sábado, 28 de julho de 2012

CAROLINA




Já faz alguns dias que Carolina desapareceu. Estava forte, sadia, com o pelo lindo. Gostava de tomar café com leite junto comigo, sempre que eu vinha para o escritório. Depois pedia colo. Aninhava-se, enrodilhava-se, faceira, e dormia o sono dos anjos ou dos gatos. Quando batia sol, de tarde, costumava ir para a sua cadeira na sacada. Nos dias frios, visitava as outras peças da casa, brincava com Fidel, o nosso outro gato – menor, mas com a mesma idade e muito esperto. Às vezes brigavam, mas logo faziam as pazes e Fidel a convidava para comer ração no seu prato. Em seguida, sentia o maior prazer em deitar na nossa cama de casal e dormir. Sono que Fidel espreitava, louco por mais uma brincadeira, mas respeitava.

     Era extremamente dócil e amorosa. Uma das almas puras da casa, que era o seu mundo. Nunca subiu para o telhado; jamais pulou da sacada. À vezes, por aventura, ia até a sacada do vizinho, conjugada à nossa, e voltava com paninhos e pequenas coisinhas com as quais brincava, feliz. Certa vez, trouxe uma minúscula bonequinha. Avisamos. Não fazia falta.

     Seus olhos eram fundos e expressivos. Preta, com alguns pelos amarelados. Suave, como só as gatas mansas sabem ser suaves. Puro amor.

     Demos pela falta no domingo de manhã, 22 de julho. Percebemos que ela não tinha dormido no seu lugar preferido, porque estava arrumado como no dia anterior. Chamamos, falamos com a vizinhança, até ligamos para os telefones do Núcleo Bageense de Proteção ao Animais, mas estavam todos ocupados. Enviei e-mails para o NBPA. Não foram respondidos.

     Nos últimos dias tenho vasculhado os arredores, sempre com esperança, mas os dias vão passando e a esperança também. Carolina sumiu.

     Não é o primeiro gato que perdemos. Há cerca de sete anos atrás, vários gatos nossos, que estavam na sacada, foram envenenados. Ninguém sabe, ninguém viu. Outro gato, que se acostumara a andar pelos telhados e entrou no sótão de uma casa próxima foi envenenado pela dona da casa. Quando o procurávamos, outro vizinho disse que não vira o nosso gato, mas, se tivesse visto o teria matado.

     Esta é uma cidade em que determinadas pessoas acham natural matar animais. Domésticos ou não. Conheço algumas delas: sérias, com curso superior. Encaram a vida como uma luta – principalmente contra os demais. Para elas, bichos de qualquer espécie são seres inferiores, que devem ser tratados como escravos ou, se incomodarem, matar é o melhor remédio. Acostumaram-se à insensibilidade. É para esse tipo de gente as propagandas de produtos desnecessários, que procuram logo obter. Respeitam a ordem estabelecida e não criticam nada – são as vítimas inconscientes da globalização robotizada. Ou conscientes e acomodados autômatos. Não pensam por si mesmos, porque se acostumaram a não pensar. Para eles, as informações chegam, devidamente pasteurizadas, através de jornais, revistas e programas de televisão. Absorvem e aceitam tudo.

     A maioria deles tem cães. Cães de raça, treinados para defender as casas dos donos. Com o tempo, talvez até adquiram algum carinho pelos seus cães. Mas um carinho com limites. Entendem que gatos são seres inferiores a cães, porque não são úteis, não defendem ou atacam, são independentes. E isso irrita muito essas pessoas: a independência. Ao mais das vezes, pertencem a associações de auxílio mútuo, travestidas de assistencialismo, porque necessitam muito unir seus medos.

     Matam. Pessoas assim matam. Covardemente. Matam por medo, matam por raiva, por um momento de irritação. Matam por qualquer motivo. Por isso eu temo por Carolina.

     Já faz quase uma semana; semana de sofrimento e expectativa de um milagre. Eu acredito em milagres.

     Eu sei que Carolina está viva, talvez em outro plano, mas viva. Mas não merecia a morte física que supostos humanos e seus cães provavelmente provocaram.

     Nada tenho contra os cachorros. Inclusive, Lidia costuma juntar restos de comida em um saco plástico para deixar em um canteiro próximo para os cachorros sem dono, os marginalizados, proibidos de procriar por ONGs especializadas em castração. Mas detesto os esnobes, acostumados à raiva dos seus donos, de quem copiam os tiques e manias.

     Alguns dirão: um gato! Por que não escreve sobre coisas mais importantes? Há coisa mais importante do que a pureza?

     Ainda esperamos Carolina. Sempre vamos esperar Carolina.

     Estava forte, sadia, com o pelo lindo. Gostava de tomar café com leite junto comigo, sempre que eu vinha para o escritório. Depois pedia colo. Aninhava-se, enrodilhava-se, faceira, e dormia o sono dos anjos ou dos gatos. Faz uma falta imensa.

     Quais dentre os loucos que se acreditam perfeitos como deuses decidiram que ela devia morrer?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O SECRETÁRIO E AS CUCUIAS





- Dois em um, um em dois... qual será o correto? Esta dúvida me traz uma grande aflição espiritual, companheiro meu secretário. Talvez seja necessário um concílio – ou será um conselho? – para que possamos conciliar o que é com o que não é. O que é o que é? Gostou do ‘possamos’, companheiro meu secretário?

- Um grande achado, companheiro prefeito. Talvez o senhor mesmo possa escrever o seu próximo artigo para o jornal. Ou possamos...

- Uma questão de ordem, companheiro meu secretário: pelo menos durante este período de eleições não me chame de companheiro prefeito, mas de companheiro secretário. Eu o chamarei de companheiro meu secretário, para que haja a necessária distinção. Ouvi falar, passarinhos me contaram... que o outro estaria dizendo que eu gosto de ser chamado de prefeito, quando ele é o verdadeiro – imagine! verdadeiro! – prefeito. Daqui pra frente eu sou somente secretário - até ele perder as eleições, é claro. Depois volto ao meu cargo vitalício, nos bastidores, por trás das cortinas, embaixo das camas, exigindo obediência do eleito, que será de outro partido, mas voltará para o nosso, com o tempo. Ou será ‘como o tempo?’ Não se pode comer o tempo, ao menos quatro anos, para que eu volte a ser prefeito votado, entronizado, perfumado, e esta angústia que agora me atropela e me enregela deixe de me atormentar?

