quinta-feira, 17 de abril de 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ




    Pensávamos: o mundo está doente, a desigualdade é imensa, os políticos se especializaram em mentiras e o povo da maioria dos países jaz hipnotizado em peregrinos labirintos – mas existe Gabriel García Márquez, nem tudo está perdido; em algum lugar uma feliz senhora agrada-se de um particular verão, há cheiro de goiaba apesar do veneno da madrugada exalado no enterro do diabo, que sempre finge que morre como é próprio dos demônios com olhos de cão azul, quem sabe existe o amor, mesmo dentro de sua anunciada morte em tempos de tanta cólera, Gabriel García Márquez deve estar ensinando a contar contos entre amigos, relembrando as suas putas pobres em textos do Caribe, vivendo para relatar naufrágios, noticiando seqüestros, reinventando a vida em sestas nas terças-feiras e, súbito, ficamos sabendo que deu adeus ao seu outono o patriarca da maravilha em literatura, esperava uma carta que nunca chegou, passou cem anos de solidão ao lado de Maria dos prazeres e de tantas outras marias, o mundo pode ser incrível e triste ao mesmo tempo e, ao final – que nunca é verdadeiro final – funerais como o de mamãe grande, quando sabemos que, na verdade, um senhor muito velho com asas enormes está em sua última viagem, que nunca será a última, em um navio fantasma que aportará no que resta de magia em nossos corações.

terça-feira, 15 de abril de 2014

UCRÂNIA E OS DONOS DA ONU




Há quem acredite – em acordo com o pseudo-jornalismo “ocidental” – que, como conseqüência das manifestações orquestradas pela CIA na praça Maidan, em Kiev, o presidente da Ucrânia teria sido derrubado através de um impeachment. É tanta a propaganda pró-Estados Unidos e países subservientes que qualquer explicação dada pela imprensa anexa a esses países é aceita como verdadeira por povos menos instruídos. 

   Por falar em povos desinformados, o instituto Survey Sampling International ouviu 2066 estadunidenses entre os dias 28 e 31 de março para saber qual deverá ser a atitude do governo dos Estados Unidos diante da crise na Europa Oriental. Como parte do estudo, os pesquisadores pediram aos entrevistados que apontassem a Ucrânia no mapa. Descobriu-se que 1 em cada 6 entrevistados sabe onde fica a Ucrânia. Colocaram a Ucrânia dentro dos Estados Unidos, na África e até na Groenlândia. Um povo completamente midiatizado, ou, se preferirem, idiotizado pelos meios de comunicação de massa. 

    Pois muitos entre eles (e entre nós e pelo mundo afora...) estão sendo induzidos a acreditar que o golpe de Estado na Ucrânia foi legal. Na verdade, o que houve foi um golpe de Estado armado, a partir das milícias fascistas, apoiadas em partidos como o Svoboda (nazista) e com o apoio direto dos Estados Unidos e da União Européia. Como, na Ucrânia, somente a Corte Constitucional podia deliberar sobre a possibilidade ou não de um impeachment (após audiências e investigações), cinco juízes daquela Corte foram destituídos, incluindo o juiz presidente, que tem imunidade constitucional. Em seguida, um grupo de pessoas se autodenominou “governo”, que foi aclamado imediatamente pelos Estados Unidos e seus comparsas. Como fizeram no Brasil, em 1964. 

    Para os Estados Unidos e seus cúmplices europeus, a Ucrânia é uma questão estratégica. É através da Ucrânia que passa todo o gás que vai da Rússia para a Europa, e a Ucrânia é a porta de entrada para a Rússia, um país que incomoda muito, porque é aliado do Irã e da Síria, defende outros países que os Estados Unidos tentam abocanhar e destruir e tem ótimas relações com a China, Vietnã, Cuba, Angola, Moçambique, Venezuela... embora a Rússia não seja um país comunista ou meramente socialista. É a Rússia um dos principais países do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que tem ponderado a possibilidade de uma nova ordem econômica mundial, com a exclusão do dólar como moeda de referência e com um fundo de ajuda semelhante ao FMI. 

