quinta-feira, 14 de novembro de 2013

ORIENTAÇÃO DOS CÁGADOS



Seres não exatamente circulares, répteis que não se enroscam, preferindo se esconder sob a casca quando se sentem ameaçados. Observem o Congresso Nacional. O senado é um cágado devidamente medroso, com o pescoço em algum lugar dentro daquele imenso casco; a Câmara, ao contrário, é um cágado que foi virado e esperneia enquanto não é capturado, e como tem muitos amigos logo ali no STF onde existe uma justiça cega o espernear do cágado da Câmara é tão forte e vibrante que até assusta os que não o conhecem na intimidade. Parece valente: grita, discursa e logo em seguida se agacha ou vocifera, dependendo do tamanho do susto ou da propina.

   Propina, gorjeta, mordida, obséquio, gratificação, retribuição, recompensa.


   Além dos cerca de cem mil reais que os pequenos cágados que se escondem nas cascas do Congresso Nacional recebem oficialmente, eles são orientados, assim que eleitos pelo desmemoriado povo, a aceitar o que advogados chamariam de “prêmio” para votar a favor de determinados projetos que beneficiem os grandes latifundiários e empresas que mandam no Governo, assim determinando o desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica, a aceleração de obras predatórias, como a usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, a aceitação dos transgênicos para desertificar o solo do país e matar mais rapidamente a população e deixar parada a Reforma Agrária, que é a grande piada brasileira dos tempos petistas. Também facilitam licitações para empresas amigas, promovem a compra de votos dos colegas mais passivos, aceitam a infiltração de agências de espionagem estrangeiras e nada fazem a favor do povo.

   Eles fazem as leis. Acredita a grande maioria da população que está resguardada pela Constituição Federal. Pois saiba essa maioria que logo após a promulgação da Constituição foi dado início à votação e aprovação de PECs – que são projetos de emenda à Constituição. Algumas delas com teor simbolicamente popular; outras, e muitas outras, declaradamente contra a nação e a favor dos cágados e de seus amigos.

   Está para ser votada a PEC 47, que inibe os poderes de investigação do Ministério Público. Se aprovada, a vida dos criminosos ficará muito mais fácil.

   A PEC 33 prevê que parte das decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) tenha que ser submetida ao Congresso Nacional. Já imaginaram? Se o STF não é uma maravilha, imaginem sem ele...

   A PEC 215, arquitetada pelos representantes da bancada do agronegócio, visa transferir ao Legislativo – aquela casa do Congresso formada por cágados muito susceptíveis a propinas – a demarcação das terras indígenas e quilombolas. É absolutamente inconstitucional e talvez não passe desta vez, mas eles inventarão outra PEC com o mesmo teor. Os ruralistas do Congresso querem porque querem liquidar de vez com os indígenas brasileiros, e roubar as suas terras. Já o fazem ilegalmente, através de assassinatos e grilagens, mas desejam legalizar o crime.

    A propósito, a Portaria 303, da Advocacia Geral da União (AGU), de 17 de julho de 2012, pretende que as terras indígenas podem ser ocupadas por unidades, postos e demais intervenções militares, malhas viárias, empreendimentos hidrelétricos e minerais de cunho estratégico, sem consulta aos povos e comunidades. Determina a revisão das demarcações em curso ou já demarcadas, ataca a autonomia dos povos indígenas sobre os seus territórios e limita e relativiza o direito dos povos indígenas sobre o usufruto exclusivo das riquezas naturais existentes nas terras indígenas. Entre outras coisas.

   Por outro lado, está engavetada no Senado Federal a PEC 73/2005, que dá poder ao povo, através de iniciativa popular, de cassar mandatos de parlamentares ou governantes corruptos. Esta continuará engavetada.

   No Estado Democrático de Direito ninguém está acima das leis. Não é como uma ditadura, onde “manda quem pode e obedece quem precisa” – segundo o rifão. No Estado Democrático de Direito, imposições ditatoriais são legalizadas. Por exemplo, se um governante muito democrático deseja extinguir com os indígenas do seu país e tomar as suas terras, tenta as vias legais através de uma PEC, de portarias, de projetos de lei e de todas as armadilhas jurídicas possíveis, até conseguir.

   Para isso, costuma se valer do Congresso, daquelas pessoas prontas a receber, como direi... propinas? Pessoas que foram eleitas legitimamente através daquelas máquinas extremamente suspeitas apelidadas de urnas eletrônicas. (Você já tentou pedir verificação de voto em urna eletrônica? Não perca seu tempo: o seu voto está em algum lugar imaginário do espaço virtual). Pessoas encasuladas naqueles grandes chapéus que lembram cágados. Pessoas que têm um grande medo do povo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A PASMACEIRA DE RENATO




A pasmaceira de Renato só pode ser comparada à petrificação de Dida no gol do Grêmio. Dida é um goleiro pétreo: talvez pelo nome, por ter sido da Seleção, não dá lugar ao excelente Marcelo Grohe. E é um goleiro petrificado: fica olhando a bola passar e entrar no seu gol. Há torcedores contando os frangos que Dida levou nos últimos jogos. Estão errados. Frango é aquela bola facílima que chega a bater nas mãos do goleiro, ou nas pernas, e passa lentamente para as redes. Dida não leva frangos. Apenas não pega chutes ou cabeçadas que outros goleiros mais ágeis e com melhores reflexos defenderiam. Fica ali, parado, com a mesma expressão. Petrificado.

   Renato, por seu lado, está pasmo. Isso é uma espécie de doença que acontece com todas as pessoas algumas vezes em suas vidas. Pasmar. Admirado consigo mesmo, ao mais das vezes contemplando a sua sombra ou reflexo, o atual treinador gremista pasmou.

   É certo que se mexe e grita e fala e vocifera e possivelmente orienta os jogadores, mas nada faz, além disso. Escolheu um time sem ataque, sem defesa, sem meio de campo e sem goleiro e disse para si mesmo: “Eis o time!”. Quando começa a levar gols, faz substituições de praxe e, ao mais das vezes, erradas. Depois da partida, elogia o adversário, para total desânimo dos seus próprios jogadores.

   Está longe do Renato agressivo que treinou o Grêmio há uma temporada atrás, pouco antes do empresário Luxemburgo, que também é tido como treinador. Mudou radicalmente e virou retranqueiro. E, de retranca em retranca, jogo após jogo, leva inúmeros gols e deixa os seus jogadores desesperados, coitados. Eles não são ruins de todo e fazem o possível para que a bola não chegue ao seu gol, onde está o petrificado Dida.

   Dizem que o grande erro de Renato é não colocar os bons jogadores em campo: Maxi Rodriguez, Elano e Zé Roberto. Renato prefere Yuri Mamute. Não escala ninguém que possa fazer sombra à sua antiga carreira de grande craque gremista. Escolheu a mediocridade e este não é o Renato que eu conheço ou que a torcida do Grêmio esperava. Falta ânimo e vontade de vencer.

    É necessário dar corda ao Renato, quem sabe um complexo vitamínico, uma sessão de hipnose, qualquer coisa que o livre da pasmaceira em que está inebriado. Uma injeção de ânimo. Falam por aí que é soberba e arrogância. Acho que não: é pasmaceira mesmo.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A LIBERDADE DE TORTURAR



Muito curioso o fato de a Comissão Nacional da Verdade apurar fatos ocorridos entre 18 de setembro de 1946 e 05 de outubro de 1988. Após outubro de 1988 supõe a Comissão que não houve mais torturas no Brasil, ou talvez quisessem se poupar ao árduo trabalho de investigação. Árduo e malcheiroso, porque os torturados, após aquela data, não são presos políticos, mas gente pobre, muito pobre, extremamente pobre. Veja-se o caso recente do pedreiro Amarildo, que foi torturado e morto por policiais do Rio de janeiro e não fosse o trabalho insistente de ONGs e internautas conscientes para que a desaparição de Amarildo fosse investigada, nada seria apurado. Amarildo continua desaparecido e o que há de concreto é a prisão de alguns policiais que, imagino, logo serão soltos.


  A Polícia Civil do Rio de Janeiro estuda a possibilidade da implantação de uma delegacia especializada em pessoas desaparecidas. Estuda e não se sabe quanto tempo continuará estudando essa possibilidade. Vejam a inversão de valores: eles não estudam a possibilidade de formar policiais com um mínimo de educação, cultura, respeito à Constituição e, principalmente, sensibilidade e amor ao próximo. Estudam, isso sim, a possibilidade de pesquisar o desaparecimento de milhares de pessoas com pouca ou nenhuma projeção social que, a exemplo de Amarildo, ou foram torturados e mortos por policiais ou desapareceram por outras causas que podem, inclusive, incluir a abdução por malignos extra-terrestres.


   De acordo com Antônio Carlos Costa, presidente da organização Rio da Paz, em matéria publicada pelo site Terra (WWW.noticias.terra.com.br) em 06 de novembro de 2013, somente de janeiro a julho deste ano (2013) desapareceram no Rio de Janeiro cerca de três mil e seiscentas pessoas. Em todo o Brasil, segundo a mesma fonte, durante o atual governo desapareceram 36 mil pessoas, segundo os registros oficiais.


   E o que tem a ver a Comissão Nacional da Verdade com essas estatísticas? Nada. Absolutamente nada. A Comissão Nacional da Verdade se dedica aos casos de desaparecidos até 05 de outubro de 1988. Depois daquela data, adveio a nova Constituição Federal, o recolhimento dos militares para os quartéis e, de Sarney a Dilma, nenhuma tortura com morte pode ter acontecido no Brasil. A Comissão Nacional da Verdade se preocupa muito com o passado, o que é mais uma maneira de fazer de conta que, no presente, estamos no Brasil-Maravilha.


   Neste idílico país apenas o passado nos perturba. A criminalização da pobreza sequer é comentada na augusta Comissão que se preocupa muito com a Verdade. Os membros muito politizados da Comissão não discutem a militarização das favelas ou a ausência dos direitos civis para milhões de pessoas pobres, muito pobres, extremamente pobres, e até para as que não são tão pobres e contestam o cheiro fétido na boca do Estado mentiroso.


   Saibam os navegantes que o jornalista e deputado baiano Emiliano José, no exercício de sua função de jornalista publicou uma matéria em seu blog, intitulada “A Premonição de Yaiá”. O texto, segundo o jornalista, reproduz o depoimento de Maria Helena Rocha Afonso, conhecida como dona Yaiá, mãe de Renato Afonso, preso político que foi torturado barbaramente no Quartel da Polícia Militar dos Dendezeiros em Salvador. O torturador teria sido Átila Brandão de Oliveira, hoje bispo da igreja Caminho das Árvores. O depoimento de Renato Afonso foi publicado no site da revista Carta Capital sob o título “Corpo amputado querendo se recompor”, ocasião em que narrou as torturas que sofreu.


   O bispo entrou com ação de calúnia contra o jornalista. Imediatamente, o Sindicato dos Jornalistas da Bahia (Sinjorba) publicou nota de repúdio, evidenciando que com a queixa-crime o pastor Átila tenta cercear a liberdade de imprensa e de opinião. Acrescenta que Emiliano estava em pleno exercício da profissão e reportou depoimentos com base em fontes claramente identificadas.


    Mesmo assim, a juíza Marielza Brandão, da 29ª Vara dos Feitos de Relação de Consumo, Cíveis e Comerciais de Salvador, condenou o jornalista a retirar a matéria do seu site, além de acatar a indenização de 2 milhões de reais pedida pelo bispo, ou pastor.


   Se essa decisão prosperar e se transformar em jurisprudência, breve teremos a liberdade de imprensa completamente tolhida no território nacional, o que significará que, se a ditadura militar acabou, a ditadura do Judiciário está brandindo a espada da cega Justiça a favor dos torturadores, similares e genéricos que ainda empestam o país. Os que denunciam são culpados, a verdade torna-se mentira e não demorará muito para que o celebrado estado de direito conceda total liberdade de ação aos torturadores. E, se o passado não pode ser investigado a Comissão Nacional da Verdade, por mais inócua que seja, perderá a razão de ser e os amarildos de todo o tipo, que não tem nenhum partido ou entidade a defendê-los continuarão, cada vez mais a ser torturados e mortos, para prazer e deleite dos torturadores oficiais.


   Abaixo, a matéria de Emiliano José, que já está sendo veiculada em dezenas de sites e blogs do país e, portanto, se transformou em notícia.



“A PREMONIÇÃO DE YAIÁ” - Emiliano José


"...Um calafrio, sensação estranha. Tempos dolorosos. Não vivera iguais nos seus quase cinquenta anos. Filhos presos, tantos amigos presos. Theodomiro, Paulo, quem mais? Tantos. Penso na crueldade dessa gente, quanta maldade. A sensação estranha persistia, como um aviso. Seria de Deus?  Bons, os meus filhos eram bons. Marquinhos já solto, na minha memória era setembro de 1971.

"Renato Afonso, no Quartel dos Dendezeiros, transferido do Rio de Janeiro, onde fora preso em fevereiro e perversamente torturado. O corpo já não estava tão estropiado. Não fosse meu marido Orlando, e não estaria vivo. Conseguiu fazer chegar o pedido a dom Eugênio Sales, que não matassem o filho. Dom Eugênio intercedeu, e o salvou. No Rio, passou por coisas horríveis, tanta tortura que eu nem acreditava que existisse. Tudo me vinha à mente em flashes rápidos, numa velocidade absurda. No meio das lembranças, aquela sensação estranha.

"Fui muitas vezes aos Dendezeiros, levava bolo pros meninos, dava um pedaço pro coronel Ghetsemany Galdino, que gostava muito do bolo de chocolate. Comandava o quartel. Eu já me afeiçoara aos outros meninos, Tibério, Roriz, também presos políticos. Nunca gostei de ouvir meus filhos serem chamados de terroristas, nem os amigos deles. Por que tudo aquilo vinha assim, aos borbotões, lembranças de tanta coisa daqueles ásperos tempos? E tudo era acompanhado daquela sensação incômoda, como se algo a chamasse, como se alguma coisa ruim estivesse acontecendo.
 

"E de repente, uma iluminação, e a certeza: Renato sofria, precisava dela. Como se ouvisse a voz enérgica de um anjo: que não perdesse tempo, seu filho corre perigo. Estava longe, morava em Nazaré, na Cidade Alta, longe dos Dendezeiros, Cidade Baixa. Orlando não estava em casa. Peguei um táxi, segui pro quartel. À porta, ninguém me barrou, pois, já era personagem comum. Parecia que o anjo me guiava. Dirigi-me a passos rápidos para uma sala onde tinha certeza que Renato estava. Não sabia como tinha certeza. Tinha.


"Um sentinela à porta. Quero ver meu filho, quero ver meu filho, sei que ele está aí. Calma, minha senhora. Calma, nada. Preciso vê-lo. O soldado parecia assustado, olhava pra mim, indeciso. Eu ali segura de meus direitos de mãe. Pediu que eu esperasse, iria entrar, voltaria, me traria uma resposta. O sentinela entrou, voltou, e disse está tudo bem com seu filho, nada de mal vai acontecer com ele. Mas, ele está aí? Está. Então quero vê-lo. Não pode, mas, eu garanto que está tudo bem com ele. Me acalmei um pouco. O anjo parecia aquiescer, mas me disse não arrede pé.


"E eu soube depois: dentro da sala, Renato já havia apanhado bastante, socos, pontapés, perguntas aos gritos. Após o Rio de Janeiro, transferido para a Bahia por interferência de Orlando, não sofrera mais torturas. Mas, naquele dia, um sentinela veio buscá-lo. Renato perguntou por que estava sendo retirado da cela. O soldado não sabia. Levado para uma sala, logo depois viu entrar uma equipe de torturadores chefiada por Átila Brandão, que conhecera como agente infiltrado desde a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia, onde estudaram juntos em 1968.


"Átila comandou com ferocidade e gosto a pancadaria inicial, que seria sucedida pelo pau de arara e pelo choque elétrico, equipamentos que a equipe trouxera. Queria informações sobre a passagem dele pelo Paraná, onde estivera como dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Como no Rio, Renato, fiel aos seus amigos, se recusava a dizer qualquer coisa.
 

"Soube que o soldado entrou, cochichou no ouvido de Átila, e ele, irritado, mandou parar tudo, juntar o pau de arara e o resto, e se retirou. Cessou a tortura. Quando Renato saiu da sala, eu o abracei, perguntei-lhe se estava tudo bem, ele disse sim, mas pediu que avisasse o advogado Jaime Guimarães – queriam voltar a torturá-lo. Fiz o que Renato pediu. Não voltou a ser torturado."


Maria Helena Rocha Afonso de Carvalho partiu, Yaiá, e antes de seguir para o infinito me deu esse depoimento. Deixa saudades imensas, e o exemplo de uma vida cheia de espiritualidade, fé e coragem. Viveu mais de 90 anos.
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