sábado, 18 de agosto de 2012

O PREFEITO VITALÍCIO E O DEBATE






- Como foi o debate? Como foi? Como foi? Como foi?

- Calma, companheiro secretário!

- Agora eu voltei a ser companheiro prefeito. Vitalício. E como foi o debate?

- Well, he and she...

- O que?

- É que eu continuo treinando o meu inglês para as próximas viagens.

- Inglês! Adoro inglês... Estados Unidos, Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, vacas leiteiras...

- Vacas leiteiras?

- Perdão, companheiro meu secretário, foi um lapso, um momento de invalidez do cérebro, talvez até uma ameaça de AVC – ou se diz ABC? Mas como foi o debate?

- Bem, os nossos dois candidatos se comportaram muito bem, apesar de algumas gafes numéricas do seu candidato preferido, aquele que vai derrubar o outro. O problema foi o terceiro.

- O terceiro? Então, há um terceiro?

- Há, companheiro secretário, ou companheiro prefeito vitalício. E é esse terceiro que ameaça o seu cargo de prefeito vitalício.

- Mas por que? Quem é esse ser ignaro? Infeliz dele se ganhar as eleições! Não sabe com quem está lidando... Como é esse terceiro?

- Pois é uma pessoa que vive discordando de tudo o que dizem os nossos dois candidatos. Tem mania de ser do contra. Diz que é da oposição.

- Oposição? Nestes tempos de união e paz fraternal? Será que esse terceiro é um pterodáctilo, um homem das cavernas, um dinossauro, alguém que não sabe o que é aliança política, vantagens pecuniárias, troca de favores? E ninguém fez nada a respeito?

- Durante o debate?

- Onde mais seria? Através de um contato com o garganta profunda, que diria “siga o dinheiro”?

- Dizem que o garganta profunda era do FBI...

- Não interessa o que dizem sobre aquele malfadado caso. Sejamos rápidos, lestos, prestos, objetivos – vamos direto ao assunto: o que foi feito em relação a esse terceiro, durante o debate?

- Bem, o seu não candidato, o atual prefeito...

- Não diga isso! Atual, atualíssimo, sou e sempre serei eu, o cara.

- Bem, então o outro...

- O que ele fez? O que ele disse? O que ele falou?

- Bem, o outro falou muito cordialmente com o terceiro. Foi bastante ético e educado; discordou de algumas coisas, concordou com outras...

- Ético! Educado! É por isso que ele é o outro e sempre será o outro! Perderá estas eleições e sumirá do palco político! O que você acha de “palco político”?

- Um pouco antigo... Porém, aliás, contudo, nas atuais circunstâncias até serve...

- E o meu candidato, o amado do meu coração, o amigo fiel, camarada, irmão de fé e confiança, paz, amor e caridade?

- Pois ele foi mais incisivo, mais persuasivo, mais sofístico, mais inclusivo, mais...

- Basta!, companheiro meu secretário, ou deixará de ser meu companheiro e secretário.

- É que eu também estou treinando o meu vocabulário em português.

- Para que?

- Para o Facebook. O senhor, companheiro secretário e prefeito vitalício, pediu que eu me comunicasse diariamente com amigos, inimigos, amadas, amantes, companheiros, aliciadores e aliciantes, dominadores e dominados; sérios, comportados, tristes, alegres, desiludidos e iludidos – toda a fauna, como o companheiro disse.

- Então, treine outra hora, treine em frente ao espelho, com um gravador, como eu faço. Contrate uma fonoaudióloga e, principalmente, uma psicóloga. Agora eu preciso saber o que disse o meu candidato preferido, amigo de todas as horas, que se deixará guiar pela minha experiente mão protetora, assim que for eleito... O que ele disse ao terceiro?

- Houve um determinado momento em que ele usou de uma sutileza perfeita, companheiro secretário e prefeito vitalício. Lembrava o senhor.

- Eu estou ensinando... O que ele disse?

- Disse para o terceiro que ele é um ótimo quadro e que poderá ser aproveitado na administração quando o nosso candidato vencer o outro e se adonar da prefeitura.

- Sutil... Sutil... Extremamente sutil... Ele está aprendendo... O meu único medo é que ele aprenda demais...

- O meu coração bateu forte quando ele disse aquilo, companheiro secretário prefeito vitalício.

- Não é para menos. O meu também está dando umas pancadas estranhas. Talvez eu tenha que consultar um médico. São tantas viagens!... Tantas vacas leiteiras a analisar!... E o que o terceiro respondeu? Negou-se a aceitar qualquer cargo na futura próxima administração do nosso candidato? Disse que era ético, como o outro?

- Não disse nada, companheiro secretário prefeito vitalício. Mudou de assunto ou o assunto mudou. Eu acho que ele não é ético, mas genérico.

- Os genéricos... Sempre trabalhei muito bem com os genéricos... Tenho penas dos éticos, dos puristas. Mas você, companheiro meu secretário, falou uma coisa que não me agradou.

- Jamais diria qualquer coisa que o desgostasse, companheiro secretário prefeito vitalício.

- Falou. Lembra-lo-ei. Agora se diz “lembra-lo-ei” ou “lembrarei-o”? Essas mudanças na língua... Esses raps... Esses discursos filosóficos na hora do cafezinho... Esses narradores de futebol... Falou e disse! Disse que o nosso amado irmão que assumirá a prefeitura de Três Estrelinhas, no ano que vem – graças à minha ajuda, apoio, influência, jornais, jornalistas, blogueiros, entusiasmados entusiastas muito bem pagos, marqueteiros caríssimos, maquiadores, especialistas em palavras doces e açucaradas, vendedores de sonhos e opiniões... Você, companheiro meu secretário, cometeu o delito de dizer que ele se adonará da prefeitura! Como ousou dizer tal coisa, companheiro meu secretário?

