quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

JE NE SUIS PAS CHARLIE




A mídia do sistema afirma que o jornal “Charlie Hebdo” faz críticas de tudo e de todos – o que é, no mínimo, uma inverdade. O “Charlie Hebdo” especializou-se em sátiras infamantes contra o Cristianismo e contra o Islamismo, e uma ou outra crítica ao governo francês ou em relação a temas menores, para disfarçar. Criado em 1960, com o objetivo de atacar o crescente nacionalismo francês do pós-guerra, representado pelo presidente Charles de Gaulle que buscava livrar-se das influências norte-americana e britânica, o jornal, que então se chamava “L’hebdo Hara-Kiri”, foi fechado por ordem do então presidente Georges Pompidou, após uma publicação que ridicularizava a morte de De Gaulle em 1970. 

  Renasceu com o nome “Charlie Hebdo” (Hebdomadário = semanal), derivado de uma revista de histórias em quadrinhos, chamada Charlie Mensuel, (Mensuel = mensal) e “Charlie” também serviu como piada interna sobre Charles de Gaulle. Não tem nada a ver com a personagem Charlie Brown, criada pelo desenhista Charles Schulz, como alguns querem dar a entender. Também tem muito pouco a ver com O Pasquim, que foi um jornal satírico sem ser apelativo ou ofensivo. 

   O “Charlie Hebdo” notabilizou-se como um jornal que ataca o Cristianismo e o Islamismo. É claramente xenófobo, racista e, naturalmente, fascista. A xenofobia e o racismo são características do fascismo. A insolência também.  

   O projeto de globalização promovido por aqueles que desejam impor uma nova ordem mundial exclui as grandes religiões. Em matéria datada de 23 de junho de 2011 (“A licenciosidade como meio, o neo-paganismo como meta” - http://fausto-diogenes.blogspot.com.br/2011/06/licenciosidade-como-meio-o-neopaganismo.htm) escrevo a respeito do plano, ou agenda global, que tem como objetivo manipular emocionalmente as pessoas, logo após a extinção das duas grandes religiões: o Cristianismo e o Islamismo. A seguir, um pequeno trecho. 

   “(...) há todo um plano do atual sistema para impor aos povos um governo mundial. E esse plano inclui a destruição das grandes religiões – Cristianismo e Islamismo.
   “O Islamismo está sendo derrotado aos poucos, através de guerras, da mídia e da cooptação de supostos líderes árabes. A guerra da internet ou Guerra do Facebook, que tem jogado multidões iradas e provavelmente drogadas contra as armas dos seus governos – suicidas sem causa – para provocar uma intervenção da ONU, como aconteceu na Líbia e provavelmente venha a acontecer na Síria, tem sido a grande estratégia do imperialismo para derrotar líderes islâmicos, desacreditar aquela religião e confundir as massas. (...)”

   Não só através do Facebook ou de outras redes sociais. O episódio do atentado ao “Charlie Hebdo” é muito parecido ao 11 de setembro de 2001 devido à programada repercussão, com uma passeata gigante justamente no dia 11 de janeiro. Na matéria “O lado oculto dos atentados de 11 de setembro de 2001” (http://fausto-diogenes.blogspot.com.br/2010/09/o-lado-oculto-dos-atentados-de-11-de.html) revelo a importância do número 11 para determinadas organizações secretas.

   “(...) No Tarô, a carta-arcano 11 tem o nome de A FORÇA. Na Numerologia, a vibração 11 é considerada um número-mestre, que significa evidência, força, intuição.

  “Para algumas ordens iniciáticas de cunho luciferiano, o número 11, uma oitava acima do número 2, simboliza a ação sobre a natureza, que pode ser manipulada pelo ser humano “superior”; as duas faces de uma mesma moeda; o equilíbrio entre Bem e Mal. E, portanto, a negação de Bem e de Mal: a liberdade para agir e a total ausência de valores. A impiedade.

    “Não só o número 11, como também os números 2, 20 e 29. Quando ocorre algo importante em um desses dias é como se fosse um sinal, um código, para que os demais irmãos saibam que é obra do mesmo grupo e que as “verdades” enunciadas após o ocorrido, as explicações oficiais sobre o fato, devem ser aceitas e corroboradas.

