sábado, 7 de junho de 2014

A TIMIDEZ DA RÚSSIA





Acuada por sanções e ameaças, temerosa de sofrer novos bloqueios em suas aspirações comerciais, sentindo-se fraca ante as imposições da OTAN e dos Estados Unidos, alarmada pela possibilidade de uma guerra que destruiria seus planos presentes e futuros, quase em pânico por se sentir repudiada por seus parceiros europeus, desejosa de mais carinho, apoio, compreensão, amor da comunidade internacional, a Rússia recua em todas as frentes e, a continuar assim, pouco faltará para que entregue a Criméia novamente para a Ucrânia, com um tímido pedido de desculpas. 

   Enganaram-se os que pensavam que a Rússia poderia representar uma forte oposição ao império, que a pretende submissa. Confundiram a Rússia de hoje com a altiva União Soviética, que perdeu o garbo quando foi dividida e tornou-se a apequenada Rússia, mesmo que dona de um imenso território. Mas o Brasil também tem grande território e uma das tradições brasileiras é o servilismo dos seus governos – durante e após a ditadura militar – aos interesses dos Estados Unidos. Gigantes pela própria natureza às vezes obedecem a anões morais. Ou a outros gigantes mais bem armados. 

   Na véspera da posse de Petro Poroshenko como presidente da Ucrânia, Putin conversou com ele em Paris. Dizem que foi por somente quinze minutos, mas o significado do encontro, do aperto de mãos entre os dois presidentes é bem maior que as poucas palavras que terão trocado. Com esse encontro, o presidente da Rússia admitiu a legitimidade do novo governo ucraniano e, por conseguinte e subliminarmente, a legitimidade dos golpistas de Kiev, que depuseram o presidente Yanukovich – porque foram eles que organizaram e fizeram as novas eleições, que seriam consideradas ilegítimas pela Rússia, se esta perdurasse em afirmar que houve um golpe em Kiev. 

   Queixavam-se a OTAN e os Estados Unidos que armas e soldados estariam entrando pela fronteira russa com a Ucrânia para sustentar os insurgentes de Donetsk e Lugansk. No dia seguinte ao encontro com Poroshenko, Putin deu ordens para que o serviço secreto russo (FSB) tomasse a si a responsabilidade de evitar que tal continuasse a acontecer.  

   De um momento para o outro, a Rússia tornou-se não exatamente inimiga, mas adversária do movimento separatista da Ucrânia. Inclusive, a oficial e multimídia “Voz da Rússia” mudou o tom. A notícia de que alguns soldados ucranianos foram feridos na fronteira foi comunicada de maneira lacônica, e que esses fatos teriam sido causados por “indivíduos desconhecidos”. 

   Há mais de duas semanas que se percebe nos jornais russos a tendência a esquecer o que está acontecendo no país vizinho. Já não se fala mais em guerra civil, minimiza-se a força política dos federalistas em armas do sudeste da Ucrânia e enfatiza-se o desejo pela paz, mesmo que seja uma paz à custa de centenas de mortos civis massacrados por mercenários e pelas Forças Armadas ucranianas. Moscou quer vender seu gás que passa pelos gasodutos ucranianos em direção à Europa. O governo russo quer voltar a ter boas relações com os países europeus e, talvez, quem sabe, até com os Estados Unidos. 

   Entre países capitalistas, a guerra faz muito mal aos negócios. Ao contrário do que muitos pensam, a indústria bélica não necessita de grandes guerras para fabricar e vender as suas armas. Bastam algumas tensões regionais aqui e ali, combates, palavras de ordem, promessas guerreiras, pequenos e grandes assassinatos para que armas e munições sejam vendidas à profusão. Em seguida, promovem-se eleições e a grande massa acéfala passa a acreditar que tudo mudou. 

   Não é curioso que justamente o serviço secreto russo esteja encarregado de evitar a entrada de homens e armas para os revolucionários ucranianos? Essa missão caberia aos guardas de fronteira e, até, ao exército. No entanto, Putin não quer mais o seu exército na fronteira com a Ucrânia. Não apenas pelo medo de provocar uma guerra; provavelmente teme que seus aguerridos generais tomem impulso e ultrapassem a fronteira.  