- Perdão, mil vezes ou milhares de vezes perdão!, companheiro secretário prefeito vitalíco. Foi um lapso, talvez uma ameaça do ABC, uma falha técnica, um erro grosseiro, um...

- Chega! Traga os milhos!

- Mas, companheiro!...

- Faça o que eu disse!... Isto!... Agora, ajoelhe-se e diga cem vezes: “O companheiro secretário prefeito vitalício é o único dono de Três Estrelinhas”. E não chore!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

MILAGRES




Carolina voltou! Depois de 25 dias de tristeza e sensação de vazio aqui em casa, quando Fidel, o nosso outro gato, adoeceu – provavelmente de saudades – e já tentávamos nos acostumar à ausência, mas sem aceitá-la, duas noites atrás ouvi um miado que mais parecia uma queixa. Fidel correu para a porta e eu corri para a sacada, de onde enxerguei Carolina. Chamei Lidia e, quando saímos já não vimos mais Carolina.

     Procurei por toda a quadra e voltei imaginando até a possibilidade de uma aparição, de uma ilusão de ótica, de uma vontade corporificada por breves instantes, porque, naquele momento em que ouvi o miado estranho eu estava pensando em Carolina. Continuei pensando: e se era ela? Não me contive e voltei à sacada. Eram quase cinco horas da manhã do inesquecível dia 14 de agosto. A rua estava calma, o tempo pesado, prenunciando chuva; na calçada somente outro gato conhecido, muito bonito, branquinho, que costuma brincar com Fidel quando dorme na soleira da nossa porta e Fidel desce as escadas, estende uma mãozinha por baixo da porta para cumprimentar o amigo e com ele troca miados cúmplices.

     Chamei Lidia até a sacada, sob o pretexto de ouvir os passarinhos que já se alvoroçavam nas árvores em frente, ver o gatinho amigo dormindo junto à nossa porta, conversarmos sobre a possibilidade... Talvez... Olhei para a esquina e vi um gato preto! Lidia saiu correndo; fui atrás com a lanterna. Era Carolina! Fugiu por instinto quando ouviu os nossos gritos e Lidia viu quando ela entrou por entre as grades de um porão. Chamamos, clamamos, e, aos poucos ela veio vindo, com um miado quase choroso. Quando se aproximou mais, consegui puxá-la através das grades do porão. Estava magra, desfigurada, mas viva.

     Ainda estamos em estado de graça.

     Depois de alguns dias do sumiço de Carolina, Fidel começou a chorar pelos cantos, a pedir colo a toda hora, a emagrecer até pegar um resfriado e necessitar de cuidados extras. Eu dizia a ele que Carolina estava viajando, mas que logo voltaria e, se não voltasse em seguida, chegaria o dia em que todos faríamos a mesma viagem e a encontraríamos em algum lugar do cosmos ou em uma dimensão somente intuída. Mas voltaríamos a ficar juntos. Fidel fingia acreditar, mas logo voltava à sua tristeza.

     Ao ver Carolina de volta, ele a cheirou, lambeu, deu aqueles beijinhos especiais, correu à volta, mas percebeu que Carolina ainda estava fraca para as brincadeiras que costumavam fazer. Ainda está fraca, dorme bastante e toma vitaminas. Junto com Fidel. Aos poucos ela vai se recuperar, assim como nós, que passamos aquele tempo todo como se fosse uma grande noite em que o mesmo pesadelo comum se repetia com nuances diferentes.

     Quanto ao seu desaparecimento, as dúvidas continuam. Ela estava fechada no escritório que dá para a nossa sacada. Ali ela pode ficar à vontade, de noite. No dia seguinte tinha sumido. Quando a encontramos, estava com as duas patinhas traseiras esfoladas no mesmo lugar. Cordas? Mordidas? Teria ficado presa em algum lugar distante? Logo após ela  sumir eu vasculhei toda a zona, todos os buracos, perguntei para toda a vizinhança. Nem miado. Onde estava? Aproximou-se na última semana, quando a encontramos naquele porão - arisca, faminta, machucada. 

     Agora, estou acreditando ainda mais em milagres. Poucos dias antes de Carolina voltar, as meninas do vôlei conseguiram vencer o time dos Estados Unidos em uma final apoteótica, nas Olimpíadas. Foi o primeiro claro sinal de que é possível reverter situações que parecem perdidas. Até no Brasil, por incrível que pareça!

     Tento acreditar na possibilidade de milagres, como a proibição das obras da maléfica usina hidrelétrica de Belo Monte, na prisão dos culpados pelo Mensalão – embora tudo indique o contrário. E até procuro imaginar o nosso país livre da cotidiana corrupção. Por momentos, penso na possibilidade dos candidatos desta próxima eleição, os que forem eleitos, realmente cumprirem as suas promessas de campanha.

     É um momento de euforia e, nesses momentos, a gente pensa e age com demasiado otimismo. É preciso ter um certo cuidado. Ontem mesmo a Dilma continuou a entregar o Brasil para o capital estrangeiro. Entregou rodovias e ferrovias que serão construídas e sofrerão pedágio. Talvez haja pedágio até dentro das grandes cidades. Prepare o seu bolso e lembre-se que a liberdade de ir e vir pode ser apenas uma alegre mentira. Uma mentira para épocas de eleições, como agora. Você já escolheu candidatos? Tome cuidado, porque os adversários de hoje serão os aliados de amanhã.

