domingo, 15 de fevereiro de 2015

O PT NA CONTRAMÃO DA HISTÓRIA






O que aconteceu ao PT? Em que momento o partido que deveria ser uma frente de esquerda deu a guinada que o levaria inevitavelmente às práticas sujas da direita e a ela se uniu, resguardando-se demagogicamente nos discursos ufanistas e nas vestes vermelhas que enganam os parvos? Por que e como aceitou, o partido que deveria ser dos trabalhadores, a manobra que o atraiu para o centro do poder, aliando-se justamente aos inimigos dos trabalhadores – cartéis, trustes, empresários, latifundiários -, aceitando a globalização, o neoliberalismo econômico, um plano a médio e longo prazo de domínio imperialista sobre a América Latina? O que levou o PT, em seu processo de transformação de abóbora em carruagem real, a afastar do partido todos os grupos de esquerda e a eleger sucessivas direções de membros reacionários que aceitam os postulados do capitalismo? O que fez o que restava de inteligência no PT a concordar com a corrupção como norma – desde as prefeituras petistas até o Governo Federal nos seus três poderes – sob a pífia desculpa de pragmatismo político?

   Entre tantos fatores que levaram o Partido dos Trabalhadores a visitar o sistema e conviver com suas esquivas e lodosas sombras, destaco dois como mais importantes e, talvez, determinantes:

1.   A sacralização do ícone “trabalhador” na figura de Lula, uma nova versão do culto à personalidade, com objetivos essencialmente demagógicos.

2.   O surgimento de um curioso partido, denominado Partido Revolucionário Comunista (PRC), que tinha muito pouco de comunista, nada de revolucionário e preferiu a auto-extinção enquanto partido para ajudar a levar o PT para a direita e buscar uma política de alianças que o tornaram refém do capitalismo.


   Inicialmente formado por correntes de todas as tendências do variado espectro da diáspora esquerdista após as tentativas de guerrilha urbana e rural, o PT era um partido de muitas siglas, nas quais os militantes, quase obrigatoriamente, abrigavam-se, muitas vezes sem saber exatamente o significado ideológico da sua tendência política dentro do partido que, na verdade, foi criado por sindicalistas paulistas - como Lula e Jair Menegheli – inspirados no sindicato direitista Solidariedade, da Polônia, que recebeu ajuda da CIA para combater o socialismo.

   Inclusive, Lula era muito parecido fisicamente com Lech Walesa, o líder do Solidariedade, que mais tarde elegeu-se presidente da Polônia depois de transformar o sindicato em um partido político. A exemplo de Lech Walesa, Lula nunca foi marxista, seja por convicção ou por incapacidade de estudar e assimilar a teoria. Era meramente um sindicalista carismático que liderou greves de metalúrgicos e que sabia fazer acordos satisfatórios com os patrões.

   Isso chamou a atenção de diversos setores, inclusive de grupos de esquerda que logo o adotaram como totem, mitificando-o como símbolo da luta dos trabalhadores, mesmo que essa luta ficasse restringida a um cantinho do Brasil, a região do ABC paulista. E também chamou a atenção de grupos da “direita esclarecida”, notadamente empresários de todos os setores que já estavam fartos de uma ditadura militar que começava a atrapalhar os grandes negócios e precisavam de uma liderança “popular e democrática” para ajudar a forçar uma redemocratização que ao fim e ao cabo iria ao encontro dos desejos do capital nacional e internacional.

   Nunca, em período de ditadura, greves e passeatas de trabalhadores foram tão veiculadas pelos meios de comunicação aliados aos interesses do capital. E todos sabem que quando eles não querem, mesmo que milhares passem gritando na sua frente, não publicam. Os verdadeiros donos do Brasil sabiam que Lula nada tinha de nacionalista e que, mesmo aparentando ser o líder de um partido de suposta esquerda que estava sendo gerado a partir das greves, poderia ser manobrado gradativamente para aceitar as premissas capitalistas e, quem sabe, assim como Lech Walesa, recebesse em troca, em futuro não muito distante, a presidência do país. É dando que se recebe.

   Além disso, um partido que congregasse a esquerda, limitando-a a determinados preceitos organizacionais era uma ótima idéia que evitaria novas guerrilhas, ou, mesmo, uma tentativa de revolução. E, melhor que isso, um partido que usava o título pomposo de “Partido dos Trabalhadores” poderia, com o tempo, abafar de vez o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – este sim um partido muito perigoso, na medida em que se revelava nacionalista, contendo ideais subversivos, como o amor à pátria, a defesa das nossas riquezas e o desenvolvimento sem dependência externa.

