terça-feira, 9 de outubro de 2012

DE LAVADA





Seu Chico estava quieto, observando a chuva sob a aba daquela construção eternamente inacabada do Consórcio, ali perto do quiosque da dona Neusa, onde se toma o melhor cafezinho de Bagé, quando eu me aproximei, cumprimentei e fui logo perguntando:

     - Votou bem, seu Chico?

     - Muito bem! E o senhor?

     - O mesmo, seu Chico. Desta vez até parece que foi fácil, apesar de toda a barulheira.

     - Mas por demais! Por demais a barulheira e por demais a diferença na votação. Surpreendeu todo mundo. Mas eu tenho uma teoria a respeito.

     - E qual é essa teoria, seu Chico?

     - Pra bem da verdade é uma teoria que pode ser dividida em duas partes. A primeira, é que não se deve fazer passeata da vitória na véspera da eleição. Dá azar. Essa coisa de ficar dizendo que já ganhou, já ganhou, atrai más influências, quando não provoca dores estomacais. Outra coisa que pode provocar é excesso de adrenalina. O senhor sabe que todo excesso pode ser prejudicial. Daí que o eleitorado da dita coligação de oposição dormiu nas palhas depois da tal de passeata da vitória.

     - E esqueceu de votar no dia seguinte?

     - Não exatamente. Veja o senhor que quem comemora antes acredita tanto na vitória que quando vai votar está tão faceiro que é capaz de errar o número do candidato.

     - Eu não tinha pensado nisso... E a outra parte da teoria?

     - Pois veja a seca que estava, todo mundo pedindo água pro vizinho para poder tomar mate e não é que deu pra chover justamente no dia da eleição? Diz-que o Prefeito, que já foi seminarista, tem lá os seus tratos, as suas ligações, até as suas benquerenças com o pessoal lá do Céu – o que não é pra duvidar, porque numa hora dessas não se duvida de nada. Há quem afirme que ele teria prometido chuva, se eleito fosse. E na hora que o povo sai pra votar... - olhe o aguaceiro!... E segue chovendo de entortar torneira e afogar peixe. O que o senhor acha?

     - Não dá pra desdenhar dessa teoria, seu Chico. Com certeza tem lá o seu pouco de verdade. Mas e agora, seu Chico? Passaram as eleições, todo mundo já está se acomodando aos eleitos e reeleitos, alguns choram, outros fazem festa... Daqui a pouco, nada mais é lembrado... Como fica o povo?

     - É o que eu me perguntava, ou perguntava pra chuva, quando o senhor me encontrou. E tenho comigo que o povo vai ficar esperando outro momento de grande barulho, se entretendo com futebol, novelas e outras coisitas que ajudam a levar a vida. E assistindo e torcendo...

     - Torcendo para os seus times?

     - Isso também, e principalmente torcendo para que os políticos eleitos realmente cumpram as suas promessas.

     - Um dia o povo vai perceber que democracia não é só votar, não é seu Chico?

     - Isso vai depender de todos os que ainda tem alguma consciência. Do senhor, de mim e de muita gente que acredita que democracia tem que ser participação permanente e não delegação de direitos.

     - Pelo andar da carruagem, ainda vai demorar um bom pouco para que isso aconteça, seu Chico.

     - Pode ser que essa carruagem dê uma acelerada. Aqui, consciente ou inconscientemente, o povo não acabou de derrotar a direita ultra-reacionária? Não dá pra desacreditar no processo histórico. Às vezes é cansativo como um dia de chuva ou devagar como os dias mormacentos, mas continua.

     - É uma luta diária, seu Chico.

     - Uma luta para toda a vida e que é alcançado através de pequenas vitórias, como as eleições.

     - É verdade, seu Chico. E desta vez foi de goleada.

     - Pois não foi? E graças ao belo tempo de chuva, que outros chamam de mau tempo, até se pode dizer que foi de lavada.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O CORRUPTO CARNAVAL DAS URNAS




Lula-Lá ou Lu-Lalau? Sabia ou não sabia o ex-presidente o que ocorria nas suas antigas barbas? E Dilma, que era ministra todo-poderosa da corte? O que ela sabe ou não sabe? Ínclita Dilma, domadora de (quase) todos os partidos, que a ela se aliam em troca de... dinheiro? Trocar ministérios e secretarias e outros que tais por apoio político é ou não é uma maneira de corromper? É necessário que o dinheiro esteja escondido em roupas íntimas e seja “lavado” através de bancos e outras formas muito conhecidas dos quadrilheiros famosos para que seja caracterizada a corrupção? Este sistema não é idealmente corrupto para os que fazem da política uma profissão muito lucrativa?