   “Alguns detalhes interessantes:

• “911 é o número para emergências nos Estados Unidos.

• “Os atentados de 11 de setembro ocorreram exatamente 11 anos após George Bush (pai) declarar guerra ao Iraque, em 11 de setembro de 1990.

• “O dia da independência dos Estados Unidos é 4 de julho. Ou seja: 4+7 = 11.

• “O primeiro avião que bateu nas Torres Gêmeas era o vôo AA (American Airlines)-11 e o segundo levava a bordo 65 pessoas (6+5 = 11).

• “A partir de 11 de setembro faltavam 111 dias para terminar o ano.

• “Cada uma das Torres Gêmeas tinha 110 pisos e, se fossem contempladas de longe, pareciam dois números 1 juntos...

• “No primeiro aniversário do 11 de setembro, os números que ganharam a loteria de Nova Iorque foram 9-1-1.

• “O atentado de Madri ocorreu em 11 de março de 2004. O ataque ocorreu três anos depois, ou 911 dias depois.

• “O golpe que matou o socialista Salvador Allende, derrubando o seu governo e colocando no poder o general Augusto Pinochet ocorreu em 11 de setembro de 1973.

   “Pergunte a si mesmo(a) se tudo é mera coincidência.”


         A França é um país racista. Em 2010, mais de 8000 ciganos foram expulsos daquele país durante o governo de Nicolas Sarkozy. Não sei de nenhuma passeata de protesto contra esse péssimo exemplo de segregacionismo e mentalidade medieval. Eram ciganos, e os franceses achavam-se superiores aos ciganos. A expressão usada pela imprensa, na época, foi “repatriação”. Os ciganos que moravam na França foram obrigatoriamente “repatriados” para Romênia, Bulgária e outros países. O Papa Bento XVI, em 22 de agosto de 2010 condenou a expulsão dos ciganos: “Os textos litúrgicos de hoje reafirmam-nos que todos os homens são chamados à saudação. É também um convite a saber acolher a diversidade humana, tal como Jesus representou os homens de todas as nações em todas as línguas”. A campanha difamatória contra a Igreja (incluindo o “Charlie Hebdo”) já estava em andamento, mas um fato interessante aconteceu na França, em agosto de 2012, alguns meses antes de Bento XVI renunciar. Uma simples oração no santuário de Lourdes, que fazia referência à família formada por um pai e uma mãe foi objeto de ataques da imprensa francesa, que classificou a Igreja de “intolerante”.
  
    Islamismo e Cristianismo são os alvos. Ninguém dentro do “Charlie Hebdo” pode fazer uma pequena crítica contra os judeus, ou será imediatamente demitido por “anti-semitismo”. Quando, em 2008, o caricaturista “Siné” (pseudônimo de Maurice Sinet), então com 79 anos, escreveu um comentário satírico no “Charlie Hebdo” sobre Jean Sarkozy, filho do então presidente Nicolas Sarkozy, foi acusado imediatamente pelo jornalista do “Le Nouvel Observateur”, Claude Askolovitch, de “anti-semitismo”.

     No seu texto, Siné escreveu: “Jean Sarkozy, digno filho de seu pai e já conselheiro geral do (partido) UMP saiu quase sob aplausos de seu processo por fuga em uma lambreta. A Justiça o declarou inocente! Diga-se de passagem que o acusador é árabe. E não é tudo: ele declarou que vai se converter ao Judaísmo antes de casar-se com sua noiva, judia, e herdeira dos fundadores de Darty. Vai longe, esse menino!”.
  
   Siné foi demitido do “Charlie Hebdo”. Rejeitou qualquer pedido de desculpas, dizendo que preferia cortar os próprios testículos. O diretor do jornal, Philippe Vall, acabou por despedir o cartunista, sob pressão do Congresso Judaico da Europa. O caso Siné gerou muitas críticas a Vall, que se diz grande defensor da liberdade de expressão - desde que essa “liberdade” não atinja os judeus. Siné, hoje com 86 anos, recorreu aos tribunais e, em 2010, o “Charlie Hebdo” foi obrigado a pagar uma indenização de 90 mil euros.