   Lula serviu a todos os interesses e a todos os interessados que desejavam um país de joelhos frente ao capital internacional e aliado das grandes potências imperialistas. Lula agia como agente catalisador das emoções de um povo frustrado que tinha perdido a sua referência histórica com a deposição de João Goulart e que estava carente de líderes e de projetos para o país. Ali no ABC paulista teve início uma trama que visava unir todos os elos de uma esquerda esfacelada por guerrilhas suicidas e que, com o seu internacionalismo entreguista, nunca fora representativa dos anseios do povo brasileiro por um país unido e forte e buscando uma personalidade própria – assim como fizera o antigo PTB de Getúlio Vargas e João Goulart.

   E o que parecia um grande acerto do PT a nível interno, apontando Lula como salvador da pátria para uma nova geração que não vivera o período anterior ao golpe de 1964 e que era incentivada à alienação em relação à própria história, detendo-se apenas no momento ufanista das “Diretas Já” e da Constituinte, também foi o seu grande erro – provavelmente um erro calculado e tido como acerto – ao reeditar no Brasil o culto à personalidade de alguém que ainda era uma promessa salvífica e que passou a deter as esperanças de milhões de pessoas desarvoradas ideologicamente e com pouca compreensão do seu passado e que eram incentivadas a acreditar que o presente - nos anos ’80 da “abertura democrática” – abria portas para um futuro de progresso e verdadeira independência – a partir do momento em que Lula fosse eleito Presidente e o Partido dos Trabalhadores tomasse o poder.

   Lula somente foi eleito quando concordou em se aliar ao capital nacional e internacional, cumprindo a agenda que o império propusera para o Brasil – um país subserviente com um governo que facilitaria todas as demandas das multinacionais e do empresariado sequioso por aumentar as suas riquezas. Em troca, o PT dominaria os sindicatos a ponto de amordaçá-los e eternizaria a luta pela reforma agrária. Nos dois setores – campesinato e operariado – imporia um forte controle, através da cooptação dos seus líderes para importantes cargos, no Congresso e fora dele, e imporia às massas uma visão idealista de um socialismo passivo e reformista. Para fins políticos, o PT poderia conservar a cor vermelha, o que provocaria dois resultados: iludir o povo e diminuir a força pedagógica dos partidos da verdadeira esquerda, empurrados para esquecidos nichos onde, inevitavelmente, acabariam por se diluir em cego burocratismo e abstrusas teses.

   Para que esse plano fosse realizado, faltava ainda fazer do PT não um partido frentista composto por tendências as mais diversas, mas unificá-lo em torno de idéias que, aos poucos, com o passar dos anos e a diminuição do fervor político dos militantes, poderia dar o necessário giro para a direita, aliando-se aos setores que antes combatia e que lhe daria a possibilidade de conquistar o poder e, quem sabe, todas as regalias, inclusive a aberta corrupção. Para este fim, uma das tendências internas do PT, o Partido Revolucionário Comunista (PRC), contribuiu com muita disposição e entusiasmo.



O PRC

   O Partido Revolucionário Comunista surgiu nos meios universitários durante os anos 1970 e foi organizado clandestinamente primeiramente como dissidência do PCdoB, que tivera a maioria dos seus quadros mortos na tentativa de guerrilha na região do Araguaia. No entanto, o PRC somente ficou conhecido nacionalmente a partir de 1984, quando se integrou ao PT como uma de suas tendências políticas.

   Dizia-se o PRC um partido marxista-leninista que repudiava toda e qualquer tentativa de conciliação com setores da burguesia. A princípio, o PRC considerava o PT como um partido tático - “uma organização político-frentista hegemonizada por posições reformistas, aprisionada nos marcos da ideologia burguesa”. Como partido tático, o PT poderia ser utilizado não como um objetivo de luta pelo poder nos padrões tradicionais, mas como uma alternativa para desestabilizar o projeto de Nova República, evitando que se consolidasse a “democracia dos monopólios” para que fosse criada uma correlação de forças favorável “ao avanço da luta por uma estratégia revolucionária”, pautando a possibilidade de construção de uma alternativa democrática, operária e popular, contrapondo-se à estratégia meramente democrática e popular formulada pela Articulação, que era a tendência majoritária no PT.