   Putin está cheio de temores. No início de maio - acatando ordens dos Estados Unidos e da OTAN - anunciou que o exército estava se retirando da fronteira. O exército russo nem se mexeu. Satélites ocidentais constataram o fato e comunicaram ao presidente russo. Putin reiterou as ordens de retirada. Nada. A situação agravava-se no sudeste ucraniano. Em Odessa houve o primeiro grande massacre da guerra civil: civis foram encurralados em um edifício e queimados vivos. Putin lamentou e enviou condolências para os parentes dos mortos. 

   A imprensa russa esbravejou; a ocidental somente constatou o fato: os fatos, às vezes, são veiculados por aqui, de maneira distorcida, mas veiculados. Naquele momento, especulava-se que, finalmente, a Rússia iria defender o povo do sudeste da Ucrânia. A “Gazeta Russa” escrevia, em 06/05/2014, em matéria intitulada “Kremlin pode revidar operação anti-terrorista na Ucrânia”: “Especialistas russos acreditam que o governo russo não deve ficar inerte frente aos últimos acontecimentos em Odessa e no sudeste da Ucrânia (...)”. 

   O Kremlin preferiu a inércia. Dizem que o medo paralisa. Mas os revolucionários ucranianos acreditaram que a Rússia estava do seu lado e até uniram forças entre as duas repúblicas auto-proclamadas de Lugansk e Donetsk, formando a “Nova Rússia”. Talvez tenham errado o nome. A OTAN e os Estados Unidos insistiam sobre a retirada das tropas russas da fronteira ucraniana e Putin não tinha mãos para tantos telefonemas para os líderes europeus. Dava explicações, pedia desculpas pela demora. 

   O que estava acontecendo? Por que o exército não obedecia à ordem de retirada das fronteiras? Não é impossível nem improvável que alguns dignos generais russos concluíssem que o mais honrado seria partir para a luta. O Ministro da Defesa, Sergei Shoigu, antes de ser um guerreiro é um grande vendedor de armamentos. Prefere a paz que favorece os negócios, e talvez tenha sido ele quem influenciou Putin a tomar a decisão derrotista, mas, provavelmente, o Chefe do Estado-Maior, Valery Gerasimov, um dos penalizados pelas sanções ocidentais, pense de maneira diferente. Há quem especule que próprio Vice-Presidente Dmitri Medvedev não estaria muito feliz com o súbito recuo nada estratégico. E aqui também há uma surda luta pelo poder. Shoigu aspira ser o sucessor de Putin e, para isso, precisaria do apoio da mídia ocidental; Medvedev, que já foi Presidente, também deseja o mesmo cargo. 

   Finalmente, às vésperas das eleições na Ucrânia o grupo de Putin venceu e a Rússia retirou o seu exército da fronteira com a Ucrânia. Recuou. E continua recuando. Os mais pessimistas acreditam que recuará até entregar a Criméia e pedir para fazer parte da OTAN, o que acabaria com todos os litígios. O governo russo é como o do Brasil: sobrevive através da propaganda. E essa propaganda fez com que os índices de popularidade de Vladimir Putin alcançassem mais de 80%, depois da reintegração da Criméia. Fizeram dele uma espécie de herói. No entanto, observando bem, Putin lembra mais o Gorbachev que destruiu a União Soviética do que o Lênin que a construiu. É mais um político, e os políticos costumam ceder, quando lhes é conveniente. 

   Enquanto isto, o iludido povo do sudeste da Ucrânia continua a ser massacrado. Agora com o apoio tácito da Rússia.

2 comentários:

  1. obviamente Putin não lembra Gorbachev, Putin trabalha com uma situação bem complicada, elegendo entre o relativo "bem estar" de 140 milhões de um lado e a posição oportunista de 10 milhões dos pro-russos no Sudeste. O Sudeste não dá motivos para o apoio do exército russo: não vemos manifestações contra o novo governo golpista, contra as massacres praticadas cada dia pelo exército ucraniano, vigilado pelos radicais neonazistas, formados na Guardia Nacional. Por que o povo esta calado? Por que o povo não vem para as milicias? Se a Rússia introduz as tropas agora, isso será uma intervenção!

    Mas eu estou de acordo que a perda da Ucrânia é uma das consecuências da política alienada e relaxada dos últimos anos.

    A gente do Sudeste não tem muita pressa para se incorporar à Rússia, porque os melhores de ahí ja estão na Rússia e os demais não esperam muito da Rússia, porque a Rússia ja não é aquela URSS, pela qual a gente de muitos lugares do planeta estava pronta de sacrificar suas vidas.

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