     É muito esclarecedor o uso que a direita mundial está fazendo do atentado ao “Charlie Hebdo”. Conhecidos fascistas que se fazem passar por democratas - entre eles o genocida Benjamin Netanyahu, primeiro ministro de Israel - participaram da passeata em Paris, no dia 11, clamando pela liberdade de expressão. O “Charlie Hebdo” está sendo transformado em símbolo de uma liberdade de expressão que admite o insulto, a afronta, o desacato, a injúria, o vitupério, o abuso, a infâmia – todos os tipos de ofensas imagináveis. Desde que sejam contra o Cristianismo e o Islamismo.

    E uma parte do povo francês - aqueles que não possuem senso crítico e se deixam moldar enquanto massa - acredita que dizer “Je Suis Charlie” (“Eu sou Charlie”) é o mesmo que lutar por uma liberdade de expressão com base na gratuita ofensa contra as religiões. Os franceses que já não gostam de qualquer tipo de estrangeiro, principalmente se não pertencer à Europa branca e dominadora, agora estão sendo induzidos a detestar as religiões. Em troca, lhes é acenado o direito ao insulto e à ofensa e a total ausência de ética e de moral. Não compreendem ou não querem compreender que esse tipo de atitude constitui uma afronta á mais antiga forma de liberdade de expressão, que é a liberdade de expressão religiosa.

    Alguns que se imaginam mais cultos e eruditos chegam a citar a famosa frase "I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it" ("Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de o continuar dizendo", em tradução livre) para justificar as ofensas contidas no “Charlie Hebdo”. Atribuída erradamente a Voltaire, a frase pertence à escritora Evelyn Hall, que também fez uma biografia de Voltaire e confessou que errou ao colocar a frase entre aspas, inadvertidamente na primeira pessoa.

     De qualquer maneira, a frase serve como exemplo de discussão democrática entre pessoas com idéias divergentes, onde se inclui um mínimo de educação e respeito ao próximo – estando pressuposta, nessa discussão, aquela outra frase: “O meu direito acaba quando começa o do meu vizinho”.  Jamais poderá ser atribuída como o direito à ofensa, calúnia ou difamação – conforme tem feito o “Charlie Hebdo”, sob pretexto de “liberdade de expressão”. O “Je Suis Charlie” traz subliminarmente a possibilidade do “direito” ao ultraje e à humilhação, confiando que os ultrajados e humilhados não terão como se defender, pois o seu poder político é mínimo. Trata-se, portanto, de provocação, com o claro intuito de gerar um revide violento que levará à criminalização do ofendido.

     É o que está acontecendo na França e em grande parte da Europa, que se pensa “civilizada”. Desde o atentado ao “Charlie Hebdo”, no dia 7, foram constatados mais de 80 casos de agressões contra muçulmanos, como ataques pessoais, tiros e insultos. Uma verdadeira explosão de islamofobia. A própria perseguição aos suspeitos do atentado resultou nas mortes dos perseguidos - óbvios crimes do Estado francês, que lembram “queima de arquivos” e levantam dúvidas a respeito dos verdadeiros autores do atentado, uma vez que o objetivo, que foi o de levantar os franceses e parte do mundo domada pela mídia, contra o Islã, foi alcançado.

    Mais que um protesto, o “Je Suis Charlie” está se transformando em uma senha que se espalha pela França, pelo restante da Europa e demais países vassalos do imperialismo, significando “Abaixo o Islã!” e, nas entrelinhas, “Abaixo a Igreja Católica!”. Não será de estranhar se os muçulmanos, assim como aconteceu com os ciganos, forem expulsos da França e de muitos outros países europeus. O “Je Suis Charlie” poderá se revelar como a senha do ódio e da intolerância em um mundo que, cada vez mais, é levado por indução e convencimento midiático a abdicar de todos os valores morais e éticos para dar lugar à globalização de um carnaval de mentiras e torpezas que visa domesticar as pessoas através do vazio das suas emoções. Com esse mundo e com essa senha eu não concordo, a exemplo de milhões que ainda resistem. Eu não sou Charlie. Je Ne Suis Pas Charlie.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