   O PT é um partido composto de siglas que encobrem nomes. A Articulação dos 113 surgiu a partir do Manifesto dos 113, em 1983, e logo se constituiu na tendência majoritária do PT. Era composta por sindicalistas, membros das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e ex-integrantes de organizações de esquerda como a ALN (Aliança Libertadora Nacional). A Articulação se impôs como a verdadeira classe dirigente do PT, como o próprio PT; mais que uma tendência, geria o comportamento das tendências dentro do partido, obrigando-as a seguir os rumos por ela estipulados. O líder de direito era o Lula, eterno presidenciável; o líder de fato era José Dirceu.

   Mas a Articulação necessitava de alianças com outras tendências para continuar no poder. Em 1987, a Articulação chamou o PRC e teve uma longa conversa com membros dessa tendência que se dizia de esquerda. Também chamou os líderes da Democracia Socialista (DS) e os intimou a um comportamento adequado à nova realidade petista. A Articulação, enquanto PT (ou o PT, enquanto Articulação), desejava impor as suas teses e tornar as tendências internas submissas a elas. Um documento assinado por José Dirceu e Wladimir Pomar, intitulado “Contra o socialismo legalista” dava o tom do que o PT (ou a Articulação) se pretendia enquanto partido.

   O documento chamava as demais tendências de sectárias e idealistas e as obrigava moralmente a assumir o PT-Articulação como único partido de esquerda no Brasil – uma esquerda que se propunha conservadora, que adotava a conciliação de classes e a luta meramente político-partidária. As tendências que não aceitassem as teses da Articulação estariam indo contra o PT e, naturalmente, seriam alijadas do partido. Dava-se um prazo para que as tendências se alinhassem à doutrina da Articulação e, em 1991, quando duas das tendências internas do PT – Convergência Socialista e Causa Operária – persistiram na sua integridade, foram expulsas do partido.

   Tendências políticas inexpressivas, como “O Trabalho” e “Democracia Socialista”, continuaram formalmente como tendências internas do PT, mas docilmente subordinadas à Articulação. Na Articulação destacam-se nomes como Ricardo Berzoini, José Dirceu, Chico Macena, Luiz Dulci, Marco Aurélio Garcia e Lula. Alguns deles são conhecidos da Justiça, outros esperam a sua vez. Atualmente, a Articulação adotou o apelido “Construindo um novo Brasil”.

   No revolucionário PRC, entre outros pontuavam José Genoíno, Adelmo Genro Filho e Tarso Genro. Alguma coisa aconteceu na reunião entre PRC e Articulação, em 1987. Dois anos depois, o PRC (Partido Revolucionário Comunista) mudava de nome e de ideologia. Passava a se chamar Nova Esquerda (depois Democracia Radical e hoje...) e aderia ao capitalismo. Entenda-se “Nova Esquerda” por “Nova Direita” – uma esquerda sem ideologia. Com esse apoio, a Articulação fortaleceu-se enquanto tendência de direita que mandava no PT e não mais deixou a direção partidária, mesmo que tenha trocado o nome algumas vezes.

   Nova Esquerda não foi um nome gratuito, encontrado por acaso. O movimento “New Left” (Nova Esquerda) atingira o seu pico em 1968 nos Estados Unidos e Europa. Nos Estados Unidos, devido, principalmente, aos protestos contra a guerra do Vietnã; na Europa, por medo do comunismo, e seus teóricos arriscaram a expressão “eurocomunismo” para designar movimentos apáticos formados por uma geração temerosa de mudanças que fossem além da liberdade sexual e da liberdade de usar drogas. Liberdade. A Nova Esquerda norte-americana e européia, formada por uma classe média ascendente e desejosa de participação no poder, lutava por mudanças nos costumes e a isso intitulava de liberdade. Nessa luta também entravam os direitos humanos, principalmente os dos negros dos Estados Unidos. Luta que foi sufocada, com o assassinato de líderes como o pacifista Martin Luther King e o revolucionário Malcolm X. Organizações como “Panteras Negras” e “Black Power” foram esmagadas, o movimento negro foi dissolvido e os negros discriminados refugiaram-se na música gospel ou preferiram uma passiva participação parlamentar, que acabou originando, entre outros, o reacionário Barack Obama.