     Neste exato momento, votos estão sendo comprados em todo o Brasil. Milhões de pessoas estão vendendo a sua consciência, ou o que dela resta. Este é o país da corrupção, ativa, passiva, mista, subjetiva, objetiva, psicológica, aparelhada. País dos passivos. Como são passivos os que desejam tanto ganhar com as eleições, e como as esperam avidamente, ansiosamente, esperançosamente!... Quando a campanha eleitoral chega – finalmente! – oferecem-se de corpo e alma para fazer a propaganda e votar naquele que der mais. Quem dá mais? – se perguntam os que desejam prostituir a desmemoriada mente.

     E os ativos? Os ativos são manipuladores, rápidos, espertos. Dão a impressão de estar perdendo muito dinheiro, apostando a vida, endividando-se para mostrar ao eleitorado quão bons eles são, foram e serão. Farão de tudo pelo povo. Até o momento em que são eleitos. Depois... depois dão um jeito de recuperar e multiplicar o dinheiro investido.

     A política no Brasil está transformada numa questão monetária. Foram-se as ideologias, as causas, a defesa de ideias, de valores. Acabaram-se os ideais. Este é um país de muitas siglas, somente siglas, inexpressivas siglas. Siglas endoidecidas por dinheiro, bebendo votos, cheirando consumo e fumando alianças.

     Além do Mensalão, Lula e Dilma se aliando com Maluf, um dos dez mais procurados pela Interpol, faz com que o PT consiga ficar à direita da extrema-direita. Para ganhar votos. Uma questão de estratégia, de pragmatismo, de momento político, de compras e vendas, de definitiva e consciente alienação...E corrupção? E com eles vai o resto: a militância que agora é paga e não voluntária e que não sabe exatamente pelo que está militando. Talvez por pessoas, honra (honra?), hábito, uma cor partidária que nada mais significa. Quem sabe significa dinheiro?

     Alguém aí falou em Mensalão, em Lewandowski, em Tóffoli, em aliados do poder? A ponta do iceberg. O poder não está entrincheirado em Brasília. Tem seus tentáculos em todos os rincões; em todos os lugares espalha o seu cheiro adocicado de carne velha muito temperada.

     É prática do poder dizer-se carinhoso, amável, preocupado com o povo. Como o poder se preocupa com o povo... Discretamente, com belas promessas e muita polícia. Diz ao povo “Eu quero!” e o povo responde “Eu também!” Forma-se a cumplicidade. Alguns, muito poucos, cada vez menos, dizem “Não!” Ainda restam alguns.

     Em Bagé, minha cidade, concorrem três pessoas à Prefeitura. O atual prefeito petista que quer continuar prefeito e aliou-se com parte das permanentes forças burguesas e para elas governa. E diz que governa para o povo. Uma grande coligação o apóia.

     Uma ex-vereadora do PT, agora candidata pelo PTB – partido do Roberto Jefferson - que quer ser prefeita e se aliou com a outra parte das permanentes forças burguesas e para elas quer governar. Forças burguesas que incluem DEM, PP e agentes da União Democrática Ruralista (UDR), que não é um partido, mas uma união não democrática de grandes fazendeiros que são contra a reforma agrária e tem por hábito aterrorizar o pessoal do MST. O lema dessa candidata é “Vai Melhorar!” Pergunta-se: para quem? Diz que vai governar para o povo e uma grande coligação a apóia.

     O terceiro candidato é do PSDB, um partido pequeno e dividido por interesses, que conseguiu o milagre de postar-se à esquerda das duas grandes coligações, não pela ideologia, mas pela sinceridade do candidato que, no entanto, caso fosse eleito, não o impediria de se aliar às permanentes forças burguesas que dominam a cidade. Diz que governará para o povo.

     E o povo? O povo vai atrás de quem grita mais alto, faz promessas mais bonitas, mostra-se mais exitoso e influente, tem melhores padrinhos e, principalmente, tem mais dinheiro.

     Somos um povo corrupto ou os degradados que governam pela força do dinheiro querem nos convencer de que a corrupção é natural no ser humano?

     Passadas as eleições, o momento do orgiástico carnaval das urnas, quais as grandes mudanças que ocorrerão?

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

OS NOVOS FARROUPILHAS


Comemora-se no Rio Grande do Sul os 177 anos da Revolução Farroupilha (1835 – 1845), deflagrada em 20 de setembro de 1835, tendo como épico momento a Declaração de Independência do Império do Brasil, proclamada por Antônio de Sousa Neto, no dia 11 de setembro de 1836, logo após a batalha de Seival, nos arredores de Bagé.

     Apesar da derrota da revolução e da posterior declaração da República no Brasil, é um sentimento gaúcho que a República de São Pedro do Rio Grande do Sul persevera na sua independência, embora, oficialmente, esteja integrada à União. Uma integração feita através das armas e não obedecendo a vontade do povo. 177 anos são passados e, ao contrário do que muitos esperavam e apregoavam – o Rio Grande do Sul como estado submisso ao Governo central –, cada vez mais o povo gaúcho se revela cúmplice amoroso da sua pátria, manifestando-se através do hino da independência em todas as ocasiões possíveis – inclusive antes e durante os jogos de futebol. É uma nação que conhece de cor o seu hino e o significado de frases como “Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

     O Brasil é um país irmão que um dia encontrará melhor destino e governantes menos corruptos. Mas o Rio Grande do Sul tem as suas próprias tradições, hábitos, costumes, história e linguajar que o une mais com países como Uruguai e Argentina, senão com toda a América Latina, do que com o carioquismo imposto que tenta aculturar as novas gerações quase com a mesma intensidade que o Brasil se deixa aculturar e dominar pelos Estados Unidos.