O ATENTADO AO CHARLIE HEBDO E A ISLAMOFOBIA



Ninguém em sã consciência pode aprovar o ataque ao jornal francês “Charlie Hebdo”, especializado em satirizar o Cristianismo e o Islamismo. Principalmente o Islamismo. No entanto, o ódio ao Islã, destilado continuamente pelo jornal, provocou a reação que hoje o mundo inteiro condena. O jornal sofria ameaças de muçulmanos desde 2006, quando publicou charges satíricas de Maomé, sob protestos do mundo islâmico ao perceber na publicação mais uma arma da Nova Ordem, que tem como um dos seus principais objetivos destruir as grandes religiões. Mais do que um jornal satírico, meramente “libertário”, o “Charlie Hebdo” coloca-se a serviço do sistema que o gerou ao apoiar as ações do novo iluminismo que invade países muçulmanos não só para roubar suas riquezas, mas para impor uma visão atéia e materialista do mundo.


    No ano 2000, o jornal publicou um artigo, assinado pelo então editor Phillipe Vall, que chamava os palestinos de “não-civilizados”. A matéria foi criticada até dentro da redação e, na época, a jornalista Monica Chollet protestou contra o texto e foi demitida. Em 2009, o jornal publicou em sua capa uma caricatura do profeta Maomé dizendo “É difícil ser amado por idiotas”. Muçulmanos do mundo inteiro reagiram e o jornal foi processado e, naturalmente, absolvido. Aquela edição rendeu muito para os donos do “Charlie Hebdo”, que venderam mais de trezentas mil cópias. Na época o presidente Jacques Chirac condenou a manchete, dizendo que poderia “inflamar paixões”, mas os presidentes da França que sucederam Chirac, Nicholas Sarkozy e François Hollande apoiaram o jornal em nome da “liberdade de expressão”. 


    Os novos cruzados do século 21, que invadiram Afeganistão, Iraque, Marrocos, Tunísia, Líbia, Egito e financiam um estranho Estado Islâmico para ajudá-los a invadir a Síria e o Irã, como primeiro passo para um ataque frontal à Rússia, mataram milhares de pessoas, destruíram sedes de redações de jornais e revistas nos países invadidos e a mídia oficial não apenas fingiu ignorar o que estava acontecendo como saudou os soldados da OTAN e dos Estados Unidos como heróis do mundo ocidental.  

    A mesma mídia hipócrita convoca passeatas em protesto contra a “liberdade de expressão” devido ao ataque ao “Charlie Hebdo”, jornal que sempre atacou a liberdade religiosa de expressão e atende aos anseios do sionismo internacional. Curiosamente, essa mesma imprensa rotula o “Charlie Hebdo” de jornal de extrema-esquerda, mesmo que ela faça o jogo da direita. Não seria necessária a reação dos fascistas líderes europeus para se ter uma idéia da linha editorial do jornal. No Brasil, a edição virtual da caolha revista Veja esbraveja porque aqui não foram realizados grandes protestos populares contra o atentado em Paris. Não é de hoje que a Veja se revela sionista e ataca despudoradamente a religião islâmica. 


    Em 2011, o “Charlie Hebdo” sofreu o primeiro atentado. Depois de publicar uma charge do profeta Maomé na capa e várias matérias criticando a Sharia (lei islâmica), durante a madrugada de 02/11/2011 um coquetel molotov foi atirado contra a sede do jornal, provocando um incêndio sem vítimas. Em 2012, o jornal voltou a publicar charges do profeta Maomé, inclusive com caricaturas do Profeta nu. Laurent Fabius, então ministro das Relações Exteriores da França, disse que a publicação estava “derramando óleo em fogo”. 