    Longe de se colocar contra o capitalismo, a Nova Esquerda Européia das décadas de ’70 e ’80 visava a reforma de um sistema que estava se tornando caduco e asfixiante devido ao excesso de autoritarismo, às guerras fabricadas para enriquecer banqueiros e empresas multinacionais e às diferenças cada vez maiores entre as classes sociais. A direita ocidental, o “establishment”, necessitava de um aperfeiçoamento urgente ou corria o risco de ser suprimida pela ascensão do marxismo em todos os países. A Nova Esquerda, diferente do que classificava como “Velha Esquerda” (a esquerda marxista), teve origem nas universidades e não dentro de sindicatos ou devido à luta dos trabalhadores.

    Não se tratava, portanto, de luta de classes, mas do seu contrário: protestos de jovens dentro das classes dominantes objetivando reformas nos costumes burgueses, uma nova sociedade deveria emergir do pós-guerra, aparentemente tentando derrubar todas as formas de opressão social, desde que as estruturas do poder não fossem tocadas. Ao mesmo tempo, as novas tecnologias do chamado “primeiro mundo” auspiciavam a essa juventude supostamente rebelde uma vida cheia de facilidades. A geração que deveria assumir o poder alguns anos depois dos movimentos estudantis disporia de melhores meios para continuar alienando e subjugando os operários.

   No Brasil, por falta de um programa político claro, principalmente na área econômica, o PT assumiu a Nova Esquerda – uma mistura de misticismo New Age com dieta vegetariana, pensamentos ecológicos e algumas pinceladas do pensamento de Gramsci e Foucault – somente os pensamentos. E a reforma agrária no papel. Ao lado desse nada - que era muito para uma nação que nunca teve uma tradição socialista e que, em sua maioria, continuava a acreditar que comunistas são pessoas muito más que desejam escravizar os povos – o PT assumia-se como anti-nacionalista, namorava o neo-liberalismo econômico (para depois assumi-lo completamente) e demonstrava uma grande inveja de oligarcas como Sarney, Collor e Maluf, que, com o tempo, tornaram-se grandes aliados dos petistas. Principalmente em época de eleições.

    Enquanto a verdadeira esquerda brasileira saía em massa do PT, que preferira tornar-se um partido menchevique, os novos partidários petistas – em sua grande maioria pessoas que poderiam participar de qualquer partido de direita, como PMDB, PP ou, mesmo, PDT – tornou-se massa de manobra partidária, acreditando em mitos como “Lula salvador da pátria” e aceitando a idéia de que ser de esquerda é o mesmo que lutar pela emancipação das mulheres, patrocinar o movimento LGBT, dar mesadas para o povo miserável e cotas para os negros.

    O PRC, que já havia mudado de nome, dava à Articulação, que também se tornava camaleônica, o norte ideológico. A nova esquerda deveria promover a inclusão social das minorias discriminadas dentro do sistema capitalista. Como as empresas necessitam de constante rotatividade de trabalhadores para que o salário mínimo continue baixo e os lucros aumentem, a educação deveria ser sistematicamente facilitada para que todos tivessem condições de passar de ano e entrar para o mercado de trabalho, mesmo que isso implicasse no aviltamento da cultura e do sistema educacional.

    O operariado, seguindo a ilusão de “progressismo” e reforma petista tem sido alienado progressivamente da sua realidade de classe que poderia ser transformadora, ainda que no país do carnaval, e aceita a submissão e o peleguismo ditados pelos líderes petistas como atitudes ‘politicamente corretas’. Dominados pelo petismo anti-marxista, a maioria do operariado baixa a cabeça servilmente, aceitando o redil proposto pelo PT.

    Na política internacional, o PT serve aos Estados Unidos e seu império. Em algum momento da ascensão de Lula ao poder, foi-lhe acenada a possibilidade de dominar política e economicamente a América do Sul, como autêntica filial dos Estados Unidos. Não fosse Hugo Chávez ter liderado um movimento de países anticapitalistas, o Brasil de Lula teria aderido à ALCA (Área de Livre Comércio da Américas), que proporcionaria aos Estados Unidos dominar toda a economia da América Latina. Em contrapartida, os governos do PT (Lula e Dilma) não aderiram à ALBA (Aliança Bolivariana das Américas), deixando claro que seu projeto de governo é capitalista e neo-liberal.