- Infelizmente ainda não existe nenhuma lei que permita isso, companheiro pref... er... secretário.

- Leis! Para que leis? Cada vez eu acredito mais que a democracia radical deve ser uma ditadura. Não anote isso.

- Já risquei, companheiro secretário. Mas uma ditadura democrática, o companheiro não acha?

- Não dê opiniões. Você não deve dar opiniões. Apenas quando consultado. E eu o consulto, companheiro meu secretário: dois em um ou um em dois?

- Como o senhor preferir, companheiro secretário.

- É claro, eu tinha esquecido: as opiniões servem apenas para criar divergências. Não deve haver divergências. A minha palavra sempre será a última e decisiva. E eu pergunto de novo, agora explicitando, explicando, deixando claro, revelando o meu pensamento: devemos ter dois jornais em Três Estrelinhas? Uma cidade que não tem eleitores nem para um segundo turno!

- É verdade, companheiro secretário.

- No entanto, companheiro meu secretário, os dois jornais dão a aparência de disputa democrática (esta palavra, outra vez!) e a aparência é o que move o leitor e o eleitor – anote essa frase, companheiro meu secretário!

- Está anotada, companheiro secretário. Aliás, eu anoto tudo, depois risco o que o companheiro não gostar.

- Senão, vejamos, como diria um cego: um deles, o mais antigo, serve para ponderações e elucubrações dos colunistas, notícias vagas sobre a vacuidade do vago nada...

- Está se superando, companheiro secretário!

- ... matérias sobre a campanha (campanha! faz-me rir!) do outro e matérias com o dobro do espaço sobre a campanha do nosso adversário oficial ao qual nunca daremos apoio oficial, mas deverá vencer para obedecer, e o povo... Para que serve o povo, companheiro meu secretário?

- Para votar, companheiro secretário.

- É verdade! Quase tinha esquecido... E o povo leitor e eleitor poderá embriagar-se, deliciar-se, sentir-se afagado, principalmente os meus colegas fazendeiros e todos aqueles que os servem, e uma palavra aqui, outra lá, dirigirá os seus votos para o nome certo. Não somente os fazendeiros, como os comerciantes e seus empregados, que não desejarão perder o emprego. E o que mais temos em Três Estrelinhas, companheiro meu secretário?

- Pouca coisa, companheiro secretário. Algumas pequenas fábricas e o restante do povo.

- O restante do povo... funcionários públicos, aposentados... jovens que insistem em estudar em vez de entrarem para a carreira política... Para eles o novo jornal, que deverá ser forte, com manchetes que chamem a atenção, matérias salientando as virtudes do nosso nobre candidato opositor; suas promessas, seus delírios políticos, tudo que o povo gosta de ler e de ouvir. E por isso...

- Um momento, que estou anotando, companheiro secretário... Pronto! Por falar nisso, o companheiro anda lendo alguma coisa?

- Só alguns dicionários, antes de dormir – são tantas as minhas ocupações...!

- É verdade, companheiro secretário. Eu que o diga! Mas o companheiro falava...

- Falava o que você não deve pensar - apenas anotar. Falava e falo – não anote esta última palavra. Troque ‘falo’ por apêndice do prazer. Fica mais elegante.

- Não é um pouco estranho, companheiro secretário?

- Estranho... O que não é estranho? A vida não é estranha? Qual o meu próximo passo? Para a direita, para a esquerda, para o centro?

- Penso que passo para o centro não existe, companheiro secretário.

- Como não, se alguns partidos são centristas? É claro que ficam imóveis, sem dar passo algum, apenas ganhando com os que dão passos a esmo... E não pense! Elimine esse péssimo hábito!

- Companheiro!

- Estou me superando, companheiro meu secretário? Faz parte da estranheza da vida. Mas vamos ao que interessa. Fez aquele remanejamento entre os dois jornais?

- Não foi nada difícil e ninguém achou estranho, companheiro secretário.

- Por isso aquele povo me adora! Mas continue.

- Como o nosso editor de confiança saiu para escrever exclamações contra o pref... er... o outro, trouxe o editor do jornal mais antigo para editar o novo jornal. Também trouxe o cronista social e dei mais algumas arrumadas, como um novo colunista que gosta de escrever sobre culinária e cucuias e...

- Cucuias! O que são cucuias?

- Acredito que sejam cuias em dobro, companheiro secretário.

- Ótimo! Precisamos de alguém que escreva sobre cuias, muitas cuias. Depois virão as bombas, as ervas... Vamos liberar as ervas! O que mais?

- Fiquei na dúvida sobre quem contratar para revisor...

- Qualquer professora serve.

- Pois é, foi o que pensei... E como faltava um editor para o antigo jornal de Três Estrelinhas...

- Qualquer bobo serve. Desde que saiba escrever...

- Este é o problema, companheiro secretário!

- Se não souber escrever também não saberá pensar e o problema estará resolvido.

- Gênio, companheiro secretário. Assim fica mais fácil.  São tantos... Talvez até fique um pouco difícil de escolher, mas já que o companheiro falou em bobo... Talvez eu conheça o ideal...

- O ideal é uma coisa difícil de ser alcançada, companheiro meu secretário. Lembre-se disso!

- Anotado, companheiro secretário.

- Devemos fazer o público acreditar que o jornal é dele, do outro, entende? Talvez uma página com estórias de amor resolva isso. No mínimo, um texto diário sobre como o amor é belo. Estou falando do antigo jornal, companheiro secretário. E isso me leva a ponderar, a observar, a sentir um não sei que lá no âmago, no íntimo, talvez seja dor de estômago, não sei, mas deveria saber... Para que dois jornais em uma cidade que não tem eleitores suficientes para um segundo turno?

- Para que, companheiro secretário?