    Não adiantou. O jornal se esmerava em achincalhar não só com a religião muçulmana, como também com o Cristianismo, especialmente a Igreja Católica Romana. Contava com a proteção do Estado francês e de um povo declaradamente xenófobo. A França é um país imperialista. Grande parte da África foi invadida pelos franceses durante os séculos 19 e 20 e, em 2013 a França voltou a invadir o Mali, sob a velha desculpa de “combater o terrorismo”. Os “terroristas” seriam os muçulmanos do Mali. Em 1994, os franceses provocaram um genocídio em Ruanda, matando de 800 mil a um milhão de integrantes das etnias tutsi e hutu. Nada disso foi veiculado pela imprensa imperialista. Dizia-se que era uma guerra contra o terrorismo.


    A “Islamofobia” é uma expressão que foi cunhada a partir do ódio de determinadas pessoas ou grupos de pessoas contra o Islamismo. Nos Estados Unidos, Canadá, na maioria da Europa e notadamente na França esse ódio é gigantesco. Também no Brasil grupos de direita, especialmente na imprensa fascista, são claramente islamofóbicos, esmerando-se em atacar muçulmanos e defender países genocidas, como Estados Unidos e Israel. 

     O atentado ao “Charlie Hebdo” aconteceu nos dias em que foi publicada uma edição do jornal destacando o autor Michel Houllebecq, acusado de incitar a islamofobia ao lançar também na quarta-feira o romance “Soumission”. No cartum da capa, vestido de mago o romancista aparece fazendo previsões: “Em 2015 eu perdi meus dentes, em 2022 cumpri o Ramadã”. Uma das matérias desta última edição, assinada por Bernard Maris – uma das vítimas do atentado -, elogia o romance e o autor Houllebecq que imagina uma França dominada por muçulmanos em 2022, com a instituição da poligamia, mulheres sendo obrigadas a usar véus e todo tipo de estereótipos cultivados pelos sionistas para difamar muçulmanos. O romance também tem adversários, como o jornalista Nicolas Gary, criador da revista literária “ActuaLitté”, que afirmou que se sentiu “sujo” pelo romance que transmite “ódio e medo”. No mesmo dia houve o ataque ao “Charlie Hebdo”. 

   Mesmo que a suspeita Al-Qaeda (organização financiada pelos Estados Unidos para combater a União Soviética nos anos ’80) e o estranhíssimo “Estado Islâmico” tenham ficado muito felizes com o atentado em Paris, ao contrário do que acontece quando de atentados, até agora nenhuma organização muçulmana reivindicou a autoria do ataque. Os suspeitos apontados foram rapidamente perseguidos e mortos, mas nessas ocasiões sempre existem suspeitos e, geralmente, muçulmanos, que são mortos devido à mera suspeição. O Estado de Direito é uma formalidade que sempre cede ao relativismo. Observe-se que, pelas imagens divulgadas, o ataque ao jornal foi realizado como típica ação de comandos usando roupas camufladas e armas automáticas. Fica-se a pensar de que maneira, em um país super-vigiado como a França, pessoas podem conseguir roupas camufladas e treinar com fuzis AK-47. Outra curiosidade é o fato do cartunista Stéphanne Charbounier, o “Charb” – que também morreu no atentado – em sua última charge ter “previsto um atentado durante este mês. “Ainda sem atentados na França” – aparece escrito no alto da ilustração. Mais abaixo, alguém fantasiado de terrorista diz: “Esperem! “Temos até o fim de janeiro para fazer nossos votos”. 


    O atentado ao “Charlie Hebdo” veio a propósito para açular ainda mais os grupos xenófobos e racistas contra as minorias negras e muçulmanas que são severamente discriminadas na França e na maioria da Europa. Desde quarta-feira, vários centros muçulmanos foram alvos de ataque. Na madrugada de quinta-feira, uma granada explodiu em um edifício em Le Mans, onde fica uma mesquita. Uma das paredes da mesquita também foi perfurada por uma bala. Em Port La Nouvelle uma sala usada por muçulmanos para rezar foi alvo de disparos de balas de chumbo na noite de quarta-feira. No começo da manhã de quinta-feira, em Villefranche sur Saône um restaurante próximo à mesquita da cidade sofreu um atentado a bomba. 