    A aceitação do capitalismo sob uma fachada de “nova esquerda” que atrai multidões desinformadas tornou mais fácil para a cúpula petista aderir às práticas capitalistas; entre outras, a corrupção desenfreada. Curiosamente, os petistas acreditaram que roubar a nação não era corrupção, uma vez que governos anteriores, como o de FHC, tinham feito o mesmo. Ou, como disse Paulo Maluf quando foi convidado a apoiar a campanha do petista Fernando Haddad para a prefeitura de São Paulo: “Agora somos iguais”.

    Com o “Mensalão”, o “Petrolão” e outras ações ilegais que ainda poderão vir à tona, o PT não só tornou-se igual à oposição que antes condenava como conseguiu superá-la em muito no que concerne ao montante roubado ao povo. Adotando o capitalismo pseudo-reformista o PT caiu em todas as suas armadilhas. E gostou. Até o momento em que alguns de seus principais líderes começaram a ser presos pela Polícia Federal.

    Descaracterizou-se tanto o PT de seu projeto anterior de partido que a Presidente Dilma, em seu segundo mandato, preferiu formar um ministério pautado todo ele por uma política entreguista de direita, na contramão da História, justamente no momento em que as nações de alguns países, como Grécia e Espanha, estão a repudiar o capitalismo. E Lula, segundo consta, anda tão desarvorado com a possibilidade de, cedo ou tarde, vir a ser indiciado por algum crime que, como a avestruz, não sabe onde esconder a cabeça.

     Pior que todas essas ridicularias é o fato do PT ter deixado aberta uma imensa brecha política por onde estão a penetrar os partidos da direita oficial, além de favorecer a propaganda paranóica golpista que, mesmo não surtindo qualquer efeito na prática – porque as Forças Armadas estão muito felizes com o PT no governo  - passa às multidões que adoram futebol e carnaval e mais nada que a esquerda é corrupta, quando é exatamente o contrário: foi por ter assumido o papel de partido direitista fantasiado de esquerda que o PT, juntamente com seus aliados, passou a adotar a corrupção como prática de governo.

     A ideologia da reforma dentro do capitalismo que já havia sido explicada ad nauseam como um equívoco político, entre outros autores por Rosa Luxemburgo em seu livro “Reforma ou Revolução?”, ao ser adotada pelo PT enquanto ainda era uma frente de esquerda, agora que está sendo desmascarada também no Brasil faz do partido que já foi uma esperança para a nação, autor de um desmoronamento de expectativas principalmente naquela parte da população mais desavisada e que está acostumada às benesses do governo em troca de votos.

   Por outro lado, coloca em pauta o debate ideológico, que tanto o PT tem desejado abafar. Sabe-se que no país de Rosa Luxemburgo, a Alemanha, a socialista e reformista “República de Weimar” foi destroçada com o advento do nazismo. Mas a Alemanha sempre foi um país de pensadores. Infelizmente, não acredito que no país do carnaval e da preguiça mental, após o retrocesso histórico da revolução brasileira representado pelos governos do PT, as esquerdas se unam deixando de lado pequenos desacordos ideológicos, para combater a imensa vaga direitista que se avoluma no horizonte. No entanto, não convém desacreditar de todo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

NÃO QUEREMOS DILMA, QUEREMOS VILMA





Lula se enganou. Não era a Dilma que devia ter escolhido como sucessora, e sim a Vilma, mas o que esperar do Lula depois que se entregou pros homens do dinheiro, que se transformou no Lula-lá, muito lá, cada vez mais distante do povo? Lula não é mais povo. Virou alguma coisa muito estranha que eu não gosto nem de pensar. É certo que em época de eleições ele fala em povo e vai a comícios e quermesses, dá beijos em criancinhas e faz tudo o que é esperado de um político tradicional. Depois se recolhe para contar milhões. É o que dizem. Dizem tanta coisa que é difícil acreditar em todas elas. E o Lula escolheu a Dilma. Provavelmente porque não conhecia e Vilma e fico me perguntando se ele escolheria a Vilma, se a conhecesse. Duvido!

   Vilma é muito independente. Quando a convidaram para entrar em um desses partidos, ela respondeu: “O quê! E eu sou lá de ficar fazendo conchavos com gente do governo? Necas de pitibiribas!”. Foi o que me disseram, mas dizem tanta coisa... O certo é que Vilma não é a Dilma, longe disso. “Não me confundam! Eu me chamo Vilma e não Dilma” - costuma repetir. E é a pura verdade.