     Cuide daqueles que realmente amam você. Cuide do amor da sua vida, das suas plantas, dos seus bichinhos. Neste momento de bandeiras, foguetes, gritos, promessas, entrevistas, debates, palavras mansas e muitos sorrisos – desconfie. É o momento em que o Estado aparece como grande amigo dos cidadãos, através dos seus representantes, na maioria usando máscaras reptilianas. Lembre-se que o Estado somos nós, a grande maioria de quem é esmolado o voto, e não eles, os forjadores de emoções. Acautele-se.

     Mas continue acreditando: milagres podem acontecer. Afinal, Carolina voltou!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O JULGAMENTO DO MENSALÃO OU O CLUBE DOS PERFEITOS





O mensalão é "a instalação do PT na política de direita brasileira", diz o psicanalista Thales Ab'Sáber, da Unifesp. Estudioso dos comportamentos políticos do País, ele lamenta que, depois de denunciado o escândalo, o petismo se empenhe na "tentativa de produzir uma alucinação negativa de que ele não existiu". (Entrevista a “O Estado de São Paulo).

     Outro analista das questões éticas e morais da vida brasileira, o professor Roberto Romano, da Unicamp, entende que o mensalão "é o coroamento de um processo que vem de longe, desde a criação do PT" e resulta da vitória dos "realistas" - com os líderes Luiz Inácio Lula da Silva e José Dirceu à frente -- sobre os grupos católicos e trotskistas na fase de formação do partido. Segundo Romano, ao se adaptar às regras do mercado e ao cumprimento dos contratos, como fez em 2002 com a Carta Aos Brasileiros, o partido "deveria ter convocado um novo congresso e mudado o seu programa, pois o anterior não servia mais." (Entrevista a “O Estado de São Paulo).


     Ministro Ayres Britto - Presidente.

     "Este caso é histórico e emblemático e o país acompanha atentamente os debates, o relatório e cada um de nossos votos. Fiquem certos de que a Suprema Corte está atenta e já está fazendo justiça, não está agindo com açodamento nem com a precipitação, tudo está sendo medido. [...] O lado cidadão também aflora nessas horas. Agora a análise que todo ministro tem de fazer, seja eminentemente jurídica e técnica e nós até dizemos dogmática.”

     Em entrevista ao jornal “Folha de S.Paulo”, em 24/08/2007.
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     Ministro Joaquim Barbosa - Vice-Presidente.

     Está no Supremo desde 2003 por indicação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

     “Toda essa teia de atividades, muitas delas dissimuladas, tinha como um único objetivo a prática de atividades caracterizadas pela lei penal como crime. [...] Embora alguns acusados queiram jogar a responsabilidade de apoio financeiro uns sobre os outros, isso não tem importância. O que importa é que eles aparentemente receberam as quantias”.

     Durante julgamento do recebimento da denúncia, em agosto de 2007.
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     Ministro Celso de Mello.

     “Os fatos relatados na denúncia são extremamente graves, profundamente preocupantes. Capazes de suscitar a justa indignação de qualquer cidadão. Isso faz com que se intensifique a necessidade de todos os órgãos competentes do Estado de investigarem todos os vestígios de improbidade administrativa, de assalto ao poder público, para que essas manifestações patológicas resultantes do exercício ilegítimo do poder não se repitam mais.”

     Em entrevista ao “Estado de S.Paulo”, em 09/03/2007.
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     Ministro Marco Aurélio Mello.

     É ministro do Supremo desde 1990, indicado pelo ex-presidente Fernando Collor.

     "Nós não estamos no âmbito de uma pizzaria. A sociedade vê nesse julgamento que a lei em si vale para todos, e que as instituições pátrias estão funcionando. [...] Não tomo como ofensa de que esse julgamento seria um julgamento político. Há independência consideradas as esferas política, civil administrativa e penal. E aqui eu ocupo uma cadeira de juiz, não uma cadeira do parlamento.”

     Em entrevista a jornalistas, em 27/08/2007.
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     Ministro Gilmar Mendes.

     Está no STF desde 2002, indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

     “Esta corte não está apenas a julgar um caso. Na verdade, esta corte dá lições permanentes para todas as demais cortes do país. Por isso este julgamento assume este caráter problemático. Não podemos permitir que o processo se convole em pena; formular denúncias que se sabem inviáveis para, depois, nos livrarmos dos nossos problemas de consciência e tendermos à opinião pública.”

     Durante julgamento do recebimento da denúncia, em agosto de 2007.
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     Ministro Cezar Peluso.

     É ministro da corte desde 2003, nomeado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

     "Estamos em ano eleitoral e não convém que esse julgamento seja próximo das eleições para não interferir no curso da campanha. Também é preciso prevenir o risco de eventual prescrição. Além disso, a opinião pública pressiona muito. É uma demanda de uma boa parcela da sociedade que esse caso seja esclarecido mais rápido."

     Em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo", em 17/04/2012.
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     Ministro Ricardo Lewandowski.

     É ministro do STF desde 2006, indicado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

     “Na verdade, o que quis dizer foi que eu é que estava com a faca no pescoço, e era gelada. Não cometi nenhum crime, nenhuma ilegalidade. Sinceramente me considero vítima de uma invasão de privacidade. As coisas acontecem. Eu podia estar no avião da TAM. É a lei de Murphy. Quando uma coisa tem que dar errado, dá tudo errado. Estou pagando o preço de expressar uma posição jurídica que não refletia os anseios da opinião pública."