     Infelizmente, também temos governantes demagogos, quando não corruptos, que defendem a sua classe e esquecem o povo, aliados do capital e do governo do país mandante que os vigia, agindo como sátrapas, pertencentes a grupos de poder interessados apenas na dominação, agregados a partidos que esqueceram as suas cores, muitas vezes adeptos de grupos subterrâneos e não democráticos, lutando pela estagnação e destruição dos nossos valores e da nossa cultura.

     Não são apenas eles, mas também, os que desejam um povo gaúcho escravo, formando uma elite que, com certeza, trairia a Revolução Farroupilha se ela acontecesse hoje. Uma revolução que foi traída pelos Bento Ribeiro e Canabarro, embora muitos, por pudor, não queiram admitir a verdade histórica.

     Ressuscitada duas vezes nas revoluções maragatas de 1893 e1923, teve o seu momento de maior brilho quando um gaúcho chamado Getúlio Vargas decidiu que se o Brasil necessitava tanto dos gaúchos seria necessário, primeiro, reconstruir o Brasil. Era 1930 e os cartéis que exploravam o que ainda hoje chamam de Brasil tremeram. Em 1932 reagiram, e o povo paulista foi sacrificado em nome dos interesses das multinacionais. Traído duas vezes, Getúlio foi deposto em 1945 e obrigado ao suicídio – por uma questão de honra, somente bem compreendida por quem tem um coração independente – em 1954. Sucederam-se governos entreguistas do sudeste, até que o gaúcho João Goulart assumiu o poder em 1962, com um projeto nacionalista e trabalhista e foi deposto em 1964, por ordem dos Estados Unidos.

     Depois da redemocratização, no final dos anos ’80, os enganadores se sucederam, nadando no seu aceito mar de lama. Caricaturais pelegos das elites que fingem combater querem se eternizar no poder – e mais uma vez o povo é levado à mendicância.

     No Rio Grande do Sul, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra surgiu em 1984, depois que a grilagem e o processo da mecanização das lavouras expulsou cerca de 30 milhões de agricultores do campo na década anterior. Um movimento que espalhou-se pelo Brasil rapidamente. Seus 50 mil militantes transformaram o campo num barril de pólvora, com marchas, ocupações de terras, rodovias, prédios públicos. Causam tanto incômodo que sua determinação serviram de estímulo para a criação da Associação dos Produtores Rurais, no Mato Grosso; o Primeiro Comando Rural, no Paraná; e ainda o ressurgimento da União Democrática Ruralista (UDR) e do Movimento Nacional dos Produtores.

     Além da terra para quem nela trabalha, os agricultores do MST, ligados à Via Campesina, lutam contra o uso de agrotóxicos, contra os produtos transgênicos e a favor de uma agricultura familiar e sustentável. Defendem um novo modelo agrícola, baseado na agricultura camponesa e agroecológica.

     Aos poucos, percebem que nada disso será conseguido sem muita luta, porque grandes são os interesses contra essa postura a favor da vida. Ao mesmo tempo, entendem que deles depende abrir os olhos da passiva massa das cidades, que se contenta com promessas e mesadas.

     São os novos farroupilhas, que enfrentam uma batalha a cada dia – escorraçados, insultados, muitas vezes massacrados e tratados como pessoas de última categoria. Mas sempre altivos e conscientes de que o futuro deve ser conquistado no presente, a cada passo.

     No Rio Grande do Sul, o dia 20 de setembro é considerado como o dia do orgulho gaúcho, e são esses novos farrapos – talvez os únicos que levantam a bandeira farroupilha com o mesmo destemor dos revolucionários de 1835 - que devem ser homenageados como legitimos representantes das lutas populares.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

A VERDADEIRA FÉ


As igrejas que representam oficialmente o cristianismo – assim como a Católica Romana, a Católica Anglicana, a Ortodoxa e as protestantes, além de algumas doutrinas que se dizem cristãs – costumam dizer aos seus seguidores que ter fé é acreditar, submeter-se aos donos das verdades religiosas e aceitar aquilo que lhes for prescrito. E entre essas prescrições está o significado da palavra fé, junto a destino e passividade.

     Segundo esses prescritores, que se dizem religiosos e que muitas vezes usam a religião como exercício de dominação, fé é sinônimo de crença cega. E a essa cegueira da crença alia-se o medo da morte, do desconhecido, que os donos das religiões dizem ter o segredo, entregue aos crentes em troca da obediência às “questões de fé”, sob pena das pessoas, após a morte, não irem para um lugar beatífico ao lado de Deus e das hostes angélicas.