- Sim, para que?

- Para que?

- Pare de me repetir, companheiro meu secretário! Oh, dúvida cruel! Oh céus! Oh terras...!

- Terras?

- Estava pensando nas minhas terras, companheiro meu secretário. Terras em que jamais um sem-terra entrará!

- Anotado, companheiro secretário.

- Risque isso! Eu não quero ser dois em um ou um em dois. Aff... É cansativo, mas divertido. Depois veremos...

- Como dizia um cego, companheiro secretário?

- Vários cegos, todos correligionários. O padrinho não telefonou?

- Ainda não, companheiro secretário.

- Isso me deixa mais angustiado, mais apreensivo, mais, como direi...

- Assustado, companheiro secretário.

- Risque essa palavra! Risque! Desde que ele não risque o meu nome do seu caderno...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

UM PAÍS DE ANALFABETOS


Em recente reportagem da revista Science sobre a Amazônia é prevista a extinção de 80 a 90% de espécies de mamíferos, aves e anfíbios até 2050, caso o ritmo de desmatamento e degradação continue acelerado. O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) pretende construir 22 hidrelétricas de grande porte na região; as unidades de conservação estão sendo reduzidas e, com o novo Código Florestal, ditado ao governo pela Bancada Ruralista do Congresso, tudo poderá acontecer, não só na Amazônia como em todo o território nacional.

     O desmatamento da Amazônia, que começou raivosamente em 1978 e aumentou furiosamente nos últimos anos com a política de exportação e aumento da dependência externa dos produtos industrializados, tornando o Brasil um país anão em tecnologia própria, favorece os grandes empresários do setor de agricultura e pecuária, os grandes empresários das construtoras como a Norte Energia, que está criando Belo Monte – que se tornará a maior devastadora do meio ambiente jamais conhecida – e todos os demais grandes e pequenos empresários que se interessam em tornar a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pampa e tudo o que ainda resta de Brasil em pasto pasteurizado e plantações plastificadas cercando grandes cidades onde habitarão milhões de robôs monitorados.

     Este é o país idealizado pelos governos continuístas da ditadura militar e que se dizem democráticos. Governos muito aplaudidos pelo povo, segundo as empresas de pesquisa de opinião pública contratadas pelos interessados.

     Essas pesquisas dizem que o governo de Dilma Roussef tem a aprovação de 77% da população – o que significaria que 77% do nosso povo apóia o desmatamento, a desertificação do solo, os desertos verdes, a destruição do meio ambiente, a extinção das espécies animais e também de algumas espécies humanas, como os indígenas, a corrupção no governo e no desgoverno, a inflação que só tende a aumentar, apesar da propaganda pró-Dilma dos grandes meios de comunicação, a aliança para o que der e vier com o governo dos Estados Unidos, as péssimas condições da educação, as péssimas condições da saúde, os maiores impostos do mundo, as desigualdades sociais, que tornam o Brasil a oitava nação mais desigual do mundo, segundo a ONU, a venda de grandes extensões do nosso território para estrangeiros, a ausência de reforma agrária, a impunidade dos corruptos, a influência dos grupos econômicos na política – o que mais?

     Se o povo concorda com tudo isso, merece o governo que elegeu. Ou será apenas um povo analfabeto político?

     Bertoldt Brecht escreveu: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

     Ou será apenas analfabeto? 14 milhões de brasileiros são analfabetos, não sabem ler e escrever. O que não significa, necessariamente, idiotia ou imbecilidade, mas fragilidade extrema para aceitar facilmente a propaganda oficial. Em sua maioria ou, talvez, totalidade, são os que recebem mesadas do governo para poderem sobreviver.

     Além do simples analfabeto, temos o analfabeto funcional. É aquela pessoa que sabe ler e escrever, mas não entende, não consegue interpretar o que lê. Provavelmente, não saiba interpretar outras coisas. De acordo com a Wikipédia, “no Brasil o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população (30% no nível 1 e 38% no nível 2). Somados esses 68% de analfabetos funcionais com os 7% da população que é totalmente analfabeta, resulta que 75% da população não possui o domínio pleno da leitura, da escrita e das operações matemáticas, ou seja, apenas 1 de cada 4 brasileiros (25% da população) são plenamente alfabetizadas, isto é, estão no nível 3 de alfabetização funcional”.

     E temos aí os votos da Dilma, a razão pela qual a sua aprovação é de 77% da população. Alguns dizem que as pesquisas são fraudulentas, manipuladas pelo governo. Não é impossível, porque este é o país da corrupção. Porém, considerando a probabilidade de que as pesquisas tenham sido feitas com toda a correção científica e que o Nordeste – onde o governo é mais bem aceito - é a região que tem três vezes mais analfabetos (de todos os tipos) que as demais regiões do pais e, ainda, considerando que somente em 2010 o governo federal investiu em mídia (propaganda oficial) R$ 1.628.920.472,63 (imagine-se o que deve estar investindo em 2012, ano de eleições...) não é de se duvidar que a grande maioria dos brasileiros esteja apoiando este governo.

     A propaganda institucional é tamanha que, apesar de a corrupção brasileira ser manchete todos os dias – mesmo que a imprensa seja manipulada pelas grandes agências de notícias para divulgar somente determinados assuntos – Dilma Rossef foi transformada no grande ícone da moralidade e boas intenções.

     Na cidade onde eu moro – Bagé, RS, que já foi a cidade dos bageenses – duas grandes coligações políticas e mais o PSDB disputam as eleições, este ano. Uma delas é chefiada pelo próprio prefeito, que é do PT e pretende a reeleição; outra, por uma ex-vereadora do PTB, que fez alianças com o PDT (ou parte dele) e mais alguns partidos sem expressão na cidade; o terceiro candidato a prefeito é um vereador do PSDB, que sabe que perderá, mas poderá negociar politicamente os votos recebidos com a coligação vencedora.

     Até aqui, tudo “normal”. Os três candidatos usam o nome de Dilma Roussef como chamada de campanha. Não há qualquer tipo de oposição, apenas oposição entre os candidatos. Não há ideologia, idéias ou ideais. Dilma elegerá o candidato mais confiável.

