como estratégia de conquista do poder revela o PT como o partido ideal da burguesia nacional e internacional, que recebe dos governos petistas aval para todos os seus negócios. O PT é o próprio partido da burguesia, que tem por ele grande carinho, e, nesse sentido, tende a absorver os partidos da direita clássica, como PSDB e DEM, que falharam na sua política de formação de quadros e estão isolados dentro do Congresso Nacional.

      O discurso anti-nacionalista sempre foi o preferido da direita, que deseja que o povo acredite que o Brasil é um país que já nasceu fracassado e que assim continuará, salvo no samba e no futebol, e necessita muito dos países que já nasceram vitoriosos, como os Estados Unidos, Inglaterra e demais aliados, e que importa se esses países vêm aqui levar todas as nossas riquezas se nos deixam as suas migalhas tecnológicas?

     Dentre os principais líderes do campo direitista “Construindo Um Novo Brasil” estão Ricardo Berzoini, José Dirceu, Chico Macena, José Genoíno, Luiz Dulci, Aloizio Mercadante, Gilberto Carvalho, Marco Aurélio Garcia, Tarso Genro, Luíz Inácio Lula da Silva e Adeli Sell.

DE VOLTA À VELHA REPÚBLICA

    Aquele partido que se dizia comunista e revolucionário, formado por pessoas da nova geração que se acreditavam vanguardistas, muito vanguardistas, e que fabricou pacienciosamente o PT que hoje conhecemos teria sido, de fato, um partido de esquerda ou no seu núcleo mais fechado já haveria um plano, desde os anos ’80, que uniria internacionalização a globalização através de um novo partido que se vestiria de vermelho para atrair os mais jovens e desinformados e, mais tarde, depois de todas as mudanças políticas que se faziam necessárias, assumiria o poder para entregar de vez o Brasil às multinacionais do império – de acordo com a prescrição do general Golbery?

    Observe-se que a primeira denominação que adotaram dentro do PT foi “Nova Esquerda”. Ora, o raciocínio lógico nos diz que não pode ser novo aquilo que já existe. Obviamente, estavam propondo algo diferente do que até então se entendia como esquerda, e o que é diferente da esquerda, senão a direita? Talvez quisessem dizer “Nova Direita”, uma direita esclarecida, assim como existiram os déspotas esclarecidos; uma direita que fingiria de esquerda e, aproveitando o momento histórico, quando Bush pai afirmava que o comunismo falecera de mal súbito e a estátua de Lênin era derrubada na Rússia, essa nova direita que se dizia esquerda, novíssima esquerda, renegava o marxismo, as lutas de classe, a revolução e todas as demais bandeiras da esquerda porque tudo aquilo ficara, de repente, velho, muito velho, e coisas velhas, ultrapassadas, devem ser esquecidas ou jogadas ao lixo.

     Em troca, um programa mínimo, que incluía a reforma do capitalismo, apoio às minorias deserdadas – drogados, gays, prostitutas... – melhores salários para que a classe média emergente se tornasse realmente emergente, participando, ufana, do obeso deus Mercado - e afastar os favelados e muito pobres que não podem consumir para longe, muito longe da alegre vida onde as festas se reproduzem e as pessoas lutam por nacos de prazer consentido.

      Todo poder à alienação e ao mercantilismo. Toda a aculturação ao povo alienado, que deverá aplaudir quando o inglês for adotado como língua oficial. Em caso de desconfiança, colocar frases de Paulo Freire nas escolas públicas e faz de conta que o frugal ensino não favorece a ignorância porque temos computadores para todos os alunos que os usam para brincar de internet e, na sua incapacidade de decodificar minimamente textos, frases, sentenças, de entender o que está escrito, inventam uma nova língua onde não existem vogais, porque até a inépcia necessita se expressar. Ao mesmo tempo, criar uma casta de privilegiados, de donos do saber, doadores de verdades imaginadas nos laboratórios de filologia e ciência política, nas agências de publicidade e propaganda, nos programas de televisão e até nos sites de entretenimento, porque o povo necessita de idéias prontas e isto não é fascismo – é Nova Esquerda.