     Em entrevista ao jornal "O Globo", em 31/08/2007, sobre ligação telefônica presenciada por uma repórter da "Folha de S.Paulo" na qual o ministro teria dito que o STF votou no recebimento da denúncia "com a faca no pescoço".
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     Ministra Cármen Lúcia.

     É ministra do Supremo desde 2006, por indicação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

     “Só pra ficar claro que os partidos [políticos] são legítimos, veículos necessários da sociedade, não são aqueles que constituem quadrilha ou coisa que o valha, mas pessoas que eventualmente deles fazem parte que agiram mal."

     Durante julgamento do recebimento da denúncia, em agosto de 2007.
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     Ministro Dias Toffoli.

     Está no STF desde 2009, nomeado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

     Faltam no currículo do advogado-geral títulos acadêmicos de pós-graduação, que em geral ajudam a comprovar que o indicado atende a um requisito exigido pela Constituição: o notável saber jurídico. Além disso, a trajetória profissional de Toffoli é notoriamente ligada ao PT. Isso coloca em xeque um dos princípios inerentes ao posto de membro do Supremo: a independência em relação a correntes políticas e ideológicas. Pesa ainda contra Toffoli o fato de ele ter sido reprovado em dois concursos públicos para juiz em São Paulo, em 1994 e 1995.

     "Eu não advoguei em nenhum momento no caso do mensalão. Nas campanhas em que atuei como advogado do presidente [Lula], sempre atuei no Tribunal Superior Eleitoral. Não era eu o advogado que atuava no diretório ou no comitê de campanha".

     Durante sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 30/09/2009.
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     Ministro Luiz Fux.

     Primeira indicação da presidente Dilma Rousseff, está no STF desde março de 2011.

     "As vozes sociais têm que ser ouvidas, mas não sobre como devem ser julgados os casos concretos que têm as suas peculiaridades. Senão, o juiz está se despojando de sua função de julgador e transferindo a sua missão à opinião pública. Isso é inaceitável. [...] A opinião pública, nessa parte, não pode interferir."

     Em entrevista ao jornal "Valor Econômico", em 12/06/2012.
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     Ministra Rosa Weber.

     Está no Supremo desde dezembro de 2011, indicada pela presidente Dilma Rousseff.

     “Todos esses processos que dizem respeito a temas mais candentes sofrem uma recomendação de que a eles se dê prioridade. [...] Ao que tenho notícia, mais de seiscentas testemunhas foram ouvidas no caso do mensalão. Há necessidade de tempo para ouvir essas testemunhas e para todas essas medidas."

     Durante sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, em 6/12/2011.

     Fux e Peluso são os únicos integrantes do STF que foram juízes concursados. Os demais eram advogados ou com outras funções que não a magistratura quando foram convidados para assumir uma cadeira no STF; a maioria deles com títulos de pós-graduação, mestrado e doutorado, assim como centenas de outros advogados no Brasil inteiro. Por que foram indicados pelo Executivo, sabatinados pelo Legislativo e entronizados como ministros do Judiciário?

     Parece óbvio que foram razões políticas. Em um país onde mandam as oligarquias, fingindo que o fazem em nome do povo, principalmente o Executivo, que governa através de medidas provisórias, necessita do respaldo jurídico dos membros do STF. Troca de favores, como acontece em todos os clubes privados.

     Alguns são mais “democráticos”, como o ministro Joaquim Barbosa; outros, mais “autoritários”, como o ministro Gilmar Mendes. Às vezes as vozes se elevam, trocam algumas farpas, mas em seguida tomam cafezinho juntos e talvez falem sobre futebol ou contem eruditas anedotas jurisprudenciais.

     É o clube dos mais iguais, onde o povo não entra. Dele também fazem parte os integrantes do Congresso e ministros do Executivo, assim como o ou a Presidente de plantão.

     Agora estão com a ‘faca no pescoço’, conforme palavras de Ricardo Lewandowski, extreme defensor dos “mensaleiros”. O seu voto será pela absolvição ou por penas alternativas. Gilmar Mendes é outro muito amigo do poder. Não desejará condenar os amigos. O que dizer do voto de Toffolli, petista emérito? O voto de Luiz Fux deverá ser semelhante ao de Mendes ou Toffolli. E já temos quatro ministros que deverão absolver José Dirceu e Cia. Faltam dois.

     Há quem aposte nas mulheres ministras. Afinal, foram indicadas por Lula e Dilma. Outros dão a entender que Celso de Mello estaria inclinado a absolver José Dirceu – o “chefe da quadrilha”, segundo o Procurador Geral da República, Roberto Gurgel. Se o chefe da quadrilha for absolvido, o que dizer do restante da quadrilha?

     Faltam provas, dizem os defensores dos supostos quadrilheiros. Invenção raivosa do Roberto Jefferson, afirmam outros. Acusações sem fundamento, concluem os petistas de carteirinha. E, mesmo os que não tem carteirinha nem são petistas talvez digam uns para os outros que neste país a corrupção, o roubo, é tão comum e já passou tanto tempo... Para que condenar pessoas de bem? Ou de bens.

     A absolvição, se ocorrer, talvez com penas leves que não ultrapassem quatro anos para alguns dos mais óbvios culpados, será uma grande vitória do PT e aliados, que se refletirá nas eleições próximas.

     Nada melhor para o Governo do que o julgamento do mensalão neste momento em que o PT perde fôlego e necessita ser inocentado de todas as acusações pendentes, de todas as dúvidas e suspeitas da população. Por necessidade de assepsia política, algumas cabeças rolarão – a de Roberto Jefferson, réu confesso, em primeiro lugar.

     Em seguida, as vitoriosas eleições, comemoradas no eterno clube dos perfeitos. Impunidade? Que palavra é esta?