     Enquanto isto, no Brasil, indígenas, animais de todos os tipos, plantas nativas e o próprio solo cada vez mais degradado pelas empresas cúmplices do governo, estão ameçados de extinção.

     Mas ninguém sabe a espeito, ninguém quer saber. Este é um país de analfabetos.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

BRASIGUAIOS DEPUSERAM LUGO?





Ao contrário de Lula e Dilma – convictos demagogos – o presidente Lugo, do Paraguai, tentou realmente fazer a reforma agrária no seu país. Ao contrário de Lula e Dilma – que se aliam com reconhecidos corruptos – Lugo era a esperança dos sem terra do seu país, onde 80% das terras estão nas mãos de 2% de proprietários. De acordo com a France Press, em matéria de 24 de junho, postada no site Terra (terra.com.br), “pelo Paraguai, circulam títulos de propriedade envolvendo um total de 530.000 km² de terras, quando o país dispõe de apenas 410.000 km². O fenômeno remonta à época da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), que distribuía títulos de propriedade para recompensar as pessoas de confiança.

     Durante aquela ditadura, nos anos ’80, chegaram ao Paraguai os brasileiros sequiosos por terras baratas, recebendo todo o tipo de incentivos do governo, em especial a distribuição de títulos de propriedade do governo ditatorial do general Stroessner, o que provocou o desalojamento de milhares de pequenos proprietários que viviam de agricultura familiar, obrigados a ceder as suas terras à força, formando grandes bolsões de pobreza nas grandes cidades e forçados a viver do tráfico e das vendas clandestinas. Assim como no Brasil.

     As terras foram entregues aos grandes proprietários rurais já existentes no Paraguai e, principalmente, aos brasileiros que receberam títulos de propriedade do governo paraguaio, com a única condição de expulsarem das suas terras os legítimos proprietários.

     Naquela época foi descoberto o grande valor nutricional da soja – que também pode ser utilizada para a fabricação de farinha, sabão, cosméticos, resinas, tintas, solventes e biodiesel – e os países latino-americanos, quase todos sob governos ditatoriais que, por sua vez, obedeciam (obedecem?) aos Estados Unidos, foram incentivados a transformar seus territórios em grandes plantações de soja. Somente nos anos ’90 e no século 21 surgiu a soja transgênica, que fornece colheitas abundantes e esteriliza mais rapidamente a terra. O grão é vendido para os países industrializados e recebemos de volta os produtos prontos para consumo.

     Atualmente, são mais de 300.000 brasileiros – os brasiguaios - vivendo no Paraguai. Em sua grande maioria, vivem do plantio de soja, e como a soja transgênica é a utilizada, quando os campos ficam imprestáveis ocorrem novas invasões de terra e desalojamento de pequenos proprietários rurais, provocando uma grande crise social. Assim como no Brasil.

     Fernando Lugo foi eleito, em 2008, devido à sua promessa de fazer a reforma agrária, empenhar-se na luta contra a corrupção e favorecer o nacionalismo. Seu governo foi bombardeado pela imprensa capitalista desde o primeiro dia de mandato. Previa-se que seria golpeado.

     Empenhou-se em promover a reintegração de posse dos paraguaios sem terra. Em 15 de junho, um tiroteio durante uma reintegração de posse provocou a morte de 11 sem terra e de 6 policiais. Imediatamente, o Congresso votou pelo impedimento do Presidente, sob a alegação de que Lugo perdera o controle dos conflitos agrários. Em questão de dias, era destituído do poder. Os Estados Unidos reconheceram imediatamente o governo de Federico Franco. O governo de Dilma/Lula reconhecerá, apesar dos primeiros momentos de tensão demagógica.

     Os Brasiguaios que dominam o Congresso Paraguaio com o seu poder econômico – assim como no Brasil existe a “Bancada do Agronegócio”, que manda no Governo – rejubilam-se. O povo paraguaio continua sem terras. Assim como no Brasil.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O PREFEITO E AS ELEIÇÕES






O prefeito estava em seu gabinete de secretário quando mandou chamar o seu secretário... Ou melhor, o prefeito estava no seu gabinete que desejava que fosse gabinete de prefeito, quando... Ainda melhor: o secretário do secretário que pensava que era prefeito foi chamado ao gabinete do secretário que só admitia ser chamado de prefeito. Entrou e foi logo falando.

     - Às ordens, companheiro secret... er... companheiro prefeito.

     - Nunca esqueça, companheiro secretário: quem já foi rei sempre será majestade. Tive a infelicidade de ser sucedido por um adversário político que faz questão de não reconhecer essa grande verdade e que pensa que quem manda agora é ele.

     - Mas companheiro prefeito, o companheiro prefeito que o sucedeu na prefeitura não é do nosso partido?

     - Siglas! Não me venha com siglas! Ideologias! Quem quer saber disso? Só ele, que ainda é um retrógrado!

     - Mas companheiro prefeito...

     - Nem mas, nem meio mas! Diga-me quem é o mais bonito: eu ou ele?

     - É o senhor que manda, companheiro prefeito.

     - E quem manda sempre é mais bonito, não é verdade? Já escreveu aquele texto, companheiro secretário?

     - Qual deles, companheiro prefeito?

     - Aquele para o meu jornal de Três Estrelinhas - a cidade onde eu fui, sou e serei prefeito!

     - Permite uma pequena correção, companheiro prefeito?

     - Só se for uma correção bem pequena. E cuidado com as palavras.

     - Bem pequenininha...

     - Está bem. Fale!

     - O senhor não poderá ser o próximo prefeito porque não é candidato. O candidato é o seu adversário político do nosso partido sem ideologia.

     - Santa ingenuidade! Então o companheiro entende que só porque eu não sou oficialmente o prefeito e porque não concorro às eleições para prefeito eu não vou mandar? E eu não sou o prefeito agora, mesmo que tenha aquele outro lá, ostentando o nome de prefeito? Ele não depende de mim, dos meus contatos partidários, da minha influência no governo do estado para receber verbas? Atenda, que o telefone está tocando.