 “(...) A nova esquerda afirma o valor transformador da democracia, estabelece como objetivo fundamental uma distribuição de renda mais justa, está pronta para arriscar a ordem em nome da democracia e da justiça social, afirma a superioridade do mercado na coordenação da economia, mas não dispensa a ação complementar do Estado na área social e na promoção da ciência e da tecnologia, propõe a adoção de novas formas participativas de trabalho nas empresas, dispõe-se a administrar e julga-se capaz de administrar melhor o capitalismo do que os próprios capitalistas (...)”

         
 (Luiz Carlos Bresser Pereira – ex-ministro da Fazenda no governo José Sarney – WWW.scielo.br – excerto de artigo escrito em fevereiro de 1990).


A expressão Nova Esquerda surgiu no mundo inteiro logo após a derrocada da União Soviética, e na maioria dos países europeus existem blocos de esquerda, ou da nova esquerda, absolutamente antimarxistas, que defendem um novo capitalismo e usam a palavra “socialismo” apenas como forma de propaganda.

A Nova Esquerda não é uma criação de setores de esquerda, mas um projeto elaborado há muito tempo pela direita ‘esclarecida’. Talvez desde muito antes de Golbery, que teve o mérito de organizar esse projeto no Brasil e passar o plano para âmbitos onde surgiam lideranças (universidades, movimentos sindicais, Igreja...), adestrando-as – direta ou indiretamente – para usarem o roteiro ideado no momento em que surgissem as condições propícias.

No Brasil, O PT, através do PRC, foi quem encampou o projeto. Dizendo-se de esquerda, fazia o jogo da direita, de uma direita muito inteligente que está por trás e acima dos pétreos oligarcas, dos broncos coronéis e dos gananciosos latifundiários. Uma direita que quer preservar o capitalismo a qualquer custo. Uma direita que provavelmente se reúne secretamente para idealizar e organizar o seu programa para o Brasil.

Essa mesma direita apeou do trono Dom Pedro II quando este não servia mais e, com uma quartelada, impôs a República. E os nossos primeiros presidentes eram todos dessa direita muito organizada, pertenciam à mesma organização por trás de todos os poderes: a Maçonaria.

Até chegar Getúlio Vargas e acabar com a farsa e com a corrupção que fazia do Brasil uma república das bananas. Foi golpeado pelos militares em 1945 e voltou em eleições diretas como Presidente em 1950. Em 1954 obrigaram-no ao suicídio. Dez anos depois deram o golpe militar. Essa direita não aceita o nacionalismo, porque considera o mundo a sua propriedade privada. No Brasil, essa propriedade privada foi entregue ao PT, travestido convenientemente de Nova Esquerda, e o PT, como nos tempos da Velha República, não resistiu à tentação.


     Alguns dos políticos contemporâneos que são maçons, de acordo com site da Maçonaria (fab29-palavralivre.blogspot.com.br): Álvaro Dias, Alceu Collares, Antonio Palocci, Beto Richa, Esperidião Amin, Francisco Dornelles, Gilberto Kassab, Golbery do Couto e Silva, Jânio Quadros, José Roberto Arruda, José Serra, Joaquim Marcelino de Brito, Luiz Antônio Fleury Filho, Mão Santa, Mario Covas, Michel Temer, Mozarildo Cavalcanti, Newton Cardoso, Orestes Quércia, Roberto Jefferson, Roberto Requião, Severino Cavalcanti, José Roberto Arruda (licenciado da organização), Tião Viana, Tarso Fernando Herz 
Genro.

- E Lula – perguntarão –, foi realmente informante do DOPS? E eu responderei: - Qual a diferença?

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O NINHO DE JOÃO-DE-BARRO


Fui passar uma tarde com o seu Juca, conforme tinha prometido. Da última vez que ele tinha estado aqui em casa tínhamos conversado sobre a presidente recém eleita e ele demonstrara alguma surpresa. Inclusive chegamos a “filosofar” sobre o feminino de hombridade.