     Mas espero estar errado.

sábado, 28 de julho de 2012

CAROLINA




Já faz alguns dias que Carolina desapareceu. Estava forte, sadia, com o pelo lindo. Gostava de tomar café com leite junto comigo, sempre que eu vinha para o escritório. Depois pedia colo. Aninhava-se, enrodilhava-se, faceira, e dormia o sono dos anjos ou dos gatos. Quando batia sol, de tarde, costumava ir para a sua cadeira na sacada. Nos dias frios, visitava as outras peças da casa, brincava com Fidel, o nosso outro gato – menor, mas com a mesma idade e muito esperto. Às vezes brigavam, mas logo faziam as pazes e Fidel a convidava para comer ração no seu prato. Em seguida, sentia o maior prazer em deitar na nossa cama de casal e dormir. Sono que Fidel espreitava, louco por mais uma brincadeira, mas respeitava.

     Era extremamente dócil e amorosa. Uma das almas puras da casa, que era o seu mundo. Nunca subiu para o telhado; jamais pulou da sacada. À vezes, por aventura, ia até a sacada do vizinho, conjugada à nossa, e voltava com paninhos e pequenas coisinhas com as quais brincava, feliz. Certa vez, trouxe uma minúscula bonequinha. Avisamos. Não fazia falta.

     Seus olhos eram fundos e expressivos. Preta, com alguns pelos amarelados. Suave, como só as gatas mansas sabem ser suaves. Puro amor.

     Demos pela falta no domingo de manhã, 22 de julho. Percebemos que ela não tinha dormido no seu lugar preferido, porque estava arrumado como no dia anterior. Chamamos, falamos com a vizinhança, até ligamos para os telefones do Núcleo Bageense de Proteção ao Animais, mas estavam todos ocupados. Enviei e-mails para o NBPA. Não foram respondidos.

     Nos últimos dias tenho vasculhado os arredores, sempre com esperança, mas os dias vão passando e a esperança também. Carolina sumiu.

     Não é o primeiro gato que perdemos. Há cerca de sete anos atrás, vários gatos nossos, que estavam na sacada, foram envenenados. Ninguém sabe, ninguém viu. Outro gato, que se acostumara a andar pelos telhados e entrou no sótão de uma casa próxima foi envenenado pela dona da casa. Quando o procurávamos, outro vizinho disse que não vira o nosso gato, mas, se tivesse visto o teria matado.

     Esta é uma cidade em que determinadas pessoas acham natural matar animais. Domésticos ou não. Conheço algumas delas: sérias, com curso superior. Encaram a vida como uma luta – principalmente contra os demais. Para elas, bichos de qualquer espécie são seres inferiores, que devem ser tratados como escravos ou, se incomodarem, matar é o melhor remédio. Acostumaram-se à insensibilidade. É para esse tipo de gente as propagandas de produtos desnecessários, que procuram logo obter. Respeitam a ordem estabelecida e não criticam nada – são as vítimas inconscientes da globalização robotizada. Ou conscientes e acomodados autômatos. Não pensam por si mesmos, porque se acostumaram a não pensar. Para eles, as informações chegam, devidamente pasteurizadas, através de jornais, revistas e programas de televisão. Absorvem e aceitam tudo.

     A maioria deles tem cães. Cães de raça, treinados para defender as casas dos donos. Com o tempo, talvez até adquiram algum carinho pelos seus cães. Mas um carinho com limites. Entendem que gatos são seres inferiores a cães, porque não são úteis, não defendem ou atacam, são independentes. E isso irrita muito essas pessoas: a independência. Ao mais das vezes, pertencem a associações de auxílio mútuo, travestidas de assistencialismo, porque necessitam muito unir seus medos.

     Matam. Pessoas assim matam. Covardemente. Matam por medo, matam por raiva, por um momento de irritação. Matam por qualquer motivo. Por isso eu temo por Carolina.

     Já faz quase uma semana; semana de sofrimento e expectativa de um milagre. Eu acredito em milagres.

     Eu sei que Carolina está viva, talvez em outro plano, mas viva. Mas não merecia a morte física que supostos humanos e seus cães provavelmente provocaram.

     Nada tenho contra os cachorros. Inclusive, Lidia costuma juntar restos de comida em um saco plástico para deixar em um canteiro próximo para os cachorros sem dono, os marginalizados, proibidos de procriar por ONGs especializadas em castração. Mas detesto os esnobes, acostumados à raiva dos seus donos, de quem copiam os tiques e manias.

     Alguns dirão: um gato! Por que não escreve sobre coisas mais importantes? Há coisa mais importante do que a pureza?

     Ainda esperamos Carolina. Sempre vamos esperar Carolina.

     Estava forte, sadia, com o pelo lindo. Gostava de tomar café com leite junto comigo, sempre que eu vinha para o escritório. Depois pedia colo. Aninhava-se, enrodilhava-se, faceira, e dormia o sono dos anjos ou dos gatos. Faz uma falta imensa.

     Quais dentre os loucos que se acreditam perfeitos como deuses decidiram que ela devia morrer?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O SECRETÁRIO E AS CUCUIAS





- Dois em um, um em dois... qual será o correto? Esta dúvida me traz uma grande aflição espiritual, companheiro meu secretário. Talvez seja necessário um concílio – ou será um conselho? – para que possamos conciliar o que é com o que não é. O que é o que é? Gostou do ‘possamos’, companheiro meu secretário?

- Um grande achado, companheiro prefeito. Talvez o senhor mesmo possa escrever o seu próximo artigo para o jornal. Ou possamos...