     - É o governador, companheiro secret... er... prefeito.

     - Passe o telefone!

     “Pois não, companheiro padrinho... Beijo as suas mãos, companheiro padrinho... Os pés também... Eu sei que devo tudo ao senhor, companheiro padrinho... Tudo, tudo, tudo, até as calças que... Não preciso exagerar? Claro que não, companheiro padrinho... Perdão, companheiro padrinho, mas fazer campanha política com ele, subir no mesmo palanque... Perdão, companheiro padrinho... O que eu estava dizendo?... Nada, companheiro padrinho! Eu estava apenas pensando alto... Não é para pensar alto? As paredes tem ouvidos?... Os telefones também?... Eu sei, companheiro padrinho... Como quiser, companheiro padrinho... Fingir apoio... Chutar com as duas... É claro que eu sou esperto, companheiro padrinho!... O senhor é um gênio, companheiro padrinho!... Aquele jornal? Já mudei a direção, está tudo encaminhado, companheiro padrinho, não se preocupe. Obrigado, companheiro padrinho... Mil vezes obrigado... Não precisava tanto!... Quer dizer... nunca é demais... Obrigado, companheiro padrinho! Obrigado!!!”

     - Ele desligou. Será que eu falei alguma coisa errada?

     - O senhor falou o de sempre, companheiro prefeito. Ele é dado a esses chiliques, o companheiro sabe, liga e desliga o telefone quando quer.

     - Ah, o poder! Nada como o poder...! Poder ligar e desligar o telefone quando quiser... Poder dizer o que quiser... Poder fazer os outros se agacharem... Poder até exigir que os outros... Não! Eu não gosto de pensar nisso. São águas passadas. Foi um momento de volúpia de poder.

     - Como disse, companheiro prefeito?

     - Eu perguntei se o companheiro já escreveu o meu artigo para o jornal de Três Estrelinhas.

     - Qual dos dois jornais, companheiro prefeito?

     - Eu não vou dizer o nome, mas você sabe: o que mudou a direção, o novo, o que seria da oposição. Adoro oposição consentida! O outro já é meu há muito tempo...

     - Aquele que o senhor comprou?

     - Jamais diga isso! Nem mesmo pense! Eu nunca comprei jornal algum. Não no meu nome, entende? Eu sou apenas um servidor do povo. O que seria do povo daquela cidade sem mim? Eles me adoram!

     - O artigo está pronto, companheiro prefeito. Basta o senhor assinar. Mas se eles ganharem, companheiro prefeito? O partido perderá a prefeitura!

     - Somente oficialmente, companheiro secretário, e apenas por quatro anos.

     - E as rádios? Estão sob controle? Adoro a expressão ‘sob controle’!

     - Todas elas, companheiro prefeito. Inclusive eu fiz aquilo que o companheiro pediu: dois ou três programas que atacam o senhor, para depois serem desmentidos.

     - Você está aprendendo. Devagar e sempre. E os programas da televisão local?

     - Está um pouco mais difícil, companheiro prefeito. Parece que o outro companheiro prefeito, aquele da nossa sigla sem ideologia e que é o prefeito oficial, também está aprendendo.

     - Não fala a palavra ideologia! Por favor! É uma palavra que me lembra aquele outro que está na prefeitura e não quer obedecer à voz da razão. Ou seja, a mim! ‘Voz da razão’ é um chavão, companheiro secretário?

     - Dos mais chaveados, companheiro prefeito.

     - Então, faz de conta que eu não disse, companheiro secretário. Eu somente falo coisas sérias e inteligentes. Jamais digo chavões! Os blogs?

     - É claro, companheiro prefeito. Está anotado. Quando eu escrever a sua biografia, daqui a alguns anos, não haverá nenhum chavão. Quanto aos blogs, por enquanto temos um, companheiro prefeito. Tem até charges e histórias em quadrinhos. Está ficando caro...

     - Nada que não se possa bancar, não é companheiro secretário? Sabe-se lá de onde vem o dinheiro; o importante é saber para onde ele vai.

     - Essa é uma frase rara e inteligente, companheiro prefeito. Vou anotar para a posteridade.

     - Voltando ao artigo, como é que está? Eu estou escrevendo bem?

     - O melhor que eu posso, companheiro prefeito, de acordo com o rascunho que o companheiro me passou. Tenho certeza de que não está parecendo uma composição de criança de primeiro grau. Mas tudo isso para perder a prefeitura por quatro anos, companheiro prefeito...

     - Para voltar à prefeitura, companheiro secretário.

     - Voltar com outra sigla?

     - Diga-me quem é mais bonito: eu ou o candidato deles - talvez futuro prefeito, que comerá nas minhas mãos? E aquele outro sumirá! Desaparecerá! Como é bom o poder!

quinta-feira, 21 de junho de 2012

AS CATURRITAS E OS LOBOS




Matéria no jornal Folha do Sul, de Bagé - ainda a minha cidade - revela que cortar árvores é uma prática justificada pela própria Secretaria do Meio Ambiente. Principalmente se o corte de árvores for uma solicitação de empresários, porque a Prefeitura de Bagé tem como principais aliados os empresários da cidade, obedece a tudo que esses senhores desejam. Cortar árvores é um dos seus desejos. A Prefeitura obedece.

     Diz a matéria, de 19 de junho, na página 11: “O biólogo Zeno Freitag, da secretaria, informa que a solicitação de corte foi feita por um empresário que irá desmanchar um prédio que está comprometido pelo seu estado de deterioração. No local, será construído outro”.

     Até aí, aparentemente tudo bem. Razoáveis motivos para o corte das árvores. Razoáveis motivos para eles, que se acreditam os donos da cidade, porque não existem motivos ou razões suficientes para algo tão anti-ecológico como cortar árvores.

     Uma única árvore pode transpirar por suas folhas até 60 litros de água por dia, formando um vapor que se mistura com as partículas de poluição do ar, acumulando-se em nuvens e provocando a chuva.