     Em todas as religiões que não costumam lembrar que a palavra religião significa religar, ligar novamente o que nos resta de espírito ao Todo espiritual, é usado o sentimento de culpa proveniente da mitologia hebraica, onde aparece um deus furioso dizendo ao primeiro casal humano que o pecado de buscar o conhecimento, através do alegórico fruto proibido (a árvore do conhecimento do Bem e do Mal), passaria para as posteriores gerações.

     Não somente na mitologia hebraica. Na mitologia grega existe a lenda de Prometeu, que teria roubado o fogo dos céus para dar aos homens e, por isso, foi severamente castigado.

     Fazer as pessoas acreditar que já nasceram pecadoras, culpadas devido a erros ancestrais, tem sido a função das religiões ocidentais que se dizem cristãs. A culpa, aliada ao medo do desconhecido, faz com que milhões de pessoas no mundo inteiro se submetam às religiões que dizem ter o remédio para o pecado original. Em muitas dessas religiões os crentes pagam dízimos como se fosse uma passagem para o Céu. E essa submissão e passividade é chamada de fé.

     No entanto, não foi a fé que Jesus ensinou.

     Para que as religiões prosperassem nesse engodo foi criado um Jesus manso, feito de palavras doces e suaves. Mas Jesus, segundo os próprios evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João), era exatamente o oposto dessa falsa imagem.

     O objetivo principal da sua pregação, em todos os seus atos e palavras, foi dizer e provar àqueles que o seguiam que eles eram capazes de fazer as mesmas coisas que ele fazia: curar o corpo e o espírito, combatendo aquele que ele denominava ‘Príncipe deste mundo’ – o defensor do engano e da mentira; de uma vida presa aos bens materiais.

     Ao mesmo tempo, Jesus tentava ensinar a verdadeira fé. A fé que consiste em acreditar em si mesmo.

     Ele costumava dizer: “Homens de pouca fé!”, quando os discípulos sentiam medo, deixando explícito que o medo é o principal inimigo do Homem, a razão pela qual os homens não acreditam em si mesmos, não tem fé.

     A fé que Jesus ensinava consistia em acreditar que é possível fazer, e não em deixar-se intimidar pelos sempre aparentes perigos que o mundo nos apresenta diariamente.

     Assim, por duas vezes ele enviou seus seguidores, dois a dois, para diversos lugares e, quando eles voltavam, diziam: “Mestre, nós conseguimos! Curamos os enfermos, provamos que a vontade e o espírito são superiores à matéria e ao temor à vida!”.

     A vida. Jesus ensinava o amor à vida, que é eterna, e não o temor à morte, o seu contraste natural. E, por amar a vida, provou que a vitória sobre a morte, sobre o erro, sobre o obscurantismo, sobre as vaidades humanas, é possível.

     Quando, em determinado momento, um dos seus seguidores que ainda não entendera direito a mensagem perguntou como deveria orar, ele respondeu dizendo que se recolhesse para o recanto mais escondido da sua casa e rezasse para o deus que está em segredo dentro de cada um. E como o discípulo insistisse, pedindo quais as palavras que deveria empregar na oração, ele ensinou o que conhecemos hoje como o Pai Nosso. Uma oração que é um agradecimento ao Pai da vida e que contém pedidos condicionados ao comportamento daquele que pede. Ensinava a lei natural de causa e efeito; louvava e agradecia pelo pão de cada dia.

     O pão de cada dia. Ele ensinava que a simplicidade, e não a busca pelos bens materias, deve nos guiar. Os ensinamentos de Jesus são muito claros. Ele dizia que todos deveriam acreditar na sua própria potencialidade espiritual. Era como se dissesse: “Se eu posso fazer, vocês também podem”. E a isso ele chamava de fé – ter confiança na força interna que pode mover montanhas.

     Segundo os evangelhos, jamais ele disse que ter fé era o mesmo que rezar, esperando que Deus ou algum intercessor resolva os nossos problemas.

     Orar é importante por duas razões:

     1) Não estamos sós neste universo de múltiplas dimensões; não somos o ápice da criação e é óbvio que existem seres mais evoluídos que poderão nos ajudar – sempre na exata medida do nosso merecimento.

     2) A oração fortalece a fé que ele ensinou; a fé na nossa capacidade de ir além, transpondo ilusórios e medrosos limites. A oração nos ajuda a religar com o Pai a nossa confiança na eternidade da vida e a acreditar que podemos vencer a morte, assim como ele fez. Muitos se perguntam: “Existe vida depois da morte?” Provavelmente, ele responderia: “Existe morte?”

     O verdadeiro cristianismo deveria ser um constante agradecimento pela doação da vida e não uma chantagem baseada no aparente desconhecido que chamamos morte.