- Uma questão de ordem, companheiro meu secretário: pelo menos durante este período de eleições não me chame de companheiro prefeito, mas de companheiro secretário. Eu o chamarei de companheiro meu secretário, para que haja a necessária distinção. Ouvi falar, passarinhos me contaram... que o outro estaria dizendo que eu gosto de ser chamado de prefeito, quando ele é o verdadeiro – imagine! verdadeiro! – prefeito. Daqui pra frente eu sou somente secretário - até ele perder as eleições, é claro. Depois volto ao meu cargo vitalício, nos bastidores, por trás das cortinas, embaixo das camas, exigindo obediência do eleito, que será de outro partido, mas voltará para o nosso, com o tempo. Ou será ‘como o tempo?’ Não se pode comer o tempo, ao menos quatro anos, para que eu volte a ser prefeito votado, entronizado, perfumado, e esta angústia que agora me atropela e me enregela deixe de me atormentar?

- Infelizmente ainda não existe nenhuma lei que permita isso, companheiro pref... er... secretário.

- Leis! Para que leis? Cada vez eu acredito mais que a democracia radical deve ser uma ditadura. Não anote isso.

- Já risquei, companheiro secretário. Mas uma ditadura democrática, o companheiro não acha?

- Não dê opiniões. Você não deve dar opiniões. Apenas quando consultado. E eu o consulto, companheiro meu secretário: dois em um ou um em dois?

- Como o senhor preferir, companheiro secretário.

- É claro, eu tinha esquecido: as opiniões servem apenas para criar divergências. Não deve haver divergências. A minha palavra sempre será a última e decisiva. E eu pergunto de novo, agora explicitando, explicando, deixando claro, revelando o meu pensamento: devemos ter dois jornais em Três Estrelinhas? Uma cidade que não tem eleitores nem para um segundo turno!

- É verdade, companheiro secretário.

- No entanto, companheiro meu secretário, os dois jornais dão a aparência de disputa democrática (esta palavra, outra vez!) e a aparência é o que move o leitor e o eleitor – anote essa frase, companheiro meu secretário!

- Está anotada, companheiro secretário. Aliás, eu anoto tudo, depois risco o que o companheiro não gostar.

- Senão, vejamos, como diria um cego: um deles, o mais antigo, serve para ponderações e elucubrações dos colunistas, notícias vagas sobre a vacuidade do vago nada...

- Está se superando, companheiro secretário!

- ... matérias sobre a campanha (campanha! faz-me rir!) do outro e matérias com o dobro do espaço sobre a campanha do nosso adversário oficial ao qual nunca daremos apoio oficial, mas deverá vencer para obedecer, e o povo... Para que serve o povo, companheiro meu secretário?

- Para votar, companheiro secretário.

- É verdade! Quase tinha esquecido... E o povo leitor e eleitor poderá embriagar-se, deliciar-se, sentir-se afagado, principalmente os meus colegas fazendeiros e todos aqueles que os servem, e uma palavra aqui, outra lá, dirigirá os seus votos para o nome certo. Não somente os fazendeiros, como os comerciantes e seus empregados, que não desejarão perder o emprego. E o que mais temos em Três Estrelinhas, companheiro meu secretário?

- Pouca coisa, companheiro secretário. Algumas pequenas fábricas e o restante do povo.

- O restante do povo... funcionários públicos, aposentados... jovens que insistem em estudar em vez de entrarem para a carreira política... Para eles o novo jornal, que deverá ser forte, com manchetes que chamem a atenção, matérias salientando as virtudes do nosso nobre candidato opositor; suas promessas, seus delírios políticos, tudo que o povo gosta de ler e de ouvir. E por isso...

- Um momento, que estou anotando, companheiro secretário... Pronto! Por falar nisso, o companheiro anda lendo alguma coisa?

- Só alguns dicionários, antes de dormir – são tantas as minhas ocupações...!

- É verdade, companheiro secretário. Eu que o diga! Mas o companheiro falava...

- Falava o que você não deve pensar - apenas anotar. Falava e falo – não anote esta última palavra. Troque ‘falo’ por apêndice do prazer. Fica mais elegante.

- Não é um pouco estranho, companheiro secretário?

- Estranho... O que não é estranho? A vida não é estranha? Qual o meu próximo passo? Para a direita, para a esquerda, para o centro?

- Penso que passo para o centro não existe, companheiro secretário.

- Como não, se alguns partidos são centristas? É claro que ficam imóveis, sem dar passo algum, apenas ganhando com os que dão passos a esmo... E não pense! Elimine esse péssimo hábito!

- Companheiro!

- Estou me superando, companheiro meu secretário? Faz parte da estranheza da vida. Mas vamos ao que interessa. Fez aquele remanejamento entre os dois jornais?

- Não foi nada difícil e ninguém achou estranho, companheiro secretário.

- Por isso aquele povo me adora! Mas continue.

- Como o nosso editor de confiança saiu para escrever exclamações contra o pref... er... o outro, trouxe o editor do jornal mais antigo para editar o novo jornal. Também trouxe o cronista social e dei mais algumas arrumadas, como um novo colunista que gosta de escrever sobre culinária e cucuias e...

- Cucuias! O que são cucuias?

- Acredito que sejam cuias em dobro, companheiro secretário.

- Ótimo! Precisamos de alguém que escreva sobre cuias, muitas cuias. Depois virão as bombas, as ervas... Vamos liberar as ervas! O que mais?

- Fiquei na dúvida sobre quem contratar para revisor...

- Qualquer professora serve.

- Pois é, foi o que pensei... E como faltava um editor para o antigo jornal de Três Estrelinhas...