     Bagé é uma cidade que sofre com constantes e avassaladoras secas. Os dois últimos prefeitos, do mesmo partido muito amigo dos empresários, estão construindo uma terceira barragem emergencial há mais de seis anos. O povo e a natureza sofrem com a seca até no inverno. Quando um antigo prefeito, certa vez, durante uma dessas grandes secas, recebeu o conselho de que mais árvores deveriam ser plantadas na cidade, achou muito engraçado. Até mandou plantar algumas, mas depois desistiu. Era de outro partido, igualmente muito amigo dos empresários.

     Quem, despreocupadamente, lê a matéria que foi manchete no jornal Folha do Sul no dia 19, até pode achar suficiente a explicação do biólogo. Alguns vão achar estranho, no início da leitura; outros vão se apavorar ao ler a continuação. O biólogo explica que cortar as árvores da cidade é um projeto da Prefeitura, apoiado por sérias instituições.

     “A ideia é, com o tempo, ir substituindo as árvores de maior porte por outras mais adequadas. Em geral, de pequeno ou médio porte, sejam elas exóticas ou nativas”.

     Ou seja, continuar cortando as árvores. E substituí-las, ‘com o tempo’, por outras árvores – inclusive exóticas – desde que sejam do tamanho considerado ‘adequado’.

     O biólogo ainda diz que as árvores da cidade são velhas, colocando esse argumento como mais uma razão do corte de árvores. Leiam “Prefeitura”, quando eu escrevo biólogo. Não acredito que tenha falado aquilo conscientemente. Afinal, ele tem que defender o seu emprego e deve saber que uma árvore adulta recebe pelas raízes muitos nutrientes de matéria orgânica (como as fezes dos animais), que são absorvidos e transformados, através da fotossíntese, em alimento para toda a planta. Também deve saber que a camada de folhas que se forma embaixo da árvore, serve de berço para as sementes e para proteger o solo dos pingos de chuva, evitando a erosão. Além disso, folhas, frutos, madeira e raízes servem de alimento para diversos seres vivos. Uma árvore é um pequeno ecossistema; quando destruído, afeta todo o meio ambiente onde está inserido.

     Mas, aqui em minha(?) cidade, o que importa é o tamanho das árvores. Eles chamam isso de “revitalização”. Já revitalizaram algumas praças e as deixaram quase nuas de árvores e sem nenhum gramado. São loucos? Talvez sejam racionais em demasia, e é isso que eu temo. Tenho muito medo dos que esbanjam excesso de razão, porque costumam ser predadores. São estranhos seres insensíveis que acreditam que saber é poder, e que revelam esse poder de uma maneira absolutamente destrutiva.

     Um dos pensadores prediletos dessas pessoas que consideram a natureza alheia ao ser humano, de tal forma que existe somente para ser usada, é Francis Bacon. Em “Elogio ao Conhecimento” (1592), Bacon escreve: (..) “Será que não devemos perceber tanto a riqueza do armazém da natureza quanto a beleza de sua loja? Será estéril a verdade? Não poderemos, através dela, produzir efeitos dignos e dotar a vida do homem com uma infinidade de coisas úteis?”

     Com a filosofia de Bacon, o mecanicismo cartesiano era alimentado pelo utilitarismo e nascia o homem racional, acreditando que a natureza existe apenas para servi-lo.

     Algumas correntes de supostos pensadores e sociedades que se dizem discretas em seus aventais litúrgicos, afirmam que Bacon era Shakespeare. Que teria sido ele, Bacon, a escrever as obras de Shakespeare, em lugar do autor, que não possuía nem título de nobreza. Mas basta ler e raciocinar sobre as obras de Shakespeare, em seu extremo romantismo e amor à vida, para nos darmos conta que é uma afirmação, no mínimo, falaciosa. Houve quem chegasse a dizer, para rebater, que é mais provável que Shakespeare tenha escrito as obras de Bacon, do que o contrário. Também não acredito nisso. Shakespeare era muito inteligente e, antes de tudo, um artista, ao contrário de Bacon.

     Foi esse pensamento cartesiano-mecanicista-utilitarista, originado durante o Renascimento, que sustentou filosoficamente o surgimento da industrialização e do capitalismo selvagem, com todas as suas contradições e misérias, culminando com a destruição da natureza.

     Por isto também, a Rio+20 não vai dar em nada. É uma cúpula dos donos do poder (e mais algumas esforçadas ONGs) que simplesmente estão constatando o alto grau do seu poder de destruição. Mas como essa destruição gera lucros, nada será feito, além de uma carta de boas intenções.

     Aqui, na minha cidade, árvores são cortadas. Em seu lugar serão plantadas, inclusive, árvores exóticas, desde que tenham o tamanho adequado para a funcionalidade que a nova democracia formada por políticos e empresários exige.

     Já temos árvores exóticas no pampa, principalmente o eucalipto, plantado especialmente para fornecer madeira para as fábricas de celulose. Está comprovado que o eucalipto, que está se tornando uma rendosa monocultura para alguns, provoca a perda de biodiversidade, provoca erosão e mata as árvores nativas da região onde é plantado, devido ao seu grande consumo hídrico. As árvores nativas são desprezadas, porque o que interessa é o lucro.

     A Agência Internacional de Desenvolvimento do Canadá recomendou que “para retornar ao sequestro potencial de carbono de 1950 deveríamos restabelecer 500 milhões de hectares de florestas nativas”.

     Mas aqui se planta eucaliptos e em floresta de eucaliptos, geralmente só há formigas e caturritas. Tantas caturritas, que já invadiram a cidade.

     “Cinco por cento da área original do bioma pampa já foram perdidos para a monocultura do eucalipto e seus desertos verdes. Os impactos desse cultivo para o aqüifero Guarani, maior reserva de água doce do mundo, serão irreversíveis. Aumentará a desertificação em municípios como Alegrete e Bagé onde, aliás, as papeleiras já adquiriram áreas e estão principiando o plantio de mudas de eucalipto” – afirma o jornalista Cristiano Muniz, em seu blog “Não Deixe o Pampa Morrer” (salveopampa.blogspot.com.br). Isto ele escreveu no tempo de Yeda Crusius como governadora do estado. Agora os eucaliptos já cresceram.