    Participa de todas as passeatas. Já levou cacetada, foi batizada com spray de pimenta, tentaram sufocá-la com gás lacrimogêneo, ouviu insultos e palavrões de PMs, mas nunca desistiu. É sempre a primeira a liderar as manifestações e quando chega aos locais de reunião todos ficam alegres e os mais entusiastas chegam a dizer: “É a Vilma! Vamos que vamos!”

    Vilma é muito diferente de Dilma. Pra começar, o seu nome começa com a letra “V”, de vitória; o nome de Dilma começa com a letra “D”... de que mesmo? Prefiro nem dizer a palavra. Dá azar. Vilma jamais faria do Brasil o paraíso dos banqueiros; já a Dilma, a afilhada do Lula...  

    Todos sabem que a Dilma gosta muito de bons restaurantes e de comidas exóticas, ou, pelo menos, de comidas que nós, simples mortais, sequer imaginamos que um dia poderemos comer. Talvez por isto a Dilma esteja um pouco gordinha. Vilma, ao contrário, é magra, ágil e prefere a comida caseira, o feijão com arroz e salada de todos nós. E olhem que as duas têm a mesma idade! Já viram a Vilma em algum desses restaurantes da moda? Nunca! Quando não está nas passeatas, gosta de fazer longas caminhadas com breve pausa para um frugal piquenique com os amigos.

    Vilma detesta políticos, diz que são corruptos – o que em parte é verdade. A outra parte está esperando melhores ofertas. Dilma, por seu lado, vive criando cargos de confiança, secretarias, ministérios, onde possa abrigar todos aqueles que têm alguma força política, aglomerados no que foi apelidado de “base aliada” e que sabemos que é uma base comprada para aprovar os seus projetos. Políticos querem é ganhar dinheiro, como diria o Tiririca, que é um político que finge de palhaço. Ou vice-versa. E assim como ele... Todos os outros? Deve escapar algum, quem sabe.  

     Vilma não gosta nem de ir a Brasília, costuma dizer que aquela cidade tem uma aura nebulosa. Quando foi, da última vez, em uma daquelas grandes e memoráveis manifestações de 2013, na hora de invadir a Praça dos Três Poderes desabou. Estava se sentindo mal e teve que ser retirada a braços. Foi nocauteada pelo mau cheiro.

   Vilma é extremamente sensível. Não suporta ladroagem, roubalheira, detesta aqueles que assaltam o povo e sofre alguns processos por se negar a pagar impostos. Nem carro ela quer ter – “Primeiro, porque não gosto de usar armas, segundo, porque esses carrinhos que estão fabricando por aí não oferecem a menor resistência a uma simples batida e terceiro porque pagar imposto para andar de carro, quando eu posso fazer o mesmo trajeto de bicicleta, é pedir para ser chamada de otária”.

     Dilma tem aquele cacoete de trocar as palavras ou inventar frases pouco inteligíveis. Vilma costuma falar pouco e de maneira direta e clara e até desculpa a Dilma: “Coitada. Como é que não vai se atrapalhar, com toda aquela bagunça que deve ser o Palácio do Planalto? Acostumou, e a bagunça a acompanha aonde ela for”.  

    Todos sabem que as mulheres costumam ser muito unidas, até o momento em que brigam. E Vilma diz estar de mal com a Dilma – “Num momento de recessão, deixar o povo jogado às traças batendo nas portas dos bancos e de outros agiotas menores e ainda por cima aumentar os impostos é o mesmo que condenar à fome e à miséria. No lugar dela eu dobraria o salário mínimo. Ou triplicaria. Se o dinheiro está valendo pouco, o salário deve ser aumentado, não é óbvio? Ou ela não pensa no povo?”

