terça-feira, 10 de junho de 2014

O SHOW E OS DEZ POR CENTO DO NEYMAR




Juca Kfouri, especialista em futebol, disse no programa Roda Viva, da TV Cultura, que Neymar vale mais que os nossos educadores. E explicou: vale mais porque atrai uma grande audiência e os educadores do Brasil ficariam muito felizes se recebessem dez por cento do que ganha o Neymar. Qual a escolaridade do Neymar? Quem souber que me diga. O referido futebólogo foi aplaudido pelos demais participantes do programa, que concordaram que o principal é o show. Educação fica pra depois. Depois do que não se sabe, mas deve ser depois do carnaval no campo. Ou nos campos de futebol. 

   Este é um país de muitos campos de futebol e de estádios que valem bilhões, justamente para abrigar uma classe média ociosa que pode pagar pelos ingressos, jogadores afortunados e jornalistas que sabem muito de futebol. A Copa do Mundo no Brasil também foi feita para esses jornalistas, que devem estar ganhando muito mais que nossos educadores. Para transmitir e comentar futebol.  

   A mentalidade futebológica que domina no país das Patranhas e Tramóias leva a torcida a pensar que educador deve ficar nas salas de aula e se contentar com os seus miseráveis salários. Se, um dia, em um Brasil ainda utópico, os educadores brasileiros passarem a receber dez por cento do que hoje ganha o Neymar, acreditam os especialistas em futebol que este será um país realmente maravilhoso. Qual a escolaridade do Neymar? 

   Quanto ganha o Neymar? Quantos milhões? É bom que o povo brasileiro fique sabendo esses detalhes para que possa fazer alguns cálculos. Afinal, se até pessoas eruditas... em futebol concordam que professores devem ganhar dez por cento não do salário do Neymar, mas tendo como base o que recebe o famoso jogador, já é hora de nos prepararmos para grandes passeatas pelos dez por cento do Neymar. Qual a escolaridade do Neymar? 

   Os dez por cento do Neymar equivaleriam, talvez ao seu penteado ou somente a alguns fios de cabelo? Quanto ganha o Neymar? E o Felipão que, com certeza, vai se aposentar depois da Copa, ganhando... Quanto? Mas o Neymar, essa maravilha que vale o seu peso em ouro e pedras preciosas e que está morando longe do Brasil, longe de toda esta miséria e cultura da corrupção, quanto ganhará o simpático rapaz? Qual a escolaridade do Neymar? 

   O show vai começar. Aliás, já está começando. Prepare suas chuteiras, pátria brasileira, mesmo que seja apenas para chutar o lixo e assistir de longe o feérico e deslumbrante espetáculo. Como vai ser um show movido a chutes, quem sabe aproveitamos para chutar... Mas quanto ganha o Neymar? Quanto vale um chute do Neymar? E um gol do Neymar está cotado em quanto? Qual a escolaridade do Neymar? 

   O show vai começar ou já começou e todos os especialistas em futebol deverão estar falando sobre o Neymar: o Neymar acordou, o Neymar dormiu, o Neymar entrou em campo, o Neymar, pulou, o Neymar correu, o Neymar sorriu, o Neymar... Quanto vale um sorriso do Neymar? Já imaginaram o valor de cada perna do Neymar, de um único pé? 

   Deve ser bem mais que um salário mínimo, vocês não acham? Afinal, o Neymar faz parte do show, ajudado pelos jornalistas futebolizados e pela torcida hipnotizada. E o que importa é o show. O show é que dá dinheiro, o show é que vende. O salário de um educador não pagaria um jogador de várzea no deslumbrado país de tantas chuteiras, mas educador não dá show, apenas tenta ensinar para alunos que pensam em futebol e que gostariam de ser o Neymar. Quanto ganha o Neymar? Qual a escolaridade do Neymar?

sábado, 7 de junho de 2014

A TIMIDEZ DA RÚSSIA





Acuada por sanções e ameaças, temerosa de sofrer novos bloqueios em suas aspirações comerciais, sentindo-se fraca ante as imposições da OTAN e dos Estados Unidos, alarmada pela possibilidade de uma guerra que destruiria seus planos presentes e futuros, quase em pânico por se sentir repudiada por seus parceiros europeus, desejosa de mais carinho, apoio, compreensão, amor da comunidade internacional, a Rússia recua em todas as frentes e, a continuar assim, pouco faltará para que entregue a Criméia novamente para a Ucrânia, com um tímido pedido de desculpas. 