     Mas não é somente Yeda Crusius a responsável, ou o grupo RBS ou quaisquer outros alvos mais visíveis. Para que esteja acontecendo a desertificação do solo e consequentes secas e desastres ambientais, é necessário, no mínimo, a complacência dos governos municipais. E em Bagé temos um governo demasiado complacente com o que acontece no município. Dentro da cidade, o corte desenfreado das árvores; no campo, a cegueira, a desinformação ou a ganância.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

OS MENSALÕES


Criada para esconder o julgamento dos indiciados no Mensalão, a CPI de Carlinhos Cachoeira transformou-se em um Mensalão 2, devido aos fortes indícios de ligações de Carlinhos Cachoeira não só com parlamentares de todos os partidos – especialmente PT, PMDB, DEM e PSDB – como por tráfico de influência através de governadores e de empresas, como a Delta Construções, ligada estreitamente ao governo federal.

     Carlinhos Cachoeira é o nome do momento, mas todos sabem que existem outros “Carlinhos Cachoeira”, que estão soltos e assim continuarão. Vinte deles foram presos na Operação Hurricane (Furacão), no dia 13 de março, e soltos por liminar concedida pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello no dia 1º de maio. Entre os vinte soltos pelo ministro Marco Aurélio, quatro são os mais famosos: Aniz Abraão David, o Anísio, Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, o seu sobrinho Julio César Guimarães Sobreira e Antonio Petrus Kalis, o Turcão. O ministro argumentou que o decreto de prisão não estava suficientemente fundamentado. E soltou os vinte conhecidos contraventores.

     Na mesma época, Carlinhos Cachoeira estava sendo preso, também por contravenção, o então senador do DEM, Demóstenes Torres, amigo de Cachoeira, saía do seu antigo partido (e brevemente será expulso do Senado e da vida parlamentar) e era instalada a CPI de Carlinhos Cachoeira, com base em revelações da operação Monte Carlo e operação Vegas, montadas pelo Departamento de Polícia Federal para desarticular uma organização que explorava máquinas caça-níqueis e jogos de azar em Goiás.

     A operação Monte Carlo foi além das ligações de Demóstenes com Carlinhos Cachoeira. Descobriu que a Delta Construções – principal empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) fez contratos diretos com 18 administrações estaduais. A Delta estava ligada à organização de Carlinhos Cachoeira através de seu ex-dono, Fernando Cavendish. Cavendish afastou-se da Delta Construções quando a Polícia Federal descobriu que a Delta financiava empresas fantasmas criadas por Carlinhos Cachoeira.

     Quem levou a Delta Construções para tão perto governo Dilma teria sido o (ex?)consultor da empresa, José Dirceu – ex-deputado do PT, cassado por denúncias de corrupção, apontado como o “chefe da quadrilha” do Mensalão e um dos principais chefes do partido do governo.

     O deputado federal Almeida Lima (PPS-Sergipe) afirmou, em abril, ainda na fase de preparação da CPI, que a instalação da CPI era um “tiro de bazuca no pé do PT”. De acordo com o site www.ucho.info, José Dirceu prestou serviços de consultoria para a Delta. Segundo os jornais, o contrato foi assinado no final de 2008 para prospecção de negócios na América do Sul. “Na mesma ocasião, os contratos com a empreiteira com o governo federal praticamente dobraram, passando de R$ 393 milhões para cerca de R$ 800 milhões. Atualmente, a empresa detém a maioria dos contratos de obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e com ramificações em vinte e três estados. “Não é sem razão que é chamada de a empreiteira do PAC”, ironizou o deputado.”

O MENSALÃO I

Em 2004 o nome Carlinhos Cachoeira ficou conhecido, quando foi divulgada uma gravação onde Waldomiro Diniz – assessor especial de José Dirceu, quando este era ministro da Casa Civil do primeiro governo Lula – aparecia extorquindo dinheiro do contraventor para arrecadar fundos para a campanha do PT em troca de facilitação em concorrência pública. Foi o chamado caso LOTERJ, que deu origem à CPI dos Bingos, cuja única consequência foi uma medida provisória assinada por Lula, proibindo bingos, caça-níqueis e outras casas de jogos de azar em todo o Brasil.

     Em 2005, foi descoberto um esquema de corrupção que foi denominado Escândalo dos Correios. Os principais implicados eram membros do PTB – partido da base aliada do governo -, que controlava os Correios em troca de apoio ao governo Lula. O ex-deputado Roberto Jefferson, então Presidente do PTB, acuado, revelou um esquema de corrupção ainda maior, do qual fazia parte. Esclareceu que parlamentares que compunham a chamada "base aliada" recebiam, periodicamente, recursos do Partido dos Trabalhadores em razão do seu apoio ao Governo Federal, constituindo o que se denominou como "mensalão" – e acusou o então Ministro da Casa Civil José Dirceu de ser o mentor do esquema de compra de votos. Segundo informações veiculadas pela imprensa, o PT se comprometia a pagar a quantia de R$ 150.000,00 a cada deputado federal do PTB, em troca do apoio dos parlamentares petebistas ao Executivo. O não cumprimento da promessa teria provocado o rompimento entre os dois partidos, o que veio a culminar com a série de denúncias de corrupção alardeadas a partir de maio de 2005.

     O dinheiro para comprar os deputados viria, principalmente, do Banco Opportunity, de Daniel Dantas, que também controlava as empresas de telefonia privatizadas. Mais de 127 milhões de reais foram parar nas contas da empresa DNA Propaganda, de Marcos Valério, que repassava ao então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para o pagamento dos parlamentares da “base aliada”. Mas não foi somente Daniel Dantas que financiou os projetos do PT.

     O deputado Roberto Jefferson disse que parte do dinheiro do mensalão vinha de empresas estatais, entre elas, Furnas, Eletronuclear, Petrobras, Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) e Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT).

     Furnas: Segundo o deputado, Furnas repassou R$ 3 milhões por mês ao Partido dos Trabalhadores (PT) e seus aliados.