    Esta é uma dúvida que vem aumentando: Dilma pensa no bem-estar do povo? Vilma, por seu lado, se diz socialista, o único sistema político em que acredita – “É uma questão de humanidade, gente. Se eu sou cristã, tenho a obrigação de ser socialista. Jesus não usava só um manto e um par de sandálias? Tá bem, eu sei que vão me dizer que ele era Deus ou coisa que o valha... Mesmo assim, temos que pensar no próximo, não vivemos isolados e eu não agüento ver toda essa injustiça. Pessoal não é preciso repartir tudo, até porque isso iria provocar muita revolta, mas viver no luxo e deixar os outros morrer à míngua é o máximo da insensatez. Vamos fazer um socialismo à brasileira! Só tem uma coisa: nada de partido único. Essa coisa de partido único nunca deu certo, cheira à ditadura e incentiva a corrupção. Vamos respeitar as idéias dos outros para que nos respeitem.”

     Vilma não gosta muito de falar da Dilma ou na Dilma, no entanto, no dia em que deu a sua opinião sobre o socialismo, acrescentando que o capitalismo era um sistema destruidor de consciências porque incentivava o individualismo, e contrário à espiritualidade, uma vez que transforma as pessoas em fanáticas consumistas que ficam sempre desejando agregar bens materiais, Vilma se referiu ao passado de Dilma: “E olha que ela foi uma guerrilheira! Foi até presa e torturada. Lutava contra o sistema, contra os milicos, contra a ditadura; acreditava em um mundo melhor e mais justo... E depois isso... Dá uma pena só em pensar...”.

    Talvez por isso, Vilma tem os seus críticos e sempre que é confrontada em suas idéias, depois de uma boa discussão, ela agradece. – “Gente, como é bom ter quem discorde, lançando idéias das quais também podemos discordar e que sempre acrescentam. Desde que não haja agressão, tudo é válido. A pior coisa são os pensamentos estagnados. Devemos evoluir junto com as idéias; o contrário é o cérebro burocratizado e com tendência ao retrocesso. Quando é mesmo a próxima manifestação? Devemos continuar unidos na luta comum.”

     A luta comum é a luta por melhores condições de vida, a luta a favor dos sem terra e dos sem teto, a luta contra a discriminação, a luta a favor de melhorias salariais, a luta contra predadores da natureza, como a usina de Belo Monte, a luta a favor dos avanços sociais, a luta contra a corrupção e as fraudes, a luta a favor de uma democracia verdadeira. Uma luta interminável.  

    E Vilma sempre está à frente de todos os movimentos, é a primeira nas passeatas e reivindicações, a primeira a apanhar e a dar o troco. Nunca se encolhe, nunca recua. Até quando é derrubada por alguma daquelas balas de borracha que quebram costelas ela grita: “Em frente, gente! Em frente!”

domingo, 25 de janeiro de 2015

SEU CHICO, NICOLAU I E O PAÍS DO FAZ-DE-CONTA





- Seu Chico, o senhor já ouviu falar no imperador Nicolau I? 

- Assim-assim não dá pra lembrar, esse menino, mas imperador é que não faltou na Europa. 

- Não é europeu, seu Chico, é aqui dos pampas. 

- Mas não me diga! E quem seria esse imperador dos pampas? 

- Nicolau Nheenguiru. 

- O chefe guarani que deu combate aos mamelucos e espanhóis? 

- Esse mesmo. 

- Me conte essa novidade. 

- Lhe conto. Pois eu estava lendo um livro sobre a história de Bagé e entre umas e outras coisas me deparo com a afirmação de que Nicolau Nheenguiru – que no livro é chamado de Lenguiru – se autodenominou Nicolau I, imperador dos guaranis, pois o autor, Eurico Salis, afirma que os guaranis eram imperialistas, formavam um império. 

- Mas olha só!... E eu que acreditava que a República Guarani foi uma república, como o nome está dizendo e como afirma Clóvis Lugon no seu livro que trata especificamente dos guaranis. E agora essa... Mas então era um império? 

- Pois é. E tem mais. Fiquei sabendo que aqui em Bagé era uma redução guarani. Redução que durou pouco tempo, porque não existiam índios guaranis nesta região, que era povoada por guenoas, charruas, minuanos... Índios nômades que foram todos assassinados. O senhor conhece algum índio guenoa, minuano ou charrua, seu Chico? 

- Só de ouvir falar. Mataram todos. Não restou nem um pra remédio. Um verdadeiro genocídio! Mas esse autor cita as fontes? 

- Ele diz lá que tem os seus documentos particulares. Fala até de dois padres jesuítas que teriam vindo pra cá lá de Buenos Aires, veja só a distância! - especialmente para fundar essa redução que não deu certo. 