   A Rússia representa um perigo real para as pretensões imperiais dos Estados Unidos e seus asseclas, que estavam planejando o seu estrangulamento através de um cerco sob medida no leste europeu, que culminaria com a tomada da Ucrânia por seus aliados fascistas e nazistas, dando entrada ao exército ocidental (OTAN) para cercar a frota russa do Mar Negro e estabelecer uma cabeça-de-ponte na Criméia, de onde poderiam ser lançados ataques sobre o território russo - caso a Rússia continuasse a teimar em se opor aos planos ocidentais. 

   Uma estratégia a médio e longo prazo, que também prevê o cerco da China através do oceano Pacífico, com base na aliança segura das colônias intituladas de países soberanos: Coréia do Sul e Japão. Além disso, os Estados Unidos cooptaram a Mongólia - que fica exatamente entre a Rússia e a China – e naquele país estão se fortalecendo, sem contar que a estratégia de derrubada do poder na China passa por uma futura sublevação no Tibete. 

    Enquanto isto, a Ucrânia. Quando a Alemanha nazista invadiu a União Soviética foi através da Ucrânia. Pararam em Leningrado (São Petersburgo), depois de uma batalha que durou meses e, quando recuaram, já estavam derrotados. A nova tentativa também é fascista, como fascistas são os governos ocidentais que se fingem de democratas para invadir países como Iraque, Afeganistão, Marrocos, Tunísia, Egito, Líbia, Síria... Uma invasão progressiva rumo à Rússia. Pararam, de momento, na Ucrânia, devido à reação de Moscou. E Moscou, ingenuamente, ainda acredita na ONU. 

    A ONU é aquela organização de alguns países muito unidos e bem armados (seguidos por muitos países obedientes), que têm como objetivo impor a sua visão de mundo aos demais países que não são tão servis, muitos deles mal armados, geralmente desunidos entre si e que, quando reagem, são devidamente invadidos e rapinados. O mundo é governado pela ONU, que age como uma grande deusa onipresente em quase todos os países. E a ONU é governada pelos Estados Unidos e Inglaterra. Alguns outros países poderiam também ser destacados como “donos” da ONU, como os integrantes do Grupo dos Sete, que, além dos Estados Unidos e Inglaterra, é constituído por Japão, Alemanha, França, Itália e Canadá. 

    O Japão, infelizmente, todos sabem que foi recriado pelos Estados Unidos após a 2ª Guerra Mundial, que nele instalou várias bases militares e trocou o antigo orgulho japonês por alta tecnologia. O Canadá é uma extensão dos Estados Unidos e da Inglaterra, com uma pitada da França. A França é uma incógnita. Os seus governantes, seja de que partido forem, seguem a política do império, mas o povo tenta se mostrar digno. O mesmo acontece com a Itália. O povo alemão ainda procura a sua identidade, após a catástrofe da 2ª Guerra Mundial. O seu governo é servo dos Estados Unidos e da Inglaterra. Os demais países europeus, principalmente aqueles que pertencem à União Européia, não são mais que protetorados da Inglaterra e dos Estados Unidos. 

     Então, a Ucrânia. Durante cerca de três meses, os Estados Unidos e União Européia tentaram uma “primavera colorida” na Ucrânia com o objetivo de derrubar o governo que não desejava uma aliança com a União Européia. Tentaram, nada conseguiram e deram um golpe de Estado impondo um governo ilegítimo. Um governo fantoche que, agora, com o implícito apoio da ONU (Estados Unidos, Inglaterra e amigos), ataca o seu próprio povo que se insurgiu não só contra o golpe, mas também contra a ameaça fascista, buscando o respaldo da Rússia, que reagiu ao retomar a Criméia através de um referendo e poderá auxiliar o povo do leste da Ucrânia que deseja maior autonomia e não reconhece a legitimidade do auto-proclamado governo de Kiev. 

   Sloviansk, Kramatorsk, Druzhkivka, Artemivsk, Horlivka, Yenakiyevo, Makyivska, Mariupol, Kharkiv, Donetsk – cidades do leste da Ucrânia, estão sendo atacadas por tanques, aviões, helicópteros e centenas de soldados, sob incentivo dos Estados Unidos, Inglaterra e sócios europeus, que apostam na reação da Rússia para que possam invadir a Ucrânia com as forças da OTAN já postadas nos países adjacentes, como Polônia, Romênia, Moldávia e Hungria. 