     Eletronuclear: O presidente da empresa Paulo Figueiredo (indicado pelo PCdoB, aliado do PT) e o ex-assessor do ministro José Dirceu e ex-secretário de Comunicação do PT Marcelo Sereno são suspeitos de terem manipulado os fundos de pensão da estatal para desviar dinheiro ao PT.

     Petrobras: Segundo o deputado Roberto Jefferson, foi uma das principais empresas usadas pelo PT para desviar recursos para o partido. Em 5 de julho de 2005 o secretário-geral do PT Silvio Pereira renunciou a seu cargo porque foi descoberto que ele recebeu de presente um automóvel Land Rover da empresa GDK, vencedora de uma licitação de U$ 90 milhões junto à Petrobras.

     Instituto de Resseguros do Brasil (IRB): segundo Roberto Jefferson, Marcos Valério articulou um encontro com representantes da Portugal Telecom, ligada ao Banco Espírito Santo (BES). Nesse encontro ficou decidida a transferência de U$ 600 milhões do IRB ao BES e que este compraria as linhas de transmissão da estatal Eletronorte. De acordo com o deputado, a operação renderia até R$ 120 milhões para o PT e o PTB. O próprio Jefferson foi acusado de interferir junto ao IRB para arrecadar fundos para seu partido, o PTB. Jefferson admitiu a manobra, contudo disse que ela foi legal e que as doações seriam registradas legalmente e feitas por empresários indicados pelo então presidente do IRB.

     Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (EBCT): Inicialmente o deputado Roberto Jefferson foi acusado de comandar um esquema de corrupção nos Correios. Jefferson admitiu a existência de um esquema de corrupção, mas alegou que ele era controlado pelo PT. Em depoimento para a CPI dos Correios, Maurício Marinho, que foi chefe do Departamento de Contratação e Administração de Material da estatal, citou os nomes do então secretário-geral do PT, Sílvio Pereira e do então ministro Luiz Gushiken, como as pessoas e teriam influência na administração da empresa.

     Também os fundos de pensão das empresas estatais são suspeitos de arrecadar dinheiro para o caixa 2 do PT.

O MENSALÃO II

O Mensalão 2 tem a participação dos contraventores que, na época da CPI dos Bingos (que não deu em nada) passaram a agir clandestinamente devido à MP que proibiu jogos de azar.

     Desta vez não se trata de deputados e senadores sendo comprados pelo PT para votarem nos projetos do Governo, mas de empresários do jogo do bicho, bingos, máquinas caça níqueis, que tiveram a sua ação oficialmente criminalizada e passaram a atuar subterraneamente, contando com o apoio – supostamente comprado – de políticos e membros de diversos governos estaduais. Também são apoiados por outros empresários – que não tem as suas ações criminalizadas – e a eles apoiam, para que tudo dê certo no mundo dos grandes negócios.

     A Delta Construções, que já ganhou mais de R$718 milhões com negócios em 18 estados brasileiros, e que teve, na CPI do Cachoeira, o pedido da quebra do seu sigilo bancário defendido pelo relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT)– para espanto, gritos e sussurros de membros de todos os partidos – tem como seu principal acionista Fernando Cavendish, que estaria envolvido com o esquema de Carlinhos Cachoeira.

     Acresce que Cavendish foi fotografado junto com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), aliadíssimo do Governo Federal e principal dono do dinheiro do petróleo que deveria ser brasileiro. Estavam com lindos lenços na cabeça, rindo e brincando de qualquer coisa ou não sei o quê, especula-se que do resultado de negócios lucrativos, em um belo hotel de Paris.

     Além de Sérgio Cabral, o governador Marconi Perilo (PSDB) de Goiás e o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, que é do PT, também seriam velhos conhecidos de Carlinhos Cachoeira, Delta Construções e outros menos cotados.

     Outros menos cotados. Talvez os menos cotados sejam aqueles bicheiros conhecidos, os 20 contraventores que foram soltos por ordem judicial em abril, no Rio de Janeiro, e mais sabe-se lá quantas centenas de contraventores por este Brasil afora. Pessoas que tem seu dinheiro arrecadado dos otários brasileiros acostumados à cegueira do futebol, samba e muitos feriadões e que acreditam que jogar no bicho é uma coisa ‘inocente’, assim como jogar seja lá no que for, porque este é o país em que ninguém vive de salário – conforme um ditado popular.

     Os donos do jogo do bicho (e de outros jogos ainda ilegais) não por acaso são chamados de banqueiros e se relacionam com outros banqueiros oficiais para lavarem o seu dinheiro arrecadado em praças, ruas e outros lugares mambembes e circenses deste país que segue nos enganando com a sua falsa pose de ministro togado que faz rir por falta de lágrimas. E os banqueiros de todo o tipo – desde os que tem grandes casas bancárias até os que se escondem em porões – acostumaram-se a comprar senadores, deputados, ministros e todos aqueles seres que, volta e meia, nos pedem votos em troca do que todos sabemos serem mentirosas promessas.

     Acostumamo-nos com a mentira e com a corrupção e delas rimos, porque as lágrimas já secaram, devido à inevitável raiva que ruboriza os mais crédulos e crentes nos carinhos do Estado.

     Estamos cada vez mais acostumados com o ‘dar em nada’ das CPIs, com os julgamentos vazios de corruptos que se tornam famosos pela sua qualidade de corromper a todos – e todos desejam ser corrompidos -, com o seu rosto ‘esperto’ de jogadores que nos enganam diariamente e que muitos admiram, porque o muito dinheiro da corrupção os torna impunes.

     Cada vez mais ficamos acostumados com a hipocrisia do Estado.

     O Mensalão 2 nada mais é que os contraventores comprando políticos, imiscuindo-se nos negócios do Governo, conseguindo licitações fraudulentas e favores especiais em troca da continuidade da fraude conhecida e de mais especiais favores, o que os faz rir desbragadamente de nós – com lenços na cabeça e com olhar de escorpiões - os que se acreditam honestos e pagam os impostos que eles arrecadam.

     Este é o país que vai pra frente com pontapés na traseira dos brasileiros que ainda não se corromperam. Pontapés e risos de escárnio.
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