- Mas não é de espantar? Então eram dois padres meio desgarrados. Os outros padres que fundaram as verdadeiras reduções guaraníticas tinham como apoio o vice-rei de Assunção, no Paraguai, e fizeram as reduções, também chamadas de Missões, para tentar salvar os guaranis da sanha escravagista dos mamelucos de São Paulo. O senhor deve saber que todas aquelas entradas e bandeiras eram para caçar índios, que eram vendidos a peso de ouro para os latifundiários. É claro que os historiadores oficiais enfeitaram a coisa escrevendo que os bravos bandeirantes estavam atrás de ouro e pedras preciosas. Na verdade, eram escravagistas. A pior espécie de gente! 

- Ensinam tudo errado para as crianças, seu Chico. 

- Um erro fabricado, o senhor há de convir. Fizeram de bandidos - como João Ramalho, Raposo Tavares, Fernão Dias Paes Leme –, heróis. A História é fabricada de acordo com os interesses dos donos do poder e a história da escravidão indígena é pura mentira! Eu fico indignado só de pensar no que aconteceu. Sabe qual é a desculpa que dão para as crianças de escola, e para outros que não são tão crianças assim? Pois dizem que graças aos bandeirantes os portugueses aumentaram o Brasil devido ao desbravamento de novas terras que seriam dos espanhóis. Mas não é o mesmo que justificar o assassinato pelo roubo? E passam subliminarmente para esses alunos que recém estão formando a sua personalidade a idéia de que é justo matar para roubar. Sem contar o racismo: dão a entender que os indígenas eram inferiores aos brancos e mereciam ser mortos e escravizados. 

- Pois esse autor, que já morreu e escreveu um livro bem interessante, principalmente devido às fotografias, acreditava ou queria acreditar que os indígenas eram imperialistas e até deu o título de Nicolau I para o Nheenguiru. 

- Quanto ao título deve ter sido imaginação, por supuesto. Mas não é de descartar que ele tenha sido influenciado pela propaganda paulista. Todo sistema político, por mais podre que seja, tem os seus defensores e até ideólogos. Recentemente eu li um livro sobre história do Brasil, escrito pelo Eduardo Bueno. “Li” é força de expressão, porque me decepcionei quando chegou justamente nas Missões dos guaranis, que ele passa por alto ou se omite da denúncia. Os guaranis foram criteriosamente massacrados durante séculos, e o que resta da nação guarani está no Paraguai ou morrendo pelos cantos em pequenas reservas que são uma vergonha. 

- Eu acho que se ficarem no Brasil eles correm o perigo de extinção, seu Chico. A política indigenista do Governo é a pior possível. 

- Principalmente agora que a Dilma obedece a tudo que os donos das terras disserem e fizerem. Nunca vi um governo tão reacionário no Brasil! Nem tão entreguista. E quem sofre mais com isso são os mais pobres, os índios, com as suas terras sendo tomadas pelos ruralistas e companhias mineradoras. A mentalidade é a mesma da época do Brasil colônia. 

- E a escravidão indígena continua, seu Chico. Já foram descobertos casos de trabalho análogo à escravidão aqui mesmo, no Rio Grande – em Itaimbezinho e Bom Jesus. E no Mato Grosso do Sul todos sabem que existe escravidão indígena e ninguém faz nada a respeito. 

- Mas este não é o país do faz-de-conta, esse menino? Faz de conta que não há desmatamento, faz de conta que vivemos em uma democracia, faz de conta que existe paz e liberdade, faz de conta que há justiça social, faz de conta que não temos inflação – e até faz de conta que aqui se joga o melhor futebol do mundo. Também faz de conta que não há escravidão, faz de conta que a usina de Belo Monte vai trazer progresso e não devastação ambiental e faz de conta que não estão nos roubando diariamente. O país do faz-de-conta é um país de fantasia, que só existe como realidade para uma turma de corruptos, e para o povo continua sendo o país do futuro. Falta sangue neste povo! 

- Sangue, seu Chico? 

- Sangue, força, bravura, destemor. É um povo anestesiado, cheio de melindres, com medo de tudo. 

- E os que não se melindram são perseguidos de uma maneira ou de outra, seu Chico. Perdem emprego... 

- Mas não é preferível lutar que ficar parado, gemendo e se queixando? Quando é que os brasileiros vão aprender a ser gente, como outros povos que vão pra rua ao primeiro sinal de despotismo?
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