     Ao passar pela porteira, verifiquei que o mesmo ninho de joão-de-barro continuava ainda firmemente preso em cima de um dos moirões. Abandonado há muito tempo, mas ali, resistindo a todas as intempéries.

     Isso me fez lembrar do tempo em que meu pai me levava para o campo para me ensinar a caçar. “Gaúcho tem que saber atirar desde pequeno”, me dizia. E eu era bem pequeno. Deveria ter 10 ou 11 anos. Íamos caçar perdizes. Algumas vezes com cachorro perdigueiro, outras, no pio. Cada um com a sua arma de chumbo. Ele com uma espingarda calibre 20 de dois canos e eu com uma 36 – arma pra criança.

     As caçadas a dois eram mais um pretexto para sairmos para o campo, uma maneira que o meu pai encontrara para me ensinar algumas “coisas de homem”, naquela época do meu descobrir da vida. Eram momentos em que nos sentíamos mais companheiros do que pai e filho.

     Naqueles dias de inverno em que todos ficavam à beira de uma lareira ou tiritando na cidade, pra lá e pra cá, nós íamos caçar. Raramente atirávamos em algum bicho e, geralmente, era pra errar. O importante era estar no campo, sentindo aquele frio gostoso no rosto e nas mãos e eu sempre na expectativa de que algo muito misterioso iria acontecer.

     Muitas coisas “misteriosas” aconteceram.

     Uma delas foi o dia em que estávamos caminhando em silêncio e eu tinha me afastado um pouco na frente. Súbito, ele me disse, sem gritar: - “Fica parado e quieto”. Nem me mexi, enquanto ele largou a arma com rapidez, puxou o revólver do coldre, apontou na minha direção, com aparente calma, e atirou. Do meu lado, capim e barro saltaram. Ele se aproximou e viu que a cobra ainda se retorcia. Deu o segundo tiro, enquanto comentava: - “Uma cruzeira, e das grandes.” Olhei pro lado e quase junto de mim estava a cruzeira morta.

     Meu pai pegou um pedaço de pau e a jogou para longe. Depois, ainda em silêncio, sentamos em um tronco quebrado ali perto e ele pediu que lhe alcançasse a bolsa com o mate. Fiquei feliz de tomar mate com ele. Era uma distinção. Em casa, na hora do mate, as crianças não mateavam.

     Meio queimando a língua, desajeitado, não aguentei e perguntei: - “Pai, porque tu não atiraste com a espingarda?”. Olhou pra mim, com calma, e respondeu, os olhos azuis luzindo, quase iguais ao céu daquela tarde de inverno: - “Se eu atirasse com a arma, o chumbo se espalhava e tu serias atingido. Tive que arriscar com o revólver. Mas te comportaste bem; não tiveste medo”. Medo eu tinha sentido, mas sempre foi uma palavra proibida lá em casa.

     Conversávamos como dois adultos. Faceiro, eu acrescentei – “Mas que pontaria, hein pai?!”. - “Na verdade, o primeiro tiro eu quase errei” – disse, sem me olhar – “O segundo é que foi certeiro”. “O teu tio Pedro teria acertado no primeiro, sem olhar muito.”

     Era verdade. O tio Pedro sempre foi famoso pela pontaria. Tanto no revólver como no chicote. Ficou famosa aquela vez em que, sentado, ele deu uma chicotada num galho de árvore, uma cobra caiu, ele sacou a arma e acertou na cabeça.

     De outra vez, um desafeto entrou na casa dele com um revólver na mão, dizendo que ia matá-lo. E enquanto o outro perdia tempo em falar, o tio Pedro puxou o seu revólver e deu um tiro na mão dele. Depois, prendeu, amarrou, chamou a polícia e entregou o invasor. Todos na família, dizem que aquele sujeito teve muita sorte por levar só um tiro na mão. Talvez o tio Pedro estivesse de bom humor, naquele dia.