     Neonazistas do mundo inteiro estão muito felizes com o atentado ao “Charlie Hebdo”. A página de Marine Le Pen, líder do partido Frente Nacional aumentou quase 300% as visitas em apenas 24 horas. Le Pen defende a expulsão das minorias étnicas e a volta da pena de morte na França. Não é impossível que o apelo emocional promovido pela mídia do sistema mobilize multidões no mundo inteiro a favor de novas guerras contra países muçulmanos, como o Irã. Os Estados Unidos, que estão transferindo os armamentos que estavam no Afeganistão para a Ucrânia, onde pretendem abrir nova frente de batalha contra a Rússia, depois das derrotas no Afeganistão e no Iraque provavelmente se sintam entusiasmados para invadir de vez a Síria. 

    Anuncia-se agora uma nova edição do “Charlie Hebdo” que venderá mais de um milhão de exemplares. Os donos do jornal, que faturam com o sangue de seus jornalistas e cartunistas assassinados, devem estar muito felizes. 

     Uma pena que cartunistas reconhecidos, pessoas talentosas que poderiam ter dedicado as suas vidas a ações construtivas se tenham deixado envolver pelo sistema a ponto de morrerem por uma causa injusta e ignóbil – qual seja a discriminação racial e religiosa. O atentado ao “Charlie Hebdo”, tenha ou não sido praticado por muçulmanos furiosos, ou, como no caso das Torres Gêmeas, revele-se como uma fraude para incitar o ódio a uma raça e a uma religião, trará inevitáveis conseqüências conflituosas, somente favorecendo aqueles que se utilizam das armas para formar um império mundial onde as religiões não terão vez, crentes serão chamados de fanáticos e onde a busca espiritual será considerada um crime contra a deusa Ciência, casada com o deus Mercado.

domingo, 4 de janeiro de 2015

A QUADRILHA E O ASSASSINATO DE CELSO DANIEL




Os brasileiros mais atentos estão “estarrecidos” (como diria a Dilma) com a recente anulação do processo sobre a morte do ex-prefeito de Santo André, Celso Daniel, assassinado em 2002. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal acolheu um pedido para anular o processo, com base em divergências entre o Ministério Público, que apontava motivação política, e a polícia civil, que afirmou que foi um crime comum. Embora essa decisão do STF não extinga outra ação penal que está respondendo Sérgio Sombra (o único beneficiado com a decisão, por enquanto), todos os procedimentos realizados durante o curso da ação, desde 2003, ficaram anulados, incluindo depoimentos de testemunhas, perícias, interrogatórios e sustentações orais dos advogados e promotores.

   A ação contra Sombra deverá ser refeita desde a fase dos interrogatórios, em 2003. Não é a primeira vez que isso acontece no caso do assassinato de Celso Daniel, onde o Partido dos Trabalhadores é suspeito de ser o mandante do crime, que teria sido urdido por Sérgio Sombra a pedido de líderes partidários.

   O assassinato de Celso Daniel ocorreu em janeiro de 2002. Celso Daniel e seu assessor e segurança Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, jantaram em um restaurante de São Paulo, na noite de 18/01/2002. Na volta para Santo André foram seguidos por três carros, a partir da Vila das Mercês, zona sul de São Paulo, um caminho não usual para se chegar a Santo André. O carro onde estava o prefeito era dirigido por Sombra e, mesmo sendo blindado, parou depois de ser alvejado. Celso Daniel foi obrigado a entrar em outro carro, enquanto Sombra era deixado em liberdade, armado e com telefone celular. No dia 20, o corpo do prefeito foi encontrado em uma estrada de Juquitiba, alvejado com onze tiros (outras versões afirmam que foram 13 tiros) e marcas de tortura. 

   Afirma o Ministério Público que Celso Daniel descobrira um esquema de corrupção na Prefeitura de Santo André para financiar campanhas do PT, envolvendo empresários do setor de transporte e integrantes do governo municipal. Os políticos favoreceriam determinadas empresas em troca de propinas mensais. O dinheiro iria para uma “Caixa 2” do PT. Celso Daniel estaria disposto a revelar um dossiê (que teria desaparecido após o assassinato) contendo todo o esquema de corrupção, incluindo nomes dos políticos envolvidos. Por esta razão, membros do PT teriam ordenado a morte do prefeito, e o seqüestro seria uma desculpa para caracterizar crime comum. As torturas que precederam o assassinato de Celso Daniel provavelmente tinham como objetivo descobrir onde o ex-prefeito guardara o dossiê. 