- Qualquer bobo serve. Desde que saiba escrever...

- Este é o problema, companheiro secretário!

- Se não souber escrever também não saberá pensar e o problema estará resolvido.

- Gênio, companheiro secretário. Assim fica mais fácil.  São tantos... Talvez até fique um pouco difícil de escolher, mas já que o companheiro falou em bobo... Talvez eu conheça o ideal...

- O ideal é uma coisa difícil de ser alcançada, companheiro meu secretário. Lembre-se disso!

- Anotado, companheiro secretário.

- Devemos fazer o público acreditar que o jornal é dele, do outro, entende? Talvez uma página com estórias de amor resolva isso. No mínimo, um texto diário sobre como o amor é belo. Estou falando do antigo jornal, companheiro secretário. E isso me leva a ponderar, a observar, a sentir um não sei que lá no âmago, no íntimo, talvez seja dor de estômago, não sei, mas deveria saber... Para que dois jornais em uma cidade que não tem eleitores suficientes para um segundo turno?

- Para que, companheiro secretário?

- Sim, para que?

- Para que?

- Pare de me repetir, companheiro meu secretário! Oh, dúvida cruel! Oh céus! Oh terras...!

- Terras?

- Estava pensando nas minhas terras, companheiro meu secretário. Terras em que jamais um sem-terra entrará!

- Anotado, companheiro secretário.

- Risque isso! Eu não quero ser dois em um ou um em dois. Aff... É cansativo, mas divertido. Depois veremos...

- Como dizia um cego, companheiro secretário?

- Vários cegos, todos correligionários. O padrinho não telefonou?

- Ainda não, companheiro secretário.

- Isso me deixa mais angustiado, mais apreensivo, mais, como direi...

- Assustado, companheiro secretário.

- Risque essa palavra! Risque! Desde que ele não risque o meu nome do seu caderno...

sexta-feira, 13 de julho de 2012

UM PAÍS DE ANALFABETOS


Em recente reportagem da revista Science sobre a Amazônia é prevista a extinção de 80 a 90% de espécies de mamíferos, aves e anfíbios até 2050, caso o ritmo de desmatamento e degradação continue acelerado. O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) pretende construir 22 hidrelétricas de grande porte na região; as unidades de conservação estão sendo reduzidas e, com o novo Código Florestal, ditado ao governo pela Bancada Ruralista do Congresso, tudo poderá acontecer, não só na Amazônia como em todo o território nacional.

     O desmatamento da Amazônia, que começou raivosamente em 1978 e aumentou furiosamente nos últimos anos com a política de exportação e aumento da dependência externa dos produtos industrializados, tornando o Brasil um país anão em tecnologia própria, favorece os grandes empresários do setor de agricultura e pecuária, os grandes empresários das construtoras como a Norte Energia, que está criando Belo Monte – que se tornará a maior devastadora do meio ambiente jamais conhecida – e todos os demais grandes e pequenos empresários que se interessam em tornar a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pampa e tudo o que ainda resta de Brasil em pasto pasteurizado e plantações plastificadas cercando grandes cidades onde habitarão milhões de robôs monitorados.

     Este é o país idealizado pelos governos continuístas da ditadura militar e que se dizem democráticos. Governos muito aplaudidos pelo povo, segundo as empresas de pesquisa de opinião pública contratadas pelos interessados.

     Essas pesquisas dizem que o governo de Dilma Roussef tem a aprovação de 77% da população – o que significaria que 77% do nosso povo apóia o desmatamento, a desertificação do solo, os desertos verdes, a destruição do meio ambiente, a extinção das espécies animais e também de algumas espécies humanas, como os indígenas, a corrupção no governo e no desgoverno, a inflação que só tende a aumentar, apesar da propaganda pró-Dilma dos grandes meios de comunicação, a aliança para o que der e vier com o governo dos Estados Unidos, as péssimas condições da educação, as péssimas condições da saúde, os maiores impostos do mundo, as desigualdades sociais, que tornam o Brasil a oitava nação mais desigual do mundo, segundo a ONU, a venda de grandes extensões do nosso território para estrangeiros, a ausência de reforma agrária, a impunidade dos corruptos, a influência dos grupos econômicos na política – o que mais?

     Se o povo concorda com tudo isso, merece o governo que elegeu. Ou será apenas um povo analfabeto político?

     Bertoldt Brecht escreveu: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais.”

     Ou será apenas analfabeto? 14 milhões de brasileiros são analfabetos, não sabem ler e escrever. O que não significa, necessariamente, idiotia ou imbecilidade, mas fragilidade extrema para aceitar facilmente a propaganda oficial. Em sua maioria ou, talvez, totalidade, são os que recebem mesadas do governo para poderem sobreviver.

     Além do simples analfabeto, temos o analfabeto funcional. É aquela pessoa que sabe ler e escrever, mas não entende, não consegue interpretar o que lê. Provavelmente, não saiba interpretar outras coisas. De acordo com a Wikipédia, “no Brasil o analfabetismo funcional atinge cerca de 68% da população (30% no nível 1 e 38% no nível 2). Somados esses 68% de analfabetos funcionais com os 7% da população que é totalmente analfabeta, resulta que 75% da população não possui o domínio pleno da leitura, da escrita e das operações matemáticas, ou seja, apenas 1 de cada 4 brasileiros (25% da população) são plenamente alfabetizadas, isto é, estão no nível 3 de alfabetização funcional”.