     A Ucrânia é o segundo maior país da Europa, atrás da Rússia européia, com uma extensão maior que Portugal e Espanha juntos, ou equivalente ao estado brasileiro de Minas Gerais. Possui grandes recursos minerais, que incluem ferro, manganês, carvão, gás natural e petróleo. Foi no norte da Ucrânia, em Chernobyl, que aconteceu o acidente nuclear de 1986, que matou centenas de pessoas. 

    Outras centenas de pessoas poderão ser mortas se eclodir uma guerra civil na Ucrânia, mas Estados Unidos, Inglaterra e OTAN não se importam com pessoas, e sim com riquezas.

domingo, 13 de abril de 2014

O GRÊMIO DE ENDERSON MOREIRA





 
Quando, em um futuro não muito distante, novos torcedores gremistas perguntarem como é que o Grêmio perdeu de goleada para o Internacional, no dia 13 de abril de 2014, com direito a olé, a resposta talvez seja uma só: ingenuidade. “Por quê?” – insistirão os novos torcedores. “Porque o técnico do Grêmio não sabia escalar o time” – será a única honesta resposta. Além disso, poderão dizer que o técnico do Grêmio também não sabia motivar a sua equipe, que era muito teimoso, lento de raciocínio e que talvez – somente talvez – admirava tanto o técnico do Internacional que preferia ficar assistindo o time adversário jogar. Outra explicação? O Inter tinha um grande jogador, chamado D’Alessandro, que ninguém sabia marcar, e o técnico gremista era tão burocrático em seus conceitos, com tanta falta de imaginação, que preferia o certo pelo duvidoso, e o certo nem sempre era certo, como ficou provado naquele Gre-Nal de triste memória, e a única desculpa encontrada foi o cansaço. A torcida ficou muito cansada com o time. Outras desculpas: o goleiro gremista não estava concentrado, chegou a levar um gol pelo meio das pernas; os zagueiros, principalmente aquele número cinco e aquele outro rapazinho que pensava que era lateral-esquerdo, estavam completamente perdidos, o meio-de-campo era um grande buraco e o ataque uma insensatez. Aquele Gre-Nal (e o anterior) foi o jogo em que um técnico ingênuo perdeu para um técnico esperto. Na época em que o Grêmio era o Grêmio de Enderson Moreira.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

IOGA PARA OBAMA




É tamanha a histeria dos Estados Unidos e de seus vassalos europeus depois da reintegração da Criméia à Rússia que, no dia 3 de abril, o vice-chanceler russo Sergei Ryabkov disse à agência Interfax que Obama e amigos deveriam praticar ioga. “O que se pode aconselhar aos nossos colegas norte-americanos? Passe mais tempo ao ar livre, pratique ioga, mantenha as dietas de combinação de alimentos, talvez assista a alguns programas de comédia na TV”. 

   Estados Unidos e países europeus impuseram sanções a funcionários e empresários próximos ao Kremlin, as quais, basicamente, são proibições de visitar a Europa dos Estados Unidos e o próprio território original norte-americano. Tais sanções, ao contrário do previsto, agora servem de motivo de orgulho aos “castigados”. Muitos dos que entraram na lista, zombaram das sanções, usando-as como uma espécie de distintivo de honra. 

   Os Estados Unidos e países subordinados da Europa continuaram com o que entenderam como pressões. Uma delas foi o bloqueio dos cartões Visa e Mastercard, o que nada afetou os clientes dos bancos russos. Imediatamente, os cartões de crédito norte-americanos foram substituídos por sistemas de pagamento que incluem o Union Card, o Zolotaia Korona (Coroa de Ouro), ou o PRO100, ligado ao Sberbank. Além disso, o sistema chinês Union Pay poderá ser utilizado. Quando tentaram bloquear os ativos da Rússia em contas européias e nos Estados Unidos, mais de 100 bilhões de dólares já haviam sido transferidos para a Bélgica. São títulos da dívida norte-americana e européia, papéis que, em caso de crise, se forem resgatados poderão levar as bolsas ocidentais a uma situação de quase quebra. 