     Jesus disse: “Aquele que crer em mim, mesmo que esteja morto, viverá”. Indicava, com essas palavras, que a vida é eterna, muito além do que entendemos com os nossos cinco sentidos, e que crer também significa não se deixar dominar pela aparência da vida.

     Principalmente, ensinava que fé é superação e não escravidão espiritual.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

LAÇOS FORA




“Laços fora, soldados! Camaradas! As côrtes de Lisboa, querem mesmo escravizar o Brasil! cumpre portanto declarar já a sua independência! Estamos definitivamente separados de Portugal. Independência ou morte, será a nossa divisa!” (Grito de independência de Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822).


       Laços fora.
     Os soldados brasileiros, principalmente praças, cabos e sargentos estão indignados com o aumento gradativo de 30% dado pelo Governo, a começar em março de 2013. Alegam que é muito bom para os oficiais superiores, mas péssimo para a grande maioria das Forças Armadas.

     Acusam os comandantes das três armas – Exército, Marinha e Aeronáutica – de serem coniventes com esse aumento que somente a eles e demais oficiais superiores interessaria. Percebem, começam a se dar conta que as divisões sociais são igualmente claras e retumbantes tanto na vida civil quanto nas Forças Armadas – e que há grande interesse para que assim continue.

     E nada podem fazer a respeito, exceto protestar via Internet, com a certeza de que os seus protestos não ecoarão na mídia manipulada. “Ordens cumprem-se, não se discutem” é um dos tantos chavões militares. Caso contrário, expulsão.

     Mas não deixam de protestar. Desta vez, através das suas esposas, que estão prometendo interromper o desfile militar de 7 de setembro em Brasília e no Rio de Janeiro. A UNEMFA (União Nacional das Esposas dos Militares das Forças Armadas Brasileiras), através de Ivone Luzardo, líder do movimento, promete um grande protesto reivindicatório, exigindo a diferença remuneratória referente a 28,86%, com inserção no contracheque, bem como a reposição das perdas salariais de 135%. Afirma Ivone Luzardo que caso o Governo não conceda o reajuste solicitado, não haverá desfile de 7 de setembro – “A não ser que eles passem por cima de nós, pois ficaremos na frente deles” – informou a Cláudio Humberto, do jornaldamidia.com (http://www.jornaldamidia.com.br/2012/08/31/esposas-querem-impedir-o-desfile-de-maridos-militares-em-7-de-setembro/)

     Laços fora.
     Protestam os militares surdamente nas páginas da Internet. Não serão ouvidos. Perguntam-se como reaparelhar as Forças Armadas se o salário não é digno, não tem FGTS, cumprem uma função de altíssimo risco e sabem que as Forças Armadas, em caso de qualquer pequeno litígio de fronteiras tem munição para apenas uma hora de guerra. Ou seja, darão alguns tiros e depois deporão as armas.

     Acreditam que é uma vingança da Dilma em conluio com os três chefes das Forças Armadas e com o Lula, a quem chamam graciosamente de “apedeuta”.

     Dia desses, pouco antes de começar o julgamento do mensalão, um avião militar fez um vôo rasante sobre o prédio do Supremo Tribunal Federal, quebrando os vidros daquela casa, que logo foram repostos para que a famosa transparência do STF continue imaculada. Indagado, o piloto disse que teve que desviar de um pássaro. Ou do Super-Homem, que tem voado muito por estas plagas, fazendo acordos e tratados com os vassalos que moram no Palácio da Alvorada e arredores.

     Alguns desses acordos devem dizer respeito ao grande exército mundial, também apelidado de OTAN, que, em caso de qualquer problema intervirá militarmente em favor dos países aliados – e o Brasil é um país muito aliado.

    Para que Forças Armadas Brasileiras se os Estados Unidos e outros grandes irmãos cuidam de tudo na área militar? Talvez para desfiles, como o de 7 de setembro, quando os soldados indignados com o pouco que recebem tentarão parecer dignos e, se assim for ordenado, passarão por cima das suas esposas que estarão protestando por eles.

     O desaparelhamento das Forças Armadas não é nenhum descuido dos comandantes militares, nem ocorre devido a planejadas vinganças dos apedeutas de plantão. Seria ridículo se assim fosse; o mesmo que dizer que os nossos chefes militares não se preocupam com a tropa, com equipamentos, munições, com as fronteiras do nosso país...

     É mais cabível acreditar que o forte nacionalismo dos comandantes militares brasileiros faz com que eles pensem que a dependência militar em relação a outros países é mais interessante do que Forças Armadas nacionais altivas e independentes.

     Uma questão de estratégia a médio e longo prazo, de visão do futuro, de projeção geopolítica, do mundo em transformação que pede que a Amazônia seja entregue a armas e interesses superiores (para que fronteiras? o mundo não está globalizado?), que os nossos Presidentes sejam servis e submissos e que os nossos militares sirvam para importantes missões, como invadir favelas.

     Neste dia 7 de setembro de 2012, as indignadas esposas de militares muito mal remunerados tentarão boicotar um ou dois importantes desfiles militares em capitais do Brasil. Se vacilarem, serão pisoteadas. Pelos próprios maridos.

     Laços fora, soldados?

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

SEU CHICO INDIGNADO







Seu Chico estava com um olhar de admiração na beira da praça Silveira Martins, olhando os carros de som que iam e vinham fazendo propaganda de candidatos quando eu o encontrei.

     - Como vai, seu Chico? Pegando um solzinho?

     - Tentando. Neste inverno que finge virar primavera e depois volta a ser inverno a gente nunca sabe de que lado da rua está o sol. Como certos políticos. O senhor tem visto a propaganda política?

     - Só por descuido, seu Chico.

     - Pois num destes descuidos eu fiquei assistindo e me divertindo.

     - Gostou, seu Chico?

     - Se gostei! Melhor que programa de humor!

     - E o que lhe chamou mais a atenção?

     - Pois foi justamente pela ausência de qualquer coisa que chamasse a atenção que eu me diverti. Foram-se os tempos em que os candidatos defendiam alguma causa, algum programa de governo. Acabaram-se os ideais políticos.

     - É uma tristeza, não é seu Chico?

     - De certa forma. O senhor há de ponderar comigo que pior do que está é impossível. Logo, se o país não se diluir em cascatas, cachoeiras, mensalões e mensalinhos, a tendência inevitável será melhorar. Quando é que é a grande pergunta.

     - Talvez quando mudarem os governantes, seu Chico.

     - Mas é isso que eu estou falando, homem de Deus! Não tem como mudar os governantes!

     - Não estou entendendo, seu Chico.

     - Todos eles, os que se dizem situação e os que se dizem oposição, estão presos uns aos outros através de alianças, acordos, todo o tipo de coisa que o senhor possa imaginar. São farinha do mesmo saco! Antigamente, por muito menos que isso que estamos assistindo se fazia uma revolução; hoje eles fazem corrupção. Estão até ficando enfastiados de tanta corrupção.

     - Mas os mensaleiros estão sendo condenados, seu Chico.

     - Claro que estão sendo condenados! É a única maneira de deixar eles soltos. Oito anos de condenação para um corrupto reconhecido é lá condenação? Vai entrar na prisão só para visitar, quando muito! No dia seguinte estará solto. Esse julgamento é para soltar e não para prender. Condena, prende, solta e deixa solto, como tem acontecido com todos os que tem dinheiro sobrando.

     - É verdade, seu Chico.

     - Por isto que eu digo que trocar de governantes não adianta. Temos aí as eleições, e o que vemos? Pois não é que aqui nesta nossa cidade que já foi capital do Rio Grande aos tempos de Joca Tavares e que vem diminuindo como a água das torneiras o candidato a prefeito do PSDB diz que o que está errado é o Sistema? E os candidatos do PT querem o continuísmo da apatia...

     - É verdade, seu Chico, está tudo invertido.

     - Mais invertido que galo chocando!

     - Mas o senhor disse os candidatos do PT. Que eu saiba só tem um.

     - Na aparência tem um. Mas olha a outra, que é do PTB, ou PT do B, como andam dizendo. Qual é o grande programa de campanha dela? Não é dizer, redizer e continuar dizendo que é amiga íntima de um deputado do PT, que já foi prefeito? Foi prefeito e o que fez, o senhor lembra?

     - Lembro que as praças foram desmontadas e montadas de novo; canteiros de flores, festa de churrasco... E deve ter tido mais alguma coisa. Eu quase não saio de casa, o senhor sabe.

     - Festas e alianças. Qual é o grande problema desta cidade? Não é a falta d’água? E ele construiu alguma barragem? Teve oito anos para isso. Deixou para o próximo, como todos os prefeitos anteriores. Barragem não dá dinheiro, o senhor há de convir.

     - E o próximo não era exatamente quem ele desejava...

     - De outra corrente do mesmo partido. E aí o que aconteceu? A base na Câmara de Vereadores foi esvaziada, com os vereadores daquele prefeito mudando para outros partidos para poderem votar contra o atual prefeito e dizer, agora, que ele não fez nada.

     - Jogo de interesses, seu Chico.

     - Jogo de interesses e quem paga é o povo. Ouça só esses carros de som: o candidato do PT oficial diz que tem o apoio da Dilma e a candidata do PT do B diz que tem o apoio da Dilma, do governador e do ex-prefeito, além de afirmar que já está na hora da cidade ter uma mulher como prefeita, para pegar os votos das mulheres.

     - E o candidato a prefeito do PSDB, que seria a direita oficial, a defensora do Sistema, diz que o Sistema está errado. E ainda mais: diz que quer enxugar a máquina pública. Isso não é um tiro no pé, seu Chico? Enxugar a máquina pública é o mesmo que ameaçar de demissão centenas de funcionários, e por trás dos funcionários tem as famílias deles... É perder votos.

     - Mas o que o vivente iria dizer? Que também tem o apoio da mãinha Dilma? Terá, se for eleito, porque aquela faz alianças com todos os partidos, mas na hora da campanha política a coisa é diferente. É um tal de acusa aqui e defende lá que chega a sair poeira.

     - E no final todos se abraçam, seu Chico.

     - Mas!... No fim das eleições, os que ganham fazem festa e os perdedores fingem muita chateação, mas já no dia seguinte começam os telefonemas e as alianças. Um pedido de secretaria pra um, uma autarquia pra outro e tudo acaba ficando em paz. Por isso que eu digo que não adianta mudarem os governantes. Eles tem lá as suas panelinhas, bem distante do povo que dizem defender.

     - E fazer o que, seu Chico?

     - Com este povo que aceita tudo? Desmemoriado, quase analfabeto, que só quer festa... Acho muito difícil... Já estaremos mortos quando se resolver a fazer alguma coisa de verdade.

     - Quem sabe uma revolução, seu Chico, daqui a décadas.

     - Duvido! Eles preferem assistir novela ou futebol. E a coisa só tende a piorar.

     - Quem sabe com a ajuda de Deus, seu Chico?

     E assim fomos espichando a conversa, enquanto a tarde esmaecia e os carros de som dos candidatos a prefeito e a vereador se revezavam proclamando o grande amor à cidade, ao povo...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A HERANÇA DE GETÚLIO VARGAS


Nascido a 19 de abril de 1882, sentou praça aos 16 anos (1898), em São Borja, sua cidade natal. Com a patente de sargento, em 1902, participou da Coluna Expedicionária do Sul, que se deslocou para Corumbá, durante a disputa entre Bolívia e Brasil pela posse do Acre. Em 1904, matriculou-se na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, atual UFRGS. Bacharelou-se em Direito em 1907. Trabalhou como promotor público junto ao Fórum de Porto Alegre, mas preferiu exercer a advocacia em sua cidade.

     Casou-se em 1910 com Darcy Lima Sarmanho, com quem teve cinco filhos. O casamento uniu as duas principais famílias rivais de São Borja. A família de Darcy era maragato (Federalista) e a de Getúlio chimango (do Partido Republicano Rio-Grandense). Foi eleito deputado estadual duas vezes, mas renunciou ao segundo mandato em protesto contra Borges de Medeiros.

     Foi ministro da Fazenda de Washington Luís, em 1926, implantando a reforma monetária e cambial daquele governo. Deixou o cargo, em 1927, para candidatar-se à presidência do Rio Grande do Sul. Elegeu-se presidente (governador) com um discurso de conciliação, substituindo a Borges de Medeiros. Em 1930, os dois partidos gaúchos – chimangos e maragatos – marcharam juntos para acabar com a República Velha. O Brasil começava a ser construído.

     A revolução teve início a 3 de outubro de 1930 e no dia 3 de novembro, Getúlio Vargas tomava posse no Palácio do Catete.

     No dia 26 do mesmo mês decretou a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. Depois, sucederam-se muitas medidas de proteção ao trabalhador, novas modalidades de concessão de férias. Em 21 de março de 1932, institui a Carteira Profissional do Trabalho, retirando os conflitos de patrões e empregados das delegacias de polícia. No documento constava a ocupação do trabalhador, seu salário e o direito de filiar-se a um sindicato, dados pessoais, representando o reconhecimento de sua cidadania. Regularizou o horário de trabalho do comércio e na indústria; regularizou as condições de trabalho das mulheres na indústria e no comércio; instituiu a Convenção Coletiva do Trabalho; disciplinou a condição de trabalho dos menores na indústria.

     Foi só o início. O gigante pela própria natureza erguia-se, assustando aqueles que sempre desejaram o Brasil deitado eternamente em berço esplêndido – talvez numa rede, como Macunaíma ou o Jeca Tatu. Para as demais realizações de Getúlio remeto o leitor a matéria deste blog - “GETÚLIO, UM BRASILEIRO” -  http://fausto-diogenes.blogspot.com.br/2011/08/getulio-um-brasileiro.html 

     A herança de Getúlio Vargas – o nacionalismo, também chamada de trabalhismo – foi golpeada em 1964, dez anos após a sua morte. Os militares que deram o golpe disseram que era um movimento revolucionário para salvar o Brasil do comunismo – provavelmente uma frase fabricada em Washington, durante o período de preparação do golpe militar, no pior momento da guerra fria entre Estados Unidos e aliados contra União Soviética e aliados.

     Naquele tempo, o Brasil era governado por João Goulart, legítimo continuador das ideias de Vargas, que também eram as ideias de Perón, na Argentina, e de muitos outros chefes políticos mundo afora, que não se alinhavam com nenhum dos dois imperialismos e procuravam uma terceira via independente.

     Já previam os ideólogos do imperialismo norte-americano que, a continuar assim, o Brasil - e muitos outros países do Terceiro Mundo – estava a encontrar um caminho muito distante da prescrição liberal “democrata”, que deseja o Estado como um gerente das multinacionais que o governam e não como o defensor do seu povo e das riquezas naturais do país.

     Não lhes servia um Estado voltado para a nação e para o território nacional. Queriam uma nova “abertura dos portos”, uma entrega total às “aves de rapina” que Getúlio Vargas cita em sua carta-testamento. Atualmente, a rapina é muito grande, com os governos neoliberais que se sucedem, fazendo questão de entregar o Brasil, dilapidar o nosso patrimônio, devastar as nossas riquezas naturais e transformar o povo em uma grande massa de pessoas amestradas pela mídia vendida, tendo como única ideologia a do consumo pelo consumo. Um povo que perdeu a sua razão de ser e que é ensinado a não pensar.

     O nacionalismo getulista era de uma grande simplicidade. Em primeiro lugar as nacionalizações. Fundou e nacionalizou a Petrobrás e a Eletrobrás para dar sustentação energética ao país e para que o Brasil pudesse iniciar uma saudável industrialização, não somente baseada nos produtos de exportação (como o café, na época) ou na reprodução dos produtos estrangeiros. Getúlio desejava um empresariado forte e criativo que pudesse competir através de produtos genuinamente nacionais.

     Pagar royalties por serviços que podemos fazer e bens que podemos fabricar é sinal de subserviência. Pior ainda é receber royalties pela exploração dos nossos produtos.

     Ele entendia que o trabalhador deveria ser assistido pelo Estado e criou as leis trabalhistas , junto com o salário mínimo e a previdência social. Um trabalhador saudável e bem remunerado deveria ser o sustentáculo de um forte empresariado que moveria o aé então inexistente desenvolvimento do país. Não o assistencialismo, mas o reconhecimento da força do trabalho.

     Suas realizações foram combatidas desde o início, porque os empresários brasileiros preferiam – e ainda preferem – continuar atrelados ao capital estrangeiro; detestavam – e ainda detestam – o tabalhador organizado, porque o queriam escravizado.

     Getúlio Vargas propôs a independência verdadeira, não o estéril grito o Ipiranga. Eles protestaram e conspiraram até derrubar Getúlio, em 1945 e o obrigarem ao suicídio em 1954. Eles, os que o derrubaram e mataram, preferiam e ainda preferem agir como meretrizes sustentadas pelo cafetão norte-americano.

     Antes de 1964 – a data em que as aves de rapina atacaram –, quando do governo de João Goulart, o nacionalismo brasileiro procurava expandir-se. A reforma agrária estava sendo feita para que o trabalhador do campo ficasse no campo e não fosse aumentar os bolsões de miséria das grandes cidades. Era parte das reformas de base, que pretendiam dar o Brasil para os brasileiros.

     Darcy Ribeiro sonhava com um novo povo – forte, através da miscigenação, revigorado pela identificação das suas origens. Paulo Freire, ministro da Educação, começava a implantar o seu método de ensino revolucionário, que fazia do trabalhador não um autômato alienado, mas consciente e participante da própria realidade.

     Em 1964, com a desculpa de “combater o comunismo” – que nunca souberam exatamente o que significava – os militares brasileiros patrocinados por Wall Street e custodiados pela IV Frota dos Estados Unidos tomaram o poder no Brasil. O nacionalismo brasileiro era demasiado brasileiro, necessitava de um pouco de internacionalismo, de uma boa dose de globalização.

     Depois da “abertura política” – na realidade, um pacto entre as elites conservadoras e as nem tanto com os militares – sucederam-se os governos entreguistas com presidentes civis. Quando chegou ao poder, o PT já era um partido da direita festiva travestida de esquerdismo moderado. O PTB, partido de Getúlio Vargas e de João Goulart foi entregue a grupos interessados em alianças com o poder. O PDT, partido fundado por Leonel Brizola, tansformou-se, depois da morte de Brizola, em um saco de gatos que miam por secretarias e ministérios.

     Os trabalhadores estão manietados por sindicatos alienantes; lutam apenas por salários, ouvem música country abrasileirada e tem adoração por futebol.

     O Brasil morreu ou está hibernando porque o seu povo morreu – ou está hibernando em estado de ficção.

     Mas a herança de Getúlio Vargas está intocada, simples, realizável. Talvez à espera de uma nova geração de verdadeiros brasileiros.

     Na madrugada de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas suicidava-se, depois de uma última reunião com o seu ministério. Naquela ocasião, abandonado por todos, depois de Tancredo Neves aconselhar a renúncia, disse que só morto sairia do Palácio do Catete. Assinou a carta que, mais tarde, seria apelidada de carta-testamento, retirou-se para o seu quarto e deu um tiro no coração. No último parágrafo da carta está escrito:

     “E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História." (Rio de Janeiro, 23/08/54 - Getúlio Vargas).
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