     E temos aí os votos da Dilma, a razão pela qual a sua aprovação é de 77% da população. Alguns dizem que as pesquisas são fraudulentas, manipuladas pelo governo. Não é impossível, porque este é o país da corrupção. Porém, considerando a probabilidade de que as pesquisas tenham sido feitas com toda a correção científica e que o Nordeste – onde o governo é mais bem aceito - é a região que tem três vezes mais analfabetos (de todos os tipos) que as demais regiões do pais e, ainda, considerando que somente em 2010 o governo federal investiu em mídia (propaganda oficial) R$ 1.628.920.472,63 (imagine-se o que deve estar investindo em 2012, ano de eleições...) não é de se duvidar que a grande maioria dos brasileiros esteja apoiando este governo.

     A propaganda institucional é tamanha que, apesar de a corrupção brasileira ser manchete todos os dias – mesmo que a imprensa seja manipulada pelas grandes agências de notícias para divulgar somente determinados assuntos – Dilma Rossef foi transformada no grande ícone da moralidade e boas intenções.

     Na cidade onde eu moro – Bagé, RS, que já foi a cidade dos bageenses – duas grandes coligações políticas e mais o PSDB disputam as eleições, este ano. Uma delas é chefiada pelo próprio prefeito, que é do PT e pretende a reeleição; outra, por uma ex-vereadora do PTB, que fez alianças com o PDT (ou parte dele) e mais alguns partidos sem expressão na cidade; o terceiro candidato a prefeito é um vereador do PSDB, que sabe que perderá, mas poderá negociar politicamente os votos recebidos com a coligação vencedora.

     Até aqui, tudo “normal”. Os três candidatos usam o nome de Dilma Roussef como chamada de campanha. Não há qualquer tipo de oposição, apenas oposição entre os candidatos. Não há ideologia, idéias ou ideais. Dilma elegerá o candidato mais confiável.

     Enquanto isto, no Brasil, indígenas, animais de todos os tipos, plantas nativas e o próprio solo cada vez mais degradado pelas empresas cúmplices do governo, estão ameçados de extinção.

     Mas ninguém sabe a espeito, ninguém quer saber. Este é um país de analfabetos.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

BRASIGUAIOS DEPUSERAM LUGO?





Ao contrário de Lula e Dilma – convictos demagogos – o presidente Lugo, do Paraguai, tentou realmente fazer a reforma agrária no seu país. Ao contrário de Lula e Dilma – que se aliam com reconhecidos corruptos – Lugo era a esperança dos sem terra do seu país, onde 80% das terras estão nas mãos de 2% de proprietários. De acordo com a France Press, em matéria de 24 de junho, postada no site Terra (terra.com.br), “pelo Paraguai, circulam títulos de propriedade envolvendo um total de 530.000 km² de terras, quando o país dispõe de apenas 410.000 km². O fenômeno remonta à época da ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989), que distribuía títulos de propriedade para recompensar as pessoas de confiança.

     Durante aquela ditadura, nos anos ’80, chegaram ao Paraguai os brasileiros sequiosos por terras baratas, recebendo todo o tipo de incentivos do governo, em especial a distribuição de títulos de propriedade do governo ditatorial do general Stroessner, o que provocou o desalojamento de milhares de pequenos proprietários que viviam de agricultura familiar, obrigados a ceder as suas terras à força, formando grandes bolsões de pobreza nas grandes cidades e forçados a viver do tráfico e das vendas clandestinas. Assim como no Brasil.

     As terras foram entregues aos grandes proprietários rurais já existentes no Paraguai e, principalmente, aos brasileiros que receberam títulos de propriedade do governo paraguaio, com a única condição de expulsarem das suas terras os legítimos proprietários.

     Naquela época foi descoberto o grande valor nutricional da soja – que também pode ser utilizada para a fabricação de farinha, sabão, cosméticos, resinas, tintas, solventes e biodiesel – e os países latino-americanos, quase todos sob governos ditatoriais que, por sua vez, obedeciam (obedecem?) aos Estados Unidos, foram incentivados a transformar seus territórios em grandes plantações de soja. Somente nos anos ’90 e no século 21 surgiu a soja transgênica, que fornece colheitas abundantes e esteriliza mais rapidamente a terra. O grão é vendido para os países industrializados e recebemos de volta os produtos prontos para consumo.

     Atualmente, são mais de 300.000 brasileiros – os brasiguaios - vivendo no Paraguai. Em sua grande maioria, vivem do plantio de soja, e como a soja transgênica é a utilizada, quando os campos ficam imprestáveis ocorrem novas invasões de terra e desalojamento de pequenos proprietários rurais, provocando uma grande crise social. Assim como no Brasil.

     Fernando Lugo foi eleito, em 2008, devido à sua promessa de fazer a reforma agrária, empenhar-se na luta contra a corrupção e favorecer o nacionalismo. Seu governo foi bombardeado pela imprensa capitalista desde o primeiro dia de mandato. Previa-se que seria golpeado.

     Empenhou-se em promover a reintegração de posse dos paraguaios sem terra. Em 15 de junho, um tiroteio durante uma reintegração de posse provocou a morte de 11 sem terra e de 6 policiais. Imediatamente, o Congresso votou pelo impedimento do Presidente, sob a alegação de que Lugo perdera o controle dos conflitos agrários. Em questão de dias, era destituído do poder. Os Estados Unidos reconheceram imediatamente o governo de Federico Franco. O governo de Dilma/Lula reconhecerá, apesar dos primeiros momentos de tensão demagógica.

     Os Brasiguaios que dominam o Congresso Paraguaio com o seu poder econômico – assim como no Brasil existe a “Bancada do Agronegócio”, que manda no Governo – rejubilam-se. O povo paraguaio continua sem terras. Assim como no Brasil.
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