   Enganaram-se os que pensavam que a Rússia poderia representar uma forte oposição ao império, que a pretende submissa. Confundiram a Rússia de hoje com a altiva União Soviética, que perdeu o garbo quando foi dividida e tornou-se a apequenada Rússia, mesmo que dona de um imenso território. Mas o Brasil também tem grande território e uma das tradições brasileiras é o servilismo dos seus governos – durante e após a ditadura militar – aos interesses dos Estados Unidos. Gigantes pela própria natureza às vezes obedecem a anões morais. Ou a outros gigantes mais bem armados. 

   Na véspera da posse de Petro Poroshenko como presidente da Ucrânia, Putin conversou com ele em Paris. Dizem que foi por somente quinze minutos, mas o significado do encontro, do aperto de mãos entre os dois presidentes é bem maior que as poucas palavras que terão trocado. Com esse encontro, o presidente da Rússia admitiu a legitimidade do novo governo ucraniano e, por conseguinte e subliminarmente, a legitimidade dos golpistas de Kiev, que depuseram o presidente Yanukovich – porque foram eles que organizaram e fizeram as novas eleições, que seriam consideradas ilegítimas pela Rússia, se esta perdurasse em afirmar que houve um golpe em Kiev. 

   Queixavam-se a OTAN e os Estados Unidos que armas e soldados estariam entrando pela fronteira russa com a Ucrânia para sustentar os insurgentes de Donetsk e Lugansk. No dia seguinte ao encontro com Poroshenko, Putin deu ordens para que o serviço secreto russo (FSB) tomasse a si a responsabilidade de evitar que tal continuasse a acontecer.  

   De um momento para o outro, a Rússia tornou-se não exatamente inimiga, mas adversária do movimento separatista da Ucrânia. Inclusive, a oficial e multimídia “Voz da Rússia” mudou o tom. A notícia de que alguns soldados ucranianos foram feridos na fronteira foi comunicada de maneira lacônica, e que esses fatos teriam sido causados por “indivíduos desconhecidos”. 

   Há mais de duas semanas que se percebe nos jornais russos a tendência a esquecer o que está acontecendo no país vizinho. Já não se fala mais em guerra civil, minimiza-se a força política dos federalistas em armas do sudeste da Ucrânia e enfatiza-se o desejo pela paz, mesmo que seja uma paz à custa de centenas de mortos civis massacrados por mercenários e pelas Forças Armadas ucranianas. Moscou quer vender seu gás que passa pelos gasodutos ucranianos em direção à Europa. O governo russo quer voltar a ter boas relações com os países europeus e, talvez, quem sabe, até com os Estados Unidos. 

   Entre países capitalistas, a guerra faz muito mal aos negócios. Ao contrário do que muitos pensam, a indústria bélica não necessita de grandes guerras para fabricar e vender as suas armas. Bastam algumas tensões regionais aqui e ali, combates, palavras de ordem, promessas guerreiras, pequenos e grandes assassinatos para que armas e munições sejam vendidas à profusão. Em seguida, promovem-se eleições e a grande massa acéfala passa a acreditar que tudo mudou. 

   Não é curioso que justamente o serviço secreto russo esteja encarregado de evitar a entrada de homens e armas para os revolucionários ucranianos? Essa missão caberia aos guardas de fronteira e, até, ao exército. No entanto, Putin não quer mais o seu exército na fronteira com a Ucrânia. Não apenas pelo medo de provocar uma guerra; provavelmente teme que seus aguerridos generais tomem impulso e ultrapassem a fronteira.  

   Putin está cheio de temores. No início de maio - acatando ordens dos Estados Unidos e da OTAN - anunciou que o exército estava se retirando da fronteira. O exército russo nem se mexeu. Satélites ocidentais constataram o fato e comunicaram ao presidente russo. Putin reiterou as ordens de retirada. Nada. A situação agravava-se no sudeste ucraniano. Em Odessa houve o primeiro grande massacre da guerra civil: civis foram encurralados em um edifício e queimados vivos. Putin lamentou e enviou condolências para os parentes dos mortos. 

   A imprensa russa esbravejou; a ocidental somente constatou o fato: os fatos, às vezes, são veiculados por aqui, de maneira distorcida, mas veiculados. Naquele momento, especulava-se que, finalmente, a Rússia iria defender o povo do sudeste da Ucrânia. A “Gazeta Russa” escrevia, em 06/05/2014, em matéria intitulada “Kremlin pode revidar operação anti-terrorista na Ucrânia”: “Especialistas russos acreditam que o governo russo não deve ficar inerte frente aos últimos acontecimentos em Odessa e no sudeste da Ucrânia (...)”. 