   Após a morte de Celso Daniel, sete testemunhas foram assassinadas, incluindo o agente funerário e o legista que atestou marcas de tortura no cadáver. Em agosto de 2010, a promotora Eliana Vendramini, responsável pela denúncia que apura o assassinato de Celso Daniel, teve o seu carro atingido repetidas vezes por outro automóvel, fazendo com que capotasse três vezes. Salva pelo air-bag e pela blindagem do carro, a promotora sofreu leves escoriações. 

    O site “247” (http://www.brasil247.com), em 18 de janeiro de 2012 publicou matéria de Claudio Julio Tognolli, onde o ex-juiz João Carlos da Rocha Mattos é entrevistado sobre o caso Celso Daniel. Rocha Mattos, com 62 anos de idade na época da entrevista, em 2011, até então tinha sido o único réu preso no caso do assassinato do ex-prefeito de Santo André. A razão, segundo ele: estava de posse de fitas comprometedoras, que a Polícia Federal teria editado e apagado. Na entrevista (http://www.brasil247.com/pt/247/poder/1216/Exclusivo-Rocha-Matttos-reabre-caso-Celso-Daniel.htm) Rocha Mattos afirma que a Polícia Federal não é independente do governo, mas sim “uma polícia do governo, ela é comandada pelo Presidente da República e pelo Ministro da Justiça”. As “fitas comprometedoras” sobre o caso Celso Daniel, que foram apagadas e editadas, segundo Rocha Mattos, pela Polícia Federal, podem ser ouvidas no site “247”, enquanto não forem censuradas ou “hackeadas”, neste endereço: http://www.brasil247.com/pt/247/poder/36280/Vozes-do-além-as-fitas-do-caso-Celso-Daniel 

   Nas gravações aparece o nome de Gilberto Carvalho, que exercia cargo de Secretario de Governo na prefeitura de Santo André, na época do assassinato. Segundo a deputada Mara Gabrilli, ele era conhecido como “o homem do carro preto”, aquele que fazia a coleta das propinas para o PT junto aos empresários. Gilberto Carvalho é considerado um dos homens mais poderosos do Brasil. Foi Chefe de Gabinete de Lula e Secretario Geral da Presidência, durante o primeiro mandato de Dilma. Sabe tudo o que acontece dentro do PT e do Governo. 

   Recentemente deixou de ser ministro, talvez para poupar a imagem da Presidente ou para se auto-preservar de possíveis lembranças quando do caso Celso Daniel. Ao entregar o ministério para seu sucessor, Miguel Rosseto, Gilberto Carvalho repetiu a frase: “Não somos ladrões!” Acrescentou: “A quem diz que perdeu as eleições para uma quadrilha, quero responder que é essa a nossa quadrilha. Para eles, pobre é quadrilha, essa é a quadrilha dos pobres, que foram injustamente vencidos na história, que foram o tempo todo marginalizados e agora estão sendo tratados minimamente com dignidade. Com muito orgulho quero dizer que pertenço a essa quadrilha e vamos continuar mudando o país”. 

   Provavelmente os pobres, que são mais de 6 milhões no Brasil, não sabem que estão sendo supostamente amparados, em sua pobreza que rende votos, por uma quadrilha, à qual Gilberto Carvalho confessou pertencer. A confissão de Gilberto Carvalho faz parte da desesperada manobra do PT, que tenta lançar as camadas mais pobres da população contra os seus adversários políticos que denunciam a escancarada roubalheira na Petrobras. Sem contar o Mensalão e outros escândalos que o partido governista tenta acobertar. 