     - “Mas pai, tu também atira muito bem” – disse eu, meio que bajulando – “até estiveste na guerra!”. - “Na revolução.” – ele corrigiu. - “E mataste muita gente?” – perguntei, inocentemente. - “Não sei, meu filho”, respondeu, um pouco mais tenso. – “Como não sabe, pai?” – insisti, impertinente. – “O sargento mandava apontar a metralhadora para a frente e atirar. E era o que eu fazia. Espero não ter matado ninguém, mas vi muita gente morrer”, concluiu.

     Tinha sido na revolução de 1932. Meu pai foi ferido e mandado para um hospital em Rio Grande. Quando todos pensavam que ele estava morto, apareceu em casa, esquelético, mas vivo.

     Naquela tarde, ficamos em silêncio por um bom tempo, enquanto o céu descaía e a passarada cantava, procurando ninho. Depois, ele olhou pra mim, sorriu e disse: “Mas tu não deste nenhum tiro ainda. Vamos procurar um alvo.” Levantou, deu uns passos, olhou pros lados e me chamou.

     - Estás vendo aquele ninho de joão-de-barro, lá naquela árvore?

     - Tô.

     - Tu achas que consegues acertar ele?

     - Claro, pai, mas e os passarinhos?

     - É um ninho abandonado. Pode atirar sem medo. Mesmo que tu acertes, ele não vai cair.

     - Por que, pai?

     - O ninho de joão-de-barro é uma das coisas mais fortes da natureza. Um exemplo para o homem. Mesmo depois de abandonado durante muito tempo, nada derruba ele – nem vento, nem chuva, nem tiro.

     Depois, supervisionou enquanto eu abria e carregava a minha arma. Fez isso por três vezes, sempre orientando o posicionamento da arma no meu ombro. Dei três tiros e, pelo menos, duas vezes acertei dentro do ninho. O galho sacudia, mas do ninho de joão-de-barro não saía nem farelo. Fiquei espantado com a sabedoria do meu pai. Como é que ele sabia tanto sobre as coisas da campanha?

     Quando eu quis dar o quarto tiro – e teria ficado atirando até gastar o último cartucho – ele sorriu pra mim e disse que estava na hora de ir embora.

     - Temos que respeitar a natureza; os bichinhos já estão se recolhendo e daqui a pouco vai escurecer. Fiquei até triste por ter matado aquela pobre cobra, mas ela poderia ter te picado. Mas foi uma boa caçada, não foi meu filho?

     Tinha sido a melhor de todas. Quanta coisa eu tinha aprendido! Não tínhamos matado nenhuma perdiz, mas o objetivo das nossas “caçadas” a dois nunca tinha sido matar nenhum bicho - só muito tempo depois é que eu descobri isso.

     E mal sabíamos nós que alguns meses depois – e acho que foi no ano de1965 – todas as armas da loja do meu pai seriam recolhidas pelo exército, inclusive a minha. Armas e munição. Nunca mais devolveram. Só ficou o revólver do meu pai, porque ele era tenente da reserva e tinha direito à sua arma própria.

     Amargurado, o pai costumava dizer, naquelas tardes de sol de inverno, quando íamos comer bergamotas na calçada em frente de casa, e dava aquela vontade de um passeio pelo campo, uma caçada das nossas, que os gorilas, além de golpistas eram ladrões. Pura verdade! Que medo que eles tinham do povo! Principalmente, porque naquele tempo o povo era consciente e falava-se em uma reação “janguista”.

     Pura desculpa. Jango estava em sua fazenda em São Borja e o pessoal do PTB que tinha ficado no Brasil por uma ou outra razão, estava sendo preso, torturado e vigiado passo a passo, como aconteceu com o meu pai. E nos roubaram armas e munições. Até hoje, nem sinal. O pai dizia que isso não era digno de militares, mas parece que existem militares indignos.

     E naquele dia, quando fui visitar o seu Juca na sua chácara e vi aquele ninho de joão-de-barro abandonado há muito tempo, mas firme em cima de um dos moirões da porteira, me veio à lembrança aquela caçada com o meu pai e todos os mistérios que eu descobria a cada passo que dávamos no campo.

     Quanto ao seu Juca... Tivemos outra ótima conversa. Mas eu conto em uma próxima vez.
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