   Europeus e, principalmente, norte-americanos, estão completamente neurotizados. No início do que denominaram “crise da Ucrânia”, a risível Hillary Clinton colocou um bigode em uma fotografia de Vladimir Putin, dando a entender que ele se parecia com Hitler. No entanto, a reação russa teve origem justamente no golpe de Estado que derrubou o governo da Ucrânia, concretizado por forças neonazistas e anti-semitas, apoiadas por União Européia e Estados Unidos. Inclusive, na sexta-feira, 4 de abril, o Programa Voz da Rússia conversou com o Cônsul Honorário de Israel no Rio de Janeiro, Osias Wurman, que ressaltou a amizade entre Vladimir Putin e o movimento hassídico Chabad, na Rússia. 

    Disse o rabino, referindo-se às manifestações anti-semitas na Ucrânia: “Várias sinagogas foram grafitadas, houve esfaqueamentos em Kiev, assaltos a judeus portando o solidéu, a kipá... O Rabin Berel Landau, que é um homem escolado e vivido, estava alertando a comunidade judaica da Ucrânia para que não se manifestasse contra o Presidente Putin, porque uma das razões que ele alegou para esse rompimento com o novo governo da Ucrânia, foram não só os movimentos e as manifestações anti-semitas, mas também o fato de que grande parte dos “revolucionários” ucranianos é composta pelo Partido Svoboda, que é um partido ultra-nacionalista, racista, de extrema-direita”. 

    Continuaram as “sanções”. Uma delas: os três restaurantes da rede McDonald’s na Criméia foram fechados. A ministra do desenvolvimento econômico da Criméia, Svetlana Verba, declarou: “Não há nada de horrível nisso. Eles serão substituídos por outros estabelecimentos”. Alguns dias depois, no dia 9, a rede de fast-food Burger King anunciou que está planejando abrir novos restaurantes na Rússia, incluindo a Criméia. 

   Furiosos, apelaram para a OTAN, o exército ocidental do império, composto por 26 países, mas, na prática, obediente aos Estados Unidos e Inglaterra, o famoso eixo do mal. A Rússia colocou cerca de quarenta mil efetivos na fronteira com a Ucrânia, sob o pretexto de exercícios. As principais cidades do leste e sudeste da Ucrânia se rebelaram contra o ilegítimo governo ucraniano e pedem a independência e o apoio da Rússia. A OTAN acusa a Rússia de favorecer esses movimentos e o Ministério das Relações Exteriores da Rússia responde que a OTAN está usando a crise na Ucrânia para justificar a sua existência. 

    Por seu lado, a Ucrânia, que possui um exército suspeito de não obedecer ao governo fantoche, contratou os mercenários da Greystone – uma organização paramilitar norte-americana – para tentar desalojar os insurgentes das cidades de Carcóvia, Luhansk e Donetsk. Até agora, nada conseguiram. Em Donetsk, principalmente, o povo está armado e esperando o ataque. 

    Os reacionários unidos do mundo inteiro estão desejosos de uma ação bélica contra a Rússia. É o que resta, as sanções não deram em nada e Estados Unidos e União Européia estão desmoralizados. Talvez a OTAN tente alguma coisa do gênero, mas é altamente improvável. Atacar a Rússia não é o mesmo que bombardear a indefesa Líbia, e eles sabem disso. 

    A Rússia expulsou a “Voz da América” do seu território, considerada como “spam” indesejável e pediu o pagamento de mais de 17 bilhões de dólares devidos pela Ucrânia pelo uso do gás russo, que é estocado no território ucraniano e depois enviado para a Europa. A propósito disso, o Kremlin enviou carta particular aos devedores europeus, anunciando que poderia cortar o gás, caso o pagamento não seja efetuado. A carta vazou para a imprensa, através do Departamento de Estado dos EUA, e Putin declarou: “A carta não foi destinada a eles, mas aos consumidores de gás na Europa. Todos já estão acostumados ao fato de que nossos amigos americanos fazem escutas, mas espionar é ainda mais feio”. 

     Mas que vergonha, Obama, que falta de educação! Obama, vai praticar ioga! Calma, Obama, calma...
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