     Um deles, talvez o mais sério porque implica em assassinatos, é o caso Celso Daniel. Outra versão a respeito é a de João Francisco Daniel, que afirma que Celso Daniel sabia do esquema de corrupção que envolvia, inclusive, José Dirceu. Conta o irmão do ex-prefeito que algumas pessoas começaram a desviar para suas contas pessoais o dinheiro que já era desviado ilegalmente para o PT, e Celso Daniel descobriu e preparou um dossiê, que sumiu após o seu assassinato. Em 2012, Marcos Valério, operador do Mensalão, afirmou à Procuradoria que o ex-presidente Lula e o ex-ministro Gilberto Carvalho estavam sendo extorquidos por um criminoso envolvido no caso Celso Daniel. 

    O que mais chamou a atenção foi o fato de membros do PT, como Gilberto Carvalho e José Dirceu, em todos os momentos defenderem a tese do crime comum. Não se preocuparam em examinar outras hipóteses e contaram com o apoio da Polícia Civil de São Paulo - na época sob governo do PSDB - que defendeu a mesma tese. Não seria a primeira vez que PT e PSDB trocariam favores. Os dois partidos que hoje se anunciam opositores, na verdade são complementares e tem grande interesse em transformar o prisma político-partidário brasileiro em somente duas únicas vertentes políticas (a exemplo dos Estados Unidos, com Conservadores e Democratas) que se revezariam no poder, eternizando o mesmo projeto capitalista. 

     Tanto é assim, que Lula (e, posteriormente, Dilma) deu continuidade à política aliancista e entreguista de Fernando Henrique Cardoso, embora tenha aprofundado o discurso demagógico. É risível observar que petistas se desculpam dos roubos dizendo que o pessoal do PSDB também roubou - o que significa, apenas, que seguiram o exemplo, roubando muito mais “em nome dos pobres”. 

    Roubar e assassinar. O móvel do crime, de acordo com o Ministério Público seria o roubo descoberto por Celso Daniel, que se dispunha a tornar público em um famoso dossiê que sumiu. Quem também sumiu, com medo de ser assassinado, foi o engenheiro e professor de economia Bruno Daniel, o outro irmão de Celso Daniel. Depois de sofrer seguidas ameaças de morte, passou quase seis anos na França. Ele pertencia ao PT e não acreditava na hipótese de crime comum. 

    De acordo com Bruno Daniel e com o Ministério Público, Celso Daniel foi assassinado sob encomenda do PT, ou de alguns dos seus membros. Elementos pertencentes à organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) teriam sido contratados para efetuar o assassinato. Alguns deles já estão presos, e insistem que foi um crime comum; outros, que sabiam mais, foram assassinados. Sérgio Sombra, o provável mentor intelectual do crime, está solto. Estão soltos também aqueles que induziram Sérgio Sombra a organizar o assassinato. 

    O processo do assassinato de Celso Daniel foi anulado, a pedido do advogado de Sombra, sob a alegação de que a defesa não pode fazer questionamentos aos outros réus e que haveria um conflito entre a versão da Polícia Civil e a do Ministério Público. Dos sete réus do processo, seis já estão condenados, prevalecendo a tese do Ministério Público de que houve “crime de mando”. Os seis são bandidos comuns, que teriam sido contratados para matar Celso Daniel. Restava Sérgio Sombra, acusado de ser o mandante. Foi solto porque Marco Aurélio Mello e Dias Toffoli acolheram o pedido da defesa, enquanto Luís Barroso e Rosa Weber não admitiram o habeas corpus. O ministro Luís Fux, que foi indicado para a Corte com o apoio de Antonio Palloci e dos réus do Mensalão, omitiu-se de votar, permanecendo ausente da sessão. Com o empate, prevaleceu a defesa. 

   E prevaleceu a impunidade, novamente. A dependência subserviente do Judiciário e do Legislativo ao poder Executivo enseja a prática de crimes políticos, remete a Justiça ao banco dos réus da opinião pública e torna a palavra “político” sinônimo de criminoso. Todo o processo do assassinato de Celso Daniel terá de ser refeito a partir da fase de interrogatórios, e alguém duvida que a impunidade continuará a prevalecer? Vivemos em uma ditadura “branca” civil, que sucedeu dignamente a ditadura militar em prepotência, roubos e assassinatos. Quando Gilberto Carvalho disse “Não somos ladrões” deveria ter acrescentado “Não somos assassinos”. Seria mais coerente.
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