   O Kremlin preferiu a inércia. Dizem que o medo paralisa. Mas os revolucionários ucranianos acreditaram que a Rússia estava do seu lado e até uniram forças entre as duas repúblicas auto-proclamadas de Lugansk e Donetsk, formando a “Nova Rússia”. Talvez tenham errado o nome. A OTAN e os Estados Unidos insistiam sobre a retirada das tropas russas da fronteira ucraniana e Putin não tinha mãos para tantos telefonemas para os líderes europeus. Dava explicações, pedia desculpas pela demora. 

   O que estava acontecendo? Por que o exército não obedecia à ordem de retirada das fronteiras? Não é impossível nem improvável que alguns dignos generais russos concluíssem que o mais honrado seria partir para a luta. O Ministro da Defesa, Sergei Shoigu, antes de ser um guerreiro é um grande vendedor de armamentos. Prefere a paz que favorece os negócios, e talvez tenha sido ele quem influenciou Putin a tomar a decisão derrotista, mas, provavelmente, o Chefe do Estado-Maior, Valery Gerasimov, um dos penalizados pelas sanções ocidentais, pense de maneira diferente. Há quem especule que próprio Vice-Presidente Dmitri Medvedev não estaria muito feliz com o súbito recuo nada estratégico. E aqui também há uma surda luta pelo poder. Shoigu aspira ser o sucessor de Putin e, para isso, precisaria do apoio da mídia ocidental; Medvedev, que já foi Presidente, também deseja o mesmo cargo. 

   Finalmente, às vésperas das eleições na Ucrânia o grupo de Putin venceu e a Rússia retirou o seu exército da fronteira com a Ucrânia. Recuou. E continua recuando. Os mais pessimistas acreditam que recuará até entregar a Criméia e pedir para fazer parte da OTAN, o que acabaria com todos os litígios. O governo russo é como o do Brasil: sobrevive através da propaganda. E essa propaganda fez com que os índices de popularidade de Vladimir Putin alcançassem mais de 80%, depois da reintegração da Criméia. Fizeram dele uma espécie de herói. No entanto, observando bem, Putin lembra mais o Gorbachev que destruiu a União Soviética do que o Lênin que a construiu. É mais um político, e os políticos costumam ceder, quando lhes é conveniente. 

   Enquanto isto, o iludido povo do sudeste da Ucrânia continua a ser massacrado. Agora com o apoio tácito da Rússia.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

“PODE ACREDITAR, EDUCADOR VALE MAIS DO QUE NEYMAR!”




Em que pensam os jogadores brasileiros selecionados para a Copa do Mundo? Em futebol, provavelmente, e nos ganhos que esse esporte pode lhes proporcionar. Pensarão em mais alguma coisa, além do que lhes apresenta o meio egocêntrico em que vivem?

   Eventualmente, serão induzidos a pensar, através da mídia, nas criancinhas, na cura da AIDS, no racismo ou na fruta que lhes atirarem das arquibancadas. Com certeza, desejarão a não violência nos estádios, atualmente apelidados de “arenas”. Acredito que, para eles, o torcedor bom é o torcedor tipo classe média amestrada, aquele que poderá assistir aos jogos da Copa, porque ao povo – que tem o mau hábito de revelar-se perigoso - foi vedado esse luxo. 

   O que estão fazendo os jogadores da seleção de futebol, neste exato momento, em suas suntuosas acomodações? Jogarão ping-pong ou estarão a debater os problemas brasileiros, como a fome, a miséria, a educação, a saúde? Talvez pratiquem Tai-Chi-Chuang, joguem xadrez, escrevam teses sobre as pernas tortas de Garrincha ou os antigos amores da Xuxa com o Pelé... Estarão preocupados com as manifestações populares? 

  Afinal, eles não se consideram povo. Ganham milhões. São milionários, e povo, para eles, é aquela massa muito pobre que protesta porque é muito pobre em relação ao que ganham os heróicos jogadores de futebol. 

   Sabem que vencerão a Copa do Mundo e devem estar pensando nos prêmios prometidos. É impossível que não saibam que a Copa é nossa, é deles, é do Governo que investiu bilhões, a fundo perdido, para ganhar esse torneio de futebol. Os demais países participantes provavelmente já foram avisados. Em 1950 deixaram de comunicar ao time do Uruguai que a Copa deveria ser ganha pelo Brasil e foi aquele desastre. Aproveitaram para culpar o goleiro brasileiro. Era um negro, e foi muito tempo depois que inventaram o sistema de cotas, para justificar a escravidão. Nesse meio tempo surgiu Pelé, o rei do futebol, um negro com alma branca, segundo dizem. 

   Os mulatos, brancos e negros jogadores da seleção brasileira de futebol sentiram-se constrangidos quando mais de 300 pessoas - a maioria formada por professores da rede pública fluminense, com o apoio de despejados da favela da Telerj - protestaram contra a discriminatória Copa no aeroporto do Galeão? Dificilmente. Estavam muito preocupados em fazer caras e bocas para os entusiasmados fotógrafos. 

   Foi necessário o apoio da tropa de choque para tentar dispersar o grupo de manifestantes que gritavam “Pode acreditar, educador vale mais do que Neymar!”. É uma grande verdade, mas será que os talentosos jogadores reconhecem essa verdade? A imprensa bem comportada diz que houve somente um empurra-empurra, sem o uso de gás lacrimogêneo, gás de pimenta ou balas de borracha. Essas armas, e outras, estão sendo preservadas para uso intensivo contra as grandes manifestações durante a Copa do Mundo. 

    Mas os iluminados jogadores da seleção de futebol, gênios entre os gênios, fabulosos artistas... da bola, por um só momento reconhecerão que o privilégio que desfrutam na Copa onde brilharão como endeusadas estrelas representa um altíssimo custo para um país governado por pessoas que relevam a educação e a saúde para o último lugar na sua pauta de compromissos sociais? 

   Quem sabe eles nem sabem sobre isso, não querem saber. O grande negócio deles é bola, bolinha, bolão. Bolada.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

FESTIVAL DE HIPOCRISIA NA UCRÂNIA





Enquanto a Rússia retira o seu exército da fronteira com a Ucrânia, há claros sinais de que o exército ucraniano – em grande parte formado por mercenários estadunidenses – esteja preparando um ataque conjunto do que resta das suas Forças Armadas contra as regiões de Donetsk e de Lugansk. 

   Às vésperas das eleições presidenciais na Ucrânia, o mundo finge que nada está acontecendo e se houver um banho de sangue promovido por Estados Unidos, União Européia e pela omissão da Rússia as grandes agências de notícias dirão apenas que “rebeldes” ou “terroristas” foram mortos, passando para as mentes subdesenvolvidas que assassinatos em massa de pessoas com esses apelidos são permitidos. 

   Após o dia 25, quando novo presidente for eleito na Ucrânia – provavelmente o “rei do chocolate” Petro Poroshenko – todos os dirigentes dos países envolvidos no que foi denominado “uma grande crise” respirarão fundo e farão grandes acordos entre si, em nome dos povos dos respectivos países e saudarão a Ucrânia, que renasce das cinzas como nova prometida Fênix, e afirmarão com falsos sorrisos que tudo o que aconteceu até então não passou de um triste engano, ou de uma sucessão de enganos, mas agora sim a democracia das urnas faz-se vitoriosa e a vontade do povo será obedecida. 

   Um festival de hipocrisia que tentará remendar o fato de que houve um golpe de Estado na Ucrânia que gerou como conseqüência uma guerra civil; novas repúblicas foram proclamadas através de referendos e o povo que se rebelou contra o golpe sofreu e está sofrendo uma terrível repressão armada, em que blindados e força aérea são utilizados, casas são bombardeadas e civis assassinados. 

   Mas nada disso é importante para a ONU e seus mandatários, ou para a Rússia entrincheirada em si mesma. Os dois lados conquistaram o que desejavam: a Rússia anexou a Criméia e Estados Unidos e países vassalos conseguiram, por fim, cercar a Rússia com tropas da OTAN acantonadas nos países limítrofes e, inclusive, com uma frota no Mar Negro, e quem ousará atirar a primeira pedra? 

   Então, se é assim, vamos aos negócios, senhores! Vamos á diplomacia das promessas, sorrisos e vanglórias. Para o povo, a propaganda; para nós, que pertencemos ao clube dos donos do mundo, a divisão do saque. E os mortos? Os mortos que enterrem seus mortos, e estamos conversados. Aquele pessoal que luta no sudeste da Ucrânia, não serão eles comunistas? Má escolha em errada hora. Talvez possamos ajudá-los com algumas armas e uniformes para que detenham os fascistas até as eleições – pensa o neutralizado Putin. 

  A História conta que o fascismo espanhol foi auxiliado não só pelos alemães, mas, principalmente, pela omissão das forças aliadas durante a Segunda Guerra Mundial. Acreditavam no amigo Francisco Franco para grandes negócios logo após a guerra. E assim foi. Metade da Espanha morreu durante a guerra civil, mas o que importa? Em primeiro lugar os negócios. Agora é a vez da Ucrânia.
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