terça-feira, 11 de maio de 2010

DUNGA: CRAQUE? NEM PENSAR!



Quando João Saldanha foi convidado para ser o técnico da seleção brasileira, em 1968,  os seus colegas jornalistas perguntaram qual era a sua seleção. Respondeu na hora: tinha dúvidas quanto ao goleiro, ficava entre Félix e Leão, mas achava que o Félix era mais experiente e merecia ser titular. Na lateral-direita, Carlos Alberto era unanimidade; na zaga-central, o melhor, sem dúvida era o Brito, mas como quarto-zagueiro tinha sérias dúvidas, iria testar vários jogadores. Na lateral-esquerda, Rildo era o que mais se destacava, mas também iria testar outros laterais.

     Depois, João Saldanha citou os outros seus titulares do momento: Clodoaldo, Gerson, Rivelino; Jairzinho, Pelé e Tostão. Foi aplaudido. João Saldanha classificou o Brasil nas eliminatórias com aquele time, variando na quarta-zaga e na lateral-esquerda, e, às vezes, testando Dirceu Lopez, Piazza, Ademir da Guia, Paulo César “Caju” no meio-campo, entre outros tantos. Era muito criticado por não achar um quarto-zagueiro titular, mas foi muito sincero ao admitir que o Brasil não tinha um jogador naquela posição à altura dos demais da seleção. O problema da lateral-esquerda estava resolvido: Everaldo aparecia como grande destaque no Grêmio e acabou titular, com Rildo na reserva.

     Então, surgiram os problemas melhores. Quem jogaria como centro-médio? Ele tinha Clodoaldo e Wilson Piazza, os dois melhores centro-médios do país, e não queria deixar nenhum deles de fora. Pensando assim, ele resolveu o problema da quarta-zaga, escalando Piazza para aquela posição e encaixou o time. Piazza jogaria na defesa, mas, também, faria às vezes de segundo centro-médio, apoiando o meio de campo e liberando Clodoaldo para armar e atacar junto com os demais, quando necessário.

     Mesmo assim, foi muito criticado pela imprensa oficial, que, no intuito de desgastá-lo, dizia que estava errado ele colocar tantos jogadores que usavam o pé esquerdo do meio de campo para frente, porque assim o time ficaria “torto”. Esses jogadores eram Gérson, Tostão, Rivelino (às vezes Dirceu Lopes e Paulo César). Ele respondeu que não estava escalando posições, mas jogadores e que aqueles eram os melhores jogadores do país e não poderiam ficar de fora de uma Seleção Brasileira.

     Mas o ditador militar da época, o general Médici, descobriu que João Saldanha era comunista e, às vésperas da Copa de 1970 resolveu substituí-lo pelo Zagalo. Zagalo, bom moço, pegou o time pronto e o melhor que ele fez como técnico foi não mexer no time que o Saldanha tinha montado. E aquele time ganhou a Copa.

     Vejam a diferença para o Dunga. O Dunga sempre foi um centro-médio “trombador”, com pouca técnica, mas daqueles que param o atacante de qualquer maneira, estilo Guiñazu. Ganhou a confiança do Parrera e até participou bem naquela copa que o Brasil venceu nos pênaltis, em 1994. Mas nunca foi mais do que isso.

     Ao contrário do João Saldanha, que gostava de bom futebol e só convocava craques porque – óbvio! – eram craques, o Dunga convocou uma seleção à sua imagem e semelhança, com alguns jogadores um pouco melhores que os outros, mas uma seleção – convenhamos - mais parecida com a seleção da Áustria. A seleção do Dunga poderá até ganhar a Copa, mas não deixará de ser medíocre.

     Se o Brasil ganhar a Copa com esta seleção significará apenas que terá sido uma das piores Copas do Mundo de que teremos notícias, porque as outras seleções terão sido bem piores que a triste seleção brasileira convocada pelo Dunga.

sábado, 8 de maio de 2010

LOUVEMOS AS MÃES DE TODOS OS MAIOS



Louvemos as mães de todos os maios,
De todos os meses e todas as messes,
Que guardam o segredo de saber-se mães.

As mães das estradas, escuras esquinas,
Abrigo de abraços de perdidos filhos,
As mães desnutridas de sentir-se mães.

Uivemos o uivo das mães torturadas,
As mães deserdadas do amor de mãe,
As mães usurpadas de doar-se mães.

As mães despejadas no exílio de asilos,
As mães adotadas pela solidão,
De olhar tão magoado ao lembrar-se mães.

Lutemos com as mães de todos os maios,
De todas as praças e todas as preces,
A quem a esperança esqueceu de ser mãe.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

brasileiríadas - GUSTAVO ADOLFO E DRICA DE BENFICA (3)

(Foto de Lidia Amaral)

- Gustavo Adolfo!

- O que é Drica? Você não vê que eu estou ocupado?

- Ocupado com o quê, a esta hora, Gustavo Adolfo? E é claro que eu não vejo, estou ligando do celular... Mas eu preciso lhe dizer uma coisa.

- Está bem, Drica. Fala.

- Eu acho que vou votar na Dilma.

- O quê? Você está ficando louca de vez, mulher? Votar na Dilma...!

- Deixa de ser reacionário, Gustavo Adolfo. Ela é mulher e eu também sou mulher. Depois, o Serra é careca, está ficando velho e não tem nenhum sex-appeal.

- Mas a Dilma é deles, Drica!

- Eles quem, Gustavo Adolfo? C’est la même chose, chéri...

- Não é exatamente a mesma coisa, Drica. A Dilma já foi guerrilheira, andou assaltando, até.

- Que chique!, Gustavo Adolfo. Mais um motivo para votar nela. Uma mulher de ação, destemida...

- Mas do PT, Drica!

- Ora, Gustavo Adolfo, a Norminha também é do PT e é da nossa classe. O marido dela, o André, é rotariano.

- Eu sei, o André é da minha Loja, a “Amor e Temperança”.

- Viu!, é seu irmão maçom. E é do PT!

- Não tenta me confundir, Drica. É claro que temos que ter gente nossa no PT, mas isso é outra coisa, uma questão de estratégia. Na hora de votar é diferente. Por isso que o voto é secreto.

- Mas, Gustavo Adolfo, não foi você mesmo que me disse que o PT estava mudando, ficando um partido moderno, atualizado, sem aqueles extremistas?

- Foi e é verdade. Graças a Deus e a Obama, Drica. Cá entre nós, ele é negro mas é inteligente.

- Quem, Gustavo Adolfo? Deus é negro?

- Não, Drica, o Obama. É um negro bom.

- Você quase me deu um susto. Pensei que estava falando que Deus é negro. Gustavo Adolfo, cuida da concordância ao falar, você tem responsabilidades... Depois, não se deve dizer negro, Gustavo Adolfo, mas afro-descendente, não esquece.

- Está bem, Drica. O Obama, mesmo sendo afro-descendente fez a cabeça do Lula e do PT. Eles agora estão quase do nosso lado.

- Mas não foi o que eu lhe disse? Que é a mesma coisa?

- Não é a mesma coisa, Drica. Se fosse, eles não seriam outro partido.

- Mas qual é a diferença?

- A diferença está nos detalhes. Às vezes não se percebe, mas são detalhes importantes, Drica.

- Está bem, Gustavo Adolfo. Mas explica esses detalhes importantes.

- Ora, Drica, a origem deles é o povo, o que já é uma grande diferença. Outra coisa: mesmo eles controlando o povo com a tal Bolsa Família e outros programas sociais, nunca se sabe... Entendeu, Drica?

- Mais ou menos. Se eles controlam o povo, qual é o perigo?

- Nenhum perigo, por enquanto, Drica. Mas o importante é que agora já chega de PT. Está na hora de nós assumirmos, de novo. Eles já nos deram a receita de como controlar a plebe e podem ficar esperando por mais oito anos, como nós esperamos. A democracia é assim, nenhum partido pode ficar sempre no poder. Senão, não seria democracia. Tem que haver alternância no poder.

- Sei... Acho que estou entendendo... Votar na Dilma seria votar numa perdedora, não é Gustavo Adolfo? Eles tem que perder desta vez, não é assim?

- É... Você pode interpretar assim. Mas o importante é que você não pode votar na Dilma, porque é deles. E nós somos nós, não somos eles, Drica.

- Ainda bem que nós somos nós, não é Gustavo Adolfo?

- Ainda bem que nós não somos eles, Drica. Deus sabe o que faz, hehe...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

EUS


Sinto a traição Otelo em cada olhar Iago,
                                                             vago
                                                              melífluo
                                                               morno.

Sinto-me Hamlet - meus exus escolheram hora morta
para o macabro ballet que me transtorna.

Sinto-me Macbeth - é meu o olhar
                                                     irado
                                                    ansioso
                                                     magro
- é minha a fronte que afronta o vil passado.

Este fantasma é meu: sinto-me Lear.
Deserdado e desertor, cego e ceifador,
nesta última batalha eu sou a Dor
- meus pântanos, meus pés...

Sinto-me o terceiro Ricardo,
                                            feio
                                           cético
                                          corcunda
                                          sonhador.

domingo, 11 de abril de 2010

O VOTO ÚTIL DA DIREITA


Lembram do voto útil? Pois vai voltar, com certeza. Acho muito difícil um dos dois candidatos (porque os outros não contam) vencer no primeiro turno.

     Poderá até acontecer uma vitória da Dilma, mas será devida ao envelhecimento do programa da extrema-direita – PSDB, DEM & Cia. Eles não tem muito o que apresentar em termos de avanços sociais, porque extrema-direita significa conservar a dor existente e tirar o máximo proveito disso. Nada mais.

     Ou o contrário. A centro-direita – PT, PMDB & Cia. – ficar tão convencida de sua vitória antecipadamente que acabará perdendo - “efeito Bachelet”. 

     São tão semelhantes os dois blocos políticos, que as eleições poderão ser decididas pelo resultado da Copa do Mundo. Se o Brasil ganhar, vence a Dilma; se perder, ganha o Serra.

     Em qualquer dos dois casos – vitória de um ou de outro no primeiro turno – pouco ou nada aconteceria de novo na política brasileira. Com certeza, um realinhamento das alianças no Congresso, alguns programas sociais para enganar o povo e uma bela maquiagem feita pelos marqueteiros e pelas redes de televisão.

     Mas acho que não. As eleições presidenciais serão decididas no segundo turno. Não vejo muita firmeza na Dilma, apesar do seu jeito durão, e o Serra continua o mesmo.

     Eu disse que os outros partidos não contam? Não me interpretem mal. Contam no sentido em que, participando das eleições as referendam. E tudo que a direita quer é isto: que os pequenos partidos participem das eleições, mesmo que seja para perder.

     O PT não fez isso durante muitos anos, no tempo em que ainda tinha cara de esquerda? Mas o PT tinha um plano estratégico a longo prazo e agora o está concluindo. O grande plano do PT era conquistar o Poder pelo Poder, e a conseqüente diluição gradativa da esquerda. Agora que a esquerda não serve mais para o PT – na verdade, só incomoda - foi corrida do partido, sob vaias.

     O PT é um partido claramente capitalista. Mas, se for o caso, posa de socialista para enganar os incautos. Não só é a cara do Sistema como está aliado com o império estadunidense e segue as suas ordens. 

     A esquerda mundial não tem mais como referência o PT ou o Lula. Aos poucos, foi caindo a máscara. Mesmo assim, o PT esperneia para aparecer como um partido de centro-esquerda. Para os mais desavisados, é claro. Seu objetivo é conseguir a liderança de um bloco latino-americano e esvaziar a influência de Hugo Chávez e Evo Morales. Os teóricos políticos do PT - aqueles que restaram - afirmam que o nacionalismo é um caminho errado. E eles são coerentes consigo mesmos e com o seu partido: nunca se viu um governo tão entreguista travestido de esquerda.

     O Lula fez o seu papel de Lech Walessa latino-americano. Lutou as suas batalhas, venceu algumas, perdeu outras e, ao fim, merecerá algum cargo na ONU ou um título de Doutor Honoris Causa, como o Fernando Henrique Cardoso – aquele que repudiou seus próprios livros.

     Mas as eleições? Ah, as eleições... Aquele processo que acontece a cada dois ou quatro anos e que serve para que cada pessoa se sinta dona do poder por alguns minutos, durante o momento de votar.

     Pois é. Dificilmente não haverá segundo turno. E, naquele momento, podem apostar, teremos a famosa “campanha do voto útil”. Dilma e Serra, cada um por seu lado, unirão seus partidários para fazer uma grande campanha pelo “voto útil”, procurando agregar os votos dos indecisos, dos que votaram em branco, dos que anularam o voto e até daqueles que votaram, no primeiro turno, no candidato adversário.

     Será uma luta ferrenha. As pessoas serão espremidas, induzidas, aliciadas de todas as maneiras imagináveis - e vocês já imaginam quais são as maneiras imagináveis... Tanto, que ninguém terá tempo de pensar o seguinte: útil para quem?

     Em outras épocas, havia a esperança de que o Lula e o PT patrocinassem mudanças radicais na vida brasileira. Por isto, os eleitores caíam no conto do “voto útil”. Mas o Lula e o PT tornaram-se mais uma engrenagem do mesmo organismo opressor que combatiam aparentemente. Foram tantas as alianças que o PT fez que perdeu a sua identidade. Agora é só mais um partido, “modernizado”, do sistema.

     Estas eleições presidenciais terão características diferentes da anterior. Pela primeira vez em muitos anos teremos duas coligações de direita lutando pelo poder.

     No bipartidarismo disfarçado, os objetivos se confundem e as idéias, dos dois lados, são quase as mesmas. O voto útil só terá utilidade para quem for eleito por ele. Não para o povo.
     Observem que será uma luta política sem ideologia. Nenhum dos dois lados - se é que se pode falar em "lados" - estará defendendo ideias políticas. A extrema-direita, porque é aquela coisa amorfa e o PT porque quer, cada vez mais, ficar parecendo com o Partido Democrata dos Estados Unidos.

     O povo servirá de massa de manobra, durante as eleições, e continuará a servir de massa de manobra, passadas as eleições. E seguirá marginalizado, favelizado, policiado ao extremo, sem justiça e sem lei, porque a justiça e a lei são feitas para os ricos em um país capitalista.
     Os sem terra insistirão na luta pela terra - pois nada mais lhes resta, somente a luta -  e devido à sua luta serão reprimidos e assassinados. E nada será feito a respeito, porque a justiça do capitalismo existe para defender o capital.
     A classe média continuará se endividando, sonhando e fazendo projetos de ascensão social. Alguns terão mais sorte ou serão melhor apadrinhados. Mas, à maioria só restará as novelas no fim de cada tarde.

     E os ricos, esses sim os verdadeiros donos do poder, continuarão a fazer o possível para que tudo continue assim – somente promessas e esperanças, futebol e carnaval -, porque aqui é Brasil.

quarta-feira, 31 de março de 2010

TRENODIA



E na terceira vez ele caiu.
Foi ajudado a erguer-se,
a erguer seu peso.


Cercavam-no ridentes subumanos
a esquartejar-lhe o crânio com insultos
e a cuspir-lhe na face
onde o sangue coagulava.

(Era a terceira hora quando seu corpo
  foi varado do lado direito).

E o céu escureceu enquanto ele chorava.

E no terceiro dia
surgiram tanques de toda parte
guardando a entrada do sacrário
onde jazia o segredo revelado.

(O povo reunia-se na praça de Guernica
  quando os aviões despejaram hidrogênio e morte).

Rolaram pedras, matando Estêvão.
Alguém, na multidão, atirou um coquetel molotov:
era o início da revolução bolchevique.

E no terceiro mês
todos se reuniram num lugar oculto
dos gentios,
planejando e armando-se
enquanto esperavam o sinal.

Luminosos foguetes vermelhos
anunciaram-lhes o tempo e a hora
da Revolução.

Mas era sábado.

CONSERVAR O SONHO...


Conservar o sonho, a chama.
Implacavelmente morder
A vontade de vontade.

Voragem... vertigem...
Vento em dunas de areia!
Mãos